Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)

Chapter 4

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N'esta dos tempos mudança, n'esta da sorte dureza, na mantuana princeza tinha librada a esperança. Em fim, chegou; mas alcança que já esperar não convém; pois tão ruins lados tem n'este imperio desigual, que só póde fazer mal, e não sabe fazer bem.

Algum que este povo unido desejára apedrejado, e em fim foi d'aqui lançado a todos aborrrecido[7], de novo agora admittido exerce imperio violento; que, para commum tormento, n'este governo acontece que o que castigo merece agora é merecimento.

Este, agora, por fartar-se de tyrannias, é tal que governa Portugal como quem só quer vingar-se; pois não só quer odiar-se c'os naturaes; mas tambem, sem ser justiça, dotem aos estrangeiros no mar, até mandar-lhes queimar o proprio barco em que vem[8].

De dous bachareis se informa mui diversos na nação[9], O Salazar e o Leitão[10] que só differem na fórma; só com estes se conforma: vêde o effeito qual será; porque um e outro está sinalado com deshonra[11]; e quem não guarda sua honra como a vossa guardará!

Este ministro cruel em tudo se intromette. Olhai que cousas promette junto co'o hollandez Sinel! N'estas almas de pichel tudo póde e tudo manda. Ai! do reino, pois tal anda o governo portugues que se vai de um hollandez contra os rebeldes de Hollanda[12].

Este, pois, governo errado, para poder conservar-se, trata de perpetuar-se em dous polos estribado. Mas, ai! que está mal fundado em tão perversa doutrina; que onde a ambição domina é sempre o imperio violento, sendo aos filhos fundamento o que aos paes foi ruina!

Porque aquelle pai que eu sei por infamia e por traição até quarta geração foi julgado pela lei; d'este um filho (ó alto rei!) sacrilego bispo é![13] Outro, digno de galé, excluso já por bargante da companhia triumphante assiste a julgar a fé[14].

Vêde como a julgará quem sempre sua fé quebrou; e o que só vicios guardou como ovelhas guardará! Grandes simonias ha, senhor, n'estes provimentos! Examinai os augmentos dos que medram com ambição, por que eu sei bem que não são taes os vossos pensamentos.

E, por não parar o extremo, d'estes o mais vil ladrão bebado, torpe e bufão é secretario supremo! Com que a vosso reino temo, senhor, grandes precipicios; pois não só vendem officios a inuteis, fracos judeus; mas vendem a honra de Deus e seus santos beneficios.

Que muito! se, nos sagrados dormitorios de Enzobregas, provocou a acções bem cegas ao seu rancho e aos seus prelados! E, para os vêr profanados, certas gaitas ordenaram, com que todos celebraram a bacchanal, suja prole; e foram gaitas de folle porque os odres não faltaram[15].

E quem isto faz, senhor, como é possivel que possa conservar em graça vossa do vosso reino o melhor! E não é damno menor affirmar-vos sem vergonha que é parente do Noronha por lhe roubar o que tem, e com malicia tambem, que está doudo vos proponha.

Pois aquella rica prenda n'este reino sentenciada, por grande Caco lançada do tribunal da fazenda! Não me espantarei que venda por baixo preço a valia da patria e da monarchia, pois, nas mudanças que faz, falso traidor e sagaz toda a sua esperança fia[16].

Senhor, estes inimigos são dos melhores sujeitos que não permittem seus peitos conservar sabios amigos. Crêde que em grandes perigos vos hão de precipitar; e sirva-vos de exemplar tantos reinos assolados porque foram governados de homens de baixo solar.

É um em tudo guiado de um forneiro mecatrefe; de um pendolista bodefe é o outro governado. Serão suas razoes de estado sempre tisnadas e feias qual corre o sangue nas veias; fazei d'estes expulsão, que um é corrêa de cão, o outro cão para corrêa.[17]

Com vossos poderes regios estes traidores astutos torcem vossos estatutos, quebram nossos privilegios. Não faltam homens egregios para governar melhor. Informai-vos, vós, senhor, que não falta quem mereça, quem fiel vos obedeça, quem sirva com mais amor.

