Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12)
Chapter 2
Era meu dever não desfiar a lugubre imagem, porque eu bem conhecia os fios mysteriosos que a teciam. Elle afastou-se, e eu, com tão poucos dados, fiquei conjecturando se aquelle seria o egresso da lendaria Beatriz de Vilalva.
V
Era. O leitor, de sobra, sabe que era elle.
Dous mezes depois, vi annunciada a morte do abbade de S. P. de E***. Estava eu no Porto, e anciei saber as particularidades d'aquelle trespasse.
Quanto ao morrer, disseram-me que de uma ligeira esfoliação em uma perna resultára uma rapida gangrena, e a morte seguintemente.
Quando alguns freguezes entraram á residencia, alvorotados pelo dobrar do sino, viram á beira do morto uma senhora que nunca tinham visto, e o mancebo que já conheciam como sobrinho do abbade.
Esta senhora tinha os cabellos brancos, as faces cavadas, e a luz dos olhos embaciada pelas lagrimas. Perguntaram-lhe se era irmã do snr. abbade. Respondeu que não.
Abriu-se o testamento do defunto, e leu-se que tudo quanto n'aquella casa existia, tirante os utensilios da igreja, pertenciam á snr.ª D. Beatriz Pacheco Leite de Menezes, sua herdeira universal. Declarava que o testamento seria apresentado pela mesma senhora, e os necessarios esclarecimentos ácerca da idoneidade da herdeira os encontraria quem os solicitasse confirmados por escriptura na nota do tabellião, que mencionava.
A herança do abbade montava a doze contos de reis em dinheiro, producto das heranças provindas de irmãos fallecidos sem descendencia, e de uma quinta no concelho de Amarante, intitulada _Vilalva_. Por onde se infere que padre João de Queiroz havia comprado aos herdeiros do capitão-mór da lixa a casa onde Beatriz tivera o berço, e onde ia encontrar o leito da morte.
Quando o defunto era conduzido á sepultura, Beatriz de Vilalva sahiu com seu filho d'aquella casa onde vivera enclaustrada desde 1835 até 1872, trinta e sete annos sem ouvir de labios estranhos uma saudação. Acompanhou-os um velho--aquelle mesmo criado que a conduzira á casa de Felgueiras na noite da fuga, e levára á beira do Tamega a capa com o escripto, e atirára á corrente os sapatos.
Um dia, amanheceu á porta da quinta de Vilalva aquella familia desconhecida na terra. O criado abriu as portas. Beatriz correu direita a um dos quartos da casa. Atirou-se contra um leito, como quem abraça um cadaver, e chamou a estridentes gritos sua mãi. Ella imaginava que a douda morrera alli, depois de a ter amaldiçoado. O filho arrancando-a do quarto escuro, tirou-a para uma sala carinhosamente, e disse-lhe:
--Minha querida mãi, se a senhora não amou quanto devia essa infeliz que morreu louca, Deus lhe perdoou pelo muito que padeceu sepultando-se viva para esconder a sua culpa; e eu lhe provarei que Deus teve compaixão da sua penitencia, enchendo-me o coração do extremoso amor com que farei a felicidade dos seus ultimos annos.
Beatriz lançou-se a soluçar nos braços do filho, ungindo-lhe o rosto de lagrimas.
* * * * *
As pessoas antigas d'aquelles sitios não cessam de procurar occasião em que vejam aquella formosissima Beatriz por cuja alma rezaram, posto que o parocho lhes dissesse que a alma da suicida havia cahido de chofre e a prumo no inferno.
E, de feito, lá vêem a miudo passar pelos maus trilhos que conduzem á casa dos pobres e dos enfermos uma senhora vestida de negro, precedida do criado ancião que a conduz.
--Bemdito seja o Senhor!--exclamam pondo as mãos as velhas que a conheceram menina.
E ella acercando-as de si, pergunta-lhes os nomes, recorda-se, chora, e consola-se, quando alguma d'ellas póde acolher-se ao regaço da sua beneficencia.
Se Deus lhe não houvesse perdoado, seria feito á imagem do homem.
