Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12)
Chapter 2
Alli tudo decides com imperio: Não foram tão despoticos em Roma O tyranno Caligula, ou Tiberio.
Qualquer, de ti pendente, lições toma, Não ousa, inda que queira, dizer nada, Que tudo á tua voz se rende, e doma.
Alli qualquer materia é bem tratada, Com larga voz e cópia de palavras, Alli com teu discurso illuminada.
Antes fallasses tu em gado ou lavras, Do que em sciencias, de que nada entendes: Ou fosses para o monte guardar cabras.
Novos systemas se fundar emprendes, Porque a fama no numero te conte Dos grandes homens, que offuscar pretendes,
Pede ao bom Ariosto que te monte Sobre o seu grifo rapido, e serás Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte.
Ao concavo da lua subirás Para vêr se descobres novos mundos, Mas nunca o teu juizo encontrarás;
Perdeu-se como pedra em poços fundos, Que nunca acima vem, nem nada, ou boia: Juizos são de Deus, altos, profundos!
Não te esqueça maranha, nem tramoia, Porque ao fim desejado te Conduzas, Mais famoso serás que Helena e Troia.
Avante, ó novo Gama, já confusas Com as tuas acções vejo as antigas, E para te cantar promptas as musas.
Tem-nas da tua parte por amigas, Materia dando a satyras facetas Como as de Horacio, destro n'estas brigas.
Se minhas forem, não serão discretas, Porque da rima a musica sonante Adorna as minhas pobres cançonetas.
Inda esta nos faltava, a cada instante Andares tu contra ella declamando! Que mal te fez o pobre consoante?
Quando o chamas não vem logo a teu mando? É porque com verdade não se preza Do teu engenho o som suave e brando.
Elles fogem de ti com ligeireza Os consoantes, porque em ti não sentem Para bem usar d'elles natureza.
Se as minhas conjecturas me não mentem, Os que poetas querem ser á força, Pouco de um secco rábula desmentem.
Em vão um pobre espirito se esforça Porque os seus versos sóem docemente, Por mais e mais que o pensamento torça.
Nunca ouviste dizer que Apollo ardente Agita a phantasia dos poetas, Para que mais seu cerebro se esquente?
Inda que ouçam razões muito discretas Das mulheres e filhos que pão pedem, Deixam ficar-se, assim como patetas.
Nem fomes, nem trabalhos os impedem, Que exercitem o dom divino e raro: Tanto em seu desatino se desmedem;
Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro, Que elles são intrataveis, desabridos, Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro.
Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos, Que em idéas vulgares e confusas Sempre andaste com elles envolvidos;
Se nunca conheceste Apollo, ou musas, Nem pintado sequer viste o Parnaso, Para que de seus dons sem saber usas?
Se temes que o teu nome em negro vaso Para sempre se veja sepultado; Usa do para que tiveres azo.
Não digas mal do consoante amado Tanto dos bons engenhos peregrinos Dos do tempo d'agora e do passado.
Se tu fundas em Miltons e Trissinos Teus aereos phantasticos systemas, Assás de bons não foram seus destinos.
Poucos ou raros lêm os seus poemas; Um triste e melancolico caminha Farto de extravagancias mil extremas.
A musa d'outro misera e mesquinha, Languida e fria, sem adorno e graça Da solta prosa jaz quasi visinha.
Ninguem jámais a noite e o dia passa Seus aridos escriptos estudando, Por muito que o seu gosto contrafaça.
Não o nego porém, de quando em quando D'elles se eleva um resplendor sublime, Digno do Pindo e Phebo claro e brando.
Mas tu a quem a rima tanto opprime, Se não sabes, aprende: o canto hebraico Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime.
E que por evitar o tom prosaico, Algumas vezes d'ella se servira O poeta syriaco e o chaldaico.
Tambem a musa grega ao som da lyra, Lá nos tempos antigos, d'ella usou; E o romano que a face ao mundo vira.
Novamente o seu uso renovou Dando-lhe fórma e ser o provençal, De nova graça a poesia ornou.
Mas isto para ti de nada val, Que porque te foi d'ella Apollo escasso, D'ella e dos que a usaram dizes mal.
Que mal te fez Camões e o culto Tasso? Camões a quem as musas educaram Na sua gruta, e virginal regaço?
Qu'o cantico divino lhe inspiraram Em que aos astros ergueu os lusos feitos, Que tanto pelo mundo se afamaram.
Para exprimir altissimos conceitos Nunca jámais a rima lhe fallece Estylo e puro culto sem defeitos.
Qualquer rustico espirito conhece, Que quanto o Camões quiz dizer, o disse Facil e natural, como apparece.
Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse, Diria afoutamente e com verdade, Q'isso em ti era inveja, era doudice.