Assim, para commum damno, e para proprios proveitos convém que busquem sujeitos para o governo tyranno; de sorte, que n'este engano, viveis, senhor, offendido, e d'este reino esquecido; pela divina verdade, que não ha perpetuidade no reino que é dividido.

Falta um justo conselheiro que por commum liberdade ante vossa magestade vá com zelo verdadeiro, qual o grande cavalleiro Egas Moniz em que igual foi valor e zelo tal, que, vendo a patria opprimida, arriscou a propria vida pelo bem universal.

N'esta universal fadiga, quem manda, fallar não deixa; pois até do pobre a queixa como culpa se castiga. Pois como ha de haver quem diga que a tyrannia insolente inda fallar não consente! E nossa fortuna quiz que se sinta o que se diz; mas ninguem diga o que sente.

Em fim de tanta crueldade vos avisa o reino junto, Portugal que, por defunto, se atreve a fallar verdade. Vossa altiva magestade mostre agora seus poderes; que, entre tantos pareceres, qual póde o governo ser, se, á conta d'uma mulher, governam tantas mulheres!

_Manoelinho o fez com approvação do senado todo junto._

* * * * *

Comparando o torneio e estylo d'esta poesia com as que tenho impressas dos poetas d'aquelle tempo, é muita a semelhança que corre entre ella e os poemetos de Duarte Ribeiro de Macedo, que foi melhor prosador.

[7] Diogo Soares, secretario dos negocios de estado, fazenda e justiça.

[8] Successos occorridos com embarcações francezas.

[9] Nascimento.

[10] João de Frias Salazar, desembargadar do paço, e o dr. Francisco Leitão, o _Guedêlha_ de alcunha, de quem dá larga noticia a romance intitulado _O Regicida_.

[11] Dr. Leitão, era filho de uma notoria meretriz, e havia casado com outra, a celebrada Vicencia, filha de uma certa Barbara, alcaiota da rua dos Cabides.

[12] A historia escripta não nos esclarece a obscuridade da allusão.

[13] D. Sebastião de Mattos e Noronha, áquelle tempo, bispo de Elvas; hespanhol de nação, e um dos governadores do reino, em quanto o duque de Bragança, exaltado ao throno, não chegou de Villa Viçosa. Morreu, como conspirador, no carcere da torre de S. Gião.

[14] O inquisidor D. Francisco de Castro, um dos conspiradores contra a revolução de 1640, perdoado e reposto no seu officio por D. João IV, em premio de delatar os seus cumplices.

[15] Não posso rastrear a satyra, se ella entende com Miguel de Vasconcellos. Póde ser que n'esta copia falte a _decima_ que prendia com o caso picaresco de Enxobregas. Presumo, pelos versos seguintes, que o satyrisado seria o bispo de Elvas, D. Sebastião de Mattos.

[16] Francisco de Lucena, apedrejado pelas regateiras do Porto, em 1628, como executor do tributo das _maçarocas_; secretario das mercês de Filippe IV em 1638; secretario de estado de D. João IV em 1641, e degolado, como traidor, em 1643. Da sua innocencia diz D. Luiz da Cunha na sua conhecida _Carta_ a D. José I: «... Conhecendo elle (D. João IV) a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a corôa na cabeça, por que lhe era devida, a fim de que se não julgassem credores de grandes recompensas.» Veja o romance historico _O Regicida_, pag. 227, onde se imprimiram pela primeira vez os conselhos de Francisco de Lucena a D. João IV, que lh'os pagou briosamente.

[17] Não pude attingir as referencias.

UM BAILE DADO A JUNOT, EM LISBOA

Os monographos da invasão franceza em Portugal não descrevem nem ao menos citam o baile dado a Junot, no theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808.