[1]Certo respeito, demasiado talvez, me cohibe de declarar extensamente o nome do abbade, e o padroeiro da abbadia. Os leitores, convisinhos do local onde escrevo, sabem que não estou phantasiando.
SE O POETA BERNARDIM RIBEIRO FOI COMMENDADOR
Ha bastantes annos que eu sahi com este repto aos biographos do author das _Saudades_:
«O meu parecer é que Bernardim, e tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S. Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra, para Lisboa, senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya. Corre-me obrigação de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que sahe, para o commum dos leitores, é pedregulho.
Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz elle:
Quando as fomes grandes foram, Que Alemtejo foi perdido, Da aldêa que chamam Torrão Foi este pastor fugido: Levava um pouco de gado, etc.
E continúa:
Toda a terra foi perdida; No campo do Tejo só Achava o gado guarida, Vêr Alemtejo era um dó; E Jano para salvar O gado que lhe ficou, Foi esta terra buscar, etc.
«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão--naturalidade que todos os biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro--em Lisboa no anno das grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 5 de agosto de 1521, tinha sahido para Saboya.
«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou o da morte de Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel, marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª diz:
Agora hei vinte e um annos, E nunca inda té agora Me acorda de sentir damnos... etc.
«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do author da _Bibliotheca Lusitana_, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte. O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao cerco de Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja a _Chronica de D. Sebastião_ por D. Manoel de Menezes).»
* * * * *
O snr. Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do _Diccionario bibliographico_, pag. 379, não aceita como bastantemente decisivos os meus reparos. Traslado as razões do insigne escriptor:
«O snr. Camillo Castello Branco, em uma nota do folhetim que com o titulo _Dous corações guizados_ publicou..., não só põe em duvida, mas nega redondamente que Bernardim Ribeiro, author das Saudades, seja o mesmo a quem os biographos attribuem as qualidades de commendador, governador de S. Jorge da Mina, e amante da infanta D. Beatriz, etc. Salvo o respeito devido ao nosso... romancista e meu presado amigo, parece-me que o juizo definitivo que se haja de assentar sobre estes pontos depende ainda de ulteriores averiguações. Deixo-as a quem tiver por ellas o tempo e a paciencia que de presente me faltou.»
Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova da ordem de Christo e capitão-mór das naus da india, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge.
Do poeta, que pertencia a familia nobilissima do Torrão, logo veremos que não se esqueceram os genealogicos contemporaneos.
Do seu homonymo, para quem Barbosa Machado facilmente usurpou a immortalidade do outro, sei o nome de paes, de avós e de filhos.
Era filho de Luiz Estevianes Ribeiro, criado e thesoureiro do infante D. Fernando (filho de el-rei D. Manoel) e fidalgo de sua casa. Nasceu em Lisboa, junto á ponte de Alcantara, na quinta da Rola, que D. João I dera a um de seus avós.
Casou com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes.
Assistiu á batalha de Alcacer-Quivir, e ficou captivo. Voltando ao reino, foi despachado capitão-mór das naus da India em 1589, como paga de ter votado a favor da successão de Philippe II, e n'esse mesmo anno teve a commenda de Villa Cova.
Se o poeta Bernardim Ribeiro tinha em 1522 os vinte e um ou vinte e dous annos que se inferem dos versos citados, orçaria em 1589 pela idade dos noventa, pouco viçosa para capitanear a frota da India.
Dizem que o Bernardim Ribeiro, poeta, deixára uma filha.
O Bernardim, commendador, deixou dous filhos e uma filha: Luiz, Manoel e D. Maria de Menezes.
Luiz Ribeiro Pacheco herdou a commenda de seu pai, e serviu-a em Ceuta. Casou com D. Catharina de Athayde, filha de Francisco de Portugal, e já viuva de Fernão Gomes Dragão.
Manoel serviu commenda em Tanger, e morreu solteiro.
D. Maria de Menezes casou com Luiz da Cunha, cognominado o _Pequenino_.
De Luiz Ribeiro Pacheco nasceu Bernardim Ribeiro Pacheco, fallecido antes de casar. Os haveres vinculados passaram para sua tia D. Maria de Menezes.
