Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 11 (de 12)

Chapter 4

Chapter 43,562 wordsPublic domain

Assim que lhe entraram ao quarto, o rapaz, que as não percebia, contemplou-as com a mais sincera cara de tolo, não obstante ser prevenido da visita. _Il ne laissa pas de paroître déconcerté_--diz mad. de Sainctonge, a filha da gentil Vasconcellos--_elles en attribuerent la cause au peu d'habitude qu'il a voit de voir des femmes_.

Mas habituou-se logo; o amor ensinou-lhe tudo, sem excepção do francez. Por essa occasião lhe disse o velho:

--Este modo de viver francez deve ser estranho a um moço de paiz onde os homens não tem a menor convivencia com as senhoras.

--Gosto d'estes costumes! exclamou o rapaz.

De quem elle já gostava muito era da menina Vasconcellos; mas a paixão que o apanhou de salto não impediu que elle se mostrasse portuguez de lei, mandando pôr na mesa bocêtas de dôce nacional para regalar as meninas, e por signal que o avantajaram ás confeiteiras francezas: _bassins de confitures séches beaucoup plus belles que celles qu'on fait en France_--diz a citada historiadora.

O convalecente deu logo alta, e transfigurou-se.

Bailes, merendas, passeios campestres, lyrismo, conjugação dos verbos regulares e irregulares de parçaria com as pequenas, revelações, confidencias, leituras de novellas, etc. Em resumo, D. Francisco de Mello, quando voltou a Paris, não conhecia o filho, de gordo, de folgazão, de peraltice, e até d'uns vislumbres de poeta pelo ar provençal com que fallava das graças das francezas, e particularmente de mademoiselle Vasconcellos.

Amavam-se e projectavam voltar juntos e casados a Portugal. Assim o tinham decidido em sorrisos de mutua e louca felicidade n'um baile em que o moço, toda a noite, valsára com a noiva. _Mais il ne prevoioit pas que la France seroit son tombeau_, escreve a snr.ª de Sainctonge. Ao sahir d'esse baile, aconchegando do seio o ramilhete da adorada menina, constipou-se, e morreu de uma pleuresia seis dias depois.

Sobre este infortunio outro maior.

N'estes dias, appareceu em Paris um neto de D. Antonio, D. Luiz de Portugal. Este sujeito, que não degenerava dos vicios do avô e do pai, ainda, dous annos antes (1639) escrevêra uma carta a João Caramuel, defensor dos direitos de Castella ao throno portuguez, confessando a legitimidade de Philippe III, e offerecendo o seu braço na defeza da usurpação. A carta corria impressa, já em Portugal era conhecida, e o leitor póde vêl-a nas primeiras paginas do in-folio intitulado _Philippus Prudens_.

Pois não obstante este villanissimo testemunho da sua indignidade, ousou D. Luiz apresentar-se ao embaixador portuguez, encarregando-o de perguntar a D. João IV se poderia voltar á patria, e á posse dos bens de seus avós.

D. Francisco de Mello fez a pergunta a D. João IV que respondeu d'est'arte: «Perguntas d'essa natureza não se fazem.»

Mas, como D. João IV soubesse que Sebastião Gomes de Vasconcellos vivia amigavelmente com o neto de D. Antonio, recusou tambem recebel-o em Portugal; e, quanto á restituição dos bens, disse que não podia tiral-os ás pessoas a quem Philippe II os dera, porque se considerava obrigado a premiar os filhos d'essas pessoas, dos quaes fôra bem servido na sua acclamação.

A resposta era infame porque não era sincera; e, ao mesmo tempo, injuriava os que haviam trahido a patria, recebendo como paga os bens dos Vasconcellos, e injuriava os filhos d'esses traidores que tambem atraiçoaram a casa de Hespanha que lhes enriquecera os avós e os paes.

