Notas d'arte

Chapter 4

Chapter 43,879 wordsPublic domain

Jo„o Ribeiro Christino da Silva, n.^{os} 213 a 218.--Ai pai! que coisas aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel, os outros... adeante... a n„o ser o 218 que È interessantinho na sua fÛrma miniatural.

Viscondessa de Sistello, n.^{os} 219 a 224.--… uma amadora de certo, os seus quadros s„o cheios d'um quer que seja de pretencioso... o n.^o 219, _Retrato_--achei-o sem vida, muito chapado.--Fez-me saudades, porque me pareceu uma imitaÁ„o m·, do bello quadro de Velloso Salgado--_Reflexos_. O 220 passavel, a n„o ser o ar estudioso e pensador de mais, do menino, e o 222 a abarrotar de coisas--um pedaÁo de queijo stilton, que faz lembrar sab„o rajado azul, fructas duras, vinhos maus, agrupamento infeliz. O 221 regularmente tocado, como mancha.

[Figura: Retrato de El-Rei--CARLOS REIS]

Jo„o Vaz, n.^{os} 225 a 237.--Deliciosa toda a obra d'este _cantor_, pelo pincel, da agua. Inexcedivel artista em marinhas; com que veneraÁ„o eu o admiro, e ao seu _savoir faire_. Ha tanta verdade em todos os seus quadros, tanta e tanta luz nas suas telas, que ao contemplal-as como que se sente o marulhar cadenciado das ondas. _A pesca da sardinha_, 225, È um quadro primoroso. _O barco algarvio_, 229, navegando em pleno mar, parece que se vae afastando pouco a pouco de nÛs e que ouvimos o bater, compassado dos remos na agua. _O moinho do Barredo_, 230, airoso e lindo, batido do sol--e _O Castello de MontemÛr_, 234, que parece sair arrogantemente do fundo d'um azul primoroso, s„o obras que encantam. Alli, ha o que se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica de quem muito bem conhece a arte de pintar.

Emily Wormsley, n.^o 238.--Um largo quadro de flores, louÁa da India e metaes. Boa composiÁ„o, bem estudado e bem tocado de cÙres. Foi-lhe conferida uma menÁ„o honrosa, bem merecida.

Francisco Xara, n.^{os} 239 a 240.--As _Papoulas_ do 239, fizeram-me lembrar flores de papel de seda feitas por alguma menina da baixa, em horas d'ocio, entre o crochet e o ch· com torradas, para enfeitar um chapeu de campo ou algum oratorio de velhota amiga.

ESCULPTURA

JosÈ Simıes d'Almeida (Sobrinho), n.^o 241.--_Modelo para uma medalha_, bem executado.

Pedro Cartoccio, n.^{os} 242 e 243.--Fez-me especial attenÁ„o o 242, _Juiz de PhynÈ_. Um ar malicioso de juiz estecta, definidamente traÁado, nas suas bem marcadas linhas, È uma bella cabeÁa lanÁada com energia e rigorosidade.

Antonio Teixeira Lopes, n.^{os} 244 a 258.--… sem discuss„o Teixeira Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez. … talvez o unico que pÛde affirmar ao paiz e ao estrangeiro, que sÛ elle tem o poder de fazer resaltar do marmore ou do bronze, as suas figuras, t„o definidamente perfeitas, que se nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos seria fazer a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos impıem · admiraÁ„o, do mesmo modo. No entanto, magestosamente solemne, na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu pensamento est· a figura, da _Historia_, 252, para o tumulo de Oliveira Martins. E o 244, _Santo Izidoro_, n'uma serenidade de justo, esculpido com um carinho doce; ao olhal-o sente-se como que, uma unÁ„o sublime e casta que nos convida · oraÁ„o. … um trabalho soberbo, as m„os, o pescoÁo, a face, as roupagens, tudo emfim, È feito com um rigoroso saber. E os _Velhos_, 245 e a _Flora_, 246 e o _BÈbÈ_, 247, e todos os outros trabalhos? Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes È inegavelmente o primeiro esculptor portuguez.

Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.^o 259.--Uma _CabeÁa de estudo_, bem feita.

Jorge Pereira, n.^o 260.--_Um typo de marinheiro_, traÁado largamente, sem detalhes de meticulosidade; È na verdade uma bella cabeÁa, bem estudada e melhor executada.

ARCHITECTURA

N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente leigo. No entanto l· vae.

[Figura: Olaia em flor--CARLOS REIS]

Antonio Couto n.^o 261.--_Casino_, preferia vel-o construido, pois n'esse caso melhor o gosaria.

Raul Lino, n.^{os} 262 e 263.--Gostei do 262, _EsboÁo para a casa em Azeit„o_. Talvez, pela idÈa do conforto que se deve sentir n'aquella casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario de talha e bilros.

Tertuliano Marques, n.^{os} 264 e 265.--_Projecto do mausoleu a Almeida Garrett_. N„o desgostei, acho-o bem estudado.

JosÈ Alexandre Soares, n.^{os} 266 e 267.--Achei airosa e bem lanÁada a fachada para o _Club militar_. Deveria depois de feito ficar uma obra digna do ser admirada aquella _PraÁa Publica_.

AGUARELLAS

… uma das mais interessantes manifestaÁıes da arte pinctural, este genero de pintura, difficil na execuÁ„o, sÛ se admitte quando o desenho È muito correcto e a tinta È dada em pinceladas certas, frescas e vivas... por isso, o terem-me agradado pouco os trabalhos expostos. A ver:

Francisco A. Moreira de Almeida, n^{os} 268 a 271.--Francamente, francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.

Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.^{os} 272 a 278.--… a especialidade d'este artista a pintura de costumes militares e com franqueza, tem-nos, primorosos de execuÁ„o, o que n„o quer dizer que tambem os n„o tenha fracos. N'este certamen agradaram-me o 273, _Official do regimento do Maranh„o_, feito com muito ar e muito boa luz, destacando soberbamente no seu arrogante _aplomb_, e o 274, _Official de estado maior_, tambem bem trabalhado.

Mademoiselle Helena Eisembart, n.^o 279.--_Fructas_. Uns cachos de uvas com a sua folhagem, boa aguarella, muito fresca, muito leve, transparente.

JosÈ Souza Moura Gir„o, n.^{os} 280 a 285.--C· temos outra vez o grande artista das aves. N'esta secÁ„o brilha elle deliciosamente. As suas aguarellas correspondem precisamente ·s condiÁıes exigidas para a boa aguarella, cÙres vivas, transparencia, e frescura; e tudo isso tem as suas. Notaveis todas as dos n.^{os} 280, 281, 282, 284, 285 mas sobretudo o _Fausto_ e _Margarida_, 280, _Entrando_, 282, e _Cantando_, 285, que a meu ver s„o magistralmente feitas.

Jorge Ianz, n.^{os} 286 a 295.--Outro aguarelista, que nos enche, com a sua cÙr fulgurante. S„o bem manchadas as suas aguarellas, fazendo-me lembrar, n„o sei porquÍ, as do fallecido Manuel San-Rom„o, o artista mais mimoso, que eu tenho conhecido, como manchista, Ianz e inegavelmente um artista de merecimento. S„o muito bons para mim, os seus 286, em _Toscana_, 288, _Impressıes de viagem_, 292, 293, 294, tres bellas marinhas, muito bem tratadas, o 295, _Descarga no Tejo_, È admiravel de execuÁ„o; a arcada que se vÍ ao fundo do quadro poderia, com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.

Alfredo de Moraes, n.^{os} 296 e 297.--_Costumes da Judea_. N„o quero dizer que estejam maus, mas fizeram-me lembrar, Deus me perdÙe, (Deus e o artista) os homens das tamaras.

