Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)
Chapter 4
O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo do docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes se conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta, e comprometteram as suas almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu pensamento era só um, e a nossa morte o unico desenlace de todos os estratagemas. O ministro executor do barbaro decreto trepidou, e desde que chegamos a esta villa até o presente as suas combinações e ardis tem-se resentido da mesma canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a tyrannia converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de executar-se pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos authores, porque todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade de juramento, de crueis perseguidores de fieis, e de profanadores dos templos e de sua maxima santidade.
O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida pela heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por outros sete seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de briosas chronicas, que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta historia dos povos, e o precinto da catholica santidade e igualdade de todos os filhos e do mesmo Pai santo e commum no céo e na terra. As casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram perseguidas pelos nobres e falsos fidalgos: todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas de familia no fervor do nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo devaneio e pelo assombro do milagre, por ficarem em esquecimento e sem galardão do mundo e só com o grande e extraordinariamente mais real e verdadeiro do proprio som e merecimento: por esta razão faltam as estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as obscenas dos mais tredos e falsos pyrilampos.
Os seculos, que estão para succeder invocam a audaz cooperação do povo, e exigem que o novo heroe seja o mesmo comicio, e a centuria, que defender o templo e desvanecer o seu culto. É necessario que a Terra Santa reuna o povo mais digno, e que a authoridade e o poder divino unam o capitel e a cimalha do novo edifficio, e commandem a pureza da fé e a sua excellente doutrina com o mais sonoro e metallico alarido de desaggravo e de arguição. Todas as nossas instituições tendem ao valente ensejo d'esta restauração do povo para o fazer nobre e para o exaltar pelo martyrio e por meio da virgindade e da santidade da crença; a corrupção corre em veias e carcome o amago do tronco que apodrece e cahe: a nova arvore estende as suas raizes por todo o mundo e ha de cobrir com os seus copados ramos todas as plagas, e zonas da esphera: o castello que era do procere o do conde ou do rei e senhor, será de Deus e do padre santo, do fiel e do mais devoto e digno de seu sublime culto. Todos os heroes rivalisarão com os filhos de Javão, e dar-se-ha o premio ao que desvanecer maior virtude e sacrificio com mais encarecidas provas, e com mais heroico desinteresse.
O snr. D. Affonso Henriques vestia o talar ecclesiastico para fallar do pulpito, e para narrar as maravilhas de todas as suas victorias, se vinha ao reino algum rei ou principe estrangeiro convidado pelo desejo de estudar as nossas proezas e façanhas e para se informar do seu alarido: o grande monarcha não desejava fallar de assento sem subir ao pulpito, porque n'esta cadeira de verdade recebia as suas inspirações e mais fortes commoções e graças. Todos os estrangeiros estranhavam o monarcha, e o seu habito de paz, que era o talar, senão a batina de estudante: quando o viam subir ao pulpito alguns riam; depois que sentiam as commoções de sua eloquencia e persuasão louvavam o orador e choravam quando o orador chorava, commoviam-se e aplaudiam segundo o costume do tempo com tão fortes demonstrações e signaes, que chegavam a interromper o discurso. N'este emphase de sua justa admiração pediam ao rei que repetisse, e como nada levava estudado progredia ao acaso e sempre com o maior espanto e alarido deixava o auditorio, e corriam a tomar o seu supplicio e disciplina pelo desacato que os mouros commetteram em Ourique na occasião da batalha contra o Santissimo Sacramento, que estava na ermida de Nossa Senhora do Monte.
Qual é o povo perdido? é o gentio de todos os seculos; que corre com os que correm, que dorme com os que dormem, que se deixa corromper pelos corruptos e se faz perverso por falta de sal e de doutrina que o preserve e conserve. A sociedade de homens notaveis e dos falsos proceres correu atraz da illusão, e levou comsigo e arrastou o maior numero; vive no meio do fôro a parte sã e sensata. Quem acordará os dormintes e levantará do pó os que jazem feridos pela scentelha do maior erro e catastrophe? Só o Senhor nos póde acudir e soccorrer: levantai as vossas vistas, exaltai o vosso pensamento, fazei-vos fortes no reducto das vossas consciencias do desaggravo e esperai do santo alfageme o milagroso remedio e toda a sua recompensa.
