Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12)
Chapter 5
Senhores. Temos sabido que algumas pessoas principaes e nobres descuidadas de suas obrigações e honras fallam de fazer cousas contra o bem commum e seguridade d'estes reinos, a que determinamos de acudir como bons portuguezes, e lembrados do que fizeram os moradores d'esta cidade no tempo d'el-rei D. João I e d'outros reis, por tanto pedimos a vm.ces como a cabeças e membros principaes d'esta republica que nos ajudem e que não percam sua honra e direito por parcialidades nem preitos particulares; que sejam vm.ces certos que para uso e para defensão de nosso direito e castigo dos inquietos portuguezes estamos promptos com 20:000 homens d'esta cidade e seus termos, os quaes ajuntaremos em duas horas sendo necessario, e poremos fogo ás casas dos que já agora começam de fallar e tratar contra o bem commum e socego d'estes reinos, o que não poremos em execução em quanto esperamos castigo e remedio por outra via.
E pareceu-nos que deviamos de fazer esta lembrança n'este estado e nos outros dous para com mais seguridade tratarem todos do bem commum e quietação d'estes reinos sem receio de força nem violencia nem outros medos cautelosos e prejudiciaes, e para se não ouvir mais d'aqui por diante os que impossibilitam tudo sem lhe darem nem procurarem remedio, os quaes todos se deviam e devem de haver por mais suspeitosos.
VERSÃO
Senhores. Consta-nos que varias das principaes pessoas, e alguns nobres, esquecidos das obrigações a que estão ligados, e fazendo da honra pouco cabedal, usam de uma linguagem, e praticam actos contrarios á segurança d'estes reinos. Como bons portuguezes estamos decididos a dar remedio a este mal, porque nos lembramos do que fizeram os habitantes d'esta cidade no tempo de D. João I, e no de outros monarchas. Rogamos a vossas senhorias, como primeiras pessoas da republica, que a ajudem a sustentar; e que não percam a sua honra e direito, dando orelhas á parcialidade, ou olhando a circumstancias particulares de alguns individuos. Podem vossas senhorias ficar certos de que para a defensa de nossos direitos, e castigo dos portuguezes versateis, estamos promptos a levantar-nos com 15 ou 20:000 homens d'esta cidade, e seus arredores. Se fôr necessario, duas horas bastarão para os reunir, e iremos incendiar as habitações dos que começam a fallar e a obrar contra o bem geral. Com tudo, não recorreremos a taes meios em quanto tivermos esperança de obter remedio e castigo por outro modo. Talvez conviesse lembrar isto ao estado da nobreza, assim como aos dous outros estados, para que toda a assembléa trate com plena segurança, do bem commum, e da tranquillidade d'estes reinos, sem temor da força, violencia, e de meios preventivos ou damnosos. Esperamos que mais se não attenderá á voz dos que julgam tudo impossivel, e que não querem dar nem procurar remedio a semelhantes males.
O traductor, como se viu, não lhe soffreu o melindre que os dous populares tratassem de _vossas-mercês_ os fidalgos, _safados_ (duas vezes) á cobarde ignominia de Alcacer-quibir: deu-lhes _senhoria_. Ah! bom relojoeiro de pag. 57!
A DANÇA
Gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes.
Ha lendas medonhas, casos que eriçam os cabellos, castigos infligidos a dançarinos. Leiam na _Floresta_ do padre Manoel Bernardes a lenda dos _Bailarinos_. Pois ainda ha passagens mais escandalosas e funestas, por causa das danças; mas já não ha quem as apregôe com virtuosa ira. Não ha ninguem que, ao outro dia de um baile, clame na local ou no folhetim que um scelerado ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem dançava, e dizer-lhe: _vêr-te e amar-te foi obra de um momento_. Sabem todos que as phrases assim ardentes queimam as senhoras; mas ninguem propõe que os estylistas d'esta força sejam chamados ao commissariado; ou que as damas sujeitas a ouvil-os se vistam de amiantho, se Deus as não fadou com a virtude incombustivel de salamandras.