Sebastião Gomes supportou corajosamente este golpe, que ainda não devia ser o ultimo. Um dos seus amigos mais valedores era um residente que D. João IV mandára a França: Manoel Fernandes Villa-Real. Aproveitemos a descripção de mad. Sainctonge qual ella ouvira de sua filha: _C'etoit un homme d'un agreable commerce; il n'avoit rien dans l'humeur de ceux de sa nation; son esprit étoit d'un caractere à le faire beaucoup d'amis; aussi tous les gens de qualité et de bon goût se faisoient un plaisir de le voir; on étoit charmé de son air ouvert et de ses manieres aisées; tous ses dehors etoient d'un parfaitement honnête homme et on ne pouvoit le connoitre sans l'estimer_[20].

Manoel Fernandes de Villa Real tinha casado em Rouen com a filha de um portuguez opulento, israelita, escapulido ao santo officio. O residente de D. João IV não era--diga-se verdade--mais sincero christão que seu sogro.

Em compensação era intelligentissimo. Tinha escripto, em defeza dos direitos de seu rei, o _Anti-Caramuel_, que o leitor conhece. Era poeta. Fazia versos francezes, que o leitor encontra em uma collecção de elegias á _Memoria da snr.ª D. Maria de Athayde_. Como illustrado, ria-se dos sermões bordalengos do padre Francisco de Santo Agostinho de Macedo, prégados nos pulpitos de Paris, com descredito nacional. Censurava as baixezas que o mesmo ex-frade praticava, agenciando dinheiros com torpes pretextos. Era um homem de bem, quanto póde sêl-o um incircumciso, como o leitor e eu.

Quem o denunciára de judaisante para Portugal fôra o padre Macedo, attribuindo-lhe simultaneamente a redacção de uns papeis enviados ao cardeal Richelieu, e adversos a D. João IV.

De repente, é chamado Manoel Fernandes á presença do rei de Portugal. Contristou-se na hypothese de que ia ser substituido, depois de tão briosamente haver procedido no serviço d'el-rei. Os sustos de Sebastião Gomes anteviram mais negro desenlace. Aconselhou-o o ancião que não viesse a Portugal, pois era casado e rico em França, e tinha inimigos conjurados a perdêl-o.

Não o demoveram o amigo, a esposa e os filhos.

Partiu, quando Sebastião Gomes dizia á filha: «Elle se arrependerá; mas tarde.» Figueiredo sabia que o seu amigo era christão-novo; mas esta denominação terrivel tanto lhe confragia a alma que nem á filha a denunciou.

D'ahi a pouco tempo, o novo residente, que voltou a Paris, levou a triste nova de que Manoel Fernandes Villa-Real estava nos carceres da inquisição processado como judeu, e não muito depois soube que o seu amigo fôra condemnado á morte de garrote, e queimado no dia 10 de outubro de 1652[21].

Alquebrado pela decrepidez, Sebastião Gomes ainda achou um amigo no residente que substituira Manoel Fernandes.

Era aquelle Duarte Ribeiro de Macedo cujas cartas impressas o meu leitor illustrado conta em o numero dos seus mestres de bem escrever. Nos braços d'elle, e de sua filha--esposa de um cavalheiro illustre, pai da escriptora de Sainctonge--expirou o irmão do heroe da Terceira, aos noventa e sete annos de idade.

Que recordações revoluteariam n'aquella alma! Que synopse de immensas angustias! Como veria elle desdobrarem-se noventa annos de recordações, desde a infancia de D. Sebastião, através da catastrophe de Alcacer, dos heroismos dos Açores, dos sessenta annos de esforços vãos contra a pobreza amparado pela honra do nome portuguez, e por fim... morrer alli, ás sopas de estranhos, porque D. João IV lhe dissera:

«Morre de fome, que eu não vou tirar os teus bens aos filhos dos que venderam a patria!»

[10] Assim subscreve a approvação do testamento de D. Antonio, e assigna uma carta a Philippe II que ao diante se lerá.

[11] _Historia de Portugal..._ t. II, pag. 602. D. Antonio nomeou Scipião de Figueiredo conde de S. Sebastião--accessorio que nenhum escriptor menciona, senão Caramuel (_Philippus Prudens_, pag. 302), que tratou com singular benevolencia os partidarios de D. Antonio, por entender que nenhum contrapeso faziam na balança em que Philippe III, em 1689, no ultimo anno do seu reinado, mandava pesar os seus direitos.

