Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12)
Chapter 3
É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais que gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia, de uma viva e ardente inclinação para as artes de pura imaginação, principalmente a da poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos rios e á sombra dos arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em versos sim, amorosos e sentimentaes, mas que só fallam de amor, de saudades, de ciumes e de ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos das musas tem aspirado á gloria de rivalisar com Euripedes ou com Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e aquelle que tem intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com tão infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho pensado sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um estro proprio a todo o genero de versificação, só para o theatral não teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas observações a este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma ecloga, um idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome distincto no Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de caracter, é preciso exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os sentimentos dos outros, que é absolutamente necessario conhecer e aprofundar para os saber desenvolver pela acção. Ora este conhecimento não se adquire senão por um grande uso do mundo, e por um tacto particular do coração do homem e de toda a natureza humana em geral; mas este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se espalhado no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas idéas, todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a pintar na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um villão afidalgado; mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não conhece senão Damiana a quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha de pintar as paixões dos homens e os seus ridiculos caprichos? Esta ignorancia me parece ser a causa por que os poetas portuguezes não consagram as suas musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma natural ternura, e o conhecimento de uma paixão, que elles conhecem melhor que quaesquer outras, e que explicam com mais sensibilidade e doçura. Nunca sahindo dos seus lares, vivendo em um pequeno circulo, uma imaginação, por mais poetica que seja, não póde produzir grandes e brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber o plano de uma tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra prima do espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu visinho tendeiro ou sapateiro.
Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos, basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de Castro, assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena, tanto nos tempos antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos nossos poetas portuguezes, não só pelo interesse da acção, mas por ser a acção passada entre nós, e que para excitar a compaixão tem de mais a historia que a proclama verdadeira. Tres ou quatro tragedias temos na nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e uma só d'ellas o immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada correspondem a um assumpto igualmente sublime que pathetico. Não fallo da primeira e mais antiga de Antonio Ferreira, que passa aliás por poeta classico entre nós, e na qual se não acha a força de sentimentos, a violencia das paixões, postas em jogo para trazerem imminentemente a catastrophe que finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a intriga mal combinada e tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador conhece, desde o primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes dialogos, em que as personagens que os declamam não tem bastante força para mostrarem todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos da côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o amor fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos dôces e sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira introduziu por intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos gregos, é o que ha n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella poesia, e tão pathetica, que movem o coração á maior sensibilidade. Outra tragedia, que temos sobre o mesmo assumpto, composta por o arcade Alcino não tem merecimento algum: as regras do theatro não são observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os sentimentos friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um caracter forçado e não tirado da natureza da acção, d'aquella acção que deriva de paixões complicadas e violentas, que deviam ser mais energicamente desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem entrecho de uma tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que não é poeta tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais pela musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios, quasi sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me ha annos vêr representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D. Ignez de Castro tirada de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la Barca, intitulada _Reynar despues de morir_. Esta peça foi geralmente applaudida e gostada pela energia e força de alma, com que uma actriz, chamada Cecilia, representou o papel de D. Ignez de Castro; mas esta peça deveu ao genio e aos talentos d'esta actriz o bom successo que teve, pois que examinando a contextura da peça, ella tinha os defeitos da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons versos; mas pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado debaixo do solio, era coroado e solemnemente proclamado pelo seu amante, já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto muito tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena, que pela sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não parece ser uma segunda acção, que se representa? onde está pois a unidade da acção tragica, que é o primeiro preceito da tragedia? A coroação da rainha na mesma peça é tão irregular, quanto é novo de sentar em um solio o cadaver de uma princeza, assassinada no seu proprio palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio de um sepulcro. Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á lembrança para mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida pelas musas aos portuguezes.
