Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12)

Chapter 4

Chapter 43,895 wordsPublic domain

Nas luctas de 1833 achava-se a nobreza antiga, a nobreza de sangue dividida nos dous campos, pelejando em fileiras diversas, e por vezes inimiga no seio dos proprios solares. Todavia não era a diversidade de crenças, nem a sinceridade das convicções, que a traziam, assim, desavinda e odienta. Era o egoismo dos interesses perdidos, era o ciume do valimento ou o odio pelos desprezos da corôa, era o orgulho de preeminencias e prerogativas nas familias titulares, eram as desconsiderações dos seus pares, sentidas, e cuidadosamente legadas, que iam passando, no mysterio dos tombos e cartorios, com a successão dos vinculos por diversos reinados, eram vinganças sumidas e occultas por entre os pergaminhos de raça, e todas estas ruins paixões, todas estas heranças em que o amor proprio e a soberba dos avós, que se transmittia aos netos, achou, na lucta dos dous principes, respiradouro por onde se expandisse e rebentasse a explosão.

Foi assim.

Como casta, as crenças eram as mesmas. Se a palavra augusta de crença póde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel, de implacaveis interesses, e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e por todos, que não descendem d'avós, já nobilitados, nos seculos undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia.

Os reis podem fazer nobres, mas não teem poder para crear fidalgos.» Estas palavras, nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da fórma politica actual, explicam á nobreza moderna--se ella sabe meditar--como são sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que a antiga aristocracia a trata e recebe. Fica escripto por uma vez: o ultimo filho segundo d'uma casa secular, ainda o mais empobrecido, e o mais privado de intelligencia, será sempre estimado, pela sua casta, acima de todos os genios, e de todas as illustrações do seu seculo.

Foi a experiencia, talvez, d'estas justas considerações, que, nos salões de Luiz XVIII, levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer a um fidalgo do exercito de Condé: «Eu sou o meu proprio antepassado.»

A nobreza antiga, com excepções rarissimas de que me não occupo agora, queria liberdades e garantias--queria; mas exigia-as dentro do circulo da sua casta, requeria-as para si e para os seus.

Fóra d'esta linha divisoria, d'este limite sagrado só via a plebe. Direitos, faculdades e poderes originavam-se no numero dos avós. Quem não tinha ascendentes conhecidos e nobilitados não era pessoa juridica, não era homem: vivia á mercê da misericordia infinita da nobreza. Triste situação era esta! Mas era assim.

Rezam as lendas ou as chronicas, que uma nobre dama da côrte dos Valois não escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios, segundo o dizer de Brantôme. Que importava a sensualidade da gentalha! N'este esquecimento e desdem, pela plebe, vivia a aristocracia portugueza, na contemplação de si mesma, como o Zeus dos indus na vasta cosmogonia do Oriente.

O vulgo, a populaça era a machina posta ao serviço do fidalgo.

Terminada a lucta da successão começaram a recuar, nos seus esforços patrioticos, muitos dos nobres, que militavam nas fileiras populares.

Era de prevêr.

Os factos consummados tinham mais força do que todas as aspirações, e cegos desejos da nobreza--que se dizia liberal.

Espiritos pouco previdentes, por nenhuma fórma habituados a estudos sociaes, inexperientes em todos os actos da vida civil, creados no desprezo e desconhecimento do trabalho, que, accumulado, produz a riqueza publica, esperavam encontrar, na côrte do imperador, as tenças realengas, obtidas, pelos serviços, que só não são estereis para a lisonja, imaginavam conservar, como monopolio das suas casas solarengas, os cargos hereditarios, os empregos vitalicios, as patentes no exercito, sem habilitações obrigadas para as exercer, e os lugares privativos e rendosos em todas as ordens militares e religiosas.

A carta constitucional poderia tornar-se letra morta. Demais, a nobreza não tivera tempo para estudar foraes, nem cartas de alforria. A aristocracia estava habituada a vêr derogar leis do reino por provisões regias. Para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos.

