Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 11 (de 12)
Chapter 2
Como que, com a idade tudo cança e nos esquece, afóra só a maldade, que esta sempre prevalece.
5
Homens bons de muito ser n'esta terra haver sohia; ainda os ha; mais haveria, se os deixassem viver.
6
Os que mettem pelos portos mercadorias defezas, com que os mortos são mortos e os vivos são suas prezas,
7
Esses no reino metteram mentiras e judiarias, baixezas e hypocrisias que toda esta terra encheram.
8
E tanto quê, mór valia tem já isto em Portugal que droga, cravo e tincal, nobreza e cavallaria.
9
Mas de um, que tudo pende[1], vos direi, senhor, um pouco, em que me tenhaes por louco; que Deus calar me defende.
10
Pois dá brado sem cessar-- diz Izaias--e canta; como trombeta, levanta tua voz sem descançar.
11
E elle, que tudo é, tudo nos salva pela tenção! Vêr eu tanta perdição me faz fallar, sendo mudo.
12
E eu, com esta ousadia, o direi, porém com febre, que em sua physionomia vereis melhor que tem lebre.
13
Convenho no que se diz: Dês que o mundo se criou, aquelle a quem Deus bem quiz no rosto lh'o amostrou.
14
Após isto, no cabello, na sombra tão infernal; de estopa de ruim pello nunca se fez bom sayal.
15
As sobrancelhas hirsutas maiores que abebedouro, no meio da testa justas, signal é de mau agouro.
16
Olheiras por meio rosto, olhos tristes, embaciados, risinhos falsos, sem gosto, pensamentos esfaimados.
17
Esfaimados de cobiça, de soberba e de inveja, de quantos males atiça quem todo o mundo deseja.
18
Esfaimado de suspeitas, enganos e falsidades, e palavras contrafeitas onde nunca entrou verdade.
19
Esfaimado por lançar o reino e terra a perder, o preço, a honra, e o ser dos que são para estimar.
20
Esfaimado e esfaimado por acabar de roubar honra, fazenda e estado de quem isto lhe foi dar.
21
Ente do seu parecer, nas obras do tanta perda, parentesco deve ter co' ladrão da mão esquerda.
22
É um sem fundo, adverso da direita e do envez, em ser ruim e perverso da cabeça até aos pés.
23
Do qual ousei affirmar, a um seu (ninguem se espante) pardelhos e calcanhar são mores que por diante.
24
São de ladrão calcanhares, dizem todos a uma voz, faz com ratos nos altares mais lavoura que na foz.
25
Té quando, pois, durará, Senhor, tão cruel engano, sortido em tanto damno, trinta e tres annos ha!
26
Ponhamos em termos isto, vejamos quem tem razão, seja juiz Jesus Christo em quem não ha suspeição.
27
Vossa alteza que achou n'este homem feito empelado, que assim se apoderou de si e do seu estado?
28
Entregues á sua vontade d'onde dependem as leis, tudo podem dar os reis, salvo sua liberdade.
29
Este, tudo tem de vós, com que se fez soberano, ingrato, cruel tyranno, a Deus, a vós e a nós.
30
Este, a mais sobre todos, este credes desde a...[2] este tem comvosco os modos de D. Alvaro de Luna.
31
Senhor, que engano é este? como não fugis d'este homem de que tantos outros morrem por ser o seu mal de peste?
32
Que só dous, tres dias, dura qualquer outro em vossa graça, logo de vós a rechaça sua levação[3] sem cura.
33
Não podem ser todos maus; elle só é virtuoso, sendo, á fé, falso raposo todo cheio de _desvaus_(?).
34
Faz quanto se lhe antoja; e diz, quando adoece: «Quem me visita, me enoja, Quem o não faz me aborrece.»
35
Olhai lá pelo virote! Amaes-lhe os cabellinhos? Criai-lhe bem os filhinhos, governai por este norte.
36
Em qualquer outra pessoa passára isto por graça; que quem não tem cousa sua, ponha os seus bofes na praça.
37
Malditos sejam os pais que geraram tão má cousa, de que todos dão mil ais, e nenhum fallar não ousa!
38
Por terem reconhecido ser de vós apoderado, como Deus é adorado, como o diabo é temido.
