Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12)

Chapter 5

Chapter 51,486 wordsPublic domain

O primeiro periodo marcado por v. allude ás _Memorias do Carcere_ cuja editação v. me veio propor em seguida á do _Amor de Perdição_. Ajustamos a publicação d'essa obra antes de eu ter lido o original, que só no dia seguinte me foi entregue. Li então o manuscripto aonde encontrei algumas expressões que me pareceram offensivas da reconhecida probidade do conselheiro Camillo Aureliano da Silva e Sousa, então procurador regio junto á Relação do Porto. Por este motivo tive de devolver o original a v. rogando-lhe houvesse por nulla a nossa convenção, por isso que eu não podia ser editor de um livro em que de certo por erradas informações, era maltratado um amigo meu, que eu tinha na conta de magistrado integerrimo e de honradissimo cavalheiro. V. veio immediatamente procurar-me e aceitando o meu testemunho como a expressão da pura verdade, confessou ter sido mal informado ácerca da immaculada probidade do meu amigo. Voltou o manuscripto devidamente reformado e v. não se limitando a expungir as phrases que eu havia condemnado, fez generosamente justiça ao honrado magistrado. Publicou-se o livro e elle mesmo dará testemunho da inexactidão do que se affirma no citado impresso, de que eu me vira obrigado a pagar um romance escripto por v. contra o meu amigo para lhe poupar um desgosto.

Confesso não ter guardado rigorosa reserva sobre este incidente, do que sinceramente me peza, visto que a minha indiscrição deu lugar a que os factos fossem desfigurados em desabono de v.

V. não precisa de certo que eu o justifique, nem me justifique a mim de me haver um dia refugiado no escriptorio do signatario do impresso para me subtrahir a um pedido de v. Declaro com toda a ingenuidade não me recordar d'esse grave capitulo de accusação dirigido não sei se a mim se a v. O que afoutamente posso asseverar é que nas muitas transacções commerciaes que temos tido encontrei sempre em v. a maior franqueza e inexcedivel probidade. Não é por isso verdade que v. depois de me haver vendido a propriedade do drama _O Condemnado_ o tivesse subrepticiamente vendido tambem a outra casa editora. É verdade que d'este drama se veio a fazer no Rio de Janeiro uma contrafacção, mas tenho completa certeza de que v. fôra inteiramente alheio a esta fraude, que a falta de um tratado com o Brazil infelizmente authorisa.

V. fica authorisado a fazer d'esta minha carta o uso que lhe convier.

Sou como sempre

De v. etc.

Porto, 25 de julho de 1874.

_José Gomes Monteiro._

Apraz-me grandemente o publico testemunho d'esta carta, no momento em que as minhas relações sociaes e commerciaes com o snr. José Gomes Monteiro se desatam. Eu não poderia, sem impostôra inutilidade, fingir-me amigo de s. exc.ª desde que do contexto da sua carta se deprehende que o snr. Gomes Monteiro não se recorda bem se fugiu de mim para o escriptorio de Anselmo. Figura-se-me mais consentaneo ao honesto caracter do snr. Gomes Monteiro negar-se pela palavra a um favor pedido, e não pelo escondrijo no escriptorio de Anselmo a quem, pelos modos, s. exc.ª não disse _que nas muitas transacções commerciaes que tivera commigo encontrára sempre a maior franqueza e inexcedivel probidade_.

Tirante esta feição mais attendivel do impresso, o remanescente é indiscutivel nos prelos e nos tribunaes. Tenho vergonha das infamias alheias, e respeito os nomes das pessoas que ahi se ultrajam.

No entanto, não me esquivo a tocar dous episodios da minha biographia, que lá vem contados:

Que eu guardara cabras em Villa Real.

Quer o leitor saber onde Theophilo foi esquadrinhar este indecoroso lance da minha vida? Em um livro meu, chamado DUAS HORAS DE LEITURA, escripto ha 20 annos. Sou eu que, em uma carta ao meu fallecido amigo José Barbosa e Silva, conto assim o caso das cabras:

«Aos meus dez annos, levantou-se uma tempestade no seio da minha familia. Uma vaga levou meu pai á sepultura; outra atirou commigo de Lisboa, minha patria, para um torrão agro e triste do norte; e a outra... Não merece chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso patrimonio. Foi bem pregada a peça, para que eu não tivesse a impudencia de nascer, a despeito da moral juridica, filho natural de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da snr.ª D. Maria I me desherdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do peccado; Denominava-se a _piedosa_, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus, se chamou o _piedoso_... Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã casada com um medico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractario á luz da gorda sciencia do meu padre. Fugia de casa para a serra, dava muitos tiros ás gallinholas e perdizes... O meu gosto era (_hic_, cabras) pascer o rebanho de casa por aquelles saudosos valles. Todavia, minha irmã oppunha-se a este humilde serviço. Dizia-me cousas que eu não percebia ácerca da minha dignidade, reprehendia os meus baixos instinctos, attrahia ao seu voto o marido e o padre, e cortava-me o rasteiro vôo, escondendo de mim a clavina, o polvorinho, os salpicões, a brôa, e a cabacinha da aguardente. Não obstante, eu pedia tudo de emprestimo, e ia com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro, sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fragosos, sempre sósinho, scismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenhadeiros.»