Mas quando os acontecimentos vieram, nos primeiros assomos d'enthusiasmo, desmentir estas esperanças, e deram começo á obra de destruição das velhas instituições, em que andamos todos empenhados--foi, então, que se descerrou a venda de olhos tão poucos perspicazes, e a nobreza viu, com pasmo inaudito, que suppondo-se ella, só ella, o engenheiro, que dispára as catapultas, empregadas pelas facções--era, apenas, a singela alavanca, posta nas mãos dos homens do povo, e que estes apontavam e dirigiam a seu talante e sabor.

O clero, na sua maioria, na força viva da sua organisação--esse, não se deixou illudir.

Só podia estar ao lado da reacção--e, por isso, esteve.

E á medida que os factos se vão desenrolando, que novas crenças e novas idéas transformam as sociedades--o clero acompanha sempre os partidos retrogados, senta-se junto do passado, afaga-o, anima-o, protege-o, defende-o, por vezes alimenta-o, e arrasta-o, depois--até á vertigem e ao delirio.

Quando hirto e inanimado jaz como cadaver sepulta-o, na indifferença do mais torpe egoismo, e vem á beira do circo, onde se degladiam os homens, que outr'ora foram irmãos, e que as leis do progresso já dividiram em bandos oppostos--busca, ahi, a phalange reaccionaria, a que estacionou, a que receou caminhar, fascina-a, pela mesma fórma, apodera-se d'ella, envolve-a na infinita rede, e nos tenebrosos tramas do seu sinistro mysticismo, até que uma nova evolução social, por seu turno, despedace este elo historico, e o arremesse para a noite dos tempos.

É por isso que o povo, na grandeza dos seus instinctos, e nos periodos solemnes das suas transformações--quando as leis inexoraveis, que regem a humanidade o impellem e obrigam fatalmente a caminhar--encontra-se só, entregue ás suas proprias forças, e ao luzeiro do seu destino.

Os chacaes, as hyenas, e os corvos vem, depois, pela calada da noite, devorar, no silencio das trevas, os cadaveres dos que pereceram nos campos da peleja.

Mais tarde aboliram-se as communidades religiosas, annullaram-se as doações dos bens da corôa e ordens, quebraram-se todos os privilegios e collocações obrigadas na magistratura, na Igreja, na administração publica e no exercito, cercearam-se os lugares do paço, simplificaram-se as leis dos foraes, abriram-se tribunaes communs para todos os cidadãos, creou-se um systema uniforme de julgar, acabando com as provisões regias, fóros privativos, e decisões especiaes, finalmente a nobreza conservou os titulos e os cargos honorarios, mas ficou igualada em direitos e deveres a todos os outros homens.

O imperante perdera--pelo menos na apparencia--o _moto proprio_ e a _sciencia certa_, com que representava a divindade, entregando aos poderes consignados, na carta, a harmonia da vida constitucional.

* * * * *

Quando o relógio da cadêa dava nove horas, entrava, no meu quarto, um fachina das salas do Limoeiro com o manuscripto do carrasco. Elle não podia vir. Sentia os primeiros symptomas da enfermidade de que morreu.

Escreveu-me um bilhete, que ainda conservo. Dizia-me que viria, mais tarde, saber o que eu pensava da sua vida tão dolorosa e tão angustiada.

Conservo o bilhete e o manuscripto.

Vou confiar ao leitor os segredos d'alma d'esta existencia excruciante e afflictiva, que pereceu no fundo d'uma enxovia.

VISCONDE DE OUGUELLA.

[29] Este e outros capitulos virão a lume, mais tarde, quando a occasião fôr opportuna.

O HORROR DA DEMENCIA

Rachel Varnhagen, insigne allemã, esposa do grande escriptor do seu appellido, escrevendo a Frederico de Gentz, dizia: «Tres grandes cousas me horrorisam n'este mundo: 1.ª uma manada de touros bravos; 2.ª a plebe; 3.ª a demencia.»

A demencia é mais triste que horrorosa. Os que a padecem, se soubessem a compaixão que inspiram, seriam ainda mais desgraçados,--se desgraçados são os que não tem a consciencia de o serem.

D. Domingos de Magalhães, o arcebispo de Mitylene, morreu, quando a fome voluntaria o acabou de matar. Não houve razões de amigos e de theologos que o movessem a tomar um pouco de alimento. Não dava explicação, sequer insensata, da sua rigorosa abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos, se nos depara tal qual luz, consoante ella se póde desferir das profundas trevas.

