Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)

Chapter 3

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Que Lafarge tivesse _mil pretendentes á sua mão, porque era mau producto das más paixões da época_, é phantasia do snr. Amorim. Um ou outro poeta lhe fez versos, sem lhe pedir a mão; houve um enthusiasta que lhe propoz a fuga do carcere; e presume-se que um dos seus advogados casaria com ella, provada a sua innocencia, que esteve indecisa entre a ignorancia de tres medicos e a sciencia de Orphila.

Isto sommado não dá mil pretendentes; não chegamos sequer a liquidar um. A estas hyperboles são atreitos os sabios enfronhados na derramada florecencia dos idiomas do Oriente.

Por concomitancia de crimes, o snr. Amorim lembra-se da virtuosa duqueza de Praslin assassinada pelo marido. Espanta-se das nobilissimas cartas da duqueza, em que brilham elevados sentimentos de amor conjugal, e acrescenta: _Custa a crêr que em classe tão depravada se dê tão grande virtude; que uma fidalga possa escrever com tanta alma._

O cheiro de inepcia, que recende d'este dizer, chega a despontar a iniquidade da injuria. Uma fidalga a escrever honrados sentimentos de esposa e mãi é cousa que não lhe entra na democracia do snr. Amorim. Vamos vêr d'onde vem ao figado do professor estes extravasamentos de succo bilioso contra a classe heraldica.

Derivando nas torrenciaes enchentes da corrupção de França, o snr. Amorim poja nas praias portuenses, e acha isto cá peor; clama contra os escandalos d'esta cidade, e nomeia-os para se não parecer com Jeremias e com os outros que iam botar discursos vagos debaixo dos muros de Jerusalem e Ninive.

Dá pregão de que um sujeito, acompanhado de outros de boas familias, perpetrára um rapto; que o juiz indecentemente os não condemnou; que a mãi da raptada, movida por sentimentos de christã, perdoára ao raptor, cuja mãi afflicta lhe pedia a liberdade do filho. Assenta que estes dous sentimentos santos, em tal caso, tinham alguma cousa impia; e, em summa, que os réos deviam ser condemnados, a despeito das lagrimas de uma, e do perdão da outra mãi.

Averiguado o rastilho d'este velho odio, apura-se que o snr. Amorim ainda não pôde perdoar aos cumplices do raptor, porque um dia, na sua aula, o desauthoraram.

Depois, descamba para a vida particular do raptor, e narra com a mais rustica indelicadeza a miseranda catastrophe que abriu uma sepultura, sobre a qual a caridade e a justiça estendem o seu manto misericordioso.

Os adros e cemiterios ruraes tem uma grade que defende o ingresso aos esfossadores de sepulturas. Não se podem levar estes empeços a todos os remexedores de cinzas, que são o residuo de enormes incendios, cinzas sagradas pelas dôres que as reduziram a isso.

O snr. Amorim espanta-se que Vieira de Castro _ainda depois de morto conserve o favor popular_.

Ás doridas paginas que se escreveram a favor d'esse grande infeliz, chama o snr. Amorim, _lôas_. E cita ao proposito as jogralidades do _Puff_ de Scribe, e diz que a _unica moeda corrente é a da peta_.

Impropera de consciencia larga o eminente orador, porque _elle elevou ao pinaculo da virtude um homem rico, só porque se mostrou caridoso depois de morto. Todos applaudiram o panegyrico e com tudo ninguem ignorava a vida do elogiado_.

Allude ao conde de Ferreira. Isto quando não seja indecencia, é ingratidão. O snr. Amorim Vianna devia lembrar-se que, sem o legado do conde de Ferreira, não se estaria a esta hora martellando no hospital de alienados na Cruz da Regaleira. E eu, á vista do exposto, receio que o author do _Estudo moral_ ácerca da Lafarge esteja no caso, como outros mais sisudos, de aproveitar os favores d'aquelle estabelecimento.