Estes são os nossos sonhos. Pensava no sonho de Pharaó o santo José filho de Jacob, e só o Senhor alevantou o véo do mysterio, e deu ao mysterioso numero a sua santa e verdadeira significação. Ha sete peccados mortaes, e contra estes outras sete virtudes, mas vem primeiro os peccados ao mundo antes que venha o remedio da virtude que supprime o peccado correspondente: a sabedoria consiste em desvanecer a virtude para que não tenha lugar o peccado, que a escurece e affronta. Este terá sido o sonho e o constante pensamento da casa de Bragança no decurso de dezeseis gerações? é certo que só o Senhor nos concede o mysterio d'este desvanecimento e a sua gloria futura; venha o povo, e furte a virtude ao merito, e deixe a torpeza dos bens aos vis forasteiros, que surgem do inferno por tão negro e absurdo estipendio, e usurpação.
No meio dos seus sonhos e prophecias o santo rei d'Ourique previa e affirmava, que o seu successor da 16.ª geração havia de ser rei e papa, e era tão firme n'esta sincera e antecipada previsão, que algumas vezes via a propria figura, e se compadecia das tramas e desgraças que o haviam de perseguir, e dos males que haviam de sobrevir ao reino, e das heresias em que já o via e considerava submerso e como amortecido pelo diuturno interdicto e geral perdição. S. Affonso devia aos estrangeiros e ás cruzadas extraordinarios favores; o seu pensamento de grande estadista e o grande desejo que teve de ser util á santa causa da fé, fez com que pedisse e solicitasse de sua santidade um decreto para que o nosso reino fosse considerado reino da cruzada com todas as suas indulgencias que obteve a grande contentamento de todos os cavalleiros da cruz, e com grande desgosto e tristeza de todos os falsos monstros do culto, e membros podres da nobreza. Este decreto causou grande alarma, o povo defendeu a medida, que até os ecclesiasticos combatiam com muito alarido de fingido zelo pelo bem da Igreja. Este conflicto ameaçou o reino nascente, veio o nuncio de Roma, lançou interdicto, e triumphou o rei com o povo, porque seu coração era real e tão recto e justo, que não soffria a menor injuria do templo, e desaggravava os desacatos dos mouros com o mais cruel supplicio de seu corpo e quasi á vista do povo e para o edifficar como exemplo. A este tempo já muitos ecclesiasticos seguiam o ocio da paz e principiavam a gozar e appetecer as delicias de Capua: os simoniacos engordavam capões e perús para as festas do anno e deixavam nús os pobres, e desamparados os orphãos e as viuvas; que faria o rei? mendigar o soccorro do padre santo e a virtude de sua santa indulgencia e receber do Divino Salvador a inauferivel do futuro remedio e prophecia, e de Roma a anachronica certeza dos males que principiavam a devorar a santidade da curia e a corcomer o corpo d'aquella santa e bemfazeja arvore.
A prophecia é dada ao rei; foi David propheta e Salomão, Pharaó sonhava, e o rei até quando sonha deve prophetisar para que o povo descance e confie na sua sabedoria e providencia. Todos os prophetas tiveram honras reaes e de santos, recebiam corôa de martyres e eram mandados ao povo, ou por causa do povo aos seus reis e ministros do governo.
Se o rei for santo certamente ha de ser propheta; porque todos os reis legitimos são constituidos por causa do povo; e por isso bem decidiu a santa sé pontificia quando deixou o complemento da santidade de S. Affonso reservada para o computo da 16.ª geração: mas pareceu-nos que a ultima prova se devia presumir e dar por existente ou por verificada e cumprida como promessa divina, ou desnecessaria e superabundante.
