Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12)

Chapter 4

Chapter 43,536 wordsPublic domain

Cita, na pag. 208, o imperativo do verbo _ser_, _apud_ Vasconcellos: «_Sejai_ pois corajoso e apparecei como modêlo.» E a pag. 507: «_Sejai_ tão infames quanto quizerdes.» E a pag. 337: «_Estejai_ dentro ao golpe da sineta.» _Coup de clochette_--golpe de sineta, segundo Vasconcellos. Em portuguez, traduz-se _badalada_, ou _toque de sineta_. Desculpem esta observação os alumnos de instrucção do 3.º anno dos lyceus.

«Desço eu (diz o snr. Vasconcellos a pag. 239) sem cessar de cima para baixo.» O snr. Telles de Mattos ajunta: «Leitor, agradece a fineza: sem o pleonasmo, ficavas percebendo com certeza que se desce de baixo para cima.»

Os cães, _apud_ Vasconcellos, grunhem. A pag. 273: «Tu vês um cão... elle _grunhe_.» A pag. 277: «Não grunhes, cão!» E torna: «Quer o cão... _grunhir_.» Nunca se usurpou tantas vezes a linguagem ao cevado.

Se o snr. Vasconcellos estudasse portuguez pelo _Methodo_ de Monteverde, teria aprendido nas _Vozes dos animaes_ do snr. Pedro Diniz como vozêam cães e porcos.

_Muge_ a vacca; _berra_ o touro; _Grasna_ a rã; _ruge_ o leão; O gato _mia_; uiva o lobo; Tambem _uiva_ e _ladra_ o cão.

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_Chia_ a lebre; _grasna_ o pato; Ouvem-se os porcos _grunhir_; Libando o succo das flôres, Costuma a abelha _zumbir_, etc.

Tambem Vasconcellos, traduzindo Goethe, descobriu no cão um _caroço_ (pag. 285). Diz-lhe o snr. Telles que _Kern_ significa _pevide_ ou _caroço_, quand se trata de fructos; mas n'outras conjuncturas, é _amago_, _substancia_, etc. O snr. Vasconcellos, quando tirava os significados de _Kern_, achou _caroço_, e pespegou-o logo no cão; por isso o cão encaroçado _grunhiu_ tres vezes. Podéra...

A pag. 474, escreve Vasconcellos: _ouvir por um oculo._ Eu esta phrase não a estranho. Mais me espantára, se elle dissesse: _vêr por uma corneta acustica._

Dá-nos Vasconcellos a pag. 503 Tantalo _enterrado até ao queixo na agua._ Póde uma pessoa estar _enterrada_ na agua, e estar _submergida_ na terra. Tambem não estranho isto; mais me assombra a coragem da ignorancia, se é que não ha um fado irresistivel e tolo que nasceu comnosco, ou _com nós nasceu_, como diz Joaquim de Vasconcellos a pag. 339.

BIBLIOGRAPHIA

_Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido JOSÉ DE SOUSA BANDEIRA, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874._--O berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do redactor do _Azemel_ e do _Artilheiro_. Bandeira é o patriarcha da facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de consultar os _Annaes da imprensa da liberdade restaurada_, quando houver de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias, José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas, escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal. Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação.

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_No Minho, por D. ANTONIO DA COSTA. Lisboa, 1874._--Apenas publicado, divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado em ramos de variada litteratura. Os _Tres mundos_ foi obra que affirmou os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do _Minho_ é o repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação, estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas--em que não ha vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia--passar uma noite em Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas hospedarias não fossem alfobres de insectos _apteros_ com seis patas, e _hemipteros_ com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga.

Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no _Compendio de civilidade_ do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e proveito do homem.

O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou copiosamente no capitulo intitulado: _Uma insomnia._ Quem sabe se, n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas? Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um de cada lado, e os outros bichos no meio.

Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro, intitulados _O Bom Jesus do Monte_, _Um castello feudal em 1873_, _A mulher do Minho_, e a _Ultima impressão_. N'estas paginas que fecham o livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda caritativa. «Ah, senhora!--escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da instrucção--devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: _É aquella!_»

O livro _No Minho_ está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e, todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro dos _Tres mundos_, relido com intelligente ardor e creio que já reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua indole peculiar ao genero escoteiro--digamol-o assim--d'estas cousas levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do amor dos Espronceda e Musset.

Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos, condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de porvindouros beneficios a filhos e netos--consolação unica, mas santa, que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente.

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_Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo VISCONDE DE BENALCANFÔR. Porto, 1874._--Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.

No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna, carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante, arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães--o estylo que é a dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em 1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a politica do _Nacional_, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga.

Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e... adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se convenceram que o _visconde de Benalcanfôr_ era o epitaphio de _Ricardo Guimarães_.

Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua.

D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no boleio da phrase--ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a consciencia d'essa difficultosa amalgama.

Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo, n'este livro o teu capitulo, intitulado ELOGIO MUTUO. Tu, com certeza, antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento.

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BERNARDINO PINHEIRO. _Amores d'um visionario, romance historico original do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874._--Se a linguagem das civilisações adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de _historico_. A illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro, depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D. Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo, da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases intempestivas.

Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu livro. As paginas descriptivas de _Uma academia feminina do seculo XVI_ quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III. Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras, se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as suas leis fataes--e, por vezes, posto que raras, felizes...» E acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós somos:--amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no mundo livres o pensamento e o amor?!»