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_O Livro das flôres_ (legendas da vida da rainha santa), _por ALBERTO PIMENTEL_. Lisboa, 1874.--Não é livro para mysticos peculiarmente. É um ramilhete de lendas mais formosas que authenticas enfeitando paginas de historia vernaculamente escriptas. Guiou-se da mão dos chronistas o snr. Pimentel; porém, quando as moutas das flôres lhe esmaltavam o caminho, parava a colhel-as, e tecia com ellas nova corôa á memoria da dulcissima rainha, mensageira do céo, entre inimigos descaroados. Lê-se muito a sabôr este livro, e aproveitam-se na leitura, como estudo, os lances capitaes do reinado de D. Diniz, e a selecta linguagem respigada entre as rudezas das chronicas antigas.

O snr. Alberto Pimentel sabe a sua lingua como raros, e ha de escrevel-a com primor dos que melhormente a sabem, e de quem vamos aprendendo todos os que não viemos a este mundo com fadario de burros, não desfazendo em ninguem.

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_Theatro de Molière. Quinta tentativa. O Misanthropo, comedia em 5 actos, versão liberrima, pelo snr. VISCONDE DE CASTILHO._ Lisboa, 1874.--Ainda não pude affazer-me á convenção de que estou lendo Molière quando estudo estas chamadas versões _liberrimas_. Seria preciso que, a intervallos, o torneio da dicção peregrina, a allusão ethnographica, o particular relevo da nacionalidade franceza me trasladasse ao tempo de Luiz XIV e ao meio das condições especiaes de vida em que Molière photographou os seus grupos. Estas mui de siso chamadas _nacionalisações_ renovam-se tão portuguezas do fecundante engenho do nosso poeta, derivam tão affins da graça e donaire lusitanos de Gil Vicente, Ferreira e Antonio Prestes, que não posso interpor aos antigos mestres e ao mestre, em que todos os passados rebrilham, a inspiração forasteira de Molière.

O _Misanthropo_ é outro livro que o snr. visconde enfileira na bibliotheca das nossas riquezas litterarias. Estes cinco dramas hão de crear maior numero de affectos e affeiçoados á lingua patria que toda a grave e ponderosa communidade de classicos, inculcados nas chrestomathias. Não havia meio de amaciar as asperezas do estudo da lingua, senão este de offerecer á juventude negligente o fructo em cabaz de flôres.

Depois de Molière, o valente pulso de Castilho vai medir-se com o formidavel Shakspeare. O _Sonho d'uma noite de S. João_, editorado pela activissima casa Chardron, já está no prelo. Seguir-se-ha _A tempestade_. Seguir-se-hão as juvenis glorias de um talento que reflorece cada anno afim de que o cantor da _Primavera_ não sinta na quadra final que um anno lhe passou sem flôres. Abençoado sejas da posteridade com o amor que te consagram os teus discipulos, mestre generoso que tanto mais nos amas quanto nos liberalisas as riquezas do teu espirito!

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_Portugal antigo e moderno, diccionario heraldico, geographico, estatistico, chorographico, archeologico, historico, biographico e etymologico, etc., por AUGUSTO SOARES DE AZEVEDO BARBOSA DE PINHO LEAL._ Lisboa, 1874.--Estão publicados dous tomos e algumas cadernetas, abrangendo as letras A--F. As pessoas que estudam e avaliam a natureza do trabalho arido e ingrato a que o snr. Pinho Leal dedicou o maior numero dos seus annos, sabem aquilatar o merito d'aquella obra de tamanho fôlego. Para essas pessoas as imperfeições de tal escripto não lhe desluzem o merito nem esfriam o reconhecimento que se lhe deve. Quem compulsou as obras do mesmo genero anteriormente publicadas e apreciadissimas no mercado, agradece ao laborioso archeologo a grande melhoria do seu trabalho, e ao benemerito editor o alento raro com que o tirou a lume. Já vi arguido o snr. Leal de inexacto em miudezas topographicas, sem lhe descontarem que elle aceitou as noticias divulgadas em livros que os censores não haviam previamente corrigido com a sua esclarecida censura. Com toda a certeza, o meu amigo Joaquim Martins de Carvalho conhece as cousas antigas e hodiernas de Coimbra mais de fundamento que o snr. Pinho Leal; mas seria impertinente exigencia obrigar um chorographo a jornadear muito de espaço nas terras que descreve para convencer-se de que as descripções que o precederam e guiam eram menos exactas. O que é de todo o ponto certo é que eu tenho consultado com aproveitamento o _Diccionario_ do snr. Pinho Leal em variados pontos da sua ampla area. Não sei de outro armazem onde tão variadas noticias se encelleirem, e tão de prompto se deparem ainda aos mais versados. Com muita satisfação me glorio de ter cooperado com o meu sincero voto para a editoração d'esta obra subsidaria de todos os estudos respeitantes á historia, á geographia e ás antiguidades de Portugal. Quem, depois, do infatigavel author d'estes livros, escrever outros com mais primorosa penna, tem de constituir-se em divida e gratidão immensa ao snr. Pinho Leal que está carreando as achêgas para o futuro edificio. Duvido, porém, que n'este paiz em que um livro de 300 paginas representa o supremo esforço da nossa indole preguiçosa, haja quem immole trinta annos de sua existencia, e os bens do seu patrimonio, a um lavor que nas demasias do seu zelo, a critica desconceitua. Deixam-se correr desafogadamente quantas parvoiçadas soltas e rimadas por ahi coriscam de cerebros borrascosos; porém, se um escriptor de indefessa lida concorre ao mercado das frandulagens com os seus suados e tressuados livros, topa logo pela frente o vigilante piquete dos sabios, que só n'estes lances sahem da tenda, como Achilles. Cumpre-me declarar que tenho a maior consideração pelas correcções do snr. Martins de Carvalho, quanto á topographia de Coimbra; mas não a tenho menor pelas improbas fadigas do snr. Pinho Leal com cuja amizade me honro e desvaneço.