Diz assim um capitulo intitulado _O Impassivel_:

«A impassibilidade ha de ser a futura condição do homem santo que seria semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e degenerada é a séde da dôr e da molestia, porque a sua sorte e futuro destino será a maxima degeneração do ente, ou a regeneração e renovação do servo, que o Senhor creou, e collocou no paraiso.

«Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convém decifrar e resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau não morre, e que a sua sorte é a morte eterna: a questão está só na dicção e na phrase; é uma amphibologia ou questão de palavras. O homem mau não aceita a morte voluntaria para expiar a pena do peccado; e, como resiste ao decreto da divina misericordia e graça, não morre para resuscitar, não se regenera, perverte-se e corrompe-se cada vez mais.

«O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno, perde o maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo ouro, e corôa-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o diuturno da penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser um martyrio, ou um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes. O homem mau tenta conservar o fumo, que o asphyxia no inferno, não se mata nem resuscita, perverte-se e degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.

«O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver da galvanisação eterna; o segundo homem perde-se no exilio, aonde morrem todos os que o preferem á patria, e renuncia-o ás suas saudades, amor e realeza.

«O homem mau tem duas degenerações: a primeira materialisou-o, a segunda ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas esperanças, promessas, e de toda a gloria, fraternidade e bemaventurança eterna.

«A regeneração faz o homem impassivel, e opéra muitas vezes em vida os seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de exaltar e acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade santa ha de seguir até ao fim dos seculos e das gerações e conquistar pela divina misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos.

«O homem santo será impassivel, sem dôr e sem temor, superior á natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagará o seu tributo á morte por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os sacrificios que podem exagerar e exaltar a virtude do homem.

«Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade; os authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos, ousam asseverar que a dôr e a fome, a morte e as tribulações são consequencias necessarias da natureza humana por ser limitada, contingente, e passageira: se dissessem, que são consequencias immediatas da natureza degenerada, e penas propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original, diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactidão, com logica e coherencia de principios.

«Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo em geral mui prudente e avisado.

«S. João Baptista não bebia vinho nem cerveja, comia mel silvestre; o Stylita comia um bocado de pão só aos domingos, e permanecia sempre fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna de dia e de noite, de verão e de inverno, annos e lustres por divino milagre.

«S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia diariamente só o que a ave do agouro podia trazer no bico, era um bolo do céo: os exemplos são innumeraveis: todos provam que a humanidade santa ha de conseguir no paraiso até o fim a impassibilidade da dôr e da fome; porque no céo não se come: os maus soffrerão lazeira e esuria no inferno, porque o mundo está condemnado ao fogo e á perdição.

«Estas verdades são dogmaticas; os herejes negam todos os milagres do divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar de nós: quando chegar o tempo da maxima profanação humana, o fiel regenerado beijará a mão que o sacrificar pelo martyrio, e desejará com elevada ambição receber pessoalmente a sua corôa em vez da outorga na communhão e na sua geral misericordia; o que se coroar pelos seus esforços, e pelo odio da tyrannia será mais ditoso e mais laureado: a morte é uma pena para o que recusa pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade: o martyrio é uma virtude de communhão, as suas provas serão cada vez mais faceis e mais suaves para os santos pela união com Deus. No paraiso será um sonho e um devaneio, um magnetismo e uma transmigração voluntaria.

«A impassibilidade, a virgindade, a geração espiritual, o desejo e o voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspirações da abstinencia e da penitencia hão de ser frequentes e geraes, admiraveis e sobrehumanas na divina providencia do paraiso: convém persuadir estes desejos e esforços, para que ninguem desanime, ou recuse a reconquista da perfeição e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito, ou aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem.

«Eu tomei rapé com excesso por espaço de vinte annos, por conselho de medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixão, quando principiei em Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao Santissimo Sacramento no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito; era eu só para o exaltar, não tinha acolyto, nem ministro, dizia missa diaria, adorava duas vezes por dia com treze luzes de cera sendo uma só de azeite, rezava o officio divino, escrevia, trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da divina magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e por isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis para dezesete mezes de continua e incessante adoração, sem uma falta, e deixei o uso do rapé por decencia e reverencia até o dia de hoje sem quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.

