Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12)

Chapter 2

Chapter 23,666 wordsPublic domain

As cidadãs que mais se estremaram na celeuma das praças contra os conspiradores, foram as regateiras da Ribeira, capitaneadas por uma virago mulata, de alcunha a _Maranhã_. Esta mulher privava muito com o rei. D. João IV mandava parar o coche, quando a encontrava, dava-lhe a mão, e detinha-se em risonha palestra com a regateira. Assim o conta o diplomata D. Luiz da Cunha ao principe, que depois foi José I, em carta que corre impressa: _O snr. D. João IV... mandava entrar no estribo do seu coche a celebre_ «Maranhã» _que dominava todas as regateiras da Ribeira para se fazer mais popular, pois costumamos dizer que a voz do povo é a voz de Deus, o que nem sempre se verifica_.

Outra regateira, não menos notavel em seu real beneplacito, chamava-se _Brigida d'Alfama_. No dia 1 de dezembro de 1640 foi ella quem de envolta com os petintaes levou de rojo o cadaver de Miguel de Vasconcellos.

Brigida, quando soube que o marquez de Villa Real e seus cumplices eram presos por traidores, pediu a qualquer poeta cesareo que lhe escrevesse cousa que ella pozesse nas regias mãos do seu soberano.

O poeta, provavelmente, trocando versos pelas colladas de Brigida d'Alfama, escreveu uma _Silva_, com que a regateira se foi ao paço mui aforçurada, e logrou, sem demora, entregar a D. João IV.

Eis a Silva:

Fôra descompostura de grande atrevimento (rei, que o mereceis ser de mil imperios), sem ter prima tonsura do poetico assento tão cheio de grandezas e mysterios, n'esta tosca Ribeira cantar de vós a musa regateira. Mas amor, que perdido nos estanques passados em que vendia carne aos tres estados quiz, por vêr se melhora de partido, ser cego de papeis, e a mim por musa, que com sciencia infusa, com quarta, ou gorgoleta entre nos contubernios de poeta. Amor é pois que abona estas dôces reliquias de capona, que Brigida começa a entoar subida na tripeça, por não ser o Bandarra, que cantou cysne, o que aprendeu cigarra. Chegue-se pois a bordo com juizo pernialto, para critiquizar, qualquer figura, que aqui não canta tordo, nem melro, que em contralto esperdiça seu mal pela espessura. Não ha aqui ruisenhor no bosque frio, maganão de assobio, e entre dôces avenas ramilhete com voz, harpa com penas; as minhas cantilenas accentos são mais graves do solidario inquisidor das aves, que authorisado canta compassos de guela por garganta, hymnos á noite fria, que viuva do dia em anaguas se veste bordadas de ouro sobre azul celeste. Mas entremos no thema e este breve intervallo sirva de frontispicio do libello. Escondida postema em troiano cavallo para tornar Lisboa um Mongibello tinha a perfidia grega de negra inveja, e de malicia cega, mas lá de cima a intelligencia boa, que ampara vossa authentica pessoa quebrou as armadilhas ás torpes sevandilhas que bichinhos da terra gigantes contra o céo sonhavam guerra; e descobrindo o lusitano zelo a ponta do novello poz a cousa em estado que quem vinha por lã, foi tosquiado. A mim não me destouca a _primaz_ alimaria[18], que era astuta serpente; nem a cabeça louca da poesia varia do marquezote simples, e innocente; nem os mais inimigos, que da coca tocados da esperança vã de altos estados deram com o cabedal por esses trigos. Tu és só que me matas, ó Cochambre em sapatas[20], tu, que aguia real com louco assombro praticavas com o sol hombro por hombro e inquinaste a lysia bizarria de tua tão vidrada fidalguia em affrontoso thalamo ferindo pactos com Baeça, e Alamo[21]. Quando por sorte, ou erro da vinha quasi morta as velhas cepas, a maleza occulta, é medicina o ferro: umas, justificada a fouce corta, outras, prudente o enxadão sepulta, e trocando-lhe a fórma a vinha assim reforma pai de familias destro. Toma o ginete um sestro, degenera em sendeiro das leis da fidalguia da sua paternal cavallaria prudente o cavalleiro cobre com atafaes torpes, e feios o que havia de ornar jaez e arreios. Não sois de engenho tardo, entendei-me o remoque, que é bernardo. O franco, que do carro da deusa da batalha as avenas agora modifica; o inglez bizarro com toda a mais canalha que aos altares de Marte se dedica a vêr este interlunho todos estão com os olhos como punho. Se podaes esta parra julgarão que se anima vosso valor para fazer vindima, se a deixaes á solta, e se desgarra dirá vosso adversario, que possuis o reino por precario. N'este transe, senhor, n'esta apertura será fraqueza a minha piedade, pouco valor a magnanimidade, e falta de poder qualquer brandura. Pese tudo a prudencia a ouro fio entenda-me _che pò, que me entend'io_.