Temos ainda outro Bernardim (ou Bernardino) Ribeiro, que era o governador de S. Jorge da Mina, e sahiu abrasado do cerco de Mazagão em 1526, consoante a _Chronica de D. Sebastião_, por D. Manoel de Menezes.
Tres Bernardins andam, pois, fundidos no cantor da _Menina e Moça_, Deus sabe com que bullas em affinidades intellectuaes: parentes com certeza eram.
Se um dos tres amou a filha d'el-rei D. Manoel, de semelhante ousadia é justo censurar-se o poeta, embora d'ahi lhe promane a sua romantica immortalidade. Se o matassem na rua Nova os moços do monte d'el-rei, como dizem as _Memorias ineditas_ de Diogo de Paiva de Andrade, a catastrophe assim contada no poema, no romance, ou na tragedia maiores realces daria ao desditoso provençal. Morrer assim, ou morrer commendador, e macrobio, como querem Garrett, e Costa e Silva e tantos outros engenhos atilados, são cousas diversissimas para a arte, que houver de assentar o pedestal do solitario bardo da serra de Cintra.
Mas a verdade é outra.
No principio do seculo XVIII ventilava-se uma questão de vinculos entre familias do Torrão que se assignavam _Ribeiros_ e _Mascarenhas_, e appenso aos autos andava um instrumento antigo em que João Ribeiro, filho de Gonçalo Ribeiro, senhor de Aguiar de Neiva e Couto de Carvoeiro no almoxarifado de Ponte do lima, provava _ser primo co-irmão de Bernardim Ribeiro, fidalgo principal e muito conhecido pelos seus versos intitulados MENINA E MOÇA_. O referido instrumento era passado em 1552, sendo já fallecido Bernardim Ribeiro.
Dos Mascarenhas, que venceram o pleito, era ascendente Manoel da Silva Mascarenhas, que servira em Tanger e nas armadas de Castella com o general D. Fradique de Toledo. Voltando a Portugal em 1640, foi um dos denunciantes da conjuração de 1641; e em premio d'isso o galardoou D. João IV com a alcaidaria da Torre de Outão, e ao mesmo tempo exerceu as funcções de guarda-mór da alfandega de Lisboa. Este Manoel da Silva Mascarenhas editou em 1645 as poesias do seu parente, mudando o titulo de _Menina e Moça_ para _Saudades de Bernardim Ribeiro_.
D'este ramo não houve successão que hoje possa gloriar-se de parentesco remoto com o poeta. Manoel da Silva Mascarenhas foi casado com D. Garcia Pereira, filha de João Sodré, de Ourem; mas não deixou filhos legitimos. Teve dous bastardos: um mataram-lh'o em Setubal; do outro não fazem cabedal os linhagistas. Se o leitor e eu tivessemos pachorra, iriamos esquadrinhar a circulação sanguinea de nove ou dez gerações até encontrar globulos muito depauperados do sangue de Bernardim Ribeiro na familia _Leites Pereiras de Mello_, de S. João Novo, no Porto.
Mas um descobrimento de tão magna valia tanto importa á familia Leite Pereira, como ao leitor, como a mim,--um dos bons tolos que tem produzido a heraldica n'este seculo XIX!
RESPOSTA DE JOSÉ ANASTACIO
SATYRA FEITA A FRANCISCO DIAS, TENDEIRO, COM LOJA DE MERCEARIA NA RUA DAS ARCAS, CHAMADO POR ALCUNHA O DOUTOR BOTIJA, EM RESPOSTA DE OUTRA, QUE FEZ A UM SUJEITO, DE QUEM NÃO TINHA O MINIMO CONHECIMENTO, NEM O MENOR ESCANDALO.
Em quanto agora, o rude teu caixeiro Unta as guedelhas no mofino azeite, Que sobra do nojento candieiro;
Em quanto se entretem no porco enfeite, E fervoroso tu lhe estás prégando Para que nas balanças menos deite:
Ó mofino, meus versos escutando, Melhor aprende a venerar a gente, Que os jumentos, quaes tu, sabe ir picando.