PARA A HISTORIA DE D. JOÃO IV

(DOCUMENTO INEDITO)

É notorio que o infante D. Duarte de Bragança, que em 1640 militava no exercito de Fernando III, imperador da Austria, foi traiçoeiramente preso a instancias de Francisco de Mello, seu parente, portuguez, e embaixador de Castella em Vienna.

Uns historiadores dizem que seu irmão D. João IV se inquietára quasi nada com a prisão do infante; outros, mais exactos, asseveram que o rei alguns esforços empregou para o libertar. Isto é verdade; mas os esforços eram tão diplomaticamente frouxos que, vistos á luz da sã razão e da boa politica, os historiadores que negam parece ganharem a partida aos historiadores que affirmam a solicitude de D. João IV.

O infante estava preso na roqueta da torre de Milão, encadeado de modo que nem sequer podia adormecer, quando o rei de Portugal, mediante o seu embaixador em França, pedia, em 1643, á regente Anna d'Austria, na menoridade de Luiz XIV, solicitando de sua magestade christianissima a liberdade do infante D. Duarte em troca de alguns importantes prisioneiros castelhanos que o governo francez tinha a bom recado.

Ahi está a arrojada tentativa que fazia o rei de Portugal no resgate de seu irmão:--requer a uma nação alliada que arranjasse lá isso, desfazendo-se dos seus prisioneiros, em escambo de um principe, que, ao parecer de João IV, valeria tanto como dous ou tres hespanhoes aprisionados em batalha!

E, ao mesmo tempo, pedia emprestado dinheiro á França, como se uma só prova de pusillanimidade bastasse a enrilecel-o no conceito do cardeal Mazarin, e solicitava ainda que o governo francez lhe protegesse o bispo de Lamego, em Roma, e lhe restituisse integralmente o dominio da ilha de S. Lourenço (_Madagascar_) onde os francezes, em 1642, se tinham estabelecido com feitorias[2]. Eis a resposta dada por Chavigni, um dos plenipotenciarios que trataram com o embaixador portuguez[3]:

RESPOSTA ÁS MEMORIAS DO EMBAIXADOR DE PORTUGAL (_versão_)

_El-rei se fará informar particularmente do negocio da ilha de S. Lourenço para tomar tal resolução qual convenha á amizade e alliança que ha entre sua magestade e el-rei de Portugal._