Esta omissão, de nenhuma importancia ao primeiro aspecto, significa o receio de ferir as pessoas que assistiram ao obsequio prestado ao general de Napoleão. O resguardo era racional, quanto aos noticiaristas coevos do baile; mas hoje em dia a deferencia é escusada, visto que os filhos e netos dos jacobinos de 1808 se prezam de procederem dos homens mais liberaes d'aquelle tempo.

Ao baile de S. Carlos concorreram familias da mais selecta sociedade da capital, e muitas lá não entraram por falta de convite ou carta de admissão, difficil de obter. Entre outras de menos porte, avultavam as familias dos condes de Almada, de Sabugal, da Ega, de Peniche, e de Castro Marim; de D. Francisco Xavier de Noronha, dos desembargadores Lucas Seabra da Silva, Manoel Nicolau Esteves Negrão, e Abreu Girão; dos marquezes de Abrantes, Marialva, Penalva e Valença; concorreram alguns bispos e principaes da patriarchal.

A fim de avaliarmos as curvaturas abjectas por que passou o escol da fina sociedade n'aquelle baile, vamos vêr que as cortezias foram de antemão promulgadas como decreto, e rubricadas pelos generaes _Brenier_, _Thiebault_, e _Margaron_.

O programma foi enviado na lingua do conquistador ás familias duas vezes conquistadas, quando não eram tres, como certas condessas e viscondessas respeitaveis por sua fragilidade e amor cosmopolita. Um curioso contemporaneo, bem ou mal, traduziu, e acertadamente guardou o programma, tal qual se offerece aqui aos espiritos de boa fé que nos estão apregoando sempre o patriotismo de nossos avós:

«ANNUNCIO

«A funcção, que o exercito francez de Portugal dá ao snr. duque de Abrantes, quarta feira 8 de junho, consistirá em um baile de ceremonia.

«Esta funcção se fará na sala do theatro de S. Carlos.

«As pessoas mais notaveis das differentes classes do reino serão convidadas por convites pessoaes, e que servirão de bilhetes para a entrada.

«Entrar-se-ha pelo peristillo grande, e vir-se-ha alli dar pela rua de...

«As senhoras convidadas serão recebidas pelos mestres das ceremonias, que lhes darão a mão até ao seu lugar.

«M.mes Thomières, Trousset, et Foy, farão as honras do baile.

«As pessoas convidadas para a funcção, como tambem as que tiverem alcançado camarote, virão das 7 horas até ás 10 da noite.

«Chegando s. exc.ª ao theatro, será recebido pelos snrs. officiaes presentes á funcção, os quaes irão adiante d'elle até ao peristillo de baixo.

«S. exc.ª ao entrar na sala, achará todas as senhoras convidadas sentadas nas frizas em bancos, ou cadeiras, o interior da sala estará vazio, e os homens encostados todos ao pano da bocca do theatro.

«No instante em que elle apparecer, se ouvirá uma musica guerreira, e todas as senhoras se levantarão para lhe agradecer o seu comprimento.

«Assentado que seja s. exc.ª, a orchestra executará a cantata composta em seu louvor; acabado este pedaço será s. exc.ª convidado a dar volta á sala, e depois tomar-se-hão as suas ordens para a primeira contradança, que se dançará só, e que estará composta d'antemão.

«Esta contradança será só de quatro figuras. Immediatamente depois começará uma contradança franceza com tantas quadrilhas, quantas o lugar permittir.

«Cada uma d'estas quadrilhas será de quatro pares e de seis figuras.

«Seguir-se-hão as contradanças, as valsas, e as inglezas.

«Quanto ás inglezas, para que todos os pares dancem sem as prolongar demasiado, ellas começarão ao mesmo tempo pela cabeceira e pelo centro das columnas, e durarão até ao ponto em que os ultimos pares da cabeceira e do centro tiverem dançado; o que observarão os snrs. mestres das ceremonias.

«Se houver duas columnas, as senhoras estarão sempre dentro do circulo.

«As inglezas e as valsas serão dançadas sem escolha de lugar; o que chegar ultimamente se porá depois do que lhe tiver precedido.

«As contradanças francezas não se poderão dançar senão com bilhetes, o que torna impossivel ter-se feito antecedentemente algum ajuste.

