Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12)

Chapter 3

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«Martim de Castro do Rio foi culpado e esquartejado por crime de lesa-magestade, porém seu filho Jorge Furtado de Mendonça foi restabelecido, casou illustremente, teve maior estimação do que antes do delicto tivera seu pai, e d'elle descenderam os viscondes de Barbacena.

«O marquez de Villa Real, seu filho o duque de Caminha, D. Agostinho Manoel, o conde de Armamar, e Fernando Telles, foram sentenciados por crime de lesa-magestade: os quatro primeiros foram degolados, e o quinto queimado em estatua: a todos se confiscaram os bens, e como só Fernando Telles tivesse filhos, a estes passaram os morgados, e os dos outros delinquentes a quem de direito pertenciam.

«Francisco de Lucena foi julgado e justiçado por crime de lesa-magestade, da mesma fórma o senhor de Regalados, um dos Soares de Alarcão, os mascarenhas de Montalvão, D. Raymundo, quinto duque de Aveiro, e outros foram reputados criminosos, sentenciados como taes, confiscados seus bens; alguns d'estes tinham descendentes, a quem passaram os morgados, e além d'isso conservaram a mesma estimação, e lograram as mesmas honras, que teriam se seus ascendentes permanecessem innocentes. Francisco Maldonado, e Francisco de Mendonça foram julgados por traidores, e como taes justiçados, e confiscados os seus bens; nenhum d'estes tinha filhos legitimos; mas Francisco de Mendonça deixou uma filha bastarda, que conservou a mesma estimação que teria se seu pai não commettesse o delicto; casou competentemente ao seu nascimento, com descendencia nobre de quem tomou tambem o appellido. Muitos outros factos semelhantes se omittem para não abusar da regia paciencia; só se nota não haver nenhum em contrario de pessoa de certa ordem; e é tambem de admirar que até quando por algum dos nossos monarchas foi recommendado ao seu successor que se conservasse inexoravel com os que deixava profundados na desgraça, nunca tiveram efficacia bastante as razões politicas d'este conselho, e triumphou contra elles a clemencia e justiça. D'ahi se seguia manifestar-se mais que nunca n'este reino a verdade importante de ser a religião o mais solido fundamento das felicidades e das glorias. Tudo n'este tempo pareceu por Deus abençoado, e d'este modo se conservou, não sómente a raça respeitavel, com que viemos a recuperar os nossos fóros nacionaes; mas concorreram tambem para a sua exaltação muitos descendentes dos proscriptos antigos tornados pelo mesmo rei afortunado ao estado venturoso.

«Estes exemplos constituem um perfeito costume, porque concorre n'elle a multiplicidade dos actos, a diuturnidade do tempo e a sciencia de principe. Se foram de justiça, não é o supplicante menos innocente, nem menos fiel e obediente ao sceptro do que aquelles em quem se não executou a lei, para que n'elle se interrompa uma tão dilatada serie nos ditos exemplos; tanto mais não lhe tendo valido até agora a opinião de muitos santos padres, de doutos juristas, canonistas e theologos, que deu occasião ás leis estabelecidas nos reinos mais policiados da Europa, dos quaes reputando-se os filhos nascidos antes dos crimes de seus paes, livres de infecção, sómente a do peccado original são preservados de toda a pena, antes pelo contrario, tendo estado o dito supplicante expiando por excesso de rigor o crime alheio pelo tempo que se equipára á morte, por ser já de uma duplicada vida civil, e que pelas violentas circumstancias da rigorosa prisão em que padeceu, lhe teria acabado a natural, se a Providencia divina lh'a não tivesse conservado apesar dos esforços empregados para a brevidade da sua duração,--pena nunca praticada, porque nem as leis dos imperadores, nem a nossa ordenação, nem alguma outra impuzeram exorbitante castigo a semelhantes filhos innocentes.

«Se os mesmos exemplos são de graça, o supplicante prostrado diante do throno de V. M. a implora, tomando por protectores, a religião e a piedade d'um principe, que preparado de muito longe pela Providencia, com dotes proporcionados ao magestoso encargo que lhe destinava, se nos mostra possuidor em grau sublime de tantas virtudes christãs, que fazem o mais brilhante ornato da sua corôa.