[Figura: Entre o almoÁo e o jantar--MARQUES d'OLIVEIRA]

Roque Gameiro, n.^o 298.--_Retrato d'El-rei_. Aguarella de difficil execuÁ„o, mas superiormente tratada, boa luz, bella cÙr, roupagem magnifica, tom de rosto bom. As luvas s„o uma perfeita illus„o. … um bom trabalho.

DESENHO

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 299.--_Um estudo_, regularmente traÁado.

Jorge Porphirio, n.^o 300.--_Jardim botanico_. Achei-o palmeirento de mais. Regular.

Candido da Silva Junior, n.^o 301.--_Um quadrito com cinco cabeÁas_. SÛ me agradaram as duas feitas a crayon azul.

PASTEL

N„o imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito do pastel de fructa, ou de crÈme, do Baltresqui, n„o, vou fallar do systema de pintar a _pastel_--ou por outra, a crayon de cÙres, e que por signal n„o È l· das coisas mais faceis, para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este genero uma das coisas mais necessarias È saber desenho. Que afinal para se pintar bem o que È preciso È desenhar muito e bem.

D. Luiza Almedina, n.^o 302.--_Retrato de sua irm„ Ilda_. N'este trabalho ha varios defeitos, saltando porÈm · vista a differenÁa da cÙr entre o rosto, e o pescoÁo e collo, que muito prejudica o effeito do quadro.

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 303.--_Estudo_. Uma velhinha. Regularmente empastado.

Condessa Alto Mearim, n.^o 304.--_Estudo_. Este quadro a meu vÍr, devia estar no catalogo na secÁ„o dos desenhos. … bem feito, vÍ-se que esta senhora n„o descura a base principal de pintura.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^o 305.--_Um estudo_. As mesmas consideraÁıes expandidas para o n.^o 304.

Leopoldo Batistini, n.^o 306.--_CabeÁa de estudo_. Magnifica de empastamento doce e finura de traÁo, penna È que encha t„o por completo o quadro. Um pouco mais de margem e seria para mim muito mais agradavel · vista.

D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.^o 307.--_Retrato de Cupertino Ribeiro_. Trabalho bem feito.

JosÈ de Brito, n.^{os} 308 e 309.--Superiormente executado o n.^o 309.--_O frade_.

Frederico Cezar Camara Leme, n.^{os} 310 a 312.--Recortado de mais o 312, _Ovelhas_. D·-me a impress„o d'estas ovelhas de cart„o e algod„o em rama, tendo ao fundo um vulc„o de theatro, irrompendo bravamente e pondo uma luz forte em todo o ambiente.

[Figura: A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira do Zezere--ALFREDO KEIL]

Bemvindo Ceia, n.^o 313.--_Um velho operario_, regularmente tocado, _comme ci, comme Áa_.

Jo„o G. Mattoso da Fonseca, n.^{os} 314 a 320.--Destacarei d'este artista o 314. _Retrato de D. M. E. F_., que tem o cabello e a pelliÁa magnificamente tratado. _Ninete_, 315 regularmente feito--especialmente o cabello, e pluma do chapeu. N„o gostei do 316, _A FÈ_, porque achei a figura com muito pouca fÈ, e o 418, _Ao espelho_, em que noto um determinado abuzo de branco, na cara.

Adriano de Sousa n.^o 321.--_Ave Maria_. A carnaÁ„o d'esta figura È muito bem tratada, aveludada e macia.

JosÈ MalhÙa, n.^o 322.--_Retrato de mademoiselle C. R_. … simplesmente delicioso este quadro. Como desenho, como technica de execuÁ„o, como posiÁ„o de modelo, como tudo emfim, È sem discutir esse o primeiro trabalho a pastel da exposiÁ„o.

Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum me deslumbrou como este.

D. Antonio Lobo da Silveira, n.^o 328.--_Um estudo_, mau.

Viscondessa de Sistelo, n.^{os} 324 a 325.--N„o tive o gosto de vislumbrar estes trabalhos na exposiÁ„o ou n„o estavam l·, ou passaram-me despercebidos, por isso nada direi d'elles.

