Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12)
Chapter 4
Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á representação da tragedia intitulada _A Vestal_, que traduzira em portuguez com elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel da mais brilhante representação pelo seu assumpto e pelos grandes interesses que n'ella se tratam, foi desgraçadamente tão mal representada, que pela parte que me toca não me fez a menor sensação. Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! famoso Talma[1] que estiveste em Londres muitos annos com o fim de reunires os talentos da arte theatral dos dous paizes, que os sabem tão bem apreciar! se tu aqui estivesses, como verias esta excellente peça despedaçada por semelhantes actores?» Em uma das scenas apparece o grande pontifice que deve fazer executar a lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece que sua filha é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um pai, que sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da lei, primeira obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi invenciveis da natureza, sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da lei? Que genio, que talentos, que energia de caracter não são precisos para desenvolver toda esta opposição de sentimentos que combatem o coração humano de uma e de outra parte? O pobre miseravel actor era um automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta afflicção de vêr a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a indifferença com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem convém mais propriamente uma enxada, do que a profissão de uma arte para a qual lhes faltam todos os requisitos. Esta peça me desenganou inteiramente da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do estado miseravel em que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça de verem estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do espirito humano.
Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam aperfeiçoar.
Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta, em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição dos theatros.
O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e virtuosos cidadãos--o que as peças theatraes que estão vendo representar, todos os dias, lhes não ensinam.
Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do espirito com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende tambem a este ramo, que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual se adquire nos theatros, e d'aquella urbanidade que não é filha da imitação; mas de uma intelligencia dirigida pela razão--tão util ao homem na sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle pertence.
Sou sinceramente
amigo fiel e affectivo
_M._
[1] Talma, primeiro actor tragico do theatro de Paris.
BIBLIOGRAPHIA
(Padre Senna Freitas--Cunha Vianna--Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)
_Padre Senna Freitas._ NO PRESBITERIO E NO TEMPLO, vol. I, _Livraria Internacional de E. Chardron. Porto. 1874._--Este primeiro tomo comprehende dezesete artigos que se rivalisam na excellencia da doutrina e da linguagem. Alguns, sem destoar da seriedade do livro, movem o leitor a um sorriso complacente. N'este genero, estrema-se o intitulado _Asphyxia... pela imprensa_. Tem resaltos de graça e nervo epigrammatico. Faz lembrar as paginas felizes de Luis Veuillot nos _Odeurs de Paris_. «Livros, opusculos, livrorios, livrecos, nacionaes, nacionalisados, _in folio_, _in quarto_, _in octavo_, em dezeseis; obesos, normaes, anemicos, succulentos, indigestos, aquosos; edicionados aos mil, aos dous, aos tres mil, de mais de dez a menos de dous tostões; impressos a capricho, moldurados, coloridos, iriados, rendilhados, casquilhos.» (Pag. 215 e 216).
Recenseia d'esta arte o snr. padre Senna Freitas as producções asphyxiosas; mas não se deprehenda que elle, o illustrado escriptor respiraria melhor oxygeneo em regiões onde escasseassem prelos e authores. O que o suffoca é o gaz acido carbonico das inepcias em dicção, em philosophia, e em moral. Contra as da linguagem protesta o snr. Senna Freitas, abrasado nas risonhas coleras do padre Francisco Manoel do Nascimento: «Pois ha nada comparavel em elegancia castiça de terminologia áquellas paginas e áquellas columnas arrebicadas de gallicismos, e anglicismos tão expressivos e engraçados que deixam a nossa lingua corrida? Travemos, por exemplo, d'uma gazeta (salvas, bem entendido, as que fazem honra ao jornalismo). A pouco fundo, já lá apparecem a boiar os «meetings», os «comités», as recriminações do articulista contra as «chicanas» parlamentares, e as «coalições» ministeriaes, e o estylo por demais «descosido» em que se exprimiu o deputado fulano de tal, etc... Passemos á revista interna e noticiosa--prosegue o analysta bem humorado.--Acaba de dar-se um successo tristemente «remarcavel» que o noticiador conta «em detalhe» aos leitores, «tirando d'elle partido» para fazer uma discreta consideração moral. Em seguida, dá um leve «golpe de vista» pelo «high-life» da terra, e analysa o ultimo livro publicado por... que é na sua apreciação um verdadeiro «chefe d'obra.» (Pag. 219).
E assim, com razão e discreto sal, o esclarecido moço, que tão digna e exemplarmente allia o viçor da idade ao respeito do habito clerical, vai desfiando o ruim tecido dos maus livros, quer na fórma, quer na substancia.
Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes: «Ha o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista, da tempera do _Promessi Sposi_ de Manzoni, que nos transporta a uma atmosphera salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que photographa todo o lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o romance enervante, declinação insipida e interminavel d'_elles_ e d'_ellas_; o romance bohemio ou cigano, composto pelo mancebo apaixonado, que come no _restaurante_ de terceira classe, e morre etico aos vinte e cinco annos; e o romance realista ou positivista, ainda peor que o precedente, sem ideal algum; condensado de todos os miasmas da lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os sarcasmos e negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado _a alma nova_.» (Pag. 227 e 228).
Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas da vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que assim como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os immoraes não desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes bons e maus; são os costumes que fazem os romances. E casos ha em que as novellas saturadas de virtude são inverosimeis e puramente phantasticas. Eu já escrevi algumas, nomeadamente as _Lagrimas abençoadas_ e as _Tres irmãs_. Ninguem acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do natural _Os brilhantes do brazileiro_ e _A mulher fatal_--dous livros miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de alfadega e mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas pastoraes, embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em França, pouco mais ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de Feydeau. Ha de tudo. Ha muitissima gente honesta que lê a _Lelia_ de Sand, e muitissima gente de ruins manhas que lê a _Fabiola_ do cardeal Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das considerações do snr. Senna Freitas.
Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que se revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um homem de bem, um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel. D'este modo ajuiza o author da sua obra: _É um livro christão que não fará ruim companhia junto ao lar das boas familias: nada mais._
É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez noite algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas nobilita o clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a palavra _religião_, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado espirito?
Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo entre as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna Freitas.
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_Cunha Vianna._ RELAMPAGOS com um prologo por _João Penha_. _Livraria Internacional. Porto, 1874._--O author está na primeira florecencia dos annos. Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o encontro da incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando as vagas descahem, e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão pé, nem o positivismo ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de pouco: a experiencia da vida, o entrar na inanidade das cousas, o acordar com a cabeça ferida na corrente que fecha a galé dos obreiros do ideal--especie de somnambulos que fallam comsigo proprios, como João Penha, o redactor do _Prologo_.
Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu fechar dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas cousas, dos raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo que atira estrellas a milhões sobre os seus interrogadores. O paio de Lamego e o presunto de Melgaço raro deixam de testemunhar que o espirito de João Penha é escorreito, e que a poesia, quando lhe apparece, como as revoadas das andorinhas, passa, não deixando de si no azul um vestigio de saudade.
O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e inspiração. N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que individualisam a poesia ultimamente inventada. É muito moço, e a sua musa parece filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos. Não se dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os fructos se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo, o interprete do vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons diccionarios.
Entre as suas poesias escolho um fragmento da _Armada_ para que o leitor se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que intentam fazer-nos da imaginação hospital.
N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo. O grande Atlante pergunta á armada o seu destino:
--Somos a Liberdade! a esplendida epopéa! a voz da humanidade! o sol da Nova-Idéa! Somos, oh monstro aquatico, o verbo democratico, tão forte como Deus! mais rijo que a tormenta! Astros, descei dos ceus! Nuvens, descei do espaço! vinde beijar o traço das nossas naus possantes! Nós somos os gigantes, os Cyclopes modernos: vimos livrar os mundos de horrificos infernos. Vimos fazer a guerra, bradar a Torquemada: --pódes fugir da terra, que o teu imperio é nada! Somos a Liberdade! a esplendida epopéa! a voz da humanidade! a luz da Nova-Idéa!
«--Eu vos saúdo, ministros d'uma idade d'esplendores! Expulsai corvos sinistros d'essa terra de condores! --aves d'arrojo inaudito, que muitas vezes s'elevam ás solidões do infinito! Que lindo paiz! é vêl-o: por toda a parte boninas, e, mais além, do Mindelo as vicejantes campinas! E mais ao longe a cidade, que reflora ao Douro a estancia, a Ostende da liberdade, nova rival de Numancia! --o Capitolio altaneiro d'um povo livre e guerreiro, que, n'um heroismo ardente, unico, bello, e assombroso, roubou mais d'um continente ao meu reino tormentoso! Heis de vencer, porque a historia, a virgem que vos inspira, já vos prepara na lyra os hosannas da victoria! Vencerá ao retrocesso quem este abysmo venceu: tendes por guia o progresso-- d'esta idade o Prometheu!»
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Tempos depois a luz da nova aurora illuminava os montes e a cidade! A tyrannia, aniquilado o sceptro, como livido espectro lá transpunha os umbraes da soledade; e um povo inteiro, a quem a paz inflora, salvava estrepitoso o brilho radioso da augusta Liberdade!
Eis aqui um poeta.