Que sequaz te induziu, feio demente, A romperes c'o a ovelha? que pateta Nas garras te lançou do mal presente?
Foi talvez o politico de treta, Humanado morcego, que na escura Noite, á lambuge sahe da branca e preta[2]?
Calvo peralta, que sem tom murmura: Venero-o; que é burrinho sustentado Pelos serviços do defunto cura.
Foi algum minorista relaxado Heroe dos Ganimedes, padre velho, Nos dogmas de Lieu controversado?
Bibliographico vão de alto conselho: Governa-te por esse moralista, Que vende em praça o gato por coelho.
Nem estes, nem o secco rabulista, Aguia manhosa, que folgando espera Comer, nas garras, quem tentar na alpista.
De que hoje te arrepelles defendera, Por chamares ao circulo um amigo Que de asnos despicar-se não quizera.
Eia commigo, pedantão, commigo, Que da Laconia os cães excedo na arte, Com que em vereda os lobos maus persigo.
Não determino os versos censurar-te; Supposto manifestem que os favores Calliope comtigo não reparte.
Nem respondo tão pouco aos rimadores, Que dão ás aguas de Hyppocrene o gosto N'um cantar, como aos echos dos tambores.
Phebo a taes ignorantes volta o rosto: Das lyras que no Olympo ouvir estima, N'um _ão_ com um _ão_ o gosto não tem posto.
Nem menos aos exemplos teus da rima: Sem ella os campos lacios, e os da aurora, Deram plectros, que a todos vão de cima.
Nos mil volumes, creio lês por fóra; Mas excede na orelha um mau jumento Quem de Apollo as acções assim decóra.
Menos respondo ao baixo atrevimento, De me accusares por fallar das artes, Em meio de qualquer ajuntamento.
Comtigo n'isto a injuria bem repartes; O sabio no lugar onde apparece Das mãos não larga Homéro, nem Descartes.
Ditoso quem no mundo isto conhece! Ditoso aquelle, que d'um n'outro errando, Vagueia, té que a aurora lhe amanhece!
Cada um na sua herdade anda lavrando: Tu desvelas-te em ser rico tendeiro, Eu em andar nas artes estudando.
Nenhum d'estes defeitos, eu requeiro Para abaixar-te a longa orelha; emprégo Outro arrocho maior, maior fueiro.
Por isso de outros erros te não prégo: Qual é o de seguires que entre os homes O lynce represente ser um cego.
Teme-os embora tu, que d'elles comes; Mas olha que ao cobarde a espada corta: Nunca livre obra, quem receia fomes.
Quem te mette a induzir na estrada torta, O que voar pretende além dos céos? A porta da virtude é estreita porta.
Pondera, se com taes descuidos teus, Não podia opprimir-te, envergonhar-te, Se vergonha consente o mal nos seus.
Vê se bastante era isto a depennar-te, D'essa vaidade, com que te apresentas Decidindo de leve em qualquer parte.
Bem como as aves já de orgulho isentas A gralha depennaram, que entendia Encobrir suas plumas macilentas.
Que mal c'o as do pavão se revestia, Eis lh'as depennam logo, e perseguindo Vão todas a infeliz, que lhes fugia.
Hoje atravessa os mares repetindo: Ao vaidoso mui mal serve a vaidade: E de echo o exemplo teu lhe está servindo.
Se não tiveste geito para abbade, Nem para leigo ser da Estremadura, Quem te mette a inculcar letras de frade?
A natura não é contra natura: Para Minerva, e Clio não tens ara, Que um bom senso, não soffre má figura.
Qual das celestes musas não julgára, Se teus metros Apollo a lêr vos dera, Que em seu presidio Circe te hospedára?
E que tornar-te em burro pretendera, Com mania de versos maus fazeres, Como n'outros por magica fizera?
Para o que seus veneficos poderes, Ajuntando, com vara diamantina Te deu, ferindo o chão, a orelha a veres?
Mas Phebo a cousas taes me não destina. Só na grandeza enorme da ambição, Que te occupa, meu rude plectro afina.
Já sinto se me inflamma o coração, Ah! Menippo cruel da mercearia, Nas tramoias da tenda sabichão!