39
Dai ao demo este diabo, dai este diabo ao demo! Não é bom, não vol-o gabo, de governalho e de remo.
40
Não se lhe sabe virtude, não viu leão nem pelejou, nem mortos resuscitou, dos vivos tolhe a saude.
41
Pois que milagres são estes, que siso, que discrição, pois que assim lhe concedestes o da vossa jurisdicção?
42
Se elle fôra sisudo e discreto em seus modos, não governára elle tudo, e mais com dolo de todos.
43
É da gloriosa lei, que a todos nós ensina, imigo, e de Deus e Rei ante quem todos malsina.
44
Se vos tem amor ou não, não é texto de Hipocrás; as obras vol-o dirão, não cureis dos seus _salás_[4]
45
que são figuras, e basta, villãs reverenciaduras com que vos caçou e arrasta por nossas desaventuras.
46
Que o criado verdadeiro que tem verdadeiro amor, mais que o seu, e primeiro, sente o mal de seu senhor.
47
Nos conselhos, vossa alteza em elle sómente crê; sendo tudo na grandeza da perdição que se vê.
48
Por seu conselho casou a princeza em Castella[5]; vêde como Deus livrou este vosso reino d'ella.
49
Por seu conselho deixastes quatro lugares aos mouros[6]; verdade é que poupastes com isso grandes thesouros.
50
Mas por seu procurador poz Deus boas contraditas, que não fizessem mesquitas nos templos do Salvador.
51
Ao duque poz suspeição; que sempre em tudo procede por ser parente d'Abrahão e tambem de Mafamede.
52
Que como homem antigo parece que lhe sabia a sua genealogia, que é esta que aqui digo:
53
Mestre João sacerdote, de Barcellos natural, houve de uma moura tal um filho de boa sorte.
54
Pero Esteves se chamou, honradamente vivia, por amores se casou com uma formosa judia.
55
D'este (pois nada se esconde) nasceu Maria Pinheira, mãi da mãi d'aquelle conde, e sua avó verdadeira[7].
56
Vêde se era bem provada esta sua suspeição; mas não aproveita já nada onde sobeja a affeição.
57
E com juiz tão suspeito, mal inclinado, teimoso, desalmado, cubiçoso, todos perdem seu direito.
58
Farto trabalho receio lhe faz tal sentença dar: christão e sisudo meio para o meu aproveitar.
59
Antepor a Deus fazenda receio, e maior trabalho; nunca já será atalho mas rodeio sem emenda.
60
Veja isto vossa alteza nas cousas que tal causaram, pois que todas se dobraram e muito mais a pobreza
61
E como, para poupar gastos, se faz a tal obra, Ai! da nação que sossobra, e dobra-se o individar.
62
Em os taes conselhos vãos verá o mais a que veio; nascerão mil de um receio de mouros aos bons christãos.
63
O trabalho era d'além em meritoria guerra; agora, a além e áquem, em todo o mar e na terra.
64
Vós, senhor, não tenhaes pouca culpa n'este feito; peço-vos tudo gemaes sempre dentro em vosso peito.
O author da satyra era o proprio Damião de Goes, que ajuntára a copia ao seu nobiliario; e o portador d'ella a D. João III fôra um familiar do conde da Portella, inimigo do conde da Castanheira. Assim m'o assevera o padre D. Manoel Caetano de Sousa, aquelle doutissimo theatino, cujas 289 obras em varias linguas catalogou o conde da Ericeira, no livro intitulado _Bibliotheca Sousana_[8].
Entre os manuscriptos que tenho do insigne academico está a satyra copiada com mais razoavel orthographia da que Damião de Goes interpozera na genealogia do conde da Castanheira.
_Formosa_, lhe chama elle. A mim me não quiz parecer cousa para mediana admiração. A escóla de Sá de Miranda não póde gabar-se de mui notavel alumno no engenho de Damião de Goes; todavia, mais como documento historico, e pouquissimo como modelo de poesia, a considero dignissima da publicidade.