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JERUSALEM, por _Joaquim Pinto de Campos_, etc. _Lisboa, 1874._--Precede este precioso livro uma carta do snr. visconde de Castilho. Ahi se annunciam primores, quanto ao modo como a obra é escripta, e se dá de suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto da idéa. «Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho, sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta, em quem reviveram as almas de Anacreonte e Ovidio.
Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até casa dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de Trimalcião, dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que o bocado de pão se ungia de lagrimas.
Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio dos seus dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a vida dentro dos abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de Horacio nem de Catullo: deu-nol-a o christianismo.
Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor Pinto de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do local em que passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A cada passo, resaltam ahi recordações da Roma imperial, com todos os accessorios que lhe lustraram a prosperidade como contraste da voragem que de um hausto a sorveu para sempre apagada.
O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o prazer da leitura. Em duas palavras qualifica um doutissimo critico fluminense o livro do snr. Pinto Campos: _para mim tenho que a opinião classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha visto em lingua portugueza._ (Reflexões de um solitario relativas ao livro _Jerusalem_, pag. 3).
Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos communs bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias descuidadas da conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este livro perfeitamente executado. O seu estylo tem a sobriedade, a parcimonia de enfeites que se adquirem quando a sã e alumiada razão os escolhe. As pompas e os recamos da dicção occorrem-lhe a ponto com rigorosa propriedade. A unção religiosa dos quadros nunca é prejudicada pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua luz ficticia ao brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra Santa, resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro, alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez, tão condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser senão de monsenhor Pinto de Campos.
O leitor, que lê os telegrammas vindos do Brazil, já viu que lá se ergueu uma voz calumniadora acoimando de plagiario o author da _Jerusalem_. Sem interposição de tempo, sahiu pela honra e lealdade do calumniado escriptor um dos maiores sabios que hoje se contam viventissimos na rareada fileira dos sinceros homens de letras em Portugal. Parece-nos ter entrevisto no _Solitario_, que tão egregiamente repelle os detrahidores de Pinto de Campos, o conselheiro José Feliciano de Castilho, o mais poderoso talento alliançado á mais tenaz memoria de que temos noticia, e, mais que noticia, lição aturada e incansavel.
Eis aqui a repulsão da aleivosia, que trasladamos textualmente:
Li uns artigos em que, confrontando-se trechos da _Jerusalem_ com outros semelhantes das obras de Pozada Arango e de Perinaldo, se qualificam essas transcripções de _plagiatos escandalosos, furto na mão, bocca na botija, acto proprio para fazer subir o pejo ás faces do culpado, motivo de indignação_, etc., etc. Assim enfeixadas as injurias, não se dirá que as attenuo; e quanto ao facto da reproducção d'esses e outros passos no soberbo livro, começo declarando que elle é real, licito; publicado, antes de o ser pelos censores, pelo proprio escriptor; e que, nas circumstancias d'esta polemica, pouca prova de lealdade de quem occulta essa declaração com que o author de antemão desmorona todo esse castello de cartas. Ah! isso não convinha aos sinceros Aristarchos: esmerilharam tudo, mas fecharam olhos nada menos que sobre o peristilo do monumento, ao qual apenas fazem uma referencia vaga, passando como cão por vinha vindimada.
«O author podia, como grande numero dos seus predecessores em um assumpto d'esta ordem, reproduzir aquillo que bem entrasse no plano da sua obra, em materia de descripções, de averiguações e narrações dos successos, sem citar as fontes. Pois acaso inventa-se a religião? Inventa-se a historia? Inventa-se a natureza? Inventam-se factos? Sempre que em tudo isso se toca, é evidente que se repete o que já se ha dito; e todas as vezes que essas descripções estão bem feitas, que utilidade ha em alteral-as? Nada haveria mais facil que dar sempre as mesmas idéas por diversas palavras, mas n'isso então é que se daria manifesta má fé, porque transpareceria a intenção culposa, o que nunca póde imputar-se a quem, uma ou outra vez, traduz litteralmente de livros que andam em todas as mãos.