«D'um principe a quem com antecipadas luzes, sendo evidente que para beneficio dos que deviam obedecer-lhe seria poderoso o seu exemplo mais do que a sua real authoridade; que por não ter na terra tribunal que lhe fosse superior, devia exceder muito em perfeição aos homens ordinarios; e que em lugar tão eminente poderia o seu beneplacito ser a regra soberana por onde tudo fosse decidido, passou os instantes da sua preciosa vida, em um continuo exercicio do dominio das paixões e foi sempre o juiz mais severo de si mesmo. D'um principe, em fim, que com estes respeitaveis fundamentos certo de ter estabelecido o mais feliz imperio nos corações dos seus vassallos, só fará sensivel o peso immenso da sua real grandeza aos inimigos da igreja e da verdade. Não dará outro uso ao seu poder, senão para que se execute o que Deus manda; e assim como alguns, que foram a delicia dos seus povos, fará consistir a sua maior gloria em livrar da oppressão os desgraçados.

«Debaixo d'estes ditosos auspicios, d'estes augustos intercessores, espera o supplicante vêr o termo do seu abatimento, a restituição da sua liberdade, da sua honra, do seu credito e dos bens que o direito do sangue lhe conferiu pelas vocações de seus ascendentes. Esta graça humildemente pedida, será para o supplicante um novo vinculo da sua submissão. E para el-rei nosso senhor um eterno monumento da sua benigna magnanimidade.»

Esta pungente invocação á caridade da rainha, que esvasiava os repletos cofres do estado no mosteiro do Coração de Jesus, não valeu ao desgraçado, sequer, uma esmola do real bolsinho. Braganças!... O marquez de Gouvêa viveu longos annos da caridade do seu parente conde de Obidos, e já no fim da vida recebia uma mezada que lhe dava D. João VI. D. Martinho, se bem me recordo do que li, morreu em Lisboa, em uma humilde casa, no bairro de Buenos-Ayres, por 1804.

[2] É este o titulo do manuscripto: _Itinerario do ex.mo snr. bispo conde, restituido ao seu bispado, para o qual partiu de Lisboa no dia 11 de agosto de 1777._

D. MARIA CARACA BONAPARTE

Não conheci, em Lisboa, esta senhora D. Maria, bastantemente historica e benemerita de immorredoura escriptura.

Conheceu-a aquelle esclarecido arcebispo, cujos sonhos, na noite da demencia, o leitor ouviu no sublime desarranjo chamado _A catastrophe_.

Est'outro escripto, menos nevoento e cerrado das turvações do delirio, tem especies em que o riso se trava com o compadecimento, e outras em que a compaixão d'aquelle distincto homem nos redobra o pezar de se haver perdido no vigor da idade tamanho espirito.

D. MARIA CARACA BONAPARTE, OU A BURRINHA PROTESTANTE

D. Maria Caraca teve tres estados: foi orphã, casada e viuva: seu pai morreu na guerra da Italia combatendo contra os francezes pela independencia da peninsula italiana; era natural de Milão, cantor da opera e grande enthusiasta das novas idéas da republica, que haviam volcanisado o seu cerebro até o delirio.

Quando este maestro da opera viu que a França proclamava a liberdade para tyrannisar os povos, lançou-se no partido mais hostil aos francezes da republica sanguinaria, e morreu deixando a sua morte bem vingada.

As suas idéas eram falsas e exageradas em religião e em politica; porque seguia occultamente todos os erros e absurdos de Luthero e de Calvino: o odio, que tinha ao summo pontifice era tão profundo, que o obrigava a blasphemar e praguejar contra os cardeaes e contra a santa sé, contra os bispos e contra as mitras e cadeiras.

Bonaparte venceu muitos ou todos os partidos que estiveram em campo contra a França: o general da republica principiou a imperar, e a exercer a sua tyrannia nas provincias muito antes de exaltar na metropole o throno do seu fatal despotismo, como sempre acontece.

