Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 11 (de 12)
Chapter 5
Louvores á virtude aos céos aprazem: Nas aras da verdade puro incenso Respeitosa tribute a humanidade A quem da humanidade os males pungem, A quem aos males da indigencia acode; Com piedosa mão, mão generosa, Da macilenta face ao desgraçado O pranto enxuga, que a penuria arranca. Sensiveis cidadãos, porção mimosa, D'alta prole de Luso esmalte, e gloria, Meus hymnos relevai, que aos vates cumpre Honrar a quem dá honra á especie humana: Beneficas acções, que almas transportam, Por desafogo d'alma applausos pedem. Na sinuosa habitação do crime, Nas pavorosas, lobregas masmorras, Onde fome, e nudez (oh dôr!) outrora, As miserandas victimas ralavam; Onde o estridor horrisono dos ferros, D'imprecações, de pragas, de blasphemias Era, não sem razão, acompanhado; Alli onde animados esqueletos Bradavam pelo jus, que á vida tinham, Em quanto justo oraculo de Themis Castigo aos crimes seus não arbitrava; E os descarnados braços, d'entre os ferros Famintos estendendo as mãos escassas, Com lamentosa voz, parco alimento, Quasi desfallecendo em vão pediam; Alli, onde impio throno a morte alçára, Tem agora seu throno a humanidade. Amavel, divinal beneficencia, Dos céos emanação, innata ao homem, Lei filha da razão, que a natureza Indelevel gravou no peito humano! Só tu fazes heroes, só tu distingues Os entes racionaes das brutas feras. Cobraste, ó natureza, os teus direitos, Desaffrontada estás. Exulta, ó patria! Na estancia destinada ao crime, á infamia, Inconcusso padrão teus beneficios Fabricado já tem á gloria tua. Os carceres contempla, e goza o fructo Das acções, que praticas generosa, Em louvores trocadas as blasphemias; Co'a justiça abraçada a humanidade; Abundancia frugal alenta os tristes, Que inerte esquecimento abandonára Nas garras da penuria, e dos flagicios: Como se não bastasse aos desgraçados Do crime o peso, o peso dos remorsos, Da justa punição a idéa horrivel! Quem ha que delinquente ser não possa? E ha de auxilio negar-se aos delinquentes? Os culpados não deixam de ser homens: E á compaixão dos homens tem direito, Compaixão, não esteril, prestadia. A bem da humanidade taes dictames Leu em seu coração heroe prestante; De honrosa instituição motor ditoso, Com seu sopro accendeu piedoso incendio Em corações dispostos á piedade: Liberaes á porfia generosos, Sobeja caridade exercem todos. Oh dadiva do céo! alma sublime, Que recto, imparcial punindo os crimes Pranteias compassivo os criminosos, E ao culpado infeliz auxilio prestas, Aligeiras seu mal, a mão lhe estendes, Que invergavel d'Astrea a vara empunha, Illustre... Mas que faço? o teu preceito, Tua nobre modestia me prohibe Teu nome proferir porém debalde: Mesmo entre ferros o profere o afflicto, Que de lisonja vil não é suspeito; Perenne gratidão aos astros manda O nome teu, que impresso em nossos peitos, Transmittido será de paes a filhos!... Mais quizera dizer, dissera pouco Por muito, e muito, que dizer podesse: Custa ao vate conter d'alma os transportes: Mas silencio m'impões, silencio guardo.
AUTO DA FÉ... A RIR
O meu benevolente mestre e amigo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, alludindo ao que se escreveu no n.º 10 das _Noites de insomnia_, a respeito do infeliz e talentoso José Anastacio da Cunha, diz-me o seguinte: _A proposito, occorreu-me offerecer-lhe o papel junto, copia de outro que possuo ha bons quarenta annos. É uma noticia assás circumstanciada e divertida do auto da fé, em que sahiram penitenciados o mallogrado professor da universidade e seus companheiros. Se acaso v. entender que a narrativa agradará a alguns leitores das NOITES, póde dar-lhe ahi as honras da publicidade, etc._
Segue o curioso papel que, a meu vêr, é a photographia das cousas e das pessoas d'aquelle tempo, avultando á primeira luz do painel o cardeal da Cunha, inquisidor geral:
Noticia presencial do auto da fé a que presidiu o cardeal da Cunha em 11 de outubro de 1778.
«Meu pai tinha grangeado, não sei como, a amizade, e era muito da obrigação d'esse cardeal inquisidor geral, que na vespera do auto da fé, em que sahiu José Anastacio com os outros seus companheiros, veio a nossa casa e recommendou a meu pai, que ao outro dia, _para boa doutrina e exemplo_, mandasse seu filho assistir a esse acto de religião: «_venha o rapaz_ (disse o tonto); _venha cedo; que almoçará commigo, e depois tambem lhe darei de jantar_.» Assim m'o encommendou o meu velho, quando n'esse dia me recolhi a casa, e não tive eu mais remedio senão apresentar-me ao outro dia na casa triste, aonde cheguei a tempo de vêr levantar-se da cama o alarve do inquisidor, que enceroulou os seus calções largos, e esfregando os olhos, bocejando, e fazendo cruzes na bocca, me levou para a mesa do almoço, que nos foi servido de café com leite e as torradas competentes. D'ahi abalamos para a capella da inquisição, aonde foi a minha boa fortuna o ficar assentado junto a um frade de S. Domingos, homem com menos de meia idade, mas de juizo inteiro, segundo o mostrou no discreto e gracioso motejo, que fez de quanto se passou n'aquella santa e religiosa feira da ladra. Tivemos missa inteira, e depois tivemos sermão, que bem fôra o ter sido partido por todos os dias do anno, por o muito que nos enfadou com um sem numero de sandices o prégador. Quando as este vasava do sagrado almofariz, não escapavam ellas ao meu visinho, que para mim se voltava, dizendo admirado: «_arre! e como é eloquente o prégador!_» E tambem, quando ao lêr da sentença, os réos, segundo o chavão e formulario do santo officio, foram alcunhados de deistas, atheistas, herejes, scismaticos, etc., o bom do meu visinho, pondo os olhos no céo com grande compunção, dizia: «_Jesus Maria! Que gente tão ruim!... Atheistas e deistas ao mesmo tempo!... E ainda com mais o trambolho de herejes e scismaticos!... Valha-nos Deus com tantos peccados!_» Todavia, a gravidade e recolhimento discreto desamparou a esse bom frade, assim como a maior parte da companhia, quando se leu a sentença, havendo por intervallos uma assuada geral de gargalhadas, rompida por os fidalgos, que assistiam de familiares. Quem não havia rir? Entre os cargos, que se faziam aos réos, entrava o de que nos dias d'abstinencia deitavam postas de vacca em baldes d'agua, d'onde tiravam a carne com um gancho, e a chamavam _pescada_, que mandavam guisar para o jantar! Entre os mais graves capitulos era o que se fazia ao réo João Manoel d'Abreu, o qual, perguntado--qual tinha por mais violento, o fogo do inferno ou o do purgatorio? Respondeu: _O do purgatorio._ E instado por a razão de o julgar assim, tornou a responder: _porque o do purgatorio, além de queimar as almas, tem a força de aguentar as panellas de tantos mil frades e clerigos, que d'ahi vivem._ Sonora gargalhada, que retumbou por toda a capella, com grande escandalo dos padres tristes.
José Anastacio, com todos os mais penitenciados, tinham velas de cêra amarella nas mãos[22]; estavam todos com o semblante carregado e melancolico, senão o major de artilheria de Valença, que se estava sorrindo; e, acontecendo pôr os olhos nos d'um conhecido seu, logo lhe fez uma cortezia com o brandão de cêra, por o modo, que o faria com a espada, se estivesse mandando uma parada. Emfim, acabou-se a farça; sahiram d'ahi os penitenciados para os lugares de suas reclusões, e nós para o abundante jantar, que nos deu o cardeal. Quando assentados á mesa, voltou-se elle para mim, e começou a me admoestar por esta maneira: _Então, snr. V... viu vm.ce a piedade e misericordia da santa inquisição? Veja como deu castigo brando a tamanhas culpas! Porém, isso foi por a primeira vez; que se tornarem a delinquir, não hão de ficar assim._ A isto respondi eu--que me parecia deviam os penitenciados ser mais d'uma vez perdoados; porque, perguntando Pedro a seu divino Mestre, quantas vezes se havia perdoar ao peccador; se deveria ser até sete vezes, Christo lhe respondera: _não só sete vezes, mas sete vezes setenta; pelo que_ (continuei eu) _multiplique v. exc.ª sete por setenta, ou 70 por 7, e achará a conta de 490 vezes, que se deve perdoar ao peccador, e d'ahi se a inquisição quizer seguir a doutrina da Escriptura, ainda aos que foram agora penitenciados se deve 489 vezes o perdão_. A este tempo estava um dominicano, frei José da Rocha, grande valido do cardeal, por traz d'elle, fazendo-me signaes para que não continuasse o discurso; e para esse frade, como para arbitro e qualificador, se voltou o cardeal: _hui! oh frei José! Aquillo que diz este rapaz vem lá na Escriptura?_ Depois d'algum empacho, respondeu o frade: _Isso lá vem por algum modo, como v. exc.ª sabe melhor do que eu; mas, para que é agora acarretar a Escriptura para o jantar? O que se agora ha mister é refeição corporal, e não espiritual._ Ficou com a decisão um pouco turvado o cardeal, mas logo, dando maior pinote, poz termo á questão dizendo: _Pois se isso vem lá na Escriptura, nós cá é outra cousa._ E como isto disse, foi entrando pela sopa.»
[22] A côr amarella é de reprovação, e a usavam os inquisidores nas velas e sambenitos dos penitenciados, talvez por ser d'essa côr a tunica, que sempre em todas as pinturas se dá a Judas traidor, assim como n'ellas a S. João sempre se deu a tunica verde. D'ahi vem talvez a côr das fitas e capellos na faculdade de medicina, a qual era antigamente a menos nobre das faculdades em a nossa universidade, e por isso seguida, por a mór parte dos que o povo infamava com o titulo de _christãos-novos_. Todavia, já nós conhecemos época, em que a côr amarella andou mais em moda, que a de purpura, e foi em França, legisladora de modas e vestidos; pois quando ahi nasceu por 1811 ou 1812 um filho a Bonaparte, foi tão geral em todos a alegria, que para solemnisar tão feliz acontecimento, todas as senhoras trajavam de côr do excremento do menino. Oh francezes!...
FIM DO 11.º NUMERO