Verdade é que o transigir com os maus costumes vem de longe. Temos o exemplo de exemplares varões a quem competia pôr cobro aos bailes. Aqui tenho eu um _Tratado dos principaes fundamentos da dança_, publicado em 1767, pelo mestre d'aquella viciosa pantomima, Natal Jacome Bonem, e licenciado pelo _santo officio_, e pelo _ordinario_! Fr. Caetano de S. José, eremita augustiniano, doutor em theologia, provincial da ordem, etc., foi o encarregado de censurar officialmente o manuscripto do _Tratado da dança_. Se este frade estivesse no prumo da sua missão, deixava-se cahir, com todo peso de sua gravidade, sobre o mestre Natal, e esborrachava-o e mais ao incendiario manuscripto.
Com bastante pejo das fraquezas d'este proximo, e para escarmento de futuros frades censores de futuras danças, reproduzo a opinião de fr. Caetano de S. José:
«_Não me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se não estendeu para a arte de dança nem ainda a curiosidade dos meus estudos: sei que algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da disciplina ecclesiastica uma bem severa reprehensão e merecida prohibição fundada na solemne profissão que fazem os que pelo sacramento da regeneração se formam membros vivos de Jesus Christo e filhos espirituaes da santa Igreja; não ignoro tambem que outras tem o justo louvor com o exemplo de um rei santo como David, dançando na presença da arca do testamento. Se os preceitos da presente arte, expostos na verdade com toda a modestia se ordenarem para o uso d'estas e outras de semelhante decencia e honestidade, nem serão oppostos á santidade dos costumes, assim como o não são aos pontos essenciaes da nossa santa fé. É o que posso informar_, etc.»
Então que é o que informou o frade? Parece dizer que, se esta _Arte de dança_ leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o santo rei David dançava adiante da arca, então sim, publique-se o livreco; mas, se o author intenta regambolear as tibias de suas discipulas em gavotas, cirandas e outros bailados lubricos, n'esse caso o santo officio delibere o que lhe parecer.
Ora eu já vi, em Braga, dançar o santo David. Era um _cancan_ a só, um requebro desnalgado, um alçar de perna bruta e rija que, se apanhasse a arca, daria com ella na cara do sol.
Voltando ao livro do francez Natal Bonem, acho n'elle excellentes preceitos de educação que seriam, em substancia e fórma, bem cabidos n'um dos compendios do snr. João Felix Pereira. O cap. VI, por exemplo: _Do modo que as senhoras devem andar, e se deve apresentar._ (Vê-se que era mais forte em dança que em grammatica). Ahi vai o capitulo na integra. É lyrico, delicado e muito de aproveitar:
«Não duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de não saber ensinar, senão aos homens; senão mostrára zelo, e attenção para a instrucção do bello sexo: ellas, que são a alma da dança, e que lhe dão todo o brilhante, que ella tem; e parece que a natureza a reveste de mais graça; porque sem a presença das senhoras a dança não está tão animada; são ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulação, que se encontra entre ellas, e em nós, quando dançamos ambos, principalmente com aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais agradavel em uma companhia, que de vêr dançar duas pessoas de um e outro sexo com seriedade; que de applausos, e que de gostos para os circumstantes.
«Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que tóco igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexões são necessarias para as senhoras, ellas devem voltar os pés para fóra, estender os joelhos, ainda que muitas pessoas pretendem, que não se lhes conheçam estes defeitos, mas por tirar este engano, principalmente para as senhoras moças, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o não façam; não quero senão o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho de vestir, e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem andar, que está escripto para os homens, e se encontrarão com outro ar, e conhecerão, que de ter a cabeça direita, o corpo fica com maior firmeza, e os joelhos estendidos, os passos são mais seguros; tenho feito uma reflexão, que me parece muito justa sobre o modo de saber levar bem a cabeça, e é que uma senhora por muito engraçada, que seja em seu modo de levar a cabeça, fará julgar differentemente de si, v. g. se ella a levar direita, o corpo bem posto, sem affectação se dirá; eis aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir com negligencia, se lhe chamará preguiçosa; se a deixa cahir para diante; bizonha, e se a leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e outras muitas cousas, que não escrevo por não ser proluxo: desejo que todas as senhoras não façam o modo facil, que se vem descrever, para que não cáiam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.