Não sei se o mesmo, se outro vate patriota, escreveu e distribuiu primorosamente calligraphados alguns exemplares da seguinte poesia--tão sanguinaria quanto boçal--quando ainda fumegavam no cadafalso do Rocio os cadaveres dos conjurados, cujo supplicio pedira Brigida de Alfama:

ÁS MORTES DE D. LUIZ DE MENEZES, MARQUEZ DE VILLA REAL, DE D. MIGUEL DE NORONHA, DUQUE DE CAMINHA, DE RUY DE MATTOS DE NORONHA, CONDE DE ARMAMAR, DE D. AGOSTINHO MANOEL, OS QUAES MANDOU DEGOLAR NA PRAÇA DO ROCIO, EL-REI D. JOÃO O IV, E MAIS TRES, E UM BAEÇA, ARRASTADOS, ENFORCADOS, E ESQUARTEJADOS TODOS POR TRAIDORES, HOJE 29 DE AGOSTO DE 1641.

_Ao marquez de Villa Real_

Senhor marquez, eu quizera, (testemunha me é Jesus) de vos trocar o capuz por sêda de primavera; mas vossa condição fera teve a culpa d'este mal; que havieis de ser leal apesar de mil traições, quem tem tão nobres brazões como os de Villa Real.

_Ao duque de Caminha_

E vós, duque, porque não podéreis isto fazer, mudando de parecer, pois do marquez a tenção era sómente traição: e já que mal attentado e com tão pouco cuidado vos quizestes derrotar, para tudo se acabar, soffrei o ser degolado.

_Ao conde de Armamar_

Em theatro hão de parar vinte e dous annos de idade, e de Braga a falsidade faz a taes transes chegar[22]! Mas se o conde de Armamar olhára para seu tio no dia de nosso brio que jogava o esconder, nunca viera a perder em tal peça tal feitio[23].

_A D. Agostinho Manoel_

Um _Manifesto_ fizeste que foi manifesto a todos, e agora com baixos modos a tudo contradisseste. Outro tambem compozeste quando estiveste na côrte; e, por não seguir o norte com que por cá navegaste, por indiscreto, ficaste tambem manifesto á morte[24].

_Ao mesmo_

E já que de tal maneira te quizeste manifestar, sabe-te determinar n'esta hora derradeira: não sendo tal a cegueira com que até agora viveste, se no que compozeste te mostraste declarado, hoje que és degolado sente o mal que te fizeste.

_Ao perro do Baeça_

Habito de Christo a vós?[25] Maldito seja o judeu que lá na côrte o vendeu tal como vossos avós! Padecei tormento atroz, neto de uma cominheira: porque me dava canceira quem não era a Deus fiel que escapasse de um cordel, escapando da fogueira.

A opulencia de Pedro de Baeça provinha-lhe da senhora com quem casára. Os trinta mil cruzados não lh'os aceitaram a troco da vida; mas lá foram depois, em nome da lei, buscal-os ao casal da viuva. Reduzida a penuria extrema, esta mulher fugiu para a Hollanda, onde morreu soccorrida por parentes que eram hebreus.

[19] D. Sebastião de Mattos, arcebispo de Braga.

[20] Talvez D. Agostinho Manoel de Vasconcellos.

[21] Jorge Gomes Alamo, e um filho, que entraram no Limoeiro, onde foram atormentados, e nada revelaram. Os historiadores não se occupam em lhes averiguar o destino.

[22] Este conde era sobrinho do arcebispo de Braga.