_Sua magestade seria contentissimo em poder contribuir segundo sua affeição para com el-rei de Portugal, no livramento do infante D. Duarte seu irmão, mas pelo que toca á troca que elle fez propor dos prisioneiros dos inimigos para em lugar do dito infante, roga a vossa magestade que considere que os inimigos tem tambem francezes entre suas mãos, e que todos os dias a fortuna da guerra póde fazer cahir outros, os quaes não podem sahir senão por uma tal troca; que sua magestade é obrigado a os conservar e grangear a fim de que elles se empreguem mais animosamente em o serviço de sua magestade e em adiantamentos de causa commum; elle fará, com tudo, tudo aquillo que depender do seu poder pela liberdade do infante D. Duarte, ao qual não tem elle menos affeição que el-rei de Portugal mesmo[4]._

_El-rei fez despezas tão excessivas para o entretenimento de seus exercitos, tanto de mar como de terra, e por assistir a seus alliados, segundo os tratados que lhe havia parecido bem fazer com elles por lhes dar tanto mais de meios para se esforçarem poderosamente pelo bem publico e causa commum, que sua magestade teria antes necessidade de ser alliviado de taes despezas que de se empenhar em outras novas, o que a elle lhe é totalmente impossivel; de sorte que tem grande desprazer de não poder ajudar de dinheiro ou mesmo de emprestimo a el-rei de Portugal, como fizera de bonissimo coração, se o estado dos seus negócios lh'o permittira._

_Sua magestade dá ordem á esquadra dos seus navios na Arrochela de tomar ao snr. bispo de Lamego, embaixador de el-rei de Portugal, vindo de Roma para o levar..._[5]

_Pelo que toca ás bandeiras dos navios reaes e mercadores em os portos de França e de Portugal, este negocio se remetteu ao conselho de marinha, e as Memorias se podem metter em mãos do snr. Habrgue (?) com o qual se póde tambem conferir aquelle da ilha de S. Lourenço. Feita em Paris a 21 de março de 1643.==Chavigni._

* * * * *

O infante D. Duarte de Bragança morreu, ao cabo de oito annos de prisão, algemado como facinoroso, em um antro destinado aos supremos criminosos.

Do mesmo passo que D. João IV pedia dinheiro para se arrostar com as difficuldades da guerra, e conter o exercito hesitante, um insigne historiador, Rebello da Silva, escreve que elle offerecêra 400:000 cruzados pela liberdade do irmão. N'este depoimento falta o testemunho coevo, e critica mais desassombrada que a do conde da Ericeira, cuja authoridade é medianamente veneravel.

As letras de cambio, que D. João IV firmou, ninguem as quiz descontar em Amsterdam; e, quando iam ser protestadas, o judeu Jeronymo Dias da Costa as pagou... em recompensa de lhe haverem queimado os parentes em Portugal[6].

[2] Madagascar, ou ilha de S. Lourenço primitivamente, foi descoberta em 1506 por Tristão da Cunha, e não por Lourenço de Almeida, como diz Ellis na _History of Madagascar, compiled chiefly from original documents_. (Londres, 1838).

[3] Documento inedito, que falta na collecção dos publicados pelo visconde de Santarem, e não sei se faz parte dos ineditos do marquez de Nisa existentes na bibliotheca publica de Lisboa.

[4] Parece ama ironia, se não é antes uma censura, dissimulada em fineza.

[5] Palavras desfeitas e inintelligiveis.

[6] Veja o _Testamento politico de D. Luiz da Cunha_, sujamente impresso com o nome de _Carta_, por A. Lourenço Caminha.

INEDITO DE MANOEL SEVERIM DE FARIA

O primeiro bibliophilo portuguez, o snr. Innocencio Francisco da Silva, ácerca da livraria e dos manuscriptos ineditos do doutissimo chantre Manoel Severim de Faria, escreve o seguinte:

«As (obras) que ficaram manuscriptas passaram, depois do seu fallecimento (1655), juntamente com a sua copiosa e escolhida livraria a enriquecer outra, ainda mais abundante e numerosa, qual era em Lisboa a do conde de Vimieiro, riquissimo thesouro litterario que foi como tantos outros reduzido a cinzas pelo incendio subsequente ao terremoto de 1755.» (_Dicc. bibliog._, tom. VI, pag. 106).