«Minha mãi mandou pôr á minha disposição um bote de rapé no anno de 1860, em Villa Pouca, aonde eu já não adorava, nem podia dizer missa: o rapé esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca mais abri o bote e padeci grandes dôres de dentes, que me determinaram a extrahir alguns a ferro; quando fui ao Porto offereceram-me rapé, eu não aceitei.

«Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e até lauta; jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe e guisados, e todos os appetites que a boa mesa offerece: eu não procurava os seus regalos, mas não repellia nenhum dos permittidos: agora faço penitencia, e não como carne nem peixe ha mais de oito annos. Em 1860 comi carne algum tempo em pequena quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe até agora: passei mais de um anno só com um quartilho de leite por dia e com menos de quarenta reis de pão, e com um arratel de assucar chegava para treze dias até dezeseis.

«Nunca fui apaixonado do vinho, mas não o repellia inteiramente; agora não bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por dia menos de 40 reis de pão, jejuo tres dias por semana, ás quartas, sextas e sabbados, e ha mais de tres annos ainda não faltei a esta disciplina de jejum nem nos dias de jornada.

«Nos outros dias tomo um café com leite, um vintem de pão, e uma quarta de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha sopa que consta de uma dóse de arroz com manteiga, ou com azeite segundo o dia; um arratel chega para cinco dias, e ás vezes para seis: á noite como um bocado de brôa ou de pão.

«E com esta disciplina e regular dieta trabalho, rezo, escrevo e medito ha muitos annos sem descançar nem um dia e sem interromper o trabalho, que executo de joelhos por divino milagre, ha quantos annos?

«As obras escriptas respondem por nós: muitos dias de inverno principiei a trabalhar ás duas horas da noite, e continuei a minha tarefa até ás duas horas dos seguintes, empregando mais de dezoito horas no afão da escriptura. Escrevo e rezo sempre de joelhos, e sustento-me n'esta reverente posição por mais de doze horas, dias e mezes successivos haverá um lustro, por estar na divina presença.

«A impassibilidade é o presagio do paraiso. Lucifer e a sua maldita confusão e degeneração ha de receber a honra da morte e todas as dôres que causou á humanidade com o peccado original por haver seduzido nossos paes no paraiso das delicias.

«Nenhum peccado ficará sem pena eterna, nenhuma dôr ha de extinguir-se ou aniquilar-se, perder-se, ou evaporar-se: o que é causa da causa é causa de todos os effeitos e consequencias.

«A crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-os, tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro: a actual das seitas vendeu-me para me occultar a minha genealogia e direito, e obrigou-me a seguir o estado ecclesiastico para me castrar: os seus vicios foram mais impios do que os antigos, e converteram-se contra os insanos.

«Eu seguia o estado ecclesiastico com amor, e aprendi a defender o meu direito na época propria e quando convinha: sou mal por ser do paraiso.

«Toda a minha vida é um milagre diuturno: os monstros jámais poderam privar-me da existencia; as suas conspirações são incessantes, geraes, concentradas, diabolicas e perfidas.

«No dia dez estava para escrever a bulla quinta e não sabia sobre que havia de legislar: abri ao acaso o sagrado concilio de Trento, sahiu a sessão vigesima segunda que falla em legados apostolicos, que é o objecto da referida bulla.

«No dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis, e inclui por engano só seis folhas, e chegaram e não cresceu o papel: no dia nove metti as sete folhas, e aconteceu o mesmo milagre: todas as leis e bullas são originaes sem borrão, ou copia.

«Deixo o soberano titulo no alto da folha; no dia nove aconteceu ficar em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou imperfeição do papel, e foi razão para que não crescesse, nem faltasse.

«Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma é negra, e escrevo o «Impassivel» com esta: no dia nove escrevi com as quatro pennas; duas estavam já refugadas, duas eram novas, duas appareceram a um canto: eu já mandei procurar mais pennas mas não apparecem á venda: escrevo, com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes, e com dous vintens de tinta ha mais de meio anno, e quebrou o vidro, aliás seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta está em um pires de porcelana que serve de tinteiro; eu só tenho dous pires, e duas chavenas.