Ora pois, porque tens difficuldade Em dizer teu conceito em dôce rima, Vituperal-a é grande iniquidade.
Julgavas facil e de pouca estima Dôces versos fazer? amigo, não, É preciso trabalho, estudo e lima.
E isto sem natural inclinação, Ou pouco ou nada val: se disso és pobre Martellarás no pobre siso em vão.
A vêa natural não se descobre, Mil glosas n'um outeiro recitando, Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre.
Oh quanto te escarnece a gente quando N'elle estás como insano loucamente «Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando.
Inda do consoante tão vãmente, Te atreves, pobre infusa, a blasphemar, Sendo tu tão vã cousa, e tão demente!
Elle nunca se deixa demonstrar Na tão formosa lingua portuguesa A quem com diligencia o procurar:
Qualquer, inda que pouca natureza Tenha, dirá rimando o que quizer Em estylo corrente e com clareza.
Tanto que aqui mui bem se póde vêr Que sendo o meu engenho rude e baxo, Exprimo quanto tenho que dizer.
Ou bem ou mal os consoantes acho, Tão facilmente ás vezes me apparecem Que para os apanhar me não abaxo.
Mas julgo que os ouvintes adormecem Co'a minha longa pratica: eu me calo, Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem.
Em fim já sem refolho aqui te fallo; Se os meus versos conseguem felizmente Fazer dentro em teu peito algum abalo,
Que o teu fado se quebre em continente, Tornando-te, de louco, homem cordato, E acabes de ser fabula da gente.
Tuas acções medindo com recato, Deixando versos maus, vãos argumentos Que te fazem de todo mentecato,
Darei por bem gastados os momentos Que empreguei n'esta misera escriptura, Censurando os teus fatuos pensamentos, E ter-me-hei por mimoso da ventura.
O PALCO PORTUGUEZ EM 1815
Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam de magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição do theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. Florecidas mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova lhe desbotoaria as primeiras flôres da grinalda.
A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze annos, com o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia e aquecidas ao sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que lá fóra retemperaram o genio na incude da pobreza, e reviveram nos esplendores da civilisação.
Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815, escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este escripto da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de phrase, com certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á sua patria, mais atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram simultaneamente da mão, no cerco do Porto. Não sei o nome do official que jaz obscurecido na valla dos que morreram em batalha. Apenas em uma nota que precede a seguinte carta se diz que o author d'ella, morto na rareada fileira dos mais audazes soldados do imperador, teria sido um dos melhores cultores das letras que esmeradamente seguira na emigração. Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio aos indigestos pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo Fernandes (Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura:
Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses.
Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha tanto tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo gordo vão, pela primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos _dilettanti_ é igual á impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos fechado por falta de actores. Será bem difficil que estes, que chegaram, satisfaçam plenamente a espectação publica, onde se conserva ainda bem gravada a lembrança dos excellentes cantores, que tanto nos deleitaram n'estes ultimos tempos, e que brilharam com a mais bem merecida reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que illustraram distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus Supremo.
Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José fez vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande terremoto do anno de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia em toda a Italia. Depois d'esta época sustentou o mesmo monarcha a mesma inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação a nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem perdido de todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que conservam viva a lembrança do canto melodioso, suave e delicado da Crescentini, de Cafforina, e da celebre Catalana, que por uma maneira nova de cantar, levaram esta sublime arte áquelle grau de perfeição, a que ella póde humanamente chegar.
Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos áquelles de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a natureza igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em semelhantes producções, parece-me que o seu canto não causará nos espectadores o mesmo interesse, com que todos os lisbonenses corriam para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a harmonia de accentos, que realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem, porém, que vem duas raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem bem applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com mais attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á belleza.
É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros na Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os successos politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da Europa sobre os progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o seu berço; mas porque o infame e detestavel costume da castração, com o fim de fazer as vozes finas, e bons sopranos, está justamente prohibida por uma lei sabia e judiciosa. Pois que barbaridade maior podia haver do que condemnarem os paes seus proprios filhos a uma mutilação que degrada a especie humana, que a inutilisa e que annulla os votos da natureza em prejuizo das suas mais admiraveis producções?
Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de moverem a alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos esforços de uma modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer mais interessante os sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas, que conciliem com os seus accentos a viva expressão dos sentimentos differentes da nossa alma, em que um gosto sublime e delicado faz consistir a perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico aquelle que se occupa só em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas doçuras da harmonia, inspira na nossa alma, e lhe communica os mesmos sentimentos que exprime no seu canto.
Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor theatro, que teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre um grande recurso em uma grande cidade, destituida de divertimentos publicos, e onde se consome o homem, e sobre tudo os estrangeiros, á força de uma negra melancolia, não havendo outro passatempo, que não seja o de algumas sociedades particulares, onde só apparecem aquelles que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda a sua vaidade, e quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a comica representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam n'estas assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os murmuradores e maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo um homem entendido, e como transforma um sevandija em um fidalgo cortezão.
É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o recurso dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais do que as assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem a todos é permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris, em Vienna, em Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se passem as noites, e menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem creado acha a melhor companhia, e onde trava amizade com os homens mais distinctos e que são assás uteis muitas vezes. Os nossos costumes reservados, e os principios da politica, de os dirigir pela desconfiança ou pelo temor, em que a policia ganha porque tem menos que observar e menos motivo para temer que a ordem publica seja alterada, fazem que estas privações se soffram com toda a paciencia, contentando-se cada um que não tem os meios competentes para frequentar as companhias do melhor tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu visinho, a murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa, semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico meio de que se servem para resistirem aos rigores da estação.
Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus divertimentos publicos, menos vantajoso; pois que uma cidade populosa que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e uma quantidade immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em que se ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me salvar de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer, vejo-me obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos theatros nacionaes, que pela sua construcção material e pelo genio dos actores, que n'elles representam, não constituem um divertimento que chame o gosto, o interesse e a distracção da classe mais escolhida da nação, a quem não fazem grande honra nem excitam aquella curiosidade que faz frequentar estas escólas dos costumes e do bom gosto.
Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda nas mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao da rua dos Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é obrigado alli a supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da melhor representação, ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa arde em fogo, nas mesmas noites mais frias do inverno, o desgraçado espectador que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento encanado pelos corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa estes assentos. Nos camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais, estes incommodos são ainda mais penosos; por entre as frestas das portas entra um frio pelo inverno, que gela, e que é principio certo de catarrhos, pleurizes e constipações, que circulam amplamente n'aquelle triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem lugar reservado, em que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os grandes males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O theatro do Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais marcadas; de maneira que todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles passar uma noite, deve ir disposto a vir doente: se é de verão, pelo nimio calor, se é de inverno, pelo frio. Assim não conheço um meio mais proprio a quem está em boa saude, de estar doente, do que ir a um d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes espectaculos aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê exposto, do que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram por dinheiro, fossem, comtudo, compensados pelo deleite de uma boa representação, seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao prazer certos incommodos, de que uns não fazem caso por genio, e que outros desprezam, porque lhes insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a representação é tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco; e os caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por ignorancia propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se ouvirem á custa dos grandes detrimentos que se soffrem, principalmente quando um homem tem o seu gosto formado pelos bons modelos da arte dramatica, a quem um actor mediocre e baixo é tão insupportavel, como uma musica desafinada e sem harmonia na sua composição. Taes são, portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta carreira mais com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda, que com o nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos nomes de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain.
Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de expor o meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro thermometro, que indica o grau em que se acha a civilisação e os costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação, cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece pouco os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas, cujas influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações, que cultivam com o melhor successo esta arte, que nos representa vivamente os vicios e as virtudes dos homens, assim como tambem os seus defeitos e os seus ridiculos.
Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes, não podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois que não temos nem actores dramaticos nem actores capazes de desempenharem estas bellas composições do espirito humano. Não é de admirar que não haja bons representantes, onde faltam os poetas; porque aquella mesma natureza, que inspira o enthusiasmo da imaginação, não deixa de inspirar tambem o gosto particular da imitação, de modo que é observação demonstrada, que onde os engenhos sabem conceber os mais brilhantes pensamentos e estudam todos os movimentos da nossa alma, dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das paixões humanas, ahi se encontram tambem aquelles talentos superiores e naturaes, que na scena representam com toda a energia e delicadeza aquelles mesmos movimentos; de maneira que parece realidade o que não é mais que imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia nos theatros de Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão requeria; e Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes de homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou amor proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos sentiam em si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem quando se julgavam objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do comediante. Como este mesmo era o author das suas comedias, não é de admirar que exprimisse com energia aquillo mesmo que a sua alma sentia com toda a sua força; e é d'este modo que os theatros, que são as escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela fealdade do vicio ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente o fim para que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que não tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas mais vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua representação, não póde produzir o effeito que esta admiravel arte de imitação é capaz de produzir, e sem o qual effeito, uma sala de espectaculo não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem gozar de algumas momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará possuir d'aquelles prestigios do sentimento que faz amar a virtude e detestar o vicio, nas peças tragicas, e nas comicas, temer o amargoso fel da critica que corrige o homem, fazendo mofa dos seus costumes que pinta, quando são ridiculos, ao natural.