[23] No dia da acclamação do duque de Bragança, o arcebispo de Braga correu perigo de ser assassinado como amigo de Castella. E, não obstante as demonstrações hostis d'este prelado, D. João IV chamou-o ao seu conselho, afastando alguns fidalgos que jogaram a cabeça, tirando-o da cobarde inercia de Villa Viçosa.

[24] D. Agostinho Manoel de Vasconcellos, além de outras obras estimadas, escreveu: _Manifesto na acclamação d'el-rei D. João IV, 1641_. É extravagante cousa que publicasse um livro tão a favor de quem, no mesmo anno, o mandou degolar como inimigo.

[25] Pedro de Baeça, mercador muito rico, era cavalleiro do habito de Christo. Foi este o que melhormente pareceu comprehender a abjecção dos seus inimigos, offerecendo trinta mil cruzados pela vida. Elle sabia que o avô do rei, e os avós dos seus juizes se tinham vendido por menos a Philippe II.

FIELDING

Quatro mezes antes de morrer, o visconde de Almeida Garrett, passeando em Lisboa, no cemiterio dos inglezes, com Francisco Gomes de Amorim, fallou assim ao seu extremoso amigo, defronte da inscripção tumular do romancista britannico Henri Fielding:

«Não leia isso que é tudo mentira; a unica verdade que ahi está é o nome de Henrique Fielding, e ninguem o sabe ou não se lembram d'elle. Pois foi um grande nome! Walter Scott chama a Fielding o _pai do romance inglez_ e la Harpe disse que o _Tom Jones_ é o primeiro romance do mundo. Apesar de tudo esta enorme tumba de pedra encerra um punhado de cinzas que foram consideradas em quanto as animava uma multidão de paixões revoltas!... agora... quem sabe que ellas estão ahi? O que o epitaphio não diz é que Henrique Fielding viverá eternamente no _Tom Jones_, como Squire Western. O que tambem não diz esse estupido epitaphio é que nem a Inglaterra nem ninguem se lembrou da viuva nem dos filhos d'este homem illustre, que morreram ignorados, depois talvez de terem vivido como mendigos entre homens poderosos de estado que foram condiscipulos e se diziam amigos de seu pai... Ah! mundo enganador!...[26]»

Tristissimo lance, se os filhos de tão estremecido pai mendigaram! Eram criancinhas quando elle morreu em Lisboa, no anno de 1754.

Forçado pela enfermidade a procurar o clima de Portugal, sahiu d'entre as caricias e lagrimas da esposa e filhos no dia 24 de junho de 1754.

A carta, que elle escreveu n'esse mesmo dia, e a ultima que deixou sentida e chorada na terra natal, dizia assim:

«Hoje quarta-feira, 24 de junho de 1754, nasceu o sol mais triste que eu vi em minha vida, e me já achou acordado na minha casa de Fordhook. Cogitava eu que, á luz d'esse sol, veria, pela derradeira vez, e diria o ultimo adeus, aos objectos queridos que eu amava com a ternura de mãi. Não me tinham ainda callejado as doutrinas da philosophia que me ensinára a supportar a dôr e desprezar a morte. Em tal situação, não podendo vencer a natureza, deixei-me vencer d'ella, que me subjugou como se eu fosse a mais fragil mulher. Pretextando consolar-me, induziu-me a ir gozar oito horas na companhia das minhas criancinhas, e com certeza, o que ahi soffri n'esse curto espaço excedeu todos os padecimentos da minha enfermidade. Ao meio dia fui pontualmente avisado de que me esperava a carroça. Abracei os meus filhos um por cada vez, e embarquei no carro com alguma resolução. Minha mulher que procedera com o verdadeiro heroismo de um philosopho, dado que seja ao mesmo tempo mãi extremosa, seguiu-me com a filha mais velha. Alguns amigos me acompanharam, e outros se despediram de mim, elogiando a minha coragem com louvores mui pouco merecidos.»

E não viu mais aquelle sol triste que se espelhára nas lagrimas de seus filhos!

Que importava o céo, e o sol, e a fragrancia de Portugal áquelle doente excruciado na solidão de Lisboa, por saudades dos seus, atormentadas pela desesperança de voltar a vêl-os! Se lhe não seria mais suave a morte, rodeado dos filhos, e com a mão já morta e ainda quente nos labios d'elles!