«Os mestres de ceremonias, que não dançam, serão encarregados d'esta distribuição, e terão o maior cuidado em fazer que successivamente dancem todos os cavalheiros e todas as senhoras; as quadrilhas terão além disto dous mestres do baile, para dirigir as figuras.

«Depois da quadrilha, da valsa, da inglesa, que acabará ao rodar da meia noite e meia hora, os snrs. commissarios convidarão as senhoras a sentar-se, os cavalheiros as conduzirão para a porta da entrada, e o interior da sala ficará inteiramente vazio.

«Feitas estas disposições, se levantará o pano, o mordomo passará por entre as abas da tenda, e dará parte, que a cêa de s. exc.ª está prompta; logo as abas da tenda se levantarão, s. exc.ª abrirá a marcha, precedido por um dos generaes commissarios que lhe mostrará o seu lugar.

«Todas as senhoras serão conduzidas pelos cavalheiros; as que não poderem sentar-se á mesa serão servidas na sala. Á mesa não haverá homens, senão os que tiverem sido designados pelos commissarios, e a quem isto tiver sido participado pelos mestres das ceremonias.

«Acabada a cêa, entrar-se-ha na sala do baile em uma ordem inversa da em que tiverem d'ella sahido, e a tenda se fechará.

«Levantada a mesa da cêa, se porão no seu lugar mesas de jogo; a tenda se tornará a abrir, ficando assim maior a sala do baile.

«Quando s. exc.ª se retirar será tornado a conduzir á sua carruagem pelos snrs. officiaes, que o receberam.

«Os generaes commissarios

«Brenier, Thiebault, Margaron.»

Este Junot foi tão desmedido ladrão em Portugal que nem propriamente os francezes lhe disfarçam as manhas. A historia de França parece envergonhada quando roça pelo nome infamado do duque de Abrantes. Principiára valorosamente a sua carreira militar, como simples granadeiro de voluntarios. De Lisboa sahiu locupletado e cobarde. Na campanha da Russia, em 1812, contribuiu com o seu indolente sybaritismo para a completa queda de Napoleão. Em 1813 ensandeceu, precipitou-se de uma janella, e morreu da queda.

_Malè parta malè dilabuntur._ Esbanjou a opulencia roubada, e legou aos filhos e á viuva o nome deshonrado, e uma quasi indigencia. A duqueza, fallecida em 1838, vivia de escrever, e não escrevia sem graça. No lardo das anecdotas nuamente contadas, consistia o merito das suas variadas _Memorias_, _Scenas da vida hespanhola_, e _Salões de Paris_.

Do duque de Abrantes ficaram quatro filhos legitimos. O primogenito, _Napoleon-Audoche_, duque de Abrantes, confirmado no titulo por Luiz XVIII, seguiu a carreira diplomatica, que descontinuou em resultado de vergonhosos processos. Fez-se litterato, abastardou-se na vida dos camarins theatraes de baixa estôfa, e morreu pobremente em 1815.

Succedeu-lhe no titulo seu irmão _Alfred-Michel_, que havia nascido em Hespanha, por 1810. Foi capitão de estado-maior, ás ordens do general Mac-Mahon, em 1848. Militou na Africa, e ahi mereceu as divisas de «chefe de esquadrão.» Em 1854, era ajudante de campo do principe Jeronymo-Napoleão, e a 24 de junho de 1859 morreu de ferimentos na batalha de Solferino.

_Josephina Junot d'Abrantes_ entrou em 1825 na congregação das irmãs de caridade, voltou aos salões em 1827, casou em 1841 com um tal _Amet_, empreiteiro de carroças, fez-se escriptora de obras moraes, e vivia ainda em 1861.

A ultima filha d'este mal sorteado casal chamou-se _Constance_, casou com _Louis-Aubert_, redactor do _National_ e prefeito da Corsega em 1848. Tambem foi escriptora de artigos de modas em diversos periodicos. Fundou as _Abeilles parisiennes_ ha vinte e cinco annos; e, sem ter grangeado colmêas de _louises_ com as suas abelhas, morreu pobre como seu pai, como sua mãi, como seus irmãos.

