Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)
Chapter 2
Parei defronte da vetusta capella, ornamentada de pedra de armas, por onde inferi que o titulo, se era moderno, acrescentára uma corôa a fidalgos antigos. Compunha-se o brazão das quinas de Portugal em campo de prata, e um cordão de S. Francisco á volta do escudo; timbre uma aguia de azul, de azas abertas, com cinco bezantes de prata no peito. Eram as armas dos Eças.
Em quanto alli me quedei a esboçar o brazão, não ouvi chorar ninguem, como é costume, em quanto dobram os sinos, e reboam gementes nas quebradas dos montes. Acertou de passar então um pegureiro que vinha do pasto com a _mundice_[1], e perguntei-lhe se a snr.ª viscondessa, que morrêra, era nova.
--Era já velhota--respondeu o rapaz, tangendo um boi que se preparava para escornar o meu Terra-Nova.
--Ella não tinha familia?--tornei eu.
--O quê?
--Se não tinha filhos...
--Filhos, acho que não; tinha o snr. doutor.
O pastorinho foi andando, e eu tambem, em sentido opposto.
Ao cahir da tarde, cheguei á aldêa onde havia de pernoitar em casa do abbade, meu condiscipulo em latim.
Disseram-me que elle ainda não tinha recolhido do enterro; mas, tendo-me visto no caminho, mandára por atalhos avisar que me hospedassem.
Não se demorou o abbade.
--Cá pela aldêa--disse-lhe eu--os cadaveres titulares levam tempo a enterrar.
--Não foi isso. É que eu, na qualidade de testamenteiro da defunta, fiquei presidindo á arrecadação do espolio miudo. Bem sabes que dez contos e quinhentos mil reis em cruzados novos e peças levam tempo a contar...
--Tambem herdaste?
--Herdei tambem um relogio de algibeira de repetição com musica, uma livraria padresca em latim que deve pesar vinte quintaes, e duas imagens de martyres de pau preto, que parecem martyrisadas a machado; mas o ditoso herdeiro d'esta senhora é... Olha lá, não te recordas dos nossos condiscipulos na aula do padre Lixa ha vinte e cinco annos?
--De dous ou tres.
--Lembras-te d'um rapazinho louro, que entrou quando nós iamos sahir do latim, chamado Cordeiro, que andava sempre a lagrimar e a babar-se de saudades da mamã?
--Não me recordo d'esse rapaz que se babava de saudades...
--Chamavamos-lhe nós a _meiga-giboia_.
--Agora, sim!... Estou vendo-o debaixo do alpendre do padre Lixa a scismar com a lingua de fóra. _Meiga-giboia_, sim, senhor; parece-me até que fui eu quem lhe poz a imaginosa alcunha, porque nenhum de vossês, os meus condiscipulos, tinha phantasia para tanto.
--Pois ahi tens o herdeiro da viscondessa... que não é.
--Que não é o quê?
--Viscondessa.
--Ora essa! Um lavrador disse-me que ella era viscondessa _tout-court_, viscondessa de nada. Vens tu, e confirmas o lavrador, dizendo-me que não era viscondessa a tal finada! Mas eu li o letreiro no portão de ferro...
--É verdade, o letreiro lá está. Depois de cêa, se o somno te não apertar, ouvirás a historia d'este titulo.
--Se tem historia, é um bom titulo; que eu sei de centenares de titulos sem historia. Cearemos de modo que o espirito se não comprometta na digestão.
* * * * *
Depois de cêa, o abbade, acautelando as portas á curiosidade das irmãs que ainda eram moças e casquilhas, contou-me este conto:
--Havia em Braga um chapeleiro muito rico, pai de duas meninas. A sua mania era casal-as com fidalgos; e depressa concorreram alguns oppositores ás noivas. Um d'esses, que militava na qualidade de tenente de milicias, era João Ferreira d'Eça, dono da casa onde viste o brazão. O chapeleiro, que não dava a filha sem mandar examinar por pessoa competente os pergaminhos do pretendente, convenceu-se de que o alferes era primo em segundo grau dos condes de Cavalleiros. Deu-lhe, por tanto, a filha e sessenta mil cruzados.
D. Antonia, poucos annos depois, viuvou, sem ter filhos. Era bonita e muito rica. Outros fidalgos se lhe offereceram em segundas nupcias; mas a inconsolavel viuva nem recebia visitas nem respondia ás cartas.
A outra filha do chapeleiro maridára-se tambem fidalgamente; porém, o marido, que aceitára o desigual enlace para resgatar os bens hypothecados, nem resgatára os bens, nem perdoára á esposa ter-lhe dado o abundante ouro com que elle alargou a área dos vicios. Esta senhora tinha tres filhos. D. Antonia d'Eça pediu-lhe o mais velho, e desde logo o considerou seu principal herdeiro.