Alguns traslados de pouquissimos ineditos de Severim vieram á minha mão com os manuscriptos do jurisconsulto Pereira e Sousa. Os caracteres são coévos do sabio antiquario; mas a pessima orthographia accusa traslado de mão imperita. Não obstante, como as idéas não padeceram com a ignorancia do copista, dou afoutamente esta copia corrigida orthographicamente. É documento historico, além de these engenhosamente concertada; por onde se deprehende que o desbarato de D. Sebastião e da flôr da fidalguia em Africa redundou em beneficio de Portugal.

Senão, vejam:

«_Observações dos males que Deus permittiu para bem de Portugal, escriptos e expostos pelo chantre da cidade de Evora, Manoel Severim de Faria. Em 20 de setembro de 1649._

«Permittiu Deus que se perdesse el-rei D. Sebastião, e ficasse toda a fidalguia portugueza captiva de mouros, porque estando os portuguezes muito soberbos com as victorias que houveram por todas as partes do mundo, não as reconheciam já a Deus; mas cuidavam que eram alcançadas só por seu valor. Castigou Deus esta soberba com aquelle miseravel captiveiro, e depois com a entrada dos castelhanos, que conhecendo nós pela experiencia que as victorias que alcançavamos, não era por nossa fortaleza, senão pela misericordia de Deus, nos humilhassemos e fossemos exemplo ao mundo d'este conhecimento, e ficassemos capazes de receber outra vez o reino e a liberdade da sua divina mão.

«Permittiu Deus que o conde de Vimioso, D. Francisco, perdesse a vida e a casa defendendo a liberdade de Portugal, e que o conde de Basto e o marquez de Castello Rodrigo ganhassem estes titulos entregando o mesmo reino; e ordenou depois, que as casas de Basto e Castello Rodrigo se perdessem, e a de Vimioso se restaurasse pela mesma valia do conde de Basto, que casou sua filha com D. Luiz, e pela fazenda de Castello Rodrigo, que casou outra filha com o conde D. Affonso, para mostrar a todos com tão raros exemplos, que os que fazem o que não devem, cuidando ganhar para seus filhos, os deixam perdidos, e os que fazem o que devem ainda que de presente padeçam, não deixam seus filhos desamparados, antes acrescentados na opinião dos homens e na protecção divina.

«Permittiu a guerra dos hollandezes, no Brazil, para haver capitulações e soldados praticos n'este reino, que soubessem pelejar contra a milicia dos castelhanos.

«Permittia que obrigassem aos senhores portugueses a dar soldados para Catalunha, para que tornassem a Portugal praticos depois da acclamação, e isto em tanto numero que por conta tem entrado em Portugal, de Castella e Flandres quasi seis mil homens de guerra.

«Permittiu o escrever das fazendas (cadarso), para que com essa occasião se levantassem os de Evora, e entendessem os castelhanos que cá em Evora, havia dez mil homens armados sem a nobreza do reino, e por isso mandavam que sua milicia não passasse de Badajoz e tiveram por felicidade a reducção.

«Permittiu que chamasse el-rei de Castella todos os grandes e fidalgos a Madrid para com isso ficarem só em Portugal os que haviam de acclamar a liberdade, estando ausentes os que lhe haviam de resistir, principalmente todos os senhores, que por entregarem Portugal, alcançavam titulos de el-rei de Castella.

«Permittiu a destruição da armada de Oquendo para que não houvesse forças maritimas em Castella que excedessem a Portugal.

«Permittiu os desafôros que os castelhanos fizeram em Catalunha para se atarantarem os catalães e se entregarem aos francezes, para que el-rei de Castella ficasse opprimido com outra guerra mais perigosa, o que lhe não deu lugar para acudir á de Portugal, estando principalmente com a opinião das grandes forças d'este reino; porque, se de Evora sómente lhe disseram que tinha dez mil homens contra elle, quando não tinha comsigo a nobreza, quanto maior poder seria agora o do reino todo junto!...

«Permittiu Deus que el-rei de Castella com a inveja que tinha a sua magestade, sendo duque o obrigasse a ir a Almada, com o titulo de governar as armas, parecendo-lhe que d'este modo o desauthorisava. Para que com esta occasião, o visse e tratasse toda a nobreza do reino e se penhorasse com novos desejos de o reconhecer por seu principe.