Verres na Sicilia era mais do que imperador; Cesar sempre imperou nas provincias. Se D. Affonso d'Albuquerque fosse susceptivel de ambição podia usurpar o titulo de imperador da Asia; porque o povo desejava conferir-lhe todas as attribuições do imperio.

Bonaparte no Egypto era saudado como rei do fogo; Mahomet e todos os impostores e usurpadores da sua escola recebem a mesma baixa e servil adulação que as almas mais vis sempre se empenham em prodigalisar ao vencedor. A sciencia, e a virtude de homem grande, consiste em desprezar estas frivolas demonstrações e em saber reprimir todos os excessos do enthusiasmo, que se esvaem e perdem como o fumo.

Bonaparte passou como um cometa; a sua descendencia extinguiu-se e toda a sua parentela: existe na throno de França um homem que não tem pai nem mãi, nem alliança, nem façanhas nem grandeza. É um homem que apenas aspira a fazer com auxilio alheio uma memoria que mereça ser approvada em uma academia.

Os protestantes urdem e tecem muitos generos de lisonja aos seus heroes; são arcos e pompas de triumpho, grinaldas, festins, e poemas, representações, e orchestras, lisonjas e desvanecimento.

Um deputado da convenção nacional disse a um seu amigo e collega, que ia para Lião em commissão sanguinaria: tu verás em Lião a minha esposa, abraça-a.

N'este tempo todos os revolucionarios levavam as suas mulheres aos horrorosos estupros do templo profanado: a mulher que servia de modelo, e o homem que a gozava, eram escolhidos entre todos os concorrentes sem attenção ao estado nem á condição dos que eram designados.

Na Italia tributavam em quasi toda as cidades a Bonaparte a honra de o desposar com a mulher mais formosa; Bonaparte aceitava este tributo da infamia protestante, gozava e passava para outra cidade, aonde era recebido com igual torpeza.

Em Milão cahiu a nefasta sorte em Maria Caraca Bonaparte; e como era filha d'um homem morto pelo exercito francez recusou sujeitar-se á estranha condição para que a designaram, apesar de ser tão protestante como seu pai.

Os influentes de Milão que andavam empenhados n'esta impia e baixa lisonja corromperam todos os parentes da burrinha; de sorte que cedeu de seu odio politico, e principiou a ser do conquistador.

Se Maria Caraca fosse verdadeira catholica, jámais consentiria em tão grande infamia e vileza, porque esta especie de tyrannia é mais impia e mais cruel de que era o tributo das cem virgens para o serralho e para o harem.

Uma amante ou manceba podem nutrir uma esperança honesta, e chegam ás vezes a legitimar as suas uniões e prole; estas burrinhas são sempre a negação da moral, o escarneo do affecto, e o epigramma do amor e da sympathia. O protestantismo trata todas as mulheres como negras escravas. Despreza-as para as fazer bem vis; porque a mulher deve ser semelhante ao homem que a elege, e que a fórma e educa para sua companheira.

Os milanezes deram a um tio de Maria Caraca a espectativa de um canonicato, prometteram á sua victima dous mil cruzados de dote, e por esposo o primeiro cantor da opera de Milão.

Maria Caraca e a sua familia realisaram todas as condições; os protestantes de Milão cumpriram as suas fielmente: o casamento verificou-se, o dote sahiu da renda da cidade, que pagou para Bonaparte ter uma desgraçada por companheira dos seus vilissimos prazeres.

Os que dispunham tão impiamente dos beneficios ecclesiasticos não podiam ter duvida em defraudar o thesouro do municipio.

Maria Caraca e seu marido seguiram o partido de Bonaparte, e na restauração dos thronos viram-se na necessidade de emigrar para Portugal: perderam patria, emprego, e até o sobrenome de Bonaparte de que usaram por muito tempo.

O marido morreu e deixou um filho e uma filha em Lisboa; o filho exerceu n'esta cidade por algum tempo com seu pai a profissão de musico: tambem morreu: eu só conheci a viuva e a filha chamada D. Thereza, as quaes moraram na rua dos Poyaes de S. Bento.

Quantas vilezas, quantas degradações, e quantas tyrannias envolve o atroz procedimento de Milão! Não ha impiedade mais provocadora, não ha infamia mais torpe, nem injuria maior feita ao mesmo tempo á igreja e ao estado, á mulher e ao esposo, ao amor e ao estado e á santidade do matrimonio.