O pequeno tinha oito annos quando veio para o Salgueiral, e orçava pelos dezeseis quando foi ser nosso condiscipulo em grammatica latina. Aquelle choramigar e scismar com a lingua de fóra, como tu observaste, eram o resultado do amor extremoso com que a tia o creára. Ella não queria largal-o de si; mas as raras pessoas que a visitavam arguiam-na de ser causa a que seu sobrinho, embora rico, ficasse para alli tão estupido como os seus criados.
Alvaro Cordeiro não era incapaz de aprender; mas resistia ás maneiras quer brandas quer violentas do professor. Não havia pagina de livro que não tivesse para elle uma cabeça de Medusa a carranquear-lhe.
Quando chegou aos vinte e dous annos, induzido pelas descripções da vida airada que os estudantes levavam em Coimbra, disse á tia que se queria doutorar. D. Antonia exultou, encheu-o de caricias e dinheiro, e mandou-o com a sua ama secca, com o seu escudeiro e com o seu cavallo para Coimbra.
As estouvanices de Alvaro deram brado entre 1851 e 1858. O dinheiro que a tia lhe enviára fôra tanto que, a final, nem o extremado amor que lhe tinha a impediu de se espantar e doer do abuso.
Findos seis annos de Coimbra, apresentou-se á tia dizendo que era doutor em philosophia e direito. Logo em duas faculdades tão desirmãs! Pasmei do reviramento e actividade d'aquella preguiçosa intelligencia!
Todos lhe chamavamos doutor, sem offender-lhe a modestia nem a consciencia. Por muito tempo o julguei mais ou menos conscio das duas faculdades; mas, acaso, um dia soube em Braga que o doutor do Salgueiral não fizera, sequer, exame de latim.
Nada revelei aos meus patricios, nem a elle o esbulhei do grau de bacharel. Era-me penoso magoal-o sem precisão, crear um inimigo, e abrir occasião a que a boa tia, arrependida de o beneficiar, o desherdasse.
Pouco tempo se deteve por aqui. Logo que o inverno assomou com as primeiras nevoas ao espinhaço dos outeiros, Alvaro pediu licença a D. Antonia para ir a Lisboa requerer um emprego na diplomacia. A senhora contrariou-lhe o intento, allegando que seu sobrinho não carecia de ser empregado; mas elle replicou razoavelmente que as suas duas faculdades deviam ser utilisadas no serviço da patria, e que, por meio da diplomacia, lhe adviriam os lugares de maior honra no estado. D. Antonia quiz ouvir o meu parecer a respeito da diplomacia. Fui conforme ao intento do doutor, e approvei que seguisse essa carreira, por ser a que mais se dispensava das duas faculdades em hypothese.
Foi Alvaro para Lisboa; e, volvidos quinze dias, deu parte a sua tia que fôra nomeado addido á embaixada portugueza em Paris, primeiro degrau para subir a ministro, onde esperava chegar em menos de tres annos. Esta jubilosa carta concluia por estipular a sua tia a remessa mensal de cincoenta libras, que tanto era necessario á decencia e ao luzimento d'um diplomata em França.
Fui chamado a votar sobre a clausula das cincoenta libras. Ora, como eu de antemão sabia que a ternissima senhora lhe daria cem, se elle as pedisse, accedi á necessidade das cincoenta. Ella fingiu-se afflicta, lastimou o vacuo do seu peculio, prophetisou, sem fé, a ruina da sua casa, e encarregou-me de ir ao Porto arranjar banqueiro por onde se transmittissem as mezadas.
Foi Alvaro Cordeiro de Magalhães para Paris, como tu e eu poderiamos ir, se tivessemos tias parvoas, ricas e extremosas. Quem não soube da sua partida foi o governo, que nunca tivera minima idéa d'este addido. Perguntando eu mezes depois, em Braga, a um secretario de embaixada se conhecia em Paris o addido Cordeiro de Magalhães, disse-me que conhecera lá um Cordeiro de Magalhães addido sim, mas a uma _cocotte_, e que, a julgar do abysmo pelo cairel, o pobre rapaz dentro em pouco estaria de volta para a sua aldêa sem dinheiro nem honra.
Agora, um episodio que prende com esta historia. Um tio materno de D. Antonia era capitão de infanteria, quando os francezes invadiram o reino. Dizia-se que este militar entrára nas fileiras de Napoleão, seguira o grande exercito e nunca mais voltára a Portugal, nem dera noticias suas á familia.
D. Antonia escrevera ao sobrinho recommendando-lhe