«Permittiu que el-rei de Castella obrigasse a todos os nobres que fossem militar a Catalunha, ou perdessem as honras e fazendas que possuiam. E tendo-se no reino experiencia que os que partiam para este desterro, não tornavam, entraram em desesperação e com ella se resolveram a acclamar o verdadeiro rei, e deixarem o estranho.

«Permittiu Deus que este reino chegasse ao mais miseravel estado que nunca esteve, sem armas, sem soldados, sem armadas, e sem fortificações para que, dando-lhe n'esta miseria um rei, vissemos que esta obra não era alcançada por nosso poder e forças, senão pela misericordia divina, pois que estavamos sem gente de guerra nas quatorze praças que os castelhanos tinham n'este reino e os navios armados que estavam em Lisboa.

«E pelo contrario, que as empresas que acommettemos com maior poder, como foi a de Andaluzia com tres armadas, não tivessem effeito: e as das ilhas, que intentando libertal-as com duas armadas, nenhuma d'ellas chegou a tempo; e os naturaes com suas pequenas forças rendessem os castelhanos; com que ficou conhecida a victoria por divina, e os da ilha recuperando a reputação, que no tempo da outra successão perderam.

«Permittiu que estando os castelhanos, os primeiros mezes quietos sem Portugal romper contra elles; elles rompessem a guerra com Portugal, com muito pouco poder, com que os portuguezes ficaram melhorando-se, com alcançarem d'elles muitas victorias, e fazendo-se com ellas muito praticos, o que sem esta occasião não podia ser.

«Permittiu que antigamente désse o snr. rei D. João, o primeiro, quasi a terça parte do reino ao condestavel D. Nuno Alvares Pereira, para com este grande patrimonio se poder conservar a descendencia real da casa de Bragança com estado grandioso: e agora succedido na corôa, torna-se tão grande parte do reino a unir a ella.

«Permittiu que muitos senhores e titulos cahissem no crime de deslealdade, para que com suas rendas e fazendas se ajudar a sustentar a guerra contra Castella.

«Permittiu que o marquez de Castello Rodrigo largasse a commenda-mór de Alcantara, para se lhe dar em Portugal satisfação em muitas commendas da ordem de Christo: e que o duque de Villa Hermosa se acommodasse só com a de Alcantara.

«D'estes dous homens vagaram grande numero de commendas, com que poder premiar aos leaes, que estavam servindo.

«Permittiu que vagassem quasi todos os bispados e arcebispados do reino: e que em Roma os não quizessem prover, para com os fructos d'elles se poder mais facilmente sustentar a defensa do reino, e serem pagos os soldados.

«Permittiu que em Roma intentasse o embaixador de Castella affrontar o de Portugal, para que sahisse o de Castella na fugida; e com a reputação perdida desamparasse á vista de todo o mundo a mesma côrte de Roma, acrescentando-se grandemente com isto a reputação do nosso embaixador e do reino de Portugal.

«Permittiu que no tempo da acclamação ficasse Ceuta com Castella para nos não dar n'aquella occasião maior gasto de dinheiro e gente.

«Permittiu que quasi a quarta parte de Castella fossem portuguezes, e que depois da acclamação padecessem tantas vexações, que muitos d'elles tornassem a Portugal, com que Castella perdeu muita gente, e Portugal a ficou ganhando, assim em numero como em riqueza, com dinheiro que de lá trouxeram.

«_Finis laus Deo._»

* * * * *

Deus permittiu tudo isto. Uma nação que assim está debaixo da fiscalisação divina, com as inscripções a 46 3/8 e o snr. barão de Zezere na municipal, não póde cahir como Carthago ou Roma.

O MANOELINHO POETA

Cumprindo a promessa do numero antecedente, dou traslado da _Representação_ metrica, enviada a Philippe IV de Castella pelos conjurados de Evora. Onde o sentido das allusões rebuçadas me parecer menos obvio, aventurarei algumas notas explicativas que o leitor versado emendará, se as achar mal entendidas.

A EL-REI NOSSO SENHOR

Senhor, vosso Portugal, de vossos paes estimado, e sempre d'elles tratado como amigo tão leal, hoje, em miseria fatal, está pobre e lastimoso; e o governo rigoroso, que tanto o tem perseguido, lhe nega, sendo offendido, o allivio de ser queixoso.