«Não desenvolverei este ponto em these, como tão facil seria; limitar-me-hei a demonstrar a candura com que monsenhor Pinto de Campos, logo ao romper o seu livro, nos denunciou... isso mesmo que hoje se lhe assaca? Completa elle o seu prologo (pag. XVI e XVII), revelando a quem vai lêr, que transcreveu largos trechos de escriptores antigos e modernos; enumera os principaes d'esses escriptores; affirma, com inexcedivel modestia, que só a ess'outros (o que é descabido) deve ser restituida qualquer gloriola, que das suas paginas se possa colher; que se embrenhou na floresta d'esses authores; que das flôres d'elles sugou o mel. Transcreverei (com as almejadas aspas):
«Na averiguação e narração dos successos, tomei por norma _seguir os varões_ doutissimos e diligentissimos, _citando lealmente suas palavras ás vezes, muitas outras suas sentenças_; assim como é certo que lhes addicionei outras muitas, que pelo proprio estudo alcancei... _Segui_ de preferencia a Sagrada Escriptura, Flavio José, S. Jeronymo, e entre os proporcionalmente modernos, Quaresmio... Em muitos outros, antigos e modernos, _procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos os quaes fiquei mais ou menos devedor; se n'este rescende alguma fragrancia, a elles e não a mim se deve_. Sem ordem nem de merito nem de idades, aqui apontarei Adricomio, Biagio Terzi, Calmei, Mariano Morone de Maléo, Chateaubriand, Lamartine, conde Marcellus, Valiani, Geramb, Poujoulat, MICHAUD, fr. Pantaleão d'Aveiro; MISLIN, fr. Lavinio, Renazzi, Gaume, POZADA ARANGO, Escrich, Munk, Dupin, De Saulcy, Saint Aignan; e particularmente os padres Dupuis e PERINALDO me foram de INEXCEDIVEL AUXILIO... Não se destina esta enumeração a ostentar pompa de erudição; serve, ao contrario, para _restituir a outros_ qualquer gloriola que de entre estas paginas podesse ser colhida. Solícita abelha, embrenhei-me n'essa vasta floresta e sem estragar as flôres, _suguei-lhes o mel_; e se em alguma havia veneno, lá o deixei.»
«O que ahi fica (idéa que mais de uma vez apparece reiterada no corpo da obra), constitue um luxo de precauções, a fim de que nenhum mal intencionado ousasse attribuir-lhe a intenção de locupletar-se com a jactura alheia. «Eu segui varões doutissimos», «suas palavras ás vezes, muitas outras suas sentenças.» «Em muitos authores procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos fiquei mais ou menos devedor.» «Apontarei entre estes Pozada Arango, Michaud, Milsin.» «Particularmente o padre Perinaldo me foi de inexcedivel auxilio.» «Se n'este ramilhete rescende alguma fragrancia, a elles, e não a mim se deve.» «Seja a elles restituida qualquer gloriola que d'entre estas paginas podesse ser colhida.» «Na vasta floresta dos authores citados, suguei o mel de suas flôres. »
«Santo Deus! É n'estas circumstancias que se imputa a um escriptor a perpetração de (nada menos!) _plagios escandalosos_! O que ahi fica, se pecca é pela repetição, até á saciedade, do proprio facto com que os inimigos hoje o criminam. Foi innocentemente o monsenhor quem deu essas armas contra si. Leram no prefacio os seus detractores que elle declarava haver transcripto numerosos passos de Michaud, Mislin, Pozada Arango; e que Perinaldo principalmente lhe havia sido de inexcedivel auxilio. O processo da malevolencia tornava-se, desde então, singelissimo.
«Ah! elle diz que ha um escriptor chamado Perinaldo, que lhe foi de inexcedivel auxilio? que ha um Pozada Arango, etc., de quem extrahiu as proprias palavras, ás vezes, ou sentenças? que para este ramilhete colheu d'esses livros muitas flôres, e as mais preciosas? Ora, copiosas flôres, colhidas de livros, não podem ser rosas, nem malmequeres, são forçosamente paginas. Toca a procurar esses livros, cuja existencia elle nos patentêa; a pesquizar ahi os trechos do que nos revela ter-se apoderado; e depois, lançando-lhe em rosto o que elle mesmo nos denunciou, tripudiaremos, e subindo ao capitolio, iremos render graças aos deuses!»
«Em tal procedimento, a lealdade pede meças á justiça.»
Delida a macula com que a malevolencia, aborto de odios politicos, tentou denegrir a mais notavel obra modernamente escripta com os primores da lingua portugueza por um brazileiro--que entre os seus e os nossos a escreve como os distinctissimos--não temos senão a louvar o grande alento que tirou a salvo de tropeços esta obra perduravel com que monsenhor Pinto de Campos brindou os seus conterraneos e os da patria de seus avós. Já conheciamos e reverenciavamos o orador religioso e parlamentar. Agora lhe recebemos de sua mão um livro que vamos reler e collocar entre os que nos ensinaram a escrever.
QUE SEGREDOS SÃO ESTES?...
Fosse terror ou sentimento fosse De mais occulta origem...
GARRETT.
A pallida doença lhe tocava Com fria mão o corpo enfraquecido.
CAMÕES.
I