[12] A carta e resposta de Scipião de Figueiredo possuimol-as na collecção de _Ineditos_ de D. Manoel Caetano de Sousa. Nos historiadores apenas encontramos noticia perfunctoria de haver sido tentado o suborno do governador pelo principe de Eboly.

Estas cartas foram impressas em uma apologia de D. Antonio, escripta por Scipião de Figueiredo contra D. João de Castro. Na duvida em que estão os bibliophilos sobre a authoridade d'essa apologia decide João Caramuel no seu _Philippus Prudens_, etc. pag. 171 e 172, na lista dos authores que escreveram a favor de D. Antonio: _Cyprianus de Fuigueredo... sed Scipio... publicavit Epistolam, quã notas facit Philippo II, caussas quibus movebatur ut individuus comes non desereret ipsum Antonium, cui ab annis pluribus in honor e maximo servievat. Édidit etiam Apologiam pro Antonio contra D. Joannem de Castro, olim ex Antonianis, etc._

O titulo do livro que o cisterciense Caramuel denomina «apologia» é _Reposta que os tres estados do reino de Portugal, a saber Nobreza, Clero e Povo, mandaram a D. João de Castro, sobre um discurso que lhes dirigiu sobre a vida e apparecimento d'el-rei D. Sebastião_ (s. l.), 1603, 8.º Diz o snr. Innocencio que entre pag. 75-80 está a carta que este dirigiu a Philippe II. Não sei se alli se encontra a carta que Philippe lhe enviou por Gaspar Homem. Este livro é um dos rarissimos da livraria portugueza.

[13] _Historia de Portugal_, l. c.

[14] _Histoire secrete de Dom Antoine roy de Portugal_, pag. 101.

[15] Veja tom. II das _Provas da Historia genealogica da real casa portugueza_, pag. 537 e seg.

[16] Veja a _Lettre du roy Henry III au duc de Mercueur_ (sic) a pag. 120 da _Histoire secrete de Dom Antoine_, por mad. de Sainctonge.

[17] Diversifica da primeira importancia da pedra a outra menor que lhe dá a escriptora franceza. Mr. Edouard Fournier extrahiu a noticia das _Memoires de l'Estoile_ por Lenglet Dufresnoy. Veja _Un prétendant portugais au XVIme siecle_, par Edouard Fournier. Paris, 1852.

[18] Parece que D. Antonio já em Londres, no anno de 1582, empenhára ou vendera um brilhante de mais quilates. No _Museu Britannico, Bibliot. Cottoniana_, fol. 295. Nero, B. I. ha um diamante que o S. F. F. de la Figanière descreve assim:

«Carta, em inglez, do proprio punho de lord Burghley, dirigida á rainha Isabel, na qual, em conformidade das ordens que lhe haviam sido transmittidas pelo conde de Leicester, dá a sua opinião sobre o destino que deveria ter o grande diamante de D. Antonio (prior do Crato), o qual estava em poder do mesmo conde, como penhor pelo dinheiro emprestado a D. Antonio por certos negociantes inglezes, que instavam muito pelos seus creditos, julgando lord Burghley, que, em attenção ao seu grande valor, seria conveniente que a rainha embolsasse os ditos negociantes, ficando com o diamante como penhor da quantia emprestada, etc. Esta carta tem apenas indicado o anno de 1582. Consta de uma pagina. Lord Burghley pede desculpa da carta que envia á rainha por soffrer muito da perna, e haver-se-lhe exigido resposta immediata. Com effeito parece antes um borrão do que uma carta que se dirigia a uma soberana.»

A venda do outro diamante em Paris é posterior alguns annos.

[19] Em um dos proximos numeros darei noticia laboriosamente averiguada dos descendentes de D. Antonio.

[20] _Obra cit._, pag. 234 e seg.

[21] A pag. 182 e seg. do romance intitulado _Olho de vidro_ vem integralmente publicada a sentença da inquisição. Nos _Manuscriptos addicionaes_ do Museu Britannico, n.º 15:170, fl. 243 v. ha um soneto de Manoel Fernandes Villa-Real escripto no carcere do santo officio. (Figanière, _Catalogo_, pag. 284).