«No tempo da usurpação de D. Miguel uma senhora chamada Rosa deu-me a effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um homem affeiçoado á tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma veronica da Santissima Virgem Immaculada em Lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu dei-a em Villa Pouca a uma senhora chamada Rosa.

«Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra, a supposta infanta D. Isabel Maria, a qual não me pagou a visita; uma irmã de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e não a visitei.

«Fiz algumas visitas á supposta imperatriz do Brazil, falsa duqueza de Bragança a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa; a cruel jámais ousou levantar os olhos para nós: quem pagará ou satisfará estas dividas de amor e de reverencia?

«Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma femea em Santa Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro; tenho duas vassouras, fui servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas mulatas, uma em Villa Pouca, irmã do burro cruel, outra nos banhos do lugar de Carção ou de Arcozelo: fui servido por duas criadas filhas da viuva, uma de Montenegrelo, outra de Chaves, aquella deu-me um guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta, e dei um lenço de sêda á criada de Montenegrelo: já bati em duas, uma fugiu e não levou.

«Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a oração da manhã: hoje repetiu o mesmo mysterio.

«José Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a dez annos de degredo um energumeno que dizia missa e prégava sem ter ordens, e denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha Guilherme commetteu em Roma: n'aquelle tempo não havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui o antipapa, e declarei energumenos todos os seus tonsurados: o falso padre gerou todos os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os herejes amnistiaram o nefando, não podem absolver os traficantes.

«O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas Necessidades, e uma em Mafra, são dous paços reaes, outra no paço das escolas, da universidade são dous paços de escolas: porque Mafra é escola militar: esteve commigo duas vezes na academia de Lisboa, no collegio dos Nobres, e no convento da academia, são duas academias, ou mais: uma em Coimbra outra em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza d'esta categoria em relação ás escólas do exercito, duas em Lisboa e duas fóra de Lisboa.

«São cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos paços da universidade como provedor da misericórdia; elle mandou-me um recado á misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo provedor.

«O dualismo é uma graça; a perfidia é uma abominação e um horror.»

RESTAURAÇÃO DE UM DOCUMENTO HISTORICO VALIOSO

Rebello da Silva, na sua _Historia de Portugal_, reportou-se a um documento que o snr. Ferdinand Denis encontrára na bibliotheca real de Paris, relativo á historia dos motins sequentes á perda de D. Sebastião, e publicára no _Portugal pittoresco_.

O nosso historiador não trasladou o documento, com quanto fosse importante. E ajuizadamente procedeu; porque, sendo elle versão do portuguez, difficil senão impossivel seria revertel-o á fórma original. Poderia Rebello da Silva pedir o fiel traslado d'esse papel, incluso no codice n.º 10:241, e dal-o no corpo da sua historia, como testemunho das velhas regalias populares nas crises grandes de Portugal; mas dependendo isso de esmeros, pausas e minudencias que se descasam da indole peninsular, o documento ficou desconhecido, apesar da traducção do historiador francez.

E, não obstante correr ahi uma versão miserrima do _Portugal pittoresco_, o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso, porque não tem, no torneio e na phrase, algum vestigio do dizer portuguez de 1579.

E, todavia, não posso já duvidar que Martim Fernandes, sapateiro, e Antonio Pires, oleiro, no 1.º de junho de 1579, estando os fidalgos reunidos na igreja do Carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei D. Henrique, entraram ruidosamente na assembléa, e proromperam pedindo que lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo de Lisboa.

E não duvido, porque sei o que foi a liberdade portugueza até que D. João IV começou de a jarretar á feição do seu genio despota, e porque tenho presente o discurso do mestre sapateiro, escripto ainda no mesmo papel onde lh'o deram para o decorar.

E como é bem cabido mostrar o original em face do retraduzido no _Portugal pittoresco_, sob palavra do snr. Ferdinand Denis, aqui os defronto, e ponho como advertencia aos que aceitam, sem critica, a historia que nos vem de torna-viagem.

ORIGINAL