Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)
Chapter 5
N'este papel, que v. me envia, diz elle que me _escalpellisa com o maximo socego_, e que eu estou _desesperado_. Podéra não estar! Tomára eu que Silva se calasse, a vêr se me despeno d'estas afflicções em que elle me traz. _Escalpellisa-me!_ Vê? Do escalpello á faca de ponta a differença está em algumas pollegadas de aço. O instrumento das glorias de Bichat, posto em mãos de Silva, assusta-me como se lampejasse nas de Cartouche. Ó Pinto! ó carnifice! já sei que garotêas na rua de Santa Catharina, e te alapardas no antro n.º 335. O chefe da esquadra vigia-te a rogos do meu pavor!
Elle diz ao publico:
Que discute pelo desejo de _formular_ um protesto, etc.;
Que adiante _formúla_ observações, etc.;
Que tem testemunhos de sympathia publicamente _formulados_, etc.;
Que o disparate só um leitor assiduo, etc., ousaria _formulal-o_, etc.
Formúla tudo. Este abuso da _fórma_ denuncía costella de sapateiro. Quem te reformulára os aleijões a tirapé, Pinto! Pinto falso!
Diz que não me ameaçára na minha vida privada. (O _privada_ é elle e d'elle. Eu escrevi _vida particular_. Não lhe quero maior castigo que a vergonha ante si mesmo de substituir cavillosamente palavras para amanhar um gracejo sujo). Não ameaçou?! Annunciou na _Actualidade_ um livro escripto por um collaborador, e prometteu dar extractos na folha. Que queria dizer isso?
Diz que não escrevêra a local da _trilogia_, nem a outra ácerca do Castellar, nem a da cacophonia.
Então havia outro sandeu de igual marca no jornal? Que parelha de asneirões! Pelos modos aquelle escriptorio de redacção era uma estrebaria! Se os dous coexistem, são os meninos-siamezes da estupidez; mas o outro desconfio que é elle.
Falla de uns meus _contractos litterarios com o snr. Anselmo de Moraes_.
Ahi vai, com nojo e brevidade, a historia d'estes contractos já babujada pelo dos _Musicos_, e não sei por quantos da quadrilha.
Este Anselmo de Moraes procurou-me, ha seis annos, para me propôr a redacção de um periodico semanal, que se chamou a _Gazeta litteraria_. Aceitei. O contracto estabelecido foi que elle me pagaria a redacção por columna; e, imprimindo em livro os artigos do periodico, me compraria, á parte, a propriedade do livro. Pagou-me oito numeros, e deixou de me pagar os restantes. Neguei-me a escrever o n.º 17, quando a divida montava a 70$000 reis, e eu já tinha pago de minha algibeira a um collaborador, o talentoso Delfim Maria de Almeida. O periodico terminou.
Não lhe pedi o estipendio do meu trabalho, porque seria baldado pedir-lh'o, como havia acontecido ao estimado escriptor lisbonense Andrade Ferreira. Esperava eu, todavia, resarcir-me com a propriedade dos meus escriptos, publicando-os em livro; mas o snr. Anselmo de Moraes, esbulhando-me d'este recurso, editorou os artigos em volume, e os pôz á venda com o titulo de _Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e biographicas_, precedidos de um prefacio, attribuido ao snr. Theophilo Braga, onde se diz, pouco mais ou menos, que o author dos taes escriptos, sentindo a imaginação fatigada para o romance, se soccorre d'aquelle genero. Era, ao mesmo tempo, espoliação e descredito.
Assim que tive noticia d'esta... irregularidade (pacato synonymo de _maroteira_), constitui procurador que impedisse a venda dos livros, cuja propriedade me pertencia, e se apossasse da edição que se achava na casa Moré, se bem me recordo. O snr. Moraes levou d'este acto judiciario aggravo para a Relação, a qual decidiu que se entregassem os livros ao editor, fundamentando o accordão em que eu permittira a publicação do livro. Quem duvidára que eu permittira a publicação do livro? O que eu não queria consentir era que o snr. Anselmo de Moraes m'o não pagasse.
A acção judicial foi erradamente posta. Eu devia, em vez de fazer arresto por fraude, requerer arresto por _calote_.
Paguei as custas, e desisti de nova acção para não pagar outras; porque o snr. Anselmo era insoluvel. Ahi está a historia.