A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de, colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças. Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza.

Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII (_Illustrações em Coimbra_) é labor bastante a graduar um espirito culto na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma negra de João III e não vingaram esclarecel-a.

O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil. Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz, dispensa-se dos realces da naturalidade.

Em summa, _Os amores d'um visionario_ é um livro que merece graduar-se entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas desaffectas a demorados estudos.

POBREZA ACADEMICA

O secretario da academia real das sciencias de Lisboa, José Bonifacio de Andrade e Silva, escreveu a monsenhor Ferreira Gordo, pedindo-lhe um donativo para ajuda de se pagar o busto do duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança, que a mesma academia desejava collocar em uma das suas salas. O sabio monsenhor respondeu com circumspecção e graça por meio da seguinte carta, que está inedita:

«Poderá v. s.ª certificar em meu nome á academia, que eu estou disposto a concorrer com o contingente, que me couber, guardada a proporção arithmetica, para o monumento, que pretende dedicar á memoria sempre saudosa do seu illustre fundador, e que aproveitarei de bom grado todas as occasiões, em que possa dar-lhe mostras do meu reconhecimento pelo muito, de que lhe fui devedor. Mas não se achando todos os socios n'este empenho, e fallecendo á maior parte d'elles meios, para fazer donativos d'esta natureza, parece-me que a academia teria resolvido com mais prudencia, e circumspecção decretando que a despeza do dito monumento sahisse inteiramente dos seus fundos. Que póde doar sem detrimento seu um religioso, não sendo commissario da Terra Santa, prior geral dos conegos regrantes de Santo Agostinho, abbade geral do mosteiro de Alcobaça, ou ministro provincial dos menores observantes de qualquer das duas provincias de Portugal e Algarves? Que rendimento tem um professor regio de humanidades, um lente da universidade, um ministro, e qualquer outro funccionario publico, que na fallencia de bens patrimoniaes, lhe não seja indispensavel para sua mantença? Dirá alguem que a academia roga, e não manda, e isto é verdade; mas como ninguem quer o fóro de pobre, nem ser marcado com a nota de pouco officioso, esta rogativa virá a ser para a maior parte dos socios, o effeito de um rigoroso mandamento. De mais se a academia é real, se todos os seus trabalhos se dirigem a fazer prosperar, e florecer os estados de quem lhe deu este titulo, e a subsistencia, e se até agora tem gozado a singular prerogativa de ser presidida por uma personagem de sangue real, acho muito improprio, que a despeito, de tudo isto, se lhe queiram dar os attributos de uma irmandade religiosa, fazendo dependente da caridade de seus irmãos, e não do seu patrimonio, qualquer despeza extraordinaria, que emprehender. Perdôe v. s.ª como secretario a liberdade, que tomei, que como meu amigo que é, tenho certeza me desculpará, se o que acabo de escrever se encontrar com o seu parecer, que muito respeito.»

Os academicos de hoje são outra casta de gente, quanto a pelintraria. Se não fazem bustos, é porque ainda estão vivos todos os sujeitos que hão de resuscitar no marmore e no alabastro. Aquelles salões desertos hão de ser povoados de estatuas, quando as cangas de sabios que hoje lavram os baldios da sciencia, se foram a pascer nos almargens da immortalidade. Medita a geração nova no modo de os entrajar, pois que a funeral casaca destôa das arrojadas manias e sabenças de cada sujeito. Creio que deveremos apparecer, nós, os academicos, cada qual com seu caranguejo symbolico na mão operosa. O mocho, a ave de Minerva, apenas cabe de direito ao snr. João Felix Pereira, o pervigil diurno e nocturno.

SOBRE ANSELMO

Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos bicos da penna e aos loros do látego.

Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei.

Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão. Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao curro das letras.

No impresso assignado por Anselmo de Moraes encontrei duas aleivosias que me doeram por estar conspurcado n'ellas o nome serio do snr. José Gomes Monteiro, invocado como authoridade no meu descredito. São as seguintes:

«Da cadêa começou Camillo a abrir brecha para a rapina na casa Moré, mandando ahi mostrar um romance de descompostura ao dignissimo procurador regio, que não lhe tolerou certas obscenidades no carcere; o amigo do procurador regio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance para poupar um desgosto ao magistrado respeitavel. Ainda não ha muito tempo que o snr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso escriptorio para evitar o encontro de Camillo na loja Moré, que ia alli armar uma _escroquerie_, com o fim, dizia elle, de pagar uma decima...

«Ultimamente comprometteu a sorte de Vieira de Castro com a sua defeza; explorou a desgraça do amigo com o drama o _Condemnado_, que vendeu a dous individuos.»

Pedi ao snr. José Gomes Monteiro, antigo gerente da casa Moré, e editor do _Condemnado_, que se dignasse ajudar-me a interpretar estas deshonrosas referencias a um romance que s. exc.ª me pagára para não ser publicado, a uma fuga de s. exc.ª no escriptorio de Anselmo para se furtar a uma _escroquerie_; e finalmente á dupla venda do drama _O Condemnado_ a s. exc.ª e a outro simultaneamente.

O snr. José Gomes Monteiro, na volta do correio, respondeu d'esta fórma:

_Snr. Camillo Castello Branco._

Meu amigo.

Acabo de receber a carta de v. datada de hontem, incluindo o impresso que Anselmo de Moraes fez aqui circular. Apresso-me em responder-lhe.