Assim aconteceu sempre em Roma com o milagre d'Ourique; mas nem sempre o povo recebeu a fé viva d'este santo milagre: os que vivem da falsa opinião e exploram as más disposições erram e perdem as suas almas, e não cessam de condemnar as alheias; estes iracundos da propria alma tramam e conspiram com todos os aventureiros, para levantar o idolo de suas paixões e sensuaes appetites: não vos pareça menor o numero dos defensores da boa e santa causa, nem deis por perdida a mais arriscada e perigosa do juizo humano em quanto se conservar pura da fé, isenta de contagio, estrenua e airosa pela virtude do desaggravo, e pela mais sublime e divina da sua penitencia e martyrio: se fôr desvanecido por virgens, se não tolerar o desacato, nem a vil affronta do impio, nem o sarcasmo do judeu e do protestante, nem a simonia do falso e perfido, nem a atrophia das almas sem as marcar com o ferrete, e sem as entregar ao indefectivel juizo da santidade e da fé.
O nosso sonho foi uma visão ou previsão de S. Affonso, que se verificou em Villa Real, n'esta antiga villa ou cidade: nós vimos em sonho o que S. Affonso no seu tempo previu como propheta: o sonho tem uma historia necessaria para a sua explicação; e como vem os factos traçados e encaminhados para este mesmo fim, temos unicamente a acrescentar o seguinte.
S. Affonso foi rei d'Ourique por justa e divina acclamação, as côrtes e os poderes do estado applaudiram a eleição, juraram seus preitos, e deram todos os documentos de boa fé e de cordial testemunho, do sincero empenho e da resolução em que estavam de todos os sacrificios para sustentar a acclamação e para continuar a guerra aos infieis. S. Affonso pretendeu o voto universal por ser causa de milagre e de grande sacrificio e do maior testemunho, e muitos ecclesiasticos que viviam nos prazeres do ocio, e que sentiam vêr retaliados pela guerra os campos das suas prebendas e passaes, e muitos ignobeis e falsos nobres, que seguiam a lei de seu egoismo, e d'estes em o maior numero commentavam a acclamação desfavoravelmente e persuadindo o povo a que não aceitasse o rei porque esta acclamação havia de causar grande descontentamento em Hespanha e traria comsigo algum maior dissabor da parte do supremo pontifice.
Havia com effeito da côrte de Roma duas exigencias muito fortes e constantes perante a côrte de Portugal: a primeira por causa do fôro de S. Pedro que é de morgadio do Divino Salvador, e a segunda por causa das cruzadas; por se dizer, que não irão do reino as cruzadas á Terra Santa, como eram obrigados todos os fieis. Sempre o conde-rei se tinha desembaraçado d'estas interpellações com muito favor, e não cessava a intriga de urdir novos ardis; por virem de fonte conhecida e poderosa, que era a côrte de Hespanha: mas obteve S. Affonso a bulla, que declarava o nosso reino Terra Santa e reino de cruzada, o seu rei como benemerito filho da santa Igreja e como antigo cruzado da Terra Santa de Palestina, e applicasse o fôro do Divino Salvador para as despezas da guerra. E logo a invicta monarchia obteve o suffragio e principiou a julgar-se invencivel: mas os seus inimigos não dormiam, e agora veremos o que urdiram em Roma mais calumnioso e atroz.
Formaram em Hespanha um processo secreto contra o rei com muitas testemunhas de Portugal, gente vil, desconhecida e de negra e atroz calumnia: os seus depoimentos recheados de torpezas e de peccados phantasticos que attribuiam ao rei, e com o principal artigo d'esta infame accusação que o monarcha a quem davam titulo de ambicioso seguia a falsa lei da polygamia, e que era no seu modo de viver semelhante aos reis mouros, e que tinha uma e duas mulheres em cada terra e que obrigava os meninos a beijar-lhe a mão como pai de todos, ou como papa; e que não havia mulher casada que não tivesse algum filho parecido com o rei, e que estava o reino cheio de malhados, e que por este signal se conheciam em melhor sombra do que os filhos dos negros. E mais diziam, que o rei só era generoso e de real doação para as mulheres, e que os homens andavam diante do soberbo califa como escravos d'harem. Levavam este recado os malignos tão bem encadeado, como se fosse verdadeiro: o demonio os ensinava a mentir a Deus e a jurar falso; verdadeira mentira é todo o engano, que se faz ao padre santo, que é vigario do Senhor.