Falta dizer o conceito em que tenho o proprietario da _Actualidade_. Salvo melhor juizo, é um traficante na pessima accepção da palavra; mas tão parvo que me açula os seus mastins, devendo açamal-os em tal assumpto, se tivesse juizo, vergonha e consciencia.
Mas, tornando ao outro:
Pinto diz que eu o ameacei. Eu! Que me chamasse entidade _escura_, _leproso_ e _ignorante_, perdôo-lhe porque é verdadeiro, menos no diagnostico da lepra; mas escrever que eu lhe _dirigi ameaças_, é peta que talvez me obrigue a matal-o uma d'estas bellas noites na rua de Santa Catharina, n.º 335, 1.º Ando á cata da arma, da unica arma idonea para tal burricidio: é um gato morto e putrido. Em quanto não topar o gato, Pinto póde sacudir a juba aos quatro ventos do céo.
A proposito de juba, dizem-me que elle exhibe uma guedelha _king-charles_ ou á Ferré, o petroleiro. Perguntaram-lhe ahi no Porto porque não se tosquiava.--Já viu leão sem juba?--respondeu elle.--Nem urso sem pello--redarguiu o outro.
Figados e bofes de petroleo tem elle. Foi a Hespanha offerecer aos communaes o seu... estomago. As manhas que lá o sustentaram hei de pedir authorisação a um cavalheiro de Madrid, muito querido dos portuguezes, para as contar á Europa. Pinto percebe-me. Não são factos da privada, são da vida publica, vida de vergonhas que nos a vexam lá fóra. Na volta de Hespanha, repulso de Lisboa, despejou-se no Porto, e cavalgou Anselmo, ou Anselmo a elle--é ponto controverso.
Era aprendiz de caixeiro, em casa do snr. Anjos, se me não engano, em Lisboa. Um dia foi atacado da pestilencia das _piadas_. Entrou a arder em febre de asneiras. Em seus rábidos delirios, espumava injurias. Houve um innocente que o desafiou.--«Eu não me bato, insulto!»--respondeu o alentado cobarde. Moeram-no. Podéra!...
Este homem, na sua miseria, é um exemplo salutar á mocidade. É como o bebado nos festins da Laconia.
* * * * *
Meu amigo, faz-me o favor de pedir novamente perdão á opinião publica? Vá-se habituando a pedir perdão todos os mezes.
Sou, etc.
NIL ADMIRAM
O snr. _G._ escreve um folhetim no n.º 154 do _Primeiro de Janeiro_. Louva as qualidades litterarias do snr. Pedro de Amorim Vianna, manifestadas na traducção das _Memorias de Lafarge_, e no _Estudo_ correspondente. Observa que a celebre envenenadora grangeou sympathias nos salões da França, e attribue o phenomeno á corrupção da moral.
Depois, derivando aos costumes contemporaneos, escreve:
«Troppmann que em nossos dias póde ser considerado um dos maiores criminosos, chegaria a causar fanatismo, se se lembrasse de percorrer a propria França, theatro das suas tristes façanhas, e não faltaria quem se désse pressa em procurar estender-lhe a mão com intima effusão de contentamento.»
Sentir semelhante dislate, mas não o escrever, revelaria, quando menos, um eclipse de razão; mas divulgal-o, atiral-o ao rosto da sociedade, é um insulto. Que conceito fórma da moralidade da França o snr. _G._! Troppmann, o assassino de algumas crianças que a justiça levanta de ao pé de sua mãi cortada de golpes, percorrendo a França, _causaria fanatismo; e não faltaria quem se désse pressa em procurar estender-lhe a mão com intima effusão de contentamento_!
Que dirá o seculo XXII, quando lêr isto! Dir-se-ha que o seculo de Jayme José Ribeiro, de Belem, era um periodo de selvagismo, e que o snr. _G._, á imitação de Boecio nas trevas da meia-idade, protestára contra os vicios do tempo, e affirmára honradamente a sua repugnancia em apertar a mão de Troppmann, com intima effusão de contentamento.
É justo que cada um exerça o direito de dizer o que pensa; mas os disparates, que ultrajam a consciencia publica, deveria o escriptor, embora anonymo, cohibir-se de alardeal-os.
Parvoiçadas d'esta laia, ditas em um botiquim, evolam-se como o fumo agro de um mau charuto de vintem; mas, estampadas em gazeta circumspecta, tornam-se immortaes como as gazetas, e arriscam perante a posteridade os _GG_, os _BB_, e todas as mais letras do alphabeto, sem excepção dos _TT_.
FIM DO 7.º NUMERO