N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma tragedia com o titulo de _Nova tragedia de Ignez de Castro_. Esta peça observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas scenas elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta igualdade. O fim ou o desatado da intriga é a catastrophe, que vem um pouco precipitada e não trazida por um jogo de paixões, susceptiveis de modificações differentes, que levam o coração humano ao excesso da paixão que agita e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos e as scenas ainda mais. A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de Castro, que é uma das mais interessantes da peça, não póde satisfazer os espectadores, que vêem que um rei se occupa da sorte da infeliz Castro, de quem se separa, dizendo-lhe que vai para o conselho de estado, onde ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a sua causa. Que enormes incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; não é uma acção generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se no seu sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei convoca para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio simplesmente politico. E então que triste personagem faz elle em advogar pela infeliz Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em que elle mesmo póde dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que verdadeiramente são algozes! Esta scena podia ser conduzida mais nobremente, conciliando a bondade do rei, que se mostra interessado a favor de Castro, com a dignidade da sua corôa, que póde ser enganada pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é indigno da sua parte dar-lhes consentimento para serem os executores de um assassinio. Estas delicadezas não escapariam a Racine nem a Voltaire, se tratassem esta materia, porque, exactos observadores de tudo o que é decente e decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito da magestade, fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela soberania é sempre executor da lei.
Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu estro n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma tragedia, que foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais por favor que por justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido pelos seus talentos litterarios que cultivou no lugar humilde de uma tenda, compoz outra, cuja sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz do que a da condessa; e tantos esforços juntos não tem produzido um bom poeta tragico em Portugal que possa pôr-se ao pé do grande Corneille ou do sentimental Racine, mas ainda junto dos mais mediocres poetas tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do principio que acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no inimitavel quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua imaginação sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da natureza, para as saber pintar com propriedade, e conforme as suas primitivas creações; para um poeta tragico reproduzir o caracter de Catão, de Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da infeliz Dido, é necessario que entre com a sua imaginação no immenso theatro do mundo e contemple a variedade de successos que os interesses dos homens, as suas paixões, os motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as suas almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana, quando de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á corrupção dos costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um campo largo para o contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta aos nossos poetas, que levados do gosto dominante da nação, que tem por objecto o amor, não são pintores para retratarem grandes caracteres, nem teem imaginação bastante para darem aos grandes successos uma fórma que mostre todos os horrores dos vicios e todas as bellezas das virtudes, que é o principal objecto das tragedias.
Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez, menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não digo boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, sendo os primeiros que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a fortuna transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem adquirido. As comedias que os nossos poetas do nosso seculo de Augusto--que é o d'el-rei D. João III--nos deixaram, não merecem sequer o nome de comedias; o que me não faz espanto, pois que Portugal então não tinha um só theatro, mais que o dos campos de Marte, e onde não ha theatros não ha quem componha comedias. A nossa feliz época da boa litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo primeiro poeta das Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis comedias, e a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu pincel na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal, se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que aborreciam. Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente desprezada em Portugal, e o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido n'este paiz pelos successos politicos, por que passou, fez totalmente esquecer aos poetas do tempo este genero de composição. Elle se limitava só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente em festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a piedade christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para amarem a religião, do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo Horacio, _castigat ridendo mores_. Não tenho idéa, nem pela historia nem por tradição alguma, que em Portugal houvesse um theatro em que se representassem comedias portuguezas, de que não appareciam authores, ou pelos embaraços da longa guerra, que houve n'este reino para sustentar a corôa na casa de Bragança, que não deram lugar para a applicação das artes, ou porque os portuguezes não quizeram imitar os seus inimigos, exercitando as suas musas na poesia dramatica em que os hespanhoes excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não tinham theatros fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na historia de _Gil Blaz_ a descripção tão circumstanciada como critica. Corriam de villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, tres «Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de _Santa Genoveva_, _de Santo Aleixo_ e outros semelhantes, que se davam ao publico em espectaculo nos dias das maiores festividades da igreja. Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, e n'esta ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela poesia, pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são _Labyrintho de Creta_, _Encantos de Medêa_ e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou porque trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos italianos, ou porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia, e que Molière só fixou em França na época feliz da sua mais brilhante litteratura. Aquelle engenho, porém, infeliz pela fórma das suas composições dramaticas e mais ainda pela miseravel sorte que teve de ser condemnado a morrer queimado pelo santo officio, foi comtudo, o primeiro que viu as suas operas representadas no theatro do Bairro Alto, o primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes eram bonecos que se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos interlocutores, que se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que se achava a arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França como o restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas suas admiraveis comedias e como um modelo perfeito da mais decente, entendida, natural e agradavel representação que até então não tinha apparecido em algum theatro do mundo antigo e moderno.
Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como Aristophanes tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular que a natureza lhe tinha dado para imitar na scena as differentes personagens, que como author era obrigado a representar, causaram o mais pequeno estimulo aos engenhos portuguezes para o seguirem na carreira dramatica. As suas musas ficaram mudas n'este ponto, até que el-rei D. José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao throno, mandou construir um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais celebres musicos para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo o gosto da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não gostava, e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois--nem comedias para se representarem, no caso de o haver; porque, como já disse, a poesia n'este genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era tão magestoso que não admittia mais que pessoas de qualidades superiores; e as que ficavam mais abaixo não indo a elle ignoravam o que era uma comedia, uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se punham no theatro real. Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se com a maior parte da cidade este sumptuoso espectaculo, e, até que a confusão d'aquella calamidade se ordenou, nem el-rei teve theatro nem o povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da rua dos Condes, que ainda hoje existe nas ruinas do palacio do marquez do Louriçal, com algum augmento que teve, depois da sua primitiva creação. As peças que ao principio n'elle se representavam eram as operas de Metastasio traduzidas em portuguez, _Artaxerxes_, _Alexandre na India_, _Demofonte em Thracia_, _Ezio em Roma_, etc. com relações á maneira hespanhola, e mil bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as peças mais ridiculas que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de todo desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel de Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma composição dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os directores d'este miseravel theatro pozeram em contribuição poetas hespanhoes e italianos para sustentarem o theatro.
Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro Alto, não onde havia o dos bonecos em tempo mais antigo, mas nas ruinas do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com uma companhia de musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não durou muito tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo successo que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os engenhos portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da representação, tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro nacional.
N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr o pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de admirar, porque onde os talentos superiores não são apreciados com justiça e recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem podem produzir fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias do homem de gosto fino e delicado das cidades mais opulentas da Europa, nem terem a esperança de vêr seus nomes inscriptos nos monumentos que os homens gratos lhes consagram. As artes não florecem senão quando são immediatamente protegidas e estimadas pelos soberanos; e quer seja poeta, quer seja actor, se tem talentos distinctos, não merece a attenção e a estimação do seu principe, quem contribue para fazer a sua gloria mais brilhante? Os seculos de Augusto, de Leão X e dos Medicis de Florença, o de Luiz XIV em França não provam esta verdade? Não me detenho em amplificar estas minhas idéas com outras razões, porque não padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem pronunciado protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe tem erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou confundida nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos portuguezes tem esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram morrer Camões, que dá tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde esta desgraçada época tem sido os poetas n'este paiz tão pouco venturosos pela sua arte, que o nome de poeta só entre nós é synonymo de pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias boas podia pois haver em um tal paiz?
Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes n'este genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros podem rivalisar com os das outras nações que tem formado já um gosto apurado e exquisito n'aquella parte que se chama representação. Ella não é mais do que uma simples imitação da natureza, que é o primeiro principio que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle por acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem para declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos sem faltar á dignidade e á decencia que exige a personagem que representa, pronunciar com clareza e energia o que lhe compete dizer, e mostrar pela physionomia que o que diz vem do fundo da sua alma, sem estudo nem affectação, são as circumstancias principaes que formam um bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem pôr em uso. Os grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a natureza e seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, Albano devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam imitar e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os seus papeis como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que hão de acabar seja como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa dos nossos theatros é o mais tolerante povo do universo, pois que soffre com a maior paciencia todos os actores bons, maus, medianos e incapazes de apparecerem. Por isso nunca aspiram áquella superioridade, em que o bom gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã e judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o primeiro restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o primeiro actor da França. Conta-se d'elle que os papeis que representava recitava-os antes a uma criada que tinha, que decidia, como intelligente, da sua boa ou má representação, e como bom juiz corrigia e emendava os seus defeitos. Um dia Molière, para melhor se convencer da intelligencia d'esta sua criada, recitava-lhe um papel de um author estranho, que fazia uma grande differença d'aquelles que eram composição d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o engano, e voltando-se para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas comedias como um exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos fará applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a Molière? Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem, por um modo tão novo e tão extraordinario?
É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada, sempre fóra do natural e sempre exprimida em vozes altisonantes, e cujos dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e musical, estylo que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á comedia, a qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica por uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se a este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou criadas que vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que divertem o publico e que pela maior parte são insipidos, e sem outro interesse mais que o da risota, acharemos que está entre nós tão atrazado o jogo da representação theatral, que os nossos actores em seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, são proprios para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma.