Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)
Chapter 3
Porque entre os phariseus da lei rabina, Te inculcarás mui bem, já me percebes[4]; A natureza mais do que a arte ensina.
Entre nós os do Luso, não recebes Louvor algum; olham-te mau tendeiro, Um vil que na ambição nunca assás bebes.
Não saques mais as gentes a terreiro, Que aos maus sou formidavel, arrebato Nos cornos a capinha mais ligeiro.
As virtudes abraça de barato; Olha que serás mais atassalhado, Que na bocca do cão raivoso, o gato.
Sou semelhente ao genro desprezado Por Licambo, ou bem ao inimigo Vingativo do bufalo malvado.
Vende o bom bacalhau, o melhor figo: Argumenta c'o teu almotacé: Detesta os vicios, anda só comtigo, O Alcorão não sigas de Mahomet.
* * * * *
A mais completa noticia que temos de José Anastacio da Cunha deve-se ao esclarecido investigador, o snr. Innocencio Francisco da Silva (_Dicc. bib._, t. IV, pag. 221-231). Aqui encontramos pela primeira vez a sentença inquisitorial que condemna José Anastacio da Cunha a ouvil-a no auto publico de fé, com habito penitencial. A sentença confisca-lhe todos os bens, encerra-o por tres annos na congregação do oratorio, com dous dias de penitencia em cada mez no primeiro anno; findo o triennio da reclusão, desterra-o por quatro annos para Evora, e veda-lhe perpetuamente o ingresso em Coimbra e Valença.
Concluidos os tres annos de reclusão, José Anastacio requereu á mesa do santo officio que lhe commutasse o degredo dos quatro annos em residencia na congregação do oratorio. A inquisição condescendeu.
Os delictos do condemnado estão substanciados no exordio da sentença que reza assim: «_...e pareceu a todos os votos que o réo pela prova da justiça e suas confissões estava legitimamente convicto no crime de heresia e apostasia por se persuadir dos erros do deismo, tolerantismo, e indifferentismo, tendo para si, e crendo que se salvaria na observancia da lei natural, como a sua razão e a sua consciencia lhe ditasse, sem a sujeitar a algumas leis ou preceitos e sem a regular pelos dogmas da religião revelada que não acreditava; tendo tambem por injustas e tyrannas as leis com que a igreja obriga os fieis a captivar os seus entendimentos e a sujeitar os seus discursos em obsequio da fé e das verdades reveladas que lhes propõem para crerem sem duvida nem hesitação alguma: persuadindo-se igualmente que qualquer pessoa se salvaria em toda e qualquer religião que seguisse e fielmente observasse, capacitado que obrava bem, ainda que errasse, não sendo por malicia, mas só por falta de conhecimentos_», etc.
A inquisição já não tinha garras n'aquelle anno de 1778. Vinte annos antes, um réo com menos delictos, seria queimado. José Anastacio orçava então pelos trinta e quatro annos; era tenente do regimento de artilheria do Porto, e lente cathedratico da cadeira de geometria na universidade.
José Monteiro da Rocha, lente de astronomia, figadal inimigo de José Anastacio, teve o maior quinhão no vingado odio que o perdeu. Em um debate scientifico degladiado entre os dous sabios, encontro o professor de geometria assim apreciado por Monteiro da Rocha[5]: _Estes papeis respiram tanta arrogancia e presumpção, contém tantas falsidades e imposturas, e desmandam-se em allusões tão satyricas, e dicterios tão grosseiros, insolentes, e malignos que bem manifestamente dão a conhecer que o author tem o miolo desconcertado ou damnado o coração._
Se tinha o coração damnado, a inquisição expungiu-lhe o virus hydrophobo, e Monteiro da Rocha fez uma boa acção proporcionando ao seu inimigo o ensejo de reconciliar-se com S. Domingos, mediante sete annos de reclusão e confisco de bens.
O insigne mathematico falleceu aos quarenta e tres annos de idade, na calçada de Nossa Senhora das Necessidades, nos braços de sua mãi, que elle adorava extremosamente.
O snr. Innocencio Francisco da Silva publicou em 1839 as _Composições poeticas do doutor José Anastacio da Cunha_, incluindo n'ellas a _Voz da Razão_ que não era de José Anastacio. O illustrado bibliophilo reconheceu depois e confessou o seu engano, por se ater ao boato publico.
Nas mais completas collecções de poesias ineditas do douto philosopho não entra a _Voz da Razão_. Prezo-me de ter possuido as suas poesias completas, e não vi rastro d'esse poema nem d'outros com a mesma tendencia irreligiosa.
No _Diccionario bibliographico_, tom. IV, pag. 226, o snr. Innocencio Francisco da Silva, considerando extraviada a maior parte das poesias do seu biographado, escreve: «... João Baptista Vieira Godinho, outro intimo amigo de José Anastacio, fallecido no Rio de Janeiro a 11 de fevereiro de 1811, no posto de tenente-general, teve tambem em seu poder muitas composições do sobredito; porém, confiando-as algum tempo antes de morrer ao conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ignora-se o destino que tiveram.»
Podiam ter peor destino. Vieram á minha mão em 1872. É um volume em 8.º encadernado em marroquim, dourado por folhas. Contém parte 1.ª e parte 2.ª dos versos. É prefaciado por _J. B. V. G._ (João Baptista Vieira Godinho), que se propõe reunir as poesias _do seu desgraçado amigo_. Não sei como este volume sahiu da livraria do conde de Linhares. Eu comprei-o ao livreiro Rodrigues, do Pote das Almas, em Lisboa; e elle comprou-o aos herdeiros do jurisconsulto Pereira e Sousa. O livro, a final, entrou no pantheon mais digno que lhe podia occasionar o fado dos livros que não é sempre o melhor: está na livraria do snr. visconde de Azevedo, no Porto.
Presumo, todavia, que Vieira Godinho não logrou colligir todas as poesias do seu amigo. A _Satyra_, que o leitor acabou de lêr, pertence a outro codice.
Tambem possuo da letra de José Anastacio a versão muito emendada do 1.º e 3.º acto do _Mafoma de Voltaire_. Diz lá uma nota de Pereira e Sousa que _aquelles mesmos papeis estiveram no cartorio da mesa do santo officio_. Por isso eu os guardo com muita veneração, e os beijo reverentemente, pensando que elles passaram pelos bentos dedos do cardeal de Cunha, inquisidor geral.
[2] Diogo José da Serra, um escandaloso vadio d'esta cidade, tão ignorante como devasso. Este homem foi quem induziu á factura da _Satyra_ o doutor Botija.
[3] Calumnia que os herdeiros de Francisco Dias estimariam que não o fosse. O poeta arguido de avarento morreu pobrissimo.
[4] Francisco Dias Gomes era de geração judaica.
[5] Documento inedito de que tambem possue traslado o snr. Innocencio Francisco da Silva.
PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO
O correspondente lisbonense do _Jornal da Manhã_, indigitando o rastilho de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas, malsina, sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos accusados com injusta malquerença são as _Noites de insomnia_, e os manuscriptos arguidos de fraude são os dous innocentes dislates de um illustremente desgraçado talento, cujos autographos offereço a quem, na duvida, quizer examinal-os.
Em nenhum dos dous artigos (a _Catastrophe_, e _D. Maria Caraca_) é atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que assiste á testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as _Noites de insomnia_, desde ora avante, desfraldam.
As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de Bragança, publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do esclarecido arcebispo;--são todas de minha lavra, e de minha responsabilidade perante os doutos. Todavia, se alguem me rastreia, n'esse lavor meramente historico, o insidioso plano de aluir o throno, sou obrigado a declarar que não se acham ainda bastantemente decisivas as minhas intenções a respeito de sua magestade, nem me parece que cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. Luiz I. E, dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a casa de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo, por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de Coriolanos, Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos Pachecos. Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor referido, quando me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao mesmo tempo incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes alarmas, temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se occupa, braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se conhecem a pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até heroe no cairel da voragem, não lhe mettam espantos na alma com phantasmas; robusteçam-no para a provação, quando a hora troar, a hora maldita em que o povo açacala as garras, e golfa das tabernas com bramidos de leão. Se não querem prevenir as catastrophes, porque não ha prevenções contra a fatalidade, não se finjam previstos, pondo estas innocentes _Noites_ a espreitar Cesar pelo olho esquerdo de Bruto.
Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando petroleo para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre jurisconsulto, depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus direitos ao ducado brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria contra a familia real, que era, pouco mais ou menos, a d'elle.
Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr. D. Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes da povoação d'aquella villa.
Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de Nerval pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario de vêr o invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem descamba da linha recta que vai desde o almoço até á cêa através do jantar, a razão humana desconfia d'elle. Se este homem suspeito, unicamente, lesa os seus interesses, chamam-lhe, com piedosa indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, damnifica os interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a denominação ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu modo de escrever historia, philosophia e moral, se revela muito mais acerto, critica e sciencia que nos livros de uns homens que não se acham bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um rapto de luz que elle denominou:
SONHO
(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO PERIODO DA ALIENAÇÃO)
No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao pensamento de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica a todos pelo modo mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura e heroica do santo e actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se revelou tão benefica e misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida para com a pobre e triste humanidade, que escurece o beneficio e parece desprezar o seu author divino, só pela torpe e abominavel gloria do seu desprezado egoismo e da sua indomita soberba. Estava já endurecido o coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil injuria que o infinito poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do mar e do justo castigo das aguas.
O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e não quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e desprezadas em poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz a historia que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e que a estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas são sete seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das costas, magros, definhados e proscriptos, que terminaram pela mais negra, medonha e absoluta penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o pai comem a carne do filho, os mortos jazem sem sepultura, a impiedade triumpha, a verdadeira fé anda foragida, a injuria do Senhor substitue o culto, e sobre as cadeiras de Moysés já não se assentam os escribas e os phariseus; os mais depravados inimigos perseguem em nome do Senhor todos os seus santos ministros, e predizem pelas suas obras o fim do mundo, e a necessidade do ultimo e geral escarmento.
Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se pode levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como Anti-Christo; o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do Divino Amor, o mais horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o delirio do sonho chama e reclama a necessidade do mais santo esconjuro, e da mais afouta e intrepida penitencia. Felizes as mulheres estereis, e mil vezes mais acordado, ou menos infeliz e desprezivel será o aborto, que não recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não soffrer a injuria da maldita geração do peccado, e do seu enorme e horroroso castigo.
Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a gloria, e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras tantas victorias, riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia monumentos eternos para escrever o geroglifico da maior vileza que nega as façanhas aos heroes, e depõe a estatua do seu pedestal para a substituirem pela mais desprezivel do seculo, e pelo que tiver deixado nome mais injurioso, conspurcado e escravo.
Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior colonia do mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos emigrados religiosos e politicos; e os que tiveram esta gloria são desprezados, e os seus herdeiros perseguidos. O usurpador que se fez possuidor para proclamar o falso principio de independente, e que entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra foi levantado e exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou o seu vil commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado, que pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para commetter esta grande aleivosia e diabolico mandato. D. Affonso Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos serviços ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e sobre a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a mais hedionda e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta o impio e exacerba o catholico, vende a terra da patria; e, para ter sepultura em paiz protestante, pactua com o demonio a quem entregou a alma a traição e o aleive; o seu desdouro é o mais abominavel tramite e caminho do inferno.
Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D. Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e os reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a vileza do seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os mosteiros e a maior grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram nem renegaram de Deus nem da patria, nem abandonaram a justiça nem venderam as suas consciencias.
Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão relevantes serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos presumir que a nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos mas estrenuos, e tão briosos e fieis que conquistaram do mundo a maior fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor e auxilio. São poucos os heroes? quantos monarchas illustraram o throno? quantos fieis e valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos missionarios do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas? que é feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?