GRAVURA

JosÈ Simıes d'Almeida (Sobrinho), n.^o 236.--_Medalha_.--Gostei d'ella.

CARICATURA

Aqui È que È tremer e tremer como varas verdes, porque, se estes dois pandegos me descobrem, ainda tenho a sorte dos caricaturados expostos. Eu, se tivesse pretensıes · popularidade, bem sei o que fazia: desatava a dizer mal dos dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi em qualquer jornal burlesco e eu passava · gloria entre as gargalhadas estridulas do publico e a arrelia das pessoas que me querem bem. Porque eu, aqui para nÛs, dava uma boa caricatura... Mas n„o direi mal dos homens, nem bem... direi sÛ o que sinto... que o primeiro È filho de peixe e sabe nadar e o segundo tambem nada menos mal.

Perfilar, que vae passar a patrulha da troÁa e do chiste.

Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.^o 387.--Soberbas caricaturas, que pena È, n„o virem mais para o publico, n'esse _Album de Glorias_, que t„o estimado È pelos leitores. Aquelle _Chaby_ est· fulgurantissimo de graÁa.

Francisco ValenÁas, n.^o 328.--_Typos_, todos elles bons, mas superior o _Ricardo Jorge_, fazendo-me saltar o riso, naturalmente, expontaneo.

ARTE APPLICADA

Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo È o peor de esfolar, como muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins. E de facto assim È... eis um assumpto em que eu me vejo assaz embaraÁado--arte applicada!... eis uma coisa onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a pintura dedicada de bibelots adoraveis para _boudoirs_ de luxo. N'esta secÁ„o primam com a sua bagagem artistica todas as senhoras que expıem.

Umas mais brilhantemente que outras. N„o vos massarei pois com citaÁıes de numeros nem de nomes.

[Figura: O rapto de Ganimedes--FERNANDES de S¡]

Fallarei no emtanto, do n.^o 336, _Goblin_, do Jorge Ianz, que na verdade È uma das imitaÁıes mais perfeitas que temos visto. Bem estudado nas cÙres, que d„o a impress„o nitida de estarmos em frente de um verdadeiro tecido; sÛ achamos um poucochinho puxado o preÁo...

Um conto de rÈis È dinheiro!

A _Moldura-Luiz XIV_, n.^o 337, de JosÈ Emygdio Maior, È bem esculpida, correcta no estylo e no desenho.

Tambem gostamos do n.^o 338, _Modelo para uma floreira_, È muito elegante de fÛrma e est· feita com certo mimo. Como arte nova È acceitavel.

Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque exposto por D. Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto. Aquella senhora vem de ha muito afirmando o seu grande gosto artistico e o seu forte temperamento creador.

Que isso n„o nos admira, mal fora que assim n„o succedesse, pois ella È uma grande artista. Todos os seus, s„o verdadeiros artistas, cada qual no seu genero. Bordallo, o incomparavel e inimitavel caricaturista; Columbano, o soberbo pintor; Manuel Gustavo, correcto seguidor dos passos de seu pae, vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na correcÁ„o de caricatura.

Mas n„o È d'elles que eu fallo, È da rendilheira sublime que consegue que as operarias de Peniche, faÁam rendas t„o finas e t„o delicadas, que abertamente se podem pÙr ao pÈ d'essas custosas rendas de Bruxellas e de AllenÁon.

Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente j· conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda hoje ao escrever isto, um lenÁo formosissimo executado por D. Maria Augusta, com peixes e mariscos, a sua muita admiraÁ„o pelo seu grande talento.

Notaveis tambem as _Fivellas_ n.^{os} 342 e 343, de Jo„o da Silva, que achei bem executadas, n„o devendo envergonhar-se ao pÈ, das saidas de cinzeladores, como Jerdelet.

Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos, que È, como quem diz, em _trez folhas_, d'um _paravent_, pintado por Pigasson Ricot, que, na verdade, n„o est· feio. Est„o bem copiadas as figuras e os effeitos tirados, n„o s„o maus. Acho-lhes o mesmo defeito do Goblin de Ianz: È muito caro... para amadores.