O esclarecido possuidor da satyra invectiva contra Damião de Goes alcunhando-o de detrahidor de alheios creditos. Eis a textual exprobração do clerigo:
_Tudo isto continha aquella formosa satyra de que se não sabem mais que as coplas 53, 54 e 55, as quaes malicia e inveja encommendaram mais á memoria por encerrarem em si falta que se transfunde na posteridade quando não é tão falsamente imposta como n'este caso. Cheias andam as Memorias dos genealogicos de argumentos que convencem de falta aquella impostura; aos quaes eu só acrescento que não quero maior prova de sua falsidade do que vêr aquellas coplas, entre tantas tão maledicas, que dizem de um só homem, e tão grande como aquelle conde foi, tantos defeitos que não cabem em tantos homens vis e facinorosos; e vêr que nas coplas 9, 10 e 11, quer o author com pouco respeito ás divinas escripturas attribuir a impulsos do Espirito Divino os que só são effeitos do espirito maligno que sem duvida levaria comsigo ao inferno o author das coplas, se elle antes de morrer se não desdissesse como se affirma que desdisse. E Deus que é summamente justo quer que aquelle mesmo conde, cuja descendencia, n'esta satyra, se emprehendeu infamar, tivesse uma mui esclarecida descendencia, cheia de varões insignes em santidade, letras, armas, dignidades ecclesiasticas e seculares as maiores que se podem conseguir em Portugal, como sabem os que tem menos que mediana noticia das familias d'este reino, na qual sempre os mais sisudos tiveram estas coplas por falsidade_[9].
Damião de Goes, em favores ou desfavores genealogicos, não era extremamente consciencioso. Quando recolheu das suas illustradas viagens, procurou Antonio Carneiro, secretario de estado d'el-rei D. João III, e entregou-lhe um papel em que demonstrava que a sua familia d'elle secretario descendia do duque de _Mouton_, de França, que aportuguezado dizia «Carneiro». O ministro sorriu-se de zombaria á destampada lisonja, lançou o papel, sem o abrir, ao brazido de uma chaminé, e disse a Damião de Goes:--«Contento-me com que os meus descendentes contem como progenitora a honra com que procuro viver sendo util ao rei e á patria.»
Antonio Carneiro bem sabia que não procedia dos _Moutons_. Era natural do Porto, e de familia honrada. Foi a Lisboa por dependencia que tinha de Pedro Fernandes de Alcaçova, escrivão da fazenda d'el-rei D. João II. Pedro Fernandes tanto se lhe affeiçoou que, além do prompto despacho, o convidou a ficar na côrte, empregando-o no expediente do seu officio. Como Antonio Carneiro fosse o encarregado de levar a despacho real o sacco dos papeis, n'estas idas ao paço, deu trela ao coração, e requestou D. Brites de Alcaçova, filha do seu protector, e dama da rainha. Casou-se com ella a furto; mas, publicado o delicto, foram ambos degredados para a ilha do Principe. Decorridos annos, as reiteradas supplicas da desterrada commiseraram o coração do pai. Veio Antonio Carneiro para o reino com sua mulher, e logo se habilitou para secretario do despacho universal de D. Manoel, revelando-se politico sagacissimo. Semelhantes honras lhe concedeu D. João III, e com ellas o senhorio da ilha do Principe, onde havia gemido degredado e pobre. Morreu aos 86 annos de idade, deixando larga descendencia.
Se leram _Damião de Goes, e a Inquirição de Portugal_, estudo biographico de Lopes de Mendonça, ou sequer a summariada noticia que escreveu o snr. Innocencio Francisco da Silva, sabem que o adversario do conde da Castanheira, denunciado pelo padre Simão Rodrigues, foi preso como lutherano nos carceres da inquisição, d'onde o mandaram penitenciar-se em reclusão austera no mosteiro da Batalha.
Concluido o prazo da expiação, quando já orçava pelos setenta annos, transferiu-se a sua casa.
Um dia--diz o snr. Innocencio, atido ao testemunho de memorias contemporaneas--o velho chronista d'el-rei D. Manoel foi encontrado morto, _quer de accidente apopletico, quer assassinado por domesticos ou estranhos_.
D. Manoel Caetano de Sousa refere que a maledicencia heraldica de Damião de Goes não despontára com a velhice, antes se afiára mais na pedra do rancor aos que elle suspeitava seus inimigos. O segundo conde da Castanheira, desforrando-se dos velhos e renovados ultrajes a Maria Pinheira, mandou criados seus moêrem com saccos de arêa o ancião no pateo de sua mesma casa; e de modo se houveram, que Damião de Goes apenas teve forças que o arrastassem á cama, onde se desprendeu da vida, e mormente da lingua que tantos trabalhos lhe custára.