Estas estrangeiras eram da escola da infame Bisardeli: conviviam com a sua amante, que foi muito tempo em Lisboa uma mulher luxuriosa e depravada, que vendia todo o fumo da perfida nunciatura d'aquelle tempo.

Eu foi conduzido em mil oitocentos e quarenta como deputado para a casa das referidas Caracas: as lojas maçonicas dispunham do meu destino traiçoeiramente para dispor de minha vida, e vivi por mais de um anno na casa dos Poyaes de S. Bento com outros deputados, que serviam as lojas, e que me vendiam, e entregavam aos seus caprichos: por esta razão ouvi e aprendi o esboço d'esta negra historia; assim agora ouço e aprendo o seu complemento e torpissimo enredo.

A inspiração é a minha sabedoria; se em outro tempo soube alguma cousa agora declaro, que nada sei e que todas as minhas idéas são communicadas e inspiradas, do alto céo, e no seu piissimo docel.

Eu tinha trinta annos de idade, e julgava que todos os homens eram de boa fé, e amigos do seu semelhante. Bons e excellentes para a companhia e convivencia, os traidores são os mais lisonjeiros: eu tive seis companheiros de casa n'esta época: só um vive, cinco já falleceram.

Os meus inimigos, que são todos os vilissimos protestantes, fizeram as maiores diligencias para me matar: não houve astucia, nem enredo, nem traição que não empregassem para conseguir este malevolo fim: é bem de presumir que um d'estes fosse o veneno.

A infanta e todos os usurpadores da casa de Bragança, o governo e todos os seus clientes, a maçonaria e todos os seus agentes nacionaes e estrangeiros, ora armavam contra mim o braço do cruel Mattos Lobo, ora forjavam ou fingiam revoluções e acclamações nocturnas para me surprehender no conflicto, ora lançavam sortes para me seguir de noite e para me matar nos arroios da cidade ou nas encruzilhadas: ora engajavam estrangeiros e carniceiros por grandes sommas para que me procurassem e matassem na propria casa, aonde eram recebidos pelas infames Caracas.

Um d'estes era um lanceiro, e carniceiro, que esteve na guerra do Porto, a quem deram o preço do regicidio, e o bilhete de passagem em um brigue para sahir para França logo que consummasse o attentado.

Todas estas traições e maquinações eram cumulativas, horrorosas, e tão desleaes e insidiosas, como as que se urdem ao innocente que não sabe ou não póde defender-se. Eu estava no caso da mais perfeita ignorancia porque nem sabia o que era: infelizmente a minha vida era n'este tempo mui sujeita á fragilidade e a quedas que eu não procurava, antes tentava e não sabia evitar.

Estes monstros da tyrannia do inferno pediam e repelliam a minha eleição; porque o seu fim unico exclusivo era a minha morte; só admittiam a meu favor algumas apparencias ou disfarces com que encobriam as suas tramas e horrores: eram seducções, tyrannias, convites para lugares de traição, venenos, e armas occultas. Se viam que eu vingava como advogado em Villa Real, pediam para eu ser eleito deputado só para me atraiçoarem em Lisboa; e logo se arrependiam, e punham todos os embaraços da sua infame escola e odiosa seita á minha eleição e elevação; se viam que eu não era morto em Lisboa desejavam que eu fosse para Coimbra aonde punham como ultima mira a cruz de meu martyrio e funeral.

Como podia livrar-me de tão infernal perseguição? Os monstros não consentiram mais na minha eleição e ainda me propozeram pelo circulo de Arganil, onde fui eleito deputado no anno de 1852, mas os infames logo se arrependeram, e cassaram ou annullaram a eleição na camara, sem me ouvir, e sem me mostrar o processo das suas infernaes tramoias.

Quem deixaria de eleger-me para todas as legislaturas depois de vêr e saber que o meu nome era singular e unico, e que a minha representação não tinha igual em todo o mundo e redondeza?