O roubado não luz. Outros dizem que luz. Os ladrões é que sabem.

QUE SAUDADE!...

Folheando acaso a _Revista Universal Lisbonense_ de 1845, li pela primeira vez a seguinte noticia:

UM DUELLO DIGNO DE LOUVOR

(CARTA)

_Porto 10 de maio de 1845._

_Snr. redactor._--Peza-me o não ter sido testemunha ocular de um caso acontecido aqui, a 5, pelas 4 horas da tarde, e em que se há de fallar por muitos dias.

Tinha-se espalhado que dous estudantes da _arte amandi_, fortissimos no capitulo dos ciumes e rivaes por uma triste fatalidade (porque segundo os snrs. estatisticos ha mais mulheres do que homens, e por isso os zelos masculinos quanto a mim deviam ser prohibidos); estes dous meninos, digo, ambos com o sangue na guelra, tinha-se espalhado que a essa hora combateriam em duello de morte (que sempre é obra mais aceada), sendo o sitio da execução o campo da _Torre da Marca_, padrinhos, outros academicos, e as armas, pistolas.

Concorreu toda a gente que pôde (eu só faltei por estar com um ataque de gotta, nos pés se entende); e não só povo, mas dous regedores, cabos de policia, um destacamento de tropa e muitas mulheres (não admira, a festa era em nome e louvor do sexo, nada prova tanto os seus feitiços como umas tripas ao sol); só faltava a tumba da misericordia, diz hoje com muita graça o _Periodico dos pobres_. Sôa a hora; apparecem os dous Quixotes montados como dous Sanchos em burros lazarentos de albarda rota e freio de corda, mas muito arrogantes na catadura (não os burros porém os campeões); um dos regedores, aliás bom homem, desapprovou com destempero que duas figuras d'aquelle feitio, brigassem á pistola; maudou-os apear e aos soldados que os prendessem; o povo, que não queria perder as passadas, murmurava contra o regedor, muitos estudantes já começavam a vociferar, um dos duellistas procurava convencel-o em segredo; o magistrado via-se perplexo e creio que assustado.

Apressou-se em passar por mão o negocio para superior instancia: acompanhou os zelosos á presença do administrador do bairro. Foi ahi que se descobriu a chave do enigma:--os maganões declararam que o seu unico intuito fôra fazer aos duellos a guerra do ridiculo: mostraram que as suas pistolas levavam polvora mas não bala, e affirmaram, o que era verdade, que entre os dous não havia nenhuma Dulcinéa. Afóra o regedor, todos riram muito; e o administrador mostrou ter pena de que se não tivesse chegado a representar uma farça que poderia ter, talvez, prevenido algumas futuras tragedias.

_Um tripeiro velho que nunca brigou nem ha de brigar._

* * * * *

Falla-se ahi em _dous meninos_.

Ai! um d'estes meninos era o snr. Freitas Barros, actual secretario da administração do concelho de Coimbra.

E o outro menino era... eu!

Direi alguma cousa nos pontos em que o correspondente do Porto foi omisso.

Eu vestia casaca preta de abas em triangulo isosceles com a gola em promontorio, convexa, redonda e algum tanto sebacea. Na lapela esfarpellada alvejava uma camelia, symbolisando tenção amorosa á mingoa da charpa dos Amadis e Lancelotes, meus heroicos antecessores. Os collarinhos de papel almasso embeiçavam com os arcos amarellos dos oculos. A gravata era britannicamente branca, e absorvia-me o queixo de baixo na circumspecta gravidade dos desembargadores d'aquelle tempo. Recordo-me das luvas que eram de lã verde com um antebraço que lhes dava uns longes de manoplas. Em uma das botas duvidosamente marialvas luzia o espigão de uma espora sem roseta. O chapéo de castor, derribado por gebadas _ad hoc_, desformára-se nas fórmas caprichosas de barretina de lanceiro. Se bem me lembro, o meu adversario Freitas Barros vestia o mesmo uniforme, tirante o chapéo que era de bicos, em arco, de alterosas badanas, um pouco desengonçadas pelo attrito de meio seculo.