Esta relação do theatino Sousa encontrei eu confirmada em um Nobiliario de Pinheiros, que pertence ao meu joven e illustrado amigo Vicente Pinheiro de Mello e Almada, filho do primeiro visconde de Pindella, e tambem descendente de D. Maria Pinheira.
Concluo rogando aos barões do meu conhecimento que me não façam moêr com saccos de arêa, se eu alguma vez lhes lembrar a tripeça dos avós. Eu lhes asseguro que, em suppostos casos, levo mais em vista nobilital-os que envilecêl-os pelo honrado trabalho de seus avoengos. Ainda assim, não está no meu animo--diga-se verdade--comparar ss. exc.as aos condes da Castanheira, nem confrontar-me a mim com Damião de Goes. Todos nós somos mais ou menos sapateiros nos baronatos e nas sciencias.
[1] Principia a desancar o valído.
[2] Palavra inintelligivel.
[3] Tumor.
[4] Zumbaias.
[5] D. Isabel. Casou com o imperador Carlos V, em 1525.
[6] Safi e Azamor foram abandonadas á mourisma em 1524. Em seguida, perdemos Arzilla.
[7] _Que é conde da Castanheira_, variante de Diogo de Paiva.
[8] D. Manoel Caetano de Sousa nasceu em 1658, e falleceu em 1734.
[9] A casa da Castanheira passou ao segundo marquez de Cascaes por herança de sua prima D. Anna d'Athayde, ultima condessa da Castanheira, fallecida no meiado do seculo XVII. Na casa de Cascaes succedeu a de Niza. E em ambas succederam o defunto snr. José Maria Eugenio e outros que medraram quando a casca do mundo antigo se poz do envez, e as heras absorveram a seiva dos troncos.
A MENINA PERDIDA
Em novembro de 1873 chegou a Braga uma senhora, que as suas criadas negras e o seu escudeiro inglez chamavam baroneza.
Vi-a no _Hotel dos dous amigos_. Figurava trinta annos, ou pouco mais. Feições fortes, duras; mas bonitas d'esta belleza rija das camponezas da Maia. Garbosa sem delicadeza nem a flexura da casta flebil e fina. Mulher a valer. Era o ideal de um morgado de Cabeceiras de Basto, que vestisse o seu ideal com os musculos e feitios da mulher menos corpulenta que a femea do elephante.
Entendi-me com o escudeiro inglez, ácerca de sua ama.
Viera do Brazil em agosto d'aquelle anno. Era viuva do barão de... Ipiranga--supponha-se que era de Ipiranga; mas não era. Quanto mais verdadeiros são os contos, mais forçosa e urbana é a mentira.
--É portugueza ou brazileira?--perguntei ao inglez.
--É portugueza.
--Que faz em Braga esta senhora? veio vêr o Bom-Jesus do Monte?
--Não, senhor. Anda a procurar a mãi; disse-m'o a sua criada grave.
--A procurar a mãi em Braga?! Como foi isso? Perdeu-se aqui a mãi, ou...
--Não sei como foi--volveu o escudeiro.
N'este comenos, entrou no hotel um meu amigo, que foi conduzido á sala, onde a baroneza tocava piano melancolicamente. Deteve-se algum tempo. Esperei-o, e perguntei-lhe que romance era aquella mulher.
--Um romance, com toda a certeza.
--É certo que esta baroneza procura a mãi?
--É, e encontrou-a.
--Então...--acudi eu tão incommodado com a escuridade d'aquelle caso como se me faltassem ao respeito, não m'o communicando previamente e em quatro palavras.--Então como é isso? A mãi quem é? onde estava a mãi? como se perdeu a mãi? como se encontrou a mãi?...
--Se a tua impaciencia consente, conversaremos de espaço--objectou o meu amigo;--mas peço á tua sofrega curiosidade que se contenha até á noite. Vou d'aqui ao recolhimento da Tamanca procurar um velha chamada Anna de Jesus, que é mãi d'esta baroneza. Já sabes quem é a mãi, onde está a mãi, como se encontrou a mãi. Depois te direi como se perdeu...