Onde férvido corres á porfia, Uns dinheiros, sobre outros encofrando, Sem afrouxares nunca em tal mania[3]?
Não vês que eterno mal estás cavando A vida, que respiras, praguejada Pela miseria dos que estão penando?
Quem te encontra de capa esfrangalhada, Surdindo já pelo sapato o dedo, Porcas as mãos, a cara besuntada,
O ar do rosto, de quem come azedo, As melenas hirsutas, mal corridas, Figura, que promove o nojo e medo:
Diria: «que mal correm as medidas A este pobre!» a não te conhecer Pelo mais traficante busca-vidas.
Com que razão, te intentas defender, Sendo não só nos males teus culpado, Mas nos de quantos menos podem ter?
Não sei como respiras socegado Encontrando no mundo a cada passo O triste, que tu fazes desgraçado!
Podes voltar as costas, ó escasso, Á vista da miserrima figura, De quantos mata o famulento laço?
Do pobre, que esforçar-se em vão procura, Contra o peso dos annos, que servindo Lhe estão de açoute, até á sepultura?
Do enfermo, que o grave mal sentindo, Olha, e vê a terrivel desnudez Estar-lhe aos pés a fria cova abrindo.
Presumo que em tal scena te não vês, Ignorante selvage inda peor, Que os mouros de Marrocos, ou de Fez.
Não te abrandam os echos do clamor Da misera viuva, rodeada Dos tenros fructos do passado amor,
Que rota, lacrimosa, esguedelhada, Um dia vê raiar, vê outro dia, Sem que lhe digam: «toma, desgraçada!»
Avaro sabichão da Barberia, Aos golpes morrerás dos crueis damnos, Que aos tristes motivar tua mania.
Pondéra meus sinceros desenganos, Que de outro peso são, que os palavrosos Discursos teus, errados, e profanos.
Fizeram na terra o mal os cobiçosos; N'elles origem teve este direito, Que faz o rico, e faz os desditosos.
N'elles é que se viu o homem sujeito: N'elles a causa da ignorancia existe, Pois ninguem conhecer quer seu defeito.
Porque de erros tão feios não sahiste, Se ser tentavas critico dos homes? N'um bom exemplo a boa lei consiste.
Outra vereda é licito que tomes; Seja essa a de tendeiro, em que nasceste Entre os exemplos já, de unhas de fomes.
Olha a quanto por nescio te expozeste! A perderes do ser de humano a gloria, Porque outro avaro Midas te fizeste!
Na terra gravarão triste memoria Teus vicios, e acções escandalosas Nunca sonhadas na mais vil historia.
Com que horror te olharão castas esposas, Sabendo que aprouveste á tua dar Um tostão, vendo-a enferma? E que repousas!
Com que odio chegarão a recordar Não seguiste as leis do deus vendado, Por mais cobres na burra accumular?
Morrendo viva o mal aventurado; (Dirão ellas) nem d'elle se encarregue O Charonte no Averno ao remo usado.
De Ixion, e Tantalo aos trabalhos chegue; Nas garras das harpias monstruosas Com elle, a grã discordia irada prégue.
Cáia aos pés das Euménides raivosas, Que as cabeças de viboras povoadas Cingem de escuras fitas sanguinosas.
Gema nas mãos das funebres e iradas Scyllas biformes, cuja enormidade As montanhas assombra inanimadas.
Que inda pequena é calamidade Para quem dobra aos pés uma innocente Dos vicios, que disfarça em castidade.
Ah! mofinento critico, indolente, Para opprobrios respiras n'este mundo, Alvo já dos rapazes, e da gente!
Vê porque nome trocas o profundo Socego da virtude, tão querido, Menippo turbulento, vil, e immundo!
Vê porque gloria vives opprimido, Querendo bravo dar a conhecer-te, Pela besta maior que tem nascido!
Sahe vacillante quem chegou a vêr-te Sobre côxo banquinho repimpado Ao canto do balcão, sem nunca erguer-te.
Quando ao mais alto o dia tem chegado Ergueres essa cara agolfinhada, Isto dizendo ao caixa enlabuzado:
«Ouves, tratante, uma hora é já passada: Vai vêr no Talaveiras se sobeja Alguma cousa, muito acommodada.