E com o mesmo intuito e abominavel pensamento de homens de consciencia perdida, por terem paz occulta com os mouros e longas tregoas, e por não quererem renunciar aos commodos e seu egoismo, acrescentava a calumnia, dizendo que S. Affonso era hereje, e pretendia provar a accusação com tres factos: primeiro, por subir ao pulpito de habito talar e de cota, para prégar como prégava a favor do divino apparecimento, que os calumniadores impugnavam e davam por fabuloso, dizendo que nenhum bispo portuguez se jactava do milagre, nem prégava a favor da sua existencia, e que os seus padres tambem não prégavam tal façanha, e por isso subia o rei ao pulpito para o seu falso ministerio. O segundo facto que ligava ao primeiro consistia em dizer que distrahia das cruzadas os seus cavalleiros, e que os convidava para ficar no reino, e angariava para a deserção das suas bandeiras nacionaes com grandes promessas e doações de terras, que tirava á santa Igreja, e que n'este numero admittia sem escolha muitos e grandes herejes da mesma falsa escola dos homens mais ambiciosos, e que este D. Affonso era tão sofrego de ambição que tinha guerreado com sua mãi, e que a tivera presa até que morreu no castello de Lanhoso.
E ligavam a estes factos outro de maior atrocidade; porque directa e indirectamente offendia a santidade do summo pontifice, mas a nada d'isto attende a calumnia, quando vem proferida pelo maligno espirito contra a maxima verdade divina; e diziam os calumniadores e verdadeiros herejes que S. Affonso obtivera a bulla do privilegio pontificio do reino por meio de grande e manifesta obcecação e por falsa causa que allegou, e que era o maior inimigo das santas cruzadas, e que no seu lidar e batalhar era semelhante ao demonio, e que jámais deixava de ferir o seu adversario, e que ás vezes o feria pela malha com a sua espada quatro e cinco vezes superior á abertura da malha ou rede de ferro, e que este milagre era do demonio; e que elle tinham vencido em Ourique contra a opinião dos seus generaes por ingerencia do demonio e por ser grande hereje.
O processo era secreto, e D. Affonso não pôde prevenir o exito da injuriosa e negra calumnia; andava lidando com mouros ao pé de Cintra, aonde tinha castello fronteiro, e tinham os mouros o seu sustentado pelos seus navios, e gente de mar e chegavam com as suas correrias até Lisboa e talavam os campos, matavam e roubavam; e alli vivia ao pé S. Affonso solicito do modo porque havia de extinguir o covil, e já tinha certa a sua presa, quando o surprehendeu a noticia que vinha de Traz-os-Montes vencendo leguas e horas, de que andava um nuncio de Roma pelas igrejas principaes das villas e terras do reino a publicar um interdicto contra o rei e contra os seus soldados, se não abandonassem o rei no mesmo momento.
Apenas recebeu a tristissima noticia com todas as certezas do que se publicava e ordenava, o rei chorou por tres causas: pela futura sorte do reino; pelo erro d'aquelles perfidos calumniadores; e pela fraqueza humana que sujeitava o vigario do Divino Salvador a tão capciosa e calumniosa illusão. Fallou aos seus, e nenhum o deixou só n'aquella altura; e contra a opinião dos que julgaram que devia aceitar uma tregoa proposta pelos mouros pela causa principal do perigo em que viu aquelle castello de Cintra, resolveu tomar o castello na mesma noite, e o mesmo foi que ser o rei o primeiro a saltar dentro--ainda havia luz--e tomou o castello em duas horas. Deu immediatamente as suas providencias, e partiu para Traz-os-Montes e correu na distancia de mais de sessenta leguas a outro maior perigo, por vir de Hespanha o nuncio, e de Roma, d'onde menos se devia esperar, o flagello. O providente monarcha deixou a tregoa com o castello tomado; os mouros já não lucravam o armisticio, mas tinham proposto a suspensão, e não podiam recusar o arbitrio.