«Para bem andar é preciso ter a cabeça direita, os hombros baixos, os braços retirados para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as suas mãos uma em cima da outra, com um leque na mão, e principalmente sem affectação.»
Não escrevia em estylo apocalyptico.
* * * * *
Este francez que tanto polira e lapidára o bruto diamante das damas lisbonenses da côrte de D. José I, tinha uma filha esbeltissima, engraçada de todos os amavios francezes, e muito esquiva aos amores dos discipulos de seu pai, até á hora fatal em que o pé, n'um difficil passo de minuete com o deus frecheiro, lhe escorregou em ladeira de flôres, e... ella lá vai com o conde-barão d'Alvito embrenhar-se nas florestas de Cintra.
O mestre de dança bravejou, pediu vingança ás leis, ao direito internacional, ao ministro omnipotente Sebastião José de Carvalho. O ministro e as justiças sorriram, sob capa, do atribulado dançarino. O marquez de Pombal, esse então era tão caroavel de francezas, que ainda, aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a uma, que por signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade. Veja _Historia do reinado d'el-rei D. José_, pelo snr. Soriano, tom. II, pag. 649 e seg.
Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando, sobre a affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos enviavam uns aos outros:
AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS MINUETES
Toda a terra falla e diz que roubára assim á toa certo Páris de Lisboa uma Helena de Paris; e que o rapto vingar quiz seu pai que todo se abraza por lhe levarem de casa, ainda em peça, a melhor joia; mas, porque não ardeu Troya, ficou o velho uma braza.
A Páris lhe foi forçosa esta eleição por estrella não só como grega bella, mas como deusa formosa. Como a viu tão carinhosa, tão bonita, tão astuta, tão gordita, tão enxuta, Páris lhe deu a maçã e ella gosta da fruta.
Etc.
O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da phrase. Que tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro, injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irrisão obrigava-o a transpôr as fronteiras com o coração despedaçado! Reinava D. José I, o amante da marqueza de Tavora, então viuva, e já consolada da perda do marido, que o amante lhe mandára degolar e queimar no cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O erario a trasbordar de milhões e os subterraneos de lagrimas!
Comecei com danças e acabei com lagrimas. É no que as danças param ordinariamente. Ou ellas não fossem invenção do diabo, como diz o meu oratoriano Bernardes.
FIM
O n.º 12 finalisa a serie das NOITES DE INSOMNIA. O favor publico esquivou-se a proteger esta empresa. Parte dos artigos publicados desagradou á maioria dos subscriptores queixosos do ranço de cousas antigas com que eu pejava as paginas de uns livrinhos mais acommodados ao recreio que á instrucção de alguns leitores mais ou menos ignorantes, se os ha.
Verdade é que eu não tinha promettido 100 paginas futeis e risonhas por mez. Lá está no 1.º numero um proemio claro e modesto. Afoutamente me desvaneço de não haver deslisado do programma a que me obriguei. _Esta serie de livrinhos--escrevi eu--ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a porção prestadia do opusculo_, etc.
Enganei-me.
As paginas arguidas de enfadonhas me pareciam a mim as melhores e mais estimaveis, se os que as leram as ignoravam; todavia, se eu dei como novidade em historia o que era já notorio ao leitor enfastiado, o seu tedio é natural e racional. Porém, se me replicam dizendo que se dispensam de saber as pulvereas velharias que eu lhes contei, augmenta a justiça do seu queixume; porque ninguem deve directa ou indirectamente offender a ignorancia de outrem.