E, n'este feitio, depois de presos, atravessamos a cidade, desde a Torre da Marca até á rua do Almada, bifurcados nos burros espavoridos pela grita do gentio que exaltava n'aquelle intervallo de imprevisto carnaval.

Claro é que a minha postura e a plastica do trajar eram bastantemenle ingratas aos effeitos oratorios, posto que a rhetorica não fosse de todo parvoa. Dei ao meu braço direito, durante o discurso, um movimento pendular que depois vi perfeitamente arremedado no parlamento pelo snr. Martens Ferrão. E, dado que, tanto nas posturas como nas expressões, eu mantivesse a seriedade compativel, o magistrado que se chamava fulano Mendanha, não sustentou a gravidade consentanea ao acto, porque me interrompia com espirros de riso assás funestos aos golfos da eloquencia de quem quer que seja.

Não obstante, a authoridade compôz sisudamente o aspeito n'este lanço do meu discurso: «Snr. administrador! O ridiculo, na questão sujeita, póde contribuir para defecar a humanidade de um crime que a lei não evita nem pune. O duello, ill.mo snr., só deixa de ser ridiculo quando ha uma victima, quando ha sangue e lagrimas; e, assim mesmo, ninguem sabe dizer qual é o honrado, se o que morre, se o que mata, etc., etc., etc.»

Lembra-me que me fiz forte com Voltaire, como se o tivesse lido. Eu não tinha ainda 19 annos; e, n'aquella idade, dou palavra de honra que era estudante sem compendios, e o mais ignorante que podia ser um rapaz que entranhadamente execrava livros, e amava o sol e tudo quanto elle cobria, exceptuados os livros e os sabios.

Finalmente, o jovialissimo Mendanha mandou-nos embora; e nós d'alli sahimos com a consciencia convicta de haver escripto um brilhante capitulo na ethologia nacional, e com o estomago palpitante de sorrisos para uma merenda condimentosa no _Rainha_ da Praça Nova.

Eu não me considerei então ridiculo a despeito da hilaridade das multidões. Ridiculo me vi eu dez annos depois, quando sahia de um duello com uma cutilada; e, olhando para ella, me acudia á memoria o meu discurso ao administrador Mendanha.

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Mas... que saudades!...

CARTA A RESPEITO... D'AQUELLA COUSA

Agradeço-lhe, meu amigo, a remessa da Moleira que o lacrimavel Silva Pinto distribuiu impressa no theatro da Trindade. Devo á solicitude de v. o conhecimento d'este papel, e a occasião que me facilita de pedir ás pessoas que leram o n.º 6 das _Noites de insomnia_ hajam de me desculpar das expressões menos limpas com que offendi o decôro das letras. Ha muitos annos que eu, forçando os impulsos da indole, algum tanto caustica, á submisão imposta pela idade, tolerava allusões injuriosas com a mais dolorosa conformidade. Quando, porém, vi que os admiradores do snr. Theophilo Braga abusavam do silencio dos velhos como de ignorantes vencidos e cobardemente resignados, fez-se mister de algum modo avisar estes homens, dar-lhes um pequeno abalo ao seu orgulho, fazer-lhes até sentir que as suas reputações litterarias estão assentes em bases pouco solidas. Os termos desabridos que usei com o pobre Silva, na verdade, sahiram-me immoderados. O homem era mais pequeno do que eu cuidava. Enganou-me. Pensei que fosse mais mau que tolo; e, n'essa allocução á opinião publica, vi com tristeza que elle é, no rigor do vocabulo, um desgraçado que, estourando por dentro, todo o hydrogeneo sulfurado lhe subiu aos miolos. É uma doença que, se espirrasse para fóra, todo homem communicavel com Silva devia de andar ensopado em agua de Labarraque.