Chegou D. Affonso em menos de tres dias e de tres noites sempre armado de ferro, com a morte de alguns cavallos que deixou estafados para tomar outros, e já ninguem o acompanhava quando entrou em Villa Real, aonde o nuncio tinha publicado o abominavel interdicto, e já ia no caminho de Lamego em direcção a Coimbra. O rei manda prevenir o legado de que estava em Villa Real para fallar com elle e de que o esperava n'aquella capital para o receber com todas as honras devidas á sua alta categoria e jerarchia. O nuncio era o principe real d'Hespanha.
Com esta providencia mandou tocar os sinos de alarma. A tropa que estava na terra reuniu para um lado, para o outro reuniu todo o collegio das humanidades com os seus balandraus e opas, mas sem cruz e sem nenhum ecclesiastico, porque estes se reuniram e assentaram por votos da maioria, que não deviam apparecer ao monarcha nem concorrer ao templo. O rei só com o seu talar á porta da igreja que estava n'esse tempo no sitio aonde está actualmente o templo incompleto da Senhora do Carmo esperava o concurso no meio de maior anciedade, e nenhum se resolveu a entrar. A irmandade e a tropa ouviam grandes vivas ao rei, e cada um sonhava que eram os vivas do outro bando, e não se moviam: o rei já não podia esperar, porque recebeu a certeza de que o nuncio não voltava a Villa Real, antes havia de acclamar a sua desgraçada e infausta commissão até Lisboa.
Que faria? Chorava aquella desgraça e tendo resolvido correr atraz do nuncio para o informar e para pedir recurso do interdicto por não ter sido ouvido nem convencido de tão graves causas, via-se só á porta da igreja; olhou e viu a distancia o successor de dezeseis gerações, que caminhava para o templo com o poder do summo pontifice e do provigario do divino Salvador, entrou, despiu o habito talar e partiu.
Nós vimos a scena que S. Affonso viu e previu, mas de que modo? Ouvimos os vivas, reconhecemos os dous bandos, vimos a porta meia aberta do templo, a estatua do homem ou do heroe, e sentiamos que se recolhia por nos vêr; marchamos só para o ministerio do templo, e os bandos receosos, desconfiados, mas desejosos de nos acompanhar não se moviam: perguntei de quem era o busto? que motivo tinha o povo e o exercito para se conservar em tão grande espectação, e recolhi a historia, que fica narrada, por muito santa e por muito verdadeira.
Antes de me dirigir ao convenio, estava eu no meio de muitos individuos contemporaneos, que ora me convidavam para o fumo de tabaco, ora para assistir a algum funeral; ora me assustavam com o perigo de grandes traições que se armavam contra nós, e como as desprezei? deixando-os e ficando só.
E como levamos a narração de interdicto a esta altura devemos acrescentar em poucas palavras o que mais occorreu. D. Affonso devia estar cançado da lida e da jornada, o que mais tinha mortificado aquella indomita vontade com o receio do perigo que ameaçava o estado; apenas se confirmou no seu nobre intento com a previsão de santo remedio, cahiu cançado. Tinha em Villa Real um filho semelhante aos que trazia em outras terras, só este o acompanhava e seguia: com um afilhado que trazia nos estudos para adiantar o pobre mais esperançoso, porque d'isto tinha elrei cuidado e geral intendencia; e o encarregou de lhe trazer alguma comida, e apenas comeu logo partiu para Lamego, e o acompanhou aquelle mancebo, que veio a ser conde de muito e grande merecimento no reino da Galliza.