Pelo quê, a todos peço desculpa, e a meu favor entremetto a illustre pessoa que me induziu a salvar da obscuridade lances da historia e dos costumes portuguezes, que se me prefiguraram prestantes na concatenação de factos, desligados por mingua de documentos desconhecidos. O mestre venerando que me moveu a não ser de todo em todo frivolo nas NOITES DE INSOMNIA chamou-se n'este mundo D. frei Manoel do Cenaculo; e as palavras que me seduziram estão impressas e rezam assim:... _Mil occorrencias funestas tem precipitado em um abysmo de perda profunda, escura, irrevogavel os trabalhos litterarios, e ainda a simples memoria de muitos varões sabios. Abateram esses miseraveis tempos as forças da curiosidade, que poderia hoje augmentar a estimação da bibliotheca lusitana, escondendo e perdendo as nossas noticias. Este é o defeito de que ainda hoje se póde formar uma justa queixa, e que fazem ignorados na verdade innumeraveis documentos, capazes de acrescentar a dignidade á nossa historia. Isto é tambem o que me excita e commove a rogar instantemente aos meus patriotas por tudo quanto é capaz e digno de não se desattender sem affronta, que se animem a publicar quanto nos faça gloria, e a mostrarem cada vez mais illustre a face dos nossos annos antigos._
O douto prelado não conhecia _os seus patriotas_, e eu, que tão arredado vivo d'elles, ainda os conhecia menos.
Na minha pequenissima livraria ha muitos ineditos cuja publicidade não seria despecienda aos porvindouros historiographos. Ahi ficam. Meus filhos, se tiverem juizo, e armarem á benemerencia dos seus conterraneos, que os vendam a peso.
Não obstante, alguns publicistas receberam benignamente as NOITES. Entre esses, realça com particular authoridade e voto o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, protector caroavel e affectivo de quantos n'este paiz grangeam pão ou gloria nas lidas litterarias. Sei quanto me cumpre descontar no merito da obra elogiada, cortando tambem pela demasiada benevolencia do escriptor eminente; mas, cerceado o que ahi houve de favor, ainda me sobeja muito para gratidão e ufania.
Ao snr. visconde de Ouguella agradeço com mais sentimento que expressões as paginas formosissimas que interpoz n'estes opusculos. O CARRASCO, apenas começado, se aqui fosse concluido, viria a dar crescido valor a esta collecção; entretanto, muito grato me é ter excitado a curiosidade das pessoas intelligentes para que o visconde de Ouguella se obrigue a escrever e publicar um dos livros mais assignalados de independencia austera e sentimentos generosos, que hão de ter galardão, quando os que pelejaram sob o labaro da justiça forem chamados a testemunhar no pleito que segue o seu arrastado processo entre opprimidos e oppressores.
* * * * *
Ao despedir-me dos poucos subscriptores que me apertam a mão com estima e por ventura com saudade, vou fazer-lhes uma revelação que póde desairar a minha vaidade de escriptor, mas que muito faz em honra do editor das Noites. Elle soube que a opinião publica desmentia, dormindo, o titulo da obra. Sabia que a insistencia na publicação lhe era prejudicial e desesperançada de tardio reembolso. Em fim, pagava despendiosamente e silencioso a minha dôce illusão de cuidar que entre Ponson e Escrich haveria lugar para estas brochuras nas estantes ou nas canastras de tanta gente que sahiu triumphal e erudictamente do seu exame de instrucção primaria.
Meu prezado snr. Ernesto Chardron, obrigado á sua rara e fina delicadeza!
Se as Noites lhe foram más, eu d'este leito de rheumatismo lh'as envio boas e do coração.
FIM DO 12.º E ULTIMO NUMERO
Notas de transcrição.
No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais. Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:
[=e] Resprenta um e com um mácron por cima e que parece ser uma abreviatura do som "em".
[=y] Resprenta um y com um mácron por cima e que parece ser uma abreviatura do som "im".