Pouco mais de tres mezes viveu. Expirou quando as folhas despegaram e fremiram seccas no chão, revolvidas pelo nordeste, aquella toada sinistra que faz pensar no gemer final dos moribundos a quem as primeiras nevoas congelaram o sangue no coração.

O seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de 1754. Tinha quarenta e oito annos.

Não alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de Fielding. Pobres sei eu que ficaram, porque seu pai, dado que os amasse muito, ou lhes não grangeou, ou era já tarde quando lhes quiz grangear o patrimonio.

Fielding achou-se uma vez com 1:500 libras, e uma propriedade que rendia 200, no condado de Derby. Montou carruagem, phantasiou librés de côres claras, que se renovavam de mez em mez, hospitalidade de principe, lautos banquetes, saraus, caçadas, a mais fidalga e desastrada imprevidencia, consoante ás tradições de seu avô o conde de Denbigh, e de seu pai o general Edmundo Fielding. No trajecto de tres annos, não tinha um palmo de terra, nem um schilling do patrimonio de sua primeira mulher.

Depois, aceitou o lugar de juiz de paz, especie de commissario subalterno de policia. Collocado em circumstancias proprias ao intento, começou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladrões. No entanto, escrevia novellas; e, gravando em eterno bronze o _Tom Jones_, creou o romance em Inglaterra.

Se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora, poderia, como escriptor, reparar as perdas de fidalgo. _Tom Jones_ foi pago por 700 libras, e _Amelia_ por 1:000.

Ás alegrias da gloria do ouro, seguiram de perto os rebates da morte. A vida estava gasta nos proprios desperdicios. A alma, no maximo esplendor das suas faculdades, requeria coração vigoroso onde fecundasse as grandes aspirações. Como prova da sua immortalidade, o corpo deperecia, os pulmões deslaçavam-se, e ella entre as regiões infinitas e as tristezas do quasi moribundo, lampejava ainda os derradeiros clarões da _Viagem a Lisboa_, em que Fielding chorou e sorriu, mesclando aos impetos da satyra os mais desconsolados quebrantos da amargura.

Quando fordes ao cemiterio dos _Cyprestes_, attentai n'aquelle tumulo, pensai em tudo que é triste; mas não lhe rezeis pela alma, que essa está irremissivelmente condemnada. Henrique Fielding não era dos nossos, não era catholico. Que pena!

[26] _Archivo Pittoresco_, tom. III, pag. 140.

MANIA E HYPOCONDRIA

Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e amigos que o enterrassem, porque o seu corpo começava a apodrecer. Tres vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e fingiram que o levavam ao cemiterio; porém, no caminho, estavam uns homens pactuados com os parentes á espera do sahimento; e, quando a tumba ia passando, começaram a dizer em voz alta:

--Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle biltre, aquelle perversissimo scelerado!

O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:

--Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os mortos não se vingam.

Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando as injurias.

Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da mortalha, e correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa que o atormentava.

O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.

Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em França. É a _Hygiene das dôres_, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que nos illustram, alegram a gente com estas passagens que não são vulgares entre os maniacos portuguezes.

* * * * *

Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa; estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não atormentassem, etc.

Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou banhos egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil. Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachundé chinez, o talekamapala dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á _escova electrica_, ao _restaurador da vida_. Tudo em vão. Parece incrivel uma cousa tão verdadeira!

A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios.

Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não podia estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia, estendia a perna.

--Então o senhor que mais quer?--perguntou o medico.

--Valha-me Deus, queria fazer isto!--e levantava a perna com a maior presteza e facilidade.

O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si, riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.

D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como quatro), e de se estar marasmando.

Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen que o medico não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico, pediu explicações.

--Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga--disse o medico.

--É verdade!--disse pasmadamente o enfermo--é verdade! eu não tinha reparado.

E ou por estar convencido ou por imitação, riu-se tambem com o medico.

Este livro da _Hygiene das dôres_ não é dos mais imprestaveis no catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se modificam pela explosão das lagrimas, outras pelo espirro, e algumas pelas convulsões do riso.

AOS DIPLOMATAS DESCONTENTES

Se suas excellencias, os senhores secretarios e addidos de ministros e embaixadores se queixam da parcimonia dos seus ordenados--e accusam de mesquinhos os governos, indifferentes ao esplendor dos enviados que representam este Portugal, tão pomposamente representado em tempos antigos--bem sei eu onde elles podem, se quizerem, colher as provas de liberalidade dos governos absolutos com que confundam a sovinaria dos governos liberaes.

Um diplomata, que brilhou nos tempos prosperos, e me lembra, como exemplo, é Duarte Ribeiro de Macedo. Dizem d'elle os biographos, e particularmente José Maria da Costa e Silva, que nunca enviado portuguez a Paris tão grandes honras recebeu na côrte de Luiz XIV. Nove annos alli residiu o solerte diplomata, ganhando de dia para dia a consideração de Portugal e os gabos dos ministros com quem lidou.

Em 1668 nol-o descreve Costa e Silva melhorado na florente carreira, já como enviado ordinario.

Não nos diz que ordenados Duarte Ribeiro recebe, nem que luxos estadeia na côrte de França; mas do contexto de duas cartas suas e ineditas, facil nos é conjecturar o despendio, o fausto, a ostentação quasi reprehensivel d'aquelle representante, se o não quizerem desculpar por elle ser algum tanto poeta.

Os periodos, que vão lêr-se, devem pruir de inveja os espiritos descontentes dos senhores secretarios, addidos, e enviados de hoje em dia; conformem-se no entanto, confrontando o Portugal de Duarte Ribeiro de Macedo com o Portugal dos que hoje em dia o representam, a jantarem em restaurantes de 2 francos por cabeça.

Vejamos as scintillações de estylo de um enviado ordinario na embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As cartas datadas em 1669 e 1670 são adereçadas ao regedor das justiças, D. Rodrigo de Menezes.

«...... Dir-lhe-hei a v. s.ª como passo ha quatro mezes. Jeronymo José da Costa me assistiu dous, mas porque a tardança dos provimentos o fazia desconfiar, não quiz valer-me d'elle, e pedi 1:000 francos ao conde de S. Comberg, dizendo-lhe que era para um emprego meu. Não me atrevi a escrever que achava este recurso, para que não désse causa a maior descuido. Já estão pagos estes dous credores; mas não estou livre de cuidar que recahirei no mesmo achaque. Creia v. s.ª que não sei como acerto a servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O que n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher, e confesso a v. s.ª que não posso servir com taes faltas. Se eu disser a v. s.ª o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e Inglaterra ha v. s.ª de se admirar! Sua alteza, pela mercê que me faz, a qualquer carta minha manda logo acudir: a falta está da parte dos executores das suas ordens... etc.»

Se este periodo não deixa bem definida a situação brilhante do enviado ordinario, ha outro mais explicito:

«... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobrões emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas, e entro em quarto mez de empenho. Até a carne para comer me trazem fiada... Tire-me v. s.ª d'aqui ainda que seja á custa da liberdade.»

D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e patriotica vaidade no serviço de Portugal é que os biographos deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado ordinario a Paris, alli _fôra recebido com grandes honrarias_ (diz Costa e Silva) _poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros_, e tantas e tamanhas que até fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.

E, como prova de que a sua abastança não era fineza, mas sim obrigação da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que Duarte Ribeiro, _no longo prazo de nove annos que se demorou em França, no exercido d'esta missão importante, promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era dotado os interesses e vantagens da nação que representava_.

Da comparação da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza dos diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca fiada porque era um inepto, ao passo que os seus successores no officio andam por lá saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o equilibrio internacional.

[27] D. Pedro, o regente, irmão de Affonso VI.

BIBLIOGRAPHIA

(PADRE SENNA FREITAS--FRANCISCO GOMES D'AMORIM)

PADRE SENNA FREITAS, _No Presbyterio e no Templo_, vol. II. Livraria Internacional. Porto, 1874. 8.º 344 pag.--A presteza no apparecimento do segundo tomo, correspondeu á affectuosa curiosidade que o primeiro suscitou com raro exito. O relevante merito dos artigos subpostos ao titulo NO PRESBYTERIO, confirma-se e consubstancia-se nos trechos pareneticos, e nos discursos em assembléas catholicas. Avantajam-se os dotes do escriptor na descripção do Brazil sertanejo, onde se lhe acrisolou a vocação nos maviosos, bem que duros sacrificios tão ardentemente commettidos com o alegre rosto da confiança em Deus.