Em Lamego tinha o nuncio repetido o enganoso interdicto, e partiu logo para Vizeu, seguiu o rei aquella falsa e perfida colera de mal avisado vaticinio até Vizeu, aonde viu a mesma parodia de Villa Real e a scena de Lamego, e preparou-se de prevenir o nuncio em Coimbra: o que conseguiu matando-se com trabalho, d'indomito e de invencivel lidador.
Em toda a parte o rei encontrava ciladas de traição e de morte que o povo logo descobria; e como julgava estes odios vindos d'Hespanha, matava immediatamente os traidores; e dizia: «Assim como o nosso rei está interdicto, nós faremos justiça.»
Em Coimbra preveniu o nuncio, e convenceu-o facilmente da injustiça que commettia pelos principios do direito, e até á vista dos poderes que trazia de sua santidade; e reuniu um conselho de sabios, que accordou no meio que se devia seguir; o nuncio pareceu accordar, mas trahiu a sua missão; de madrugada affixou interdicto e fugiu. Então foi apanhado pelo rei com tres matadores d'Hespanha, e d'estes não ficou um.
O ULTIMO CARRASCO
Luiz Negro é o nome, terrivelmente adjectivado, do ultimo carrasco legal, que morreu no Limoeiro, ha poucos mezes.
Na provincia transmontana contam-se ainda, nos saraus aldeãos, as lendas sinistras do facinoroso soldado de dragões de Chaves.
O _Ultimo carrasco_ é o bosquejo d'esse personagem, tão decahido da sua antiga importancia, mas tão considerado ainda no funccionalismo, que lhe concederam as honras, quando o desbalizaram do ordenado.
O snr. visconde de Ouguella possue, do proprio pulso de Luiz Negro, o escorço dos factos que o constituiram homicida legal, com estipendio; todavia, não podemos favorecer a memoria d'este executor da justiça, asseverando que elle cumpriu os seus deveres; por quanto, do contexto da obra vêr-se-ha que Luiz Negro, quando tinha de enforcar, pagava a quem o substituisse.
No prologo do _Ultimo carrasco_, no recamado estylo com que todos os seus escriptos se opulentam, o snr. visconde de Ouguella detem-se na antiga idéa de abolição da pena de morte. Entre os mais energicos apostolos d'essa humanissima missão, está Carlos Ramires Coutinho, desde que passou dos bancos da universidade para a tribuna forense.
Os primeiros brados, que resoaram na imprensa, nos tribunaes e na consciencia publica, sahiram da alma liberrimamente generosa d'aquelle moço. Os annos volveram-se, os attritos do desengano desbotaram-lhe o verniz de muitas e queridas illusões; mas o sentir profundamente humanitario lá se lhe insurge, apesar dos dissabores, em pró das classes cuja emancipação os preconceitos retardam. Nem as insignias titulares, nem o egoismo tão irmanado com os bens da fortuna enervaram a alliança que travou o visconde de Ouguella com as aspirações da democracia. Para elle o titulo não é a inerte e absurda indifferença de fidalgo, nem da superabundancia de meios surtiu a atrophia dos fidalgos sentimentos que a pobreza, talvez, obrigasse a transigir com a fatalidade das circumstancias.
Queremos dizer que dos escriptos do visconde de Ouguella reveem, principalmente, os impulsos liberaes de um animo que não enfraquece nem descança na lucta. No prefacio, que vai lêr-se, do _Ultimo carrasco_ resaltam um altissimo condoimento da ignorancia, que sob-põem o collo ao jugo, e uma vehemente invectiva aos que, se podessem, apagariam a immensa luz que lhes abriu caminho por onde se passaram dos tamboretes de couro para os flaccidos sophás.
O ULTIMO CARRASCO
INTRODUCÇÃO
É dolorosa a tarefa.
São pungentes, tambem, as recordações.
Todavia a feição singular d'este nosso seculo exige imperiosamente estas luctas, e obriga-nos a estas pugnas, as mais das vezes, inglorias.
Seja assim.