São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de fazer-vos até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o Senhor me concede, como propheta, para vingar a injuria de sete seculos, o sonho e o pesadelo do mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco, de S. Domingos, de S. Theotonio, e de Santo Antonio que dormem nos claustros dos extinctos e abominados conventos; os monges negros de S. Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a familia de Santo Agostinho, os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela nossa bocca, e dirigem o nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que fizeste, ó impio, de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e publica utilidade?
No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes levantar o eterno monumento do actual desdouro e da sua fatal cegueira? Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva e defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio. Está por terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e contemplam os anjos a nossa actual miseria e compadecem-se d'este ruinoso estado: só não se move o povo, só o interdicto dorme o maldito somno da morte, e não delira nem appetece a eterna felicidade de sua salvação e liberdade!
Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique, e cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e Desejado; e d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela vaidade do sonho ser digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas não basta que o Senhor defenda uma causa para que se considere heroica: convém que o homem e o povo eleito e escolhido para a façanha se mostrem dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior perigo e intrepidos e confiados na justiça do commettimento, e na gloria da Divina Protecção. O sonho, que desdoura o homem, cerca de terror o timido e fugitivo escravo do demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na justiça da causa nem na certeza do seu delicto.
Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do seu desaggravo, não posso resistir ao desejo de o exarar. O amor de Deus é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o que tem a felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o triste e mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro espirito assenhorêa a alma do possesso, e pode dizer-se que impera n'ella o demonio. Quem não é por mim é contra mim. A manifestação mais perfeita de amor é o desaggravo da offensa; o que não desaggrava não ama: porque ao summo bem corresponde o amor mais perfeito: não amando, aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo do desacato, toma sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e faz-se digno do mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do delicto.
Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e Pilatos. No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao mundo para nos regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só lamentam a dureza do povo e a sua affectada cegueira. É um sonho, que sempre se repete, e que manifesta bem palpavel n'este mundo das illusões o irresistivel poder do maleficio, que actua sobre os escravos do peccado e filhos da ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de commetter o peccado imperdoavel; porque em sua fatal herança não só deturpa e cega, senão que domina e arrasta a alma para a maior perdição, e para o fundo do abysmo.
A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha que ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da santa penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os violente; e tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da perseguição, e d'um para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da furia do dragão. Fallamos ao povo que conserva o direito de propria consciencia e algum vislumbre de boa fé para que procure e abrace a salvação da indulgencia e do martyrio, que tem diante.
Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo, são felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria os impelle e ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos diaphanos. Que bella monção para tão feliz viagem! que bello sonho para os sete seculos venturosos que se hão de completar na eternidade!
Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para o eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio, e podia nascer em um monte, que era dado a sua santidade, e fóra do redil aonde nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em um presepio para nascer entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que procuravam o innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino foi ao Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para o Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde finalmente sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no calvario. S. Thiago e S. João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o grande apostolo, e veio tambem S. João, mas nenhum teve o seu martyrio na Peninsula. S. Thiago foi receber á Judêa a sua promessa. S. João foi ao imperio dos Cesares, e á terra do paganismo e do amor depravado da louca e desnudada Venus. Voltaram os seus corpos? que recondito conserva o virginal de S. João? Este sonho póde condizer com a Rodhoma por ter S. João recebido no calvario a santa maternidade da Virgem minha Senhora.
Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de dezeseis gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita heresia para nos matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais decidido milagre me podia salvar da furia; eu presagío que o meio heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico sonho da ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam, como as ondas que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam pela inutil furia do seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua insania ao cabo, e veio o maior castigo do povo e sobre a terra com a justa ira do Senhor: o ultimo propheta foi morto entre o templo e o altar, e a prophecia foi negada para sempre ao judeu, que só tem actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em missão de Ninive e de Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora inaugurou no Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião o docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em fel d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix da maldição dos judeus--deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo flagello, e que a falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do escarmento ao detestavel povo e aos seus perfidos ministros e traidores.