Senão, á cêa basta que isto seja; Que eu por mim, te confesso, estou impando: Inda a sardinha de hontem cá branqueja.»
Sahe aturdido quem te viu ceando Negra bolacha, e na herva mal cozida, Pingo e pingo o azeite alto deitando.
Mosca que ao prato vem, dobra a lambida Mesa de cão; e ao longe teu caixeiro Comendo está n'um canto por medida.
Mofino, que avançado no terreiro O mundo desafias, teme agora Morrer na espada do feroz Rogeiro.
Teme, teme os clamores, muito embora, Da grã calamidade, que gemendo Triste escrava do avaro, amarga chora:
Da grã calamidade, que volvendo Os olhos para os céos, efficazmente Expondo o mal, que á força está fazendo.
Eterno Padre, Justo, Omnipotente, (Diga, vendo-se toda rodeada Da miserrima, triste, e pobre gente)
Não posso respirar mais subjugada. Aos erros da avareza repetidos Por cujas mãos tyrannas fui criada.
Mil vezes entre funebres gemidos, Vi abraçar os pés aos avarentos Homens, estes que trago perseguidos.
Dizendo-lhes com ais, e pensamentos Que as montanhas curvavam de gemer: Ó vós, causas crueis d'estes tormentos!
Já que os templos dos numes soffreis vêr Desornados, dos numes que piedosos Vos deram vida, humanidade e ser:
Já que os olhos cerraes aos magestosos Preceitos seus, no coração gravados; Já que abusaes de serem generosos,
Ao menos vos commovam, desgraçados, Miseros gostos nossos, innocentes Combatidos da fome, e destroçados.
Não sejaes fortes com as humildes gentes: Possa-vos compungir esta lembrança: Que sois co' os irmãos vossos, inclementes.
Possa abalar-vos da primeira usança As leis, restituindo á natureza A gloria, os bens, o ser, a segurança.
Nada, ó Jove, abrandou sua dureza; As razões todo o vicio aos homens tiram; Mas a razões não olha o da avareza.
Ah! fulminante deus, quanto sentiram Esses que desthronar-te já quizeram, Que as penhas sobre penhas enxeriram!
Desata sobre avaros, que offenderam Da natureza as leis n'um semelhante; Que commetter mil males me fizeram.
Desata já das nuvens coruscante Raio que envolva em subtil cinza quantos Mofinos tem o mundo, ó deus tonante,
E dizendo isto, cáiam mil e tantos Coriscos logo, serpenteando os ares, Que te acabem entre horridos espantos.
Eis, clamarás então: santos altares, Valei, valei!--porém mal acabando, Tornado em cinzas te verão ficares.
Oh! quanto os teus, teus males alegrando Correndo logo em turba, o cofre abrindo, Vejo as mãos para os céos alevantando!
Uns o arroz da tenda já medindo, Outros de um ar choroso mascarados De quando em quando para um canto rindo!
A fama de improviso aos desgraçados Corre, e por cem boccas apregoa, Teus fins terriveis, mal aventurados.
Nenhum mais se entristece, nem magôa. É justo o céo, é justo, pois castiga Os avaros. Eis quanto n'elles sôa.
Pedante, não maltrates a barriga, Entre saccos, e saccos de alimentos; Não sejas mais avaro que a formiga.
Não queiras ser com muitos avarentos Semelhante a Lycurgo, rodeado De cofres, expirando nos tormentos.
Vive de tua esposa acompanhado, Tendeirinhos pequenos fabricando, Que bem obra quem segue o decretado.
Vai as medidas tu satyrisando, Que para bocca d'asno o mel não é; Deixa de andar as musas inquietando.
Para critico seres, tens mau pé: Não murmures de outeiros, que em verdade, N'elles Apollo o bom, e ruim vê.
E se fumos desejas ter de abbade, Mostrando-te doutor de mitra, e toga, Com primazias de robusto frade;
Aos ratos deixa a tenda, e desafoga: Segue do Paiz Baixo essa mofina Estrada; e vai firmar-te á synagoga.