Quando concordaram na minha eleição para suffraganeo do patriarchado entregaram a minha vida ao maldito e infernal nuncio, e ao abjecto e tredo patriarcha e ás suas seitas e partidos para se desonerarem da tarefa que os infames julgaram e declararam superior ás suas forças.

Estes monstros esgotaram toda a traição, todas as maquinações e os seus enganos, e não conseguiram o que desejavam: o perfido e abominavel ministro do anti-papa chegou a convidar todas as seitas para o espectaculo do meu envenenamento, as quaes enviaram os seus deputados e representantes para assistir a esta scena de horror que se representou na presença da diplomacia cruenta das actuaes usurpações da vergonhosa Europa e da America por duas vezes.

Só Deus omnipotente podia isentar-me de tão imminentes catastrophes. O nosso fim actual é descrever a burrinha protestante e a sua bestial condescendencia e venalidade.

Um deputado que vivia na mesma casa da viuva Caraca mandou um seu criado ao meu quarto para me offerecer uma criada da casa em que ambos viviamos; eu não sabia desviar estes golpes, que o Senhor deixava ao meu alvedrio para o merecimento, e para que désse a devida preferencia á sua santa luz e mandamento.

O inimigo occulto era d'uma seita de usurpadores de Deus: a sua traição vingou por pouco tempo; quando me tentou com alguma pessoa da sua familia não conseguiu o que desejava; o criado fez-lhe a traição, que elle me urdiu a mim.

Os inimigos da nossa casa e dynastia recorreram a D. Thereza Caraca, e fizeram-lhe o mesmo partido, que os milanezes tinham feito á sua mãi para que me seduzisse e envenenasse.

Prometteram-lhe dinheiro, um marido, e um emprego para este, e realisaram todas estas promessas, mas eu só bebi meia taça de seu perfido veneno; na primeira occasião que tive de lucido intervallo repelli a seductora, e todas as suas seducções, e, como vi que se obstinava, sahi da casa.

O que é a verdade? esta mulher disse que estava gravida e tentou attribuir-me o seu ventre, ou isentar-se pelo aborto do seu nefando e odioso mister de calumniadora; disse-me que ia queixar-se de mim ao nuncio, ou agente occulto da junta apostolica que por este tempo estava em Lisboa, em quanto estiveram interrompidas as relações com a côrte de Roma. Eu zombei da perfidia e do sarcasmo d'esta mulher calumniadora e embusteira; e procurei livral-a de sua tentativa de aborto, o que felizmente consegui por dinheiro.

Esta odiosa creatura teve n'este tempo dous amantes: o primeiro era um deputado, que a seduziu para que me envenenasse, o qual morreu pouco tempo depois, e logo adoeceu tão gravemente que parecia um espectro, ou um cadaver ambulante: era um agente dos pedreiros livres.

Havia n'esta casa só duas pessoas da familia, a mãi e a filha; eu tive dous enlouquecimentos de falso amor; repelli duas tentativas da mesma perfida natureza e nojenta cavillação.

D. Thereza tocava dous instrumentos e cantava, tinha um amante para casar que a acompanhava no canto e com o violoncello: eu comprei em quanto alli estive dous pintasilgos ensinados a tirar agua com o bico, os quaes foram ambos mortos por um gato, que havia em casa.

A criada tambem teve dous amantes, um era sapateiro coxo, que a procurava e requestava para casar: ambos realisaram os seus casamentos.

A filha da viuva Caraca tinha na mesma casa um estabelecimento de capella, e inculcava-se ao respeitavel publico como modista: a mãi tinha o seu estabelecimento de hospedaria.

Eram dous estabelecimentos: a casa tinha sahida para duas ruas e duas portas para a rua dos Poyaes de S. Bento: viveram alli commigo cinco deputados, dous delegados, dous juizes do districto, dous governadores civis, dous juizes da antiga magistratura, dous Domingos dos quaes um era o atraiçoado e o enganado por todos os outros: eramos ambos deputados pelo circulo de Villa Real: os outros eram deputados por outros circulos.