O NARIZ

Na poesia moderna tem adquirido bastante importancia o nariz.

E, posto que a época vá muito de idealismo, repara-se mais nas ventas que nas faculdades moraes dos personagens epicos.

É certo que o nariz tem servido para formar maximas e aphorismos no regimen social, na sciencia chamada _ethica_--sciencia de que ninguem falla desde que a educação da mocidade passou a _tisica_ com apparencias de _hydropica_.

Tudo esdruxulo.

Do nariz inferiram os observadores certos signaes de qualidades do espirito, e formaram anexins e regras que ainda vigoram, e já vem dos gregos, os quaes tambem tiveram nariz--(_nira_), por anagramma _nari_.

Em portuguez, ha muito proloquio sobre nariz e ventas.

Camões, querendo indicar a alegria na rubidez de um nariz a reçumar bom sangue agitado pelo jubilo, cantou em termos altos:

Tem vermelho o sangue do nariz.

«Ter cabellos na venta».

«Dar com as ventas n'um sedeiro».

«Não ver um palmo adiante do nariz».

Conhecem tudo isto.

«Nariz de cêra»--a musa dos tribunos, a inspiração dos prégadores, a rhetorica dos romancistas.

«Senhor do seu nariz». Nem sempre. Ás vezes os poetas fazem-nol-o propriedade sua.

«Nariz de palmo e meio»--imagem que exprime a embaçadella--ou, á franceza--o desapontamento. Exemplo: o leitor, no fim d'este bonito trabalho.

«Chegar-lhe a mostarda ao nariz», etc.

O cão tambem collabora nasalmente n'estas analogias: «É sebo em nariz de cão».

* * * * *

Em cima, disse eu que o nariz tem adquirido bastante importancia na poesia moderna.

Justifica-me um brilhante livro, que está no coronal das modernas publicações.

É _A morte de D. João_, do snr. Guerra Junqueiro, uma verdadeira flôr entre os espinheiros da nossa charneca litteraria.

D. João VIII, em sonho, os phantasmas das mulheres que desgraçára. Algumas

_... que foram lirios juvenis, Já carcomidas pelas larvas frias, Caminhavam sem olhos, sem nariz._

Reduzido a miseravel histrião e cornaca de ursos e dromedarios, D. João

_Possuia um nariz vermelho, incendiado._

Não era de certo o nariz vermelho, acceso pelo jubilo, de que falla o Camões.

Mais abaixo, o mesmo D. João, no deplorativo dizer do snr. Guerra Junqueiro,

_Cheirava muito a alho E tinha no nariz verrugas biliosas._

Elle mesmo, o escalavrado amante de Imperia, exclama:

_Tornou-se-me o nariz esqualido purpureo Por causa das paixões e do ultra-romantismo._

Faz pena o diabo do homem!

E, para fecho de desgraça, quando está nas ultimas,

_O seu nariz purpureo É uma esponja de carne a distillar mercurio._

Por onde se vê que a poesia moderna tira grande partido do nariz, já cortando-o, já alongando-o, umas vezes enverrugando-o, outras vezes esponjando mercurio d'elle, consoante lhe convém.

Não é completamente novo isto.

Em Portugal houve sempre esta mania de fazer litteratura nas ventas das pessoas dotadas d'esse orgão com saliencias extraordinarias.

No fim do seculo XVII, galhardeavam grandemente os poetas n'esse genero. Eu, entre os meus papeis, tenho um poema consagrado a um nariz, em que não havia verrugas nem azougue; mas sim uma grandeza magestosa e limpa. Veja o leitor se acha graça a isto:

A UM NARIZ GRANDE

Tratava de encarecer-vos; porém logo (ó caso estranho!) vos achei, nariz, tamanho, que não pude comprehender-vos.

Que sois nariz tão fatal, em ser comprido, e ser grosso, que n'um reconcavo vosso se escondeu um arraial.

Alguem vos chama infinito; mas eu, que em razão me fundo, as quatro partes do mundo sei que são vosso districto.

Pareceis cá baluarte dos chinas, bem que o venceis, e com Deus vos pareceis, porque estaes em toda a parte.

E um velho da Saxonia diz vos viu mui grande espaço servir, nariz, de compasso da torre de Babylonia.

Mas affirma quem se humana mais nas vossas maravilhas, que tendes as trinta milhas da ponte do Guadiana.

Que sejaes, senhor nariz tão comprido e tão fatal, que já cá de Portugal cheiraes na Arabia Feliz.

Que sois o farol do Egypto que toma de mar a mar, se se póde comparar finito com infinito.

E jurou certo moderno (não diga elle algum desmancho) que podeis servir de gancho que tire as almas do inferno.

E que, se nos horisontes, nariz, vós nascereis d'antes, escusaram os gigantes de pôr montes sobre montes.

Bem podeis, senhor nariz, estar onde mais quizerdes; mas, se ao sol vos pozerdes, fareis logo ser sol-criz.

A vós, nariz, o gran monte do Parnaso se assemelha; pareceis arco da velha que toma todo o horisonte.

E dizem quatro juizes, segundo a sentença diz, que tiram de vós, nariz, a massa dos mais narizes.

Inda que estar queiraes só, vos verão, em que vos pez, que tamanho Deus vos fez como a escada de Jacob.

E assenta certo moderno, no que acerta, quanto a mim, que sois sem principio e fim, e que sois, nariz, eterno.

Ao arraial do Maluco daes n'uma venta estalagem; e podereis dar passagem de Lisboa a Pernambuco.

Para que el-rei se desvela? Se el-rei quer estar seguro, ponha-vos, nariz, por muro entre este reino, e Castella.

A vós só, nariz, se deu pena eterna, e gosto eterno; que tendes posto no inferno um pedaço, outro no céo.

Ha no mundo narigote, ha nariz, e narigão, houve nariz de Sansão, e nariz de D. Quixote.

Sois nariz archi-potente, porque só vós assombraes do Occidente, onde estaes, os narizes do Oriente.

D'onde, nariz, presumi chamar-vos gran narigão; porque sei que ha ahi gran Cão, que ha gran turco, e gran Sophi.

Se não se póde alcançar nunca a medida do mundo, nem nunca ao mar se achou fundo, vós, nariz, sois mundo e mar.

Parece, quando espirraes, (cousa para o mundo nova!) Eolo que sahe da cova com todos os ventos mais.

Eras bom n'uma fronteira; que d'essas ventas o vento é pelouro mais violento, que de bombarda, e roqueira.

Outros, encontrando a fé, dizem atrevidamente que em vós se salvou mais gente que na arca de Noé.

E em fim sois, porque conclua, nariz tão mal ensinado, que vos viram cavalgado então nos cornos da lua.

Do sol dizem que enfiava; da lua, que então gemia; e do céo, que estremecia co'o peso que sustentava.

Sois mór que a serra da Estrella; porque eu vi por uma venta vossa, na maior tormenta, passar um navio á vela.

Esse rosto deshumano onde pôr-vos o céo quiz, chama-se cento-nariz, como o outro centimano.

E de quem n'elle vos pôz saber me dera gran gosto, se andaes vós, nariz, no rosto, ou se o rosto anda em vós.

Bem que o rosto é cousa rara de maneira que só diz tal cara com tal nariz e tal nariz com tal cara.

Da limpeza foreis centro, se vós deixareis entrar cem mil homens, a limpar as furnas, que lá vão dentro.

Mas ser sujo não me espanto; pois jámais vos assoastes, nariz, porque não achastes, linho que abrangesse a tanto.

Para a India uma nau ia, eis que um peixe se levanta no mar, de grandeza tanta, que a nau á vela cobria.

Eram tudo paroxismos na nau, tudo estremecer, quando lhe mandam fazer por um padre os exorcismos.

Mandou-lhe n'este comenos o bom padre, que a nau deixe, e o que criam que era peixe, era o demo, quando menos.

Entrou-me no pensamento mandar-vos exorcismar, sómente por alcançar se sois nariz, se portento.

Que nariz não pareceis; e, pelo rosto em que estaes, a nariz assemelhaes, e no rosto não cabeis.