--A dita mãi? Pois até logo. Confio em ti.
* * * * *
Reduz-se a poucas linhas tudo que o sujeito me disse. A baroneza nascera em uma aldeia, visinha do Porto, á beira-mar, chamada Nevogilde. Seu pai era official-calafate; sua mãi era filha de um agricultor remediado. Os paes amaram-se, e propagaram _extra-matrimonium_, como diz o snr. professor e historiador Viale, quando dá noticia dos filhos bastardos dos reis. O artista safou-se para o Brazil. A menina ficou com sua mãi, que a teve comsigo até aos quatro annos, vestindo-a e alimentando-a com aceio e abundancia, em quanto lhe durou o producto de uns grossos cordões de ouro, que herdára d'uma parenta. Seus paes expulsaram-na de casa, e obrigaram-na a esconder-se com o escandalo da filha em outra aldeia proxima de Leça.
Quando se lhe exhauriram os recursos, Anna de Jesus foi servir para o Porto, deixando Amelia aos cuidados de uma gente pobre, a quem entregava mensalmente os seus salarios; porém, como não bastassem á alimentação da filha, resolveu entregal-a aos parentes do pai, que eram proprietarios em Mathosinhos.
Isto dizia a baroneza que lh'o referira o marido; mas não sabia contar como a levaram de Leça para o Pará, quando tinha seis annos. Lembrava-se de ter sido apertada nos braços de um homem, que fôra a bordo, e lhe chamára filha; que esse homem a levára para um collegio allemão, d'onde nunca mais sahira, senão aos dezoito annos para casar com um negociante rico, pardo e velho, que, ao depois, se fez barão.
Acrescentava que via seu pai no dia 1 de cada mez e que nunca lhe perguntára por sua mãi. E, por lh'o referir o marido, soubera que seu pai a não levava a casa, porque era marido de uma riquissima mulata, velha e doente, de quem esperava herdar tudo, a não intervir entre elles algum caso que irritasse o genio ferocissimo da esposa. Mais dizia a baroneza que a mulata acabou os seus dias antes de acabar a paciencia do marido, e o instituira herdeiro; mas, como lhe tinha empeçonhado o sangue, pouco lhe sobrevivera o viuvo. D'onde resultou ficar Amelia opulenta herdeira, sob a tutela do paraense que a fez sua mulher. Concluiu, finalmente, a baroneza, mostrando ao meu amigo de Braga dous numeros do _Periodico dos Pobres_, do Porto, de agosto de 1845, os quaes ella encontrára nas gavetas de seu pai, e d'onde inferira o pouco que sabia do seu nascimento, e se lhe afervorára o filial desejo de procurar sua mãi, e afortunar-lhe os ultimos annos, se ella, por ventura de ambas, existisse.
Mostrou-me o meu amigo os dous numeros do _Periodico dos Pobres_, que diziam assim:
«MENINA PERDIDA.--No dia 31 de julho pelas 8 horas da noite appareceu batendo a uma porta na rua de Sant'Anna, freguesia de Mathosinhos, uma linda menina, de idade de 4 annos, branca, bem nutrida, cabello louro liso, com uma trança de perto de um palmo, olhos grandes azues, vestido curto de cassa riscada de vermelho, guarnecido de trancelim; calça de paninho branco com dous entremeios de renda; saia de paninho, e outra de baeta de algodão; collete de atacador de linho; chapéo de papelão coberto de sêda verde; sapatos de duraque cinzento acoturnados com botões ao lado, meia comprida de linha, ligas de fitas de nastro cosidas nas meias;--diz chamar-se _Amelia_, e que a mãi se chamava _Anninhas_, a qual vivia com um _snr. Antonio_. Esta criança foi vista ás 6 horas da tarde na estrada de Mathosinhos na companhia d'uma mulher de mantilha e vestida de preto, e um individuo de pouca idade vestido de calça e jaqueta azul e boné.