Os delegados foram Domingos Vieira, e José Manoel Botelho, os juizes foram o José Maria da Chamusca e o Quesado, os governadores civis foram o dr. José Maria e João Pedro Pessanha, os juizes antigos foram o mesmo José Maria e Domingos Vieira, e não preciso dizer quem eram os Domingos, senão que eu sou já tão diverso do que era, que não pareço o mesmo. Os cinco e seis deputados formavam as cinco e seis qualidades já referidas.

Quem poderá calcular as lagrimas que tenho chorado para carpir os peccados e os erros da minha mocidade, e para os emendar com divina graça e misericordia? está-me parecendo que reunidas faziam o maior lago dos nossos passeios e jardins.

Actualmente não como carne nem peixe não bebo vinho nem cerveja, passam-se quinze dias e tres semanas sem que prove doçura, nem chá, nem café, nem chocolate, como por medida e por peso, e não uso de carne nem de genero algum de tabaco, não passeio, nem vou aos espectaculos; prefiro andar a pé e só peço ao Senhor que se compadeça da minha alma.

A burra protestante é bem parecida com a vacca, e com o burro da seita: eu não conversava com estas em pontos ou artigos da santa fé, o seu veneno era a maior traição e os seus reconditos apenas me revelaram parte da sua historia de Milão.

Eu sempre assisti á missa mais catholica de que tinha noticia, e não suspeitava em ninguem cavillação ou perfidia tão negra e atroz, que chegasse a ostentar fé falsa da diabolica e tenebrosa consciencia: agora sei que ha muitas d'estas embrutecidas consciencias, e não duvido que as duas Caracas fossem d'este hediondo esconjuro.

Os maçons são em geral d'esta sanhuda seita do inferno; os usurpadores de Portugal pactuam com o demonio, e entregam as almas para poderem possuir as leis das santas casas do divino Salvador.

Mas estes venenosos monstros apenas gozam a presa: o direito santo e eterno foge d'elles como foge a cerração quando nasce a aurora que vem remir o mundo.

Os mesmos inimigos recebem outro engano ou desengano semelhante quando tentam usurpar o poder da santa igreja para legitimar a sua tyrannia.

A falsa communhão dos protestantes está no estado: não póde legitimar os actos do poder usurpador e dominador.

O estado catholico está na igreja, e por isso legítima os seus poderes todas as vezes que recorre para este fim ao poder espiritual do summo pontifice. A era actual é a perfeição da disciplina.

LIXO

O snr. Joaquim Antonio de Sousa Telles de Mattos, critico erudito e menos conhecido que merece, publicou, em Evora, um opusculo intitulado: _A imparcialidade critica do snr. Joaquim de Vasconcellos._ Allude á _Analyse critica da versão do FAUST_. A obra do critico do snr. visconde de Castilho é um livro crasso que morreu de tabardões, e jaz no _carneiro_ das livrarias esperando que o dente roaz da carcôma o pulverise por modo que as letras portuguezas se desenfezem d'aquellas escamas de ignorancia e odio.

O snr. Telles de Mattos colligiu algumas necedades graudas que denominou _vasconcellismos_.

Abre a lista, com a novidade--_declinar_ verbos. Eis a passagem onde se encontra o lerdo descôco do critico de Castilho: _Nenhum doutorando dos ultimos cinco annos em Coimbra, estaria no caso de_ declinar _os verbos auxiliares allemães, sem merecer palmatoada..._ (pag. 26). E acrescenta o snr. Mattos: «Quando eu vi o _Sejai_ e _Estejai_ julguei que era erro typographico dos _germanismos_ annunciados; vendo porém _declinar_ verbos, percebi que o snr. Vasconcellos saberá tanto de allemão como qualquer analphabeto nascido debaixo do paternal carinho de Bismarck.»

Observa que a pag. 57 o snr. Vasconcellos inclue a Suissa na Allemanha; e acrescenta: «A Suissa pertence á Allemanha na geographia do snr. Vasconcellos; ella deve ser equiparada á sua grammatica.»

Nota que o snr. Vasconcellos escrevendo: _os manes do Olympo_ (pag. 128) désse a perceber que os deuses olympicos tem manes. _Manes_ tanto significam almas dos mortos como deuses infernaes. A mythologia do snr. Vasconcellos é como a geographia, e não desdiz da grammatica.