* * * * *

A respeito de cabras, não ha mais nada nos archivos impressos, que eu deva transmittir á posteridade.

Ai! meu saudoso rebanho! Provavelmente, d'este lidar com cabras é que me ficou o sestro e coragem de aparar as marradas de cabrões, como Anselmo.

N'essa mesma carta a Barbosa e Silva, conto eu que ajudava diariamente á missa a cinco sacerdotes. O sarrafaçal deixou escapar o ensejo de dizer ao publico que eu tambem fui sacristão.

E a historia da filha do taberneiro, que me deu um fato novo e uma moeda para eu lhe casar com a filha; e vai eu pego a fugir com o fato e a moeda e deixo a rapariguinha perdida!

Desbragada porcaria!

Ó meus amigos de Villa Real, ou lá d'onde se passou o caso infando! Procurai a miseranda menina; e, se a topardes n'alguma gafaria--derradeira paragem da espiral das perdidas--trazei-a a casa d'este Anselmo para lhe agradecer o pregão que a vinga, e para lá se rehabilitar, vendo-se honesta em contacto com certo exemplo femeal de podridão d'alma e corpo.

* * * * *

Despedi-me, ha dias, de assignante da _Actualidade_. Estou arrependido. Devemos todos contribuir com alguns cobres para que Anselmo de Moraes não seja forçado pela necessidade a _picar-nos_ (giria d'elle) o paletó no cunhal da viella da Neta. Em quanto aquelle archi-pulha tiver gazeta, o seu pão, embora deshonrado, garante-nos do assalto nocturno. Não lhe leio mais o jornal; mas dou-lhe a esmola dos 240 reis mensaes. Mande-os receber em quanto a espinha em via de amollecimento me consentir subscrever com seis patacos, a fim de que elle me não liquide a cadêa do relogio.

É verdade: affirma o impudentissimo caloteiro que tem lá uns titulos do saldo de nossas contas.

A fim de que esses documentos appareçam, offereço o seguinte e perpetuo supplemento a todos os numeros da _Actualidade_:

ANSELMO DE MORAES É RADICALMENTE LADRÃO, COM UM CORTEJO DE TORPEZAS ESPECIAES E RARAS NOS LADRÕES MAIS DESPEJADOS.

AO PUBLICO

AO PUBLICO

Distribuiu-se ahi ha dias com generosa profusão um libello famoso por motivos a que sou completamente estranho, mas em que nem por isso quizeram que eu deixasse de figurar.

Indignou por ahi a todos a alludida publicação, sem exceptuar os proprios amigos ou parciaes do signatario d'ella, o snr. Anselmo de Moraes. Dou-me com isso por bem vingado das malevolas intenções que me apontaram ás iras atravessadas do insultador enraivecido. Não ha desforço pessoal que valha tanto, e, ainda que o houvesse, não seria eu que o tirasse. A dignidade nem sempre manda procurar o aggressor, antes ás vezes exige que se evite.

O meu fim é, pois, sómente esclarecer o publico, a quem respeito, como devo, e de quem quero continuar a merecer bom conceito, ácerca da perfida insinuação com que se intentou manchar a minha probidade commercial, que só d'isto posso aqui fallar sem offensa da moral publica. Obrigou-me aquella insinuação a dirigir-me ao exc.mo snr. José Gomes Monteiro, que, como homem de bem, se dignou dar-me o testemunho que se segue:

_Snr._

_Respondendo restrictamente á carta que de V. acabo de receber, cumpre-me declarar, como o exige o meu caracter, que durante o tempo que sob a minha direcção V. serviu a casa da snr.ª viuva Moré, nunca d'ella subtrahiu cousa alguma ou quantia e prestou regularmente as suas contas._

_De V._

_Porto 28, 7, 74._

_attento venerador_

_José Gomes Monteiro_

Depois d'isto seria de mais tudo quanto eu podesse dizer. Fica o publico habilitado para fazer o seu juizo.

_Ernesto Chardron._

FIM DO 8.º NUMERO

EMENDAS AO N.º 7

Pag. 47, lin. 15: quer-me _parece_, emende: quer-me _parecer_.

Pag. 95, lin. 10: _king-charles_, emende: _king's-charles_.