Sobre o concurso para a capa do catalogo, nada tenho que dizer, pois isso era unica e exclusivamente da competencia da commiss„o da exposiÁ„o, que deu o primeiro premio ao trabalho de Francisco dos Santos e o segundo a Tertuliano Marques.

E atÈ que em fim, acabou a massada para o benevolo leitor.

Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido tanto a _massa_, como se costuma dizer, mas desagravel me seria, ter promettido falar de todos e deixar passar em claro algum d'elles.

… provavel que o publico e, muito especialmente, os artistas, n„o tenham gostada minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades, mas eu sou assim; o que tenho c· dentro È para se dizer, bem ou mal, segundo posso e sei. Mas, se esta minha despretenciosa prosa lhe agradou, de vez em quando, c· apparecerei com noticias d'arte, l· do norte, do Porto, d'essa aldeia trabalhadora e honesta, para onde vou partir, pois j· tenho saudades d'ella...

MarÁo 1903.

P. S.--As gravuras d'este e d'outros artigos, nem todas s„o copias dos quadros notados nos mesmos, mas, na impossibilidade de adquirir photographias d'elles, usei de provas de quadros dos mesmos artistas, dando assim a conhecer ao leitor trabalhos de artistas de merecimento e valor.

[Figura: Guarda arabe--Pastel de S. M. EL-REI]

VIII

PINTORES PORTUENSES

[+] MANUEL SAN ROM√O

… com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar d'um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.

Quando elle se finou, sob a dolorosa impress„o que me deixou a sua morte, n„o me atrevi a vir a publico, depor na sua campa o meu ramilhete de flores, fazendo a apologia do seu saber e das suas largas aptidıes para a pintura. Esperei esse grande acto de justiÁa dos outros, dos que ent„o eram os criticos d'arte da nossa terra.

[Figura: Manuel San Rom„o]

Mas, nenhum, nem um sÛ, compriu com esse dever e Manuel San Rom„o desceu · mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos seus amantes.

N„o me admirou que a critica artistica da nossa terra se esquecesse de San Rom„o, por isso que, o querido morto, n„o era d'aquelles que se expunham · admiraÁ„o de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas, dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos _clubs_, exempto de _coteries_.

Era talvez um misantropo. Talvez. Mas, o que inquestionavelmente elle sempre foi, era um grande sabedor de cousas d'arte.

Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um verdadeiro _gentleman_; cavaqueador brilhante e fluente fallando d'Arte com uma tal elevaÁ„o e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um t„o grande saber que, n'essas occasiıes, fazia-nos lembrar um douto professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial e authorisada competencia.

Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil problemas intrincados e complexos da Arte na sua mais ampla acepÁ„o, convenciamo-nos de que quem fallava n„o era um _dilettanti_ da pintura, mas um critico justo e sabedor, um verdadeiro homem do _metier_.

[Figura: Na Espectativa--Aguarella de M. SAN ROM√O]

Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que me veio este prurido de fallar em artistas e coisas d'arte...

Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes que passei, em aquelle atelier pequenino e confortavel como _gabinete_ d'uma delicada dama, replecto d'uma suavidade de luz e n'uma t„o artistica disposiÁ„o e t„o cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...

E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San Rom„o era um aguarelista _hors ligne_.

Para mim, o querido extincto foi um dos primeiros aguarellistas portuguezes; a sua maneira especial de manchar ainda n„o foi suplantada por mais ninguem. Nem mesmo o grande pintor Casanova, que foi professor de San Rom„o, e que È inegavelmente um mestre na aguarella, nunca conseguiu dar aos seus trabalhos aquelle tom especial de mancha que era uma das grandes superioridades de Manuel San Rom„o. E isto fazia-o elle naturalmente, instintivamente... Aquelle modo era o seu, d'ahi talvez a impossibilidade de ser igualado.

Depois, San Rom„o dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.

E como elle desenhava!... Attestavam bem o seu estudo do desenho as pastas carregadas de trabalhos feitos por elle... Muitos d'esses desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaÁos dum grande poema d'Arte...

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROM√O]

Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor pÛde verificar que as affirmaÁıes que fazemos s„o, por todos os motivos muito justas e muito verdadeiras.

O _fidalgo antigo_ È uma soberba aguarella d'um vigor de execuÁ„o e d'uma correcÁ„o inexcedivel de desenho, e o quadro _No directorio_, e a _Paisagem de Santa Maria de Boure_, e esses pequenos trabalhos, essas lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos esses desenhos n„o ser„o manifestaÁıes seguras do seu talento e do seu valor?!... S„o! ninguem o pode duvidar...

Mas, Manuel San Rom„o n„o era t„o conhecido do publico como devera ser, por isso que elle n„o vendia os seus quadros, dava-os. Foi ao menos feliz em n„o necessitar de negociar com o seu trabalho... Vivendo na abastanÁa n„o fazia da Arte um negocio, fazia d'ella unicamente um culto intenso e sincero.

D'ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas espalhados por um meio restrito de amigos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROM√O]

Manuel San Rom„o n„o era exclusivamente um aguarellista, mas tambem um terrivel _bric-‡-braquista_. Collecionava tudo quanto fosse arte, gravuras, quadros, mobiliario, faianÁas e, em especial, livros artisticos.

Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras cousas, formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados pelos mais distintos mestres de pintura. No seu atelier, alli, È que elle reunia o que mais fundamente lhe fallava · sua alma de artista, as faianÁas mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma _pele mele_ deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno d'uma capelinha em festa.

Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferenÁa publica para a expÙr · veneraÁ„o e respeito de todos aquelles que vÍem nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.

1904.

[Figura: Uma sevilhana--Aguarella de M. SAN ROM√O]

IX

A MULHER ARTISTA

Ha dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma conversa larga e em que se debateram varios assumptos, um houve, que especialmente me prendeu a attenÁ„o. Discutia-se Arte em geral, e um dos homens, cavaqueador _enragÈ_ emerito e apologista da _n„o_ emancipaÁ„o da mulher, desfechou abruptamente esta phrase: ´N„o posso admittir que a mulher seja uma esculptora ou uma pintoraª.

[Figura: S. M. a Rainha]

Escusado ser· dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um _duche_ frio e forte. ApÛs, porem o choque, houve, como era de esperar, a reacÁ„o, e, como poderam, os _paladinos_ da sala, debateram e rebateram a estranha declaraÁ„o, com factos, n'uma larga demonstraÁ„o de erudiÁ„o e talento.

Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasi„o para poder dizer serenamente, sem precipitaÁ„o, as consideraÁıes que tinha a fazer sobre tal assumpto.

E hoje, perfeitamente · vontade, sem pressıes de especie alguma nem necessidades de galantear, vou dizer o que penso da mulher artista, e como eu teria desarmado o gracioso se logo me tivesse permittido dizer-lhe alguma coisa em resposta ao seu repto.

A mulher È um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual. … como nenhum outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem, deixa-se assenhorar das impressıes, e o seu coraÁ„o, muito mais passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.

Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.

[Figura: D. Aurelia de Sousa]

Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve facilmente adquirir elementos magnificos para execuÁıes de vulto, e de obras que venham tocadas d'uma suave poesia.

Depois, se a mulher tem o direito de danÁar e de cantar, e se lhe admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais longe mesmo, escrever livros, cujo encanto ser· deliciosamente bom? Ora ella canta e danÁa desde a origem do mundo e borda desde as eras mais remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a nÛs, que caminhamos para o maximo da perfeiÁ„o, de evitar que ella nos dÍ as manifestaÁıes mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento singular? Impossivel.

[Figura: Estudo de creanÁa--Aguarella de S. M. a RAINHA]

Isto seria verdadeiramente barbaro!...