«Estes individuos haviam convidado uma mulher para levar a criança ao collo até Mathosinhos; como elles fossem ficando muito para traz, dando a entender desejarem livrar-se da criança, a mulher desconfiou d'alguma cilada, e os obrigou a tomarem conta da criança. Convidaram então um rapaz a quem prometteram 50 reis, o qual a levou ao collo, até que, vendo-se de repente abandonado dos ditos individuos, a deixou no lugar indicado e fugiu. A criança diz que a sua casa é perto do rio; que continuadamente via barcos; que ia aos banhos com a mãi; que fugia para a ponte do rio; e que o snr. Antonio ralhava; que brincava com outra menina que morava no andar de baixo, chamada Julia, a qual tinha bonecos para brincar, etc. Suppõe-se que tinha sido furtada a seus paes, ou por elles abandonada, e por isso se publica este facto para conhecimento de quem pertencer; a criança está em poder do actual administrador do concelho de Bouças em Mathosinhos.»
Até aqui o numero de 3 de agosto. Segue o numero de 6:
«No dia immediato áquelle em que a menina foi encontrada, achou-se atraz da parede n'um campo uma trouxa de roupa de criança, e uma carta; foi tudo apresentado ao administrador do concelho, que pelo seu conteúdo descobriu a historia d'aquelle acontecimento, os nomes dos paes e parentes, etc. Era remettida pela mãi aos parentes do pai, por este se achar ausente no Brazil, e pela falta de meios que ella tem para se sustentar, acrescendo achar-se enferma. Parece que os parentes a não quizeram receber, e que o rapaz que a conduzia, voltando ao lugar da estrada de Mathosinhos d'onde havia deixado os individuos que lh'a haviam entregado, não os encontrou, e, temendo comprometter-se, a lançou n'um campo com a trouxa e fugiu.
«O administrador do concelho obrigou a familia do pai, residente em Leça, a tomar conta d'ella, o que teve lugar no dia 3 do corrente á noite, em quanto se não descobre onde pára a mãi para se verificar até que ponto sejam verdadeiros os factos de que se faz menção n'aquella carta. Varias pessoas teem querido tomar conta da menina; porém isto não tem podido ter lugar em vista do que fica exposto, e porque os parentes do pai estão em circumstancias de podêl-a sustentar.
«Consta ultimamente que a mãi fôra para Braga, chama-se _Anna de Jesus Lima_, tem sido criada de servir em algumas casas d'esta cidade.»
Na margem do jornal, onde está escripto: «diz chamar-se _Amelia_, e que a mãi se chamava _Anninhas_, a qual vivia com um snr. _Antonio_»--o pai da baroneza, sublinhando o nome appellativo _Antonio_, escrevera umas palavras que estavam cancelladas e inintelligiveis. O mesmo succedia mais abaixo, no ponto em que se diz: «que fugia para a ponte do rio, e que o snr. _Antonio_ ralhava.» Parece que este «Antonio», commentado á margem, explicava o silencio do marido da mulata a respeito da mãi de Amelia. Eu não sei nada positivo a tal respeito, nem formei ainda opinião com que possa alumiar a vereda de ulteriores pesquizas.
* * * * *
O que sei é que no recolhimento da Tamanca existia, desde 1855, Anna de Jesus, como criada de uma velha fidalga que para alli entrára em 1834, obrigada pela moral que a condemnára a expiar na clausura uns amores de gran vilta para seus avós. Sei mais que Anna de Jesus sahiu do convento sem verdadeiramente saber a razão porque sahia, pois lhe disseram que ia tratar com os seus parentes a restituição da legitima que lhe haviam extorquido. Que foi recebida no quarto da baroneza para quem olhou com respeitoso assombro vendo-a coberta de velludo e pelliças de varios feitios. E que, ao vêr-se abraçada por aquella senhora, rodeada de pretas, e lhe ouvira pronunciar a palavra _mãi_, perdera os sentidos, e os recobrára, dizendo extravagancias. Finalmente, como a felicidade não faz endoudecer ninguem--para se não parecer com a desgraça--Anna de Jesus, remoçada, alegre até ás lagrimas, e a cuidar sempre que a sua vida era um sonho, foi para o Pará com sua filha, tão angelica, tão santa que lhe perdoou o desamparal-a do seu amor de mãi, por onde lhe adveio o acaso mais amparador da riqueza, que somma 1:000 contos, 500 da mulata do pai, e 500 do marido mulato.
E mais nada.
O HEROE DA ILHA TERCEIRA