Salvo, nariz, se sois tal, e de tão má condição, que ides comer ao Japão, e purgaes em Portugal.

_Etc. etc._

Posto isto, em quanto o leitor boceja nos preliminares de um agradavel somno, apresso-me a dizer-lhe que não está no meu animo detrahir nem menoscabar a seita poetica, a hoste da Idéa Nova em que o snr. Guerra é o alferes da bandeira. Gosto do nariz de D. João; e, quanto ás verrugas biliosas e á distillação de _licôr de Van-Swieten_, prefiro estes narizes pôdres das pessoas afflictas aos narizes de cêra dos litteratos.

JOÃO BAPTISTA GOMES

Conhecem perfeitamente o famoso author da _Nova Castro_.

Seria opprobrio desconhecerem o poeta portuense, honrado na Allemanha ha trinta annos, desde que Alexandre Wittich traduziu a tragedia de Ignez.

João Baptista Gomes, filho de outro de igual nome e appellido, foi guarda-livros no Porto. Casou com uma formosa menina, D. Anna Benedicta Gomes. Morreu na flôr da idade em 20 de dezembro de 1803. Nos braços da sua viuva--que contava vinte e quatro annos--deixou uma menina, D. Thereza Benedicta que veio a ser esposa do dr. José Machado de Abreu, que morreu barão de S. Thiago de Lordello.

A viuva do poeta felleceu em 1844, aos sessenta e seis annos de idade. A bisneta do author da _Nova Castro_, D. Maria Ismenia de Abreu, ainda vive, casada com o snr. Guilherme Francisco de Almeida e Silva, coronel de cavallaria. O dr. José Machado de Abreu, reitor da universidade e barão de S. Thiago de Lordello, contrahiu segundas nupcias. A exc.ma baroneza, que enviuvou na flôr dos annos, casou com o snr. conselheiro Adriano de Abreu Cardoso Machado, tão notavelmente respeitado nas boas letras, como na politica militante, á qual não chamo tambem _boa_, para me forrar a contendas com os que militam na politica diversa.

João Baptista Gomes, ainda em fevereiro do anno em que morreu, levado de generosa inspiração, escreveu um _Elogio aos cidadãos do Porto_, concorrentes a um beneficio destinado a suavisar a desgraça dos presos. Foi o Elogio recitado no real theatro do Principe na noite de 16 de fevereiro de 1803. Esta poesia inedita não é talvez a unica reliquia desconhecida d'aquella forte, dado que inculta intelligencia, da qual Garrett escreveu: _Atalhou-o a morte em tão illustre carreira, e deixou orphão o theatro portuguez, que de tamanho talento esperava reforma e abastança._ Por ventura, no espolio de sua viuva, se encontrariam as paginas soltas da historia dos seus reciprocos amores, e, talvez, as fatidicas tristezas da morte que empeceu ao desabotoar das vergonteas d'aquella poderosa phantasia. Como quer que seja, desde que João Baptista Gomes se extinguiu, raras vezes as honras posthumas lhe enverdeceram a gloria na lembrança dos vivos, nem alguem se lembrou de lhe estremar os ossos sepultados na igreja de S. Francisco.

No _Elogio_ aos portuenses, ha versos de profundo sentimento, de elevado conceito, e dos mais condimentados com as especies arcadicas d'aquelle tempo.

Queiram-lhe bem os portuenses ao seu poeta, e inscrevam mais este nome no numero dos que, depois de cantarem duas ou tres primaveras, quebraram a lyra na pedra do sepulcro. Que mysterio haverá n'esta ceifa da morte, n'este golfão que tantos cerebros grandes e ardentes dissolve na leiva dos cemiterios?--Coelho Lousada, Evaristo Basto, Soares de Passos, Arnaldo Gama, Ernesto Pinto de Almeida, Guilherme Gomes Coelho, e ainda hontem o maximo entre os melhores, Guilherme Braga!...

* * * * *

João Baptista Gomes, dez mezes antes de se arrancar não sei se ás alegrias, se ás amarguras da existencia, pedia esmola para os encarcerados, e deixava aos seus portuenses talvez os derradeiros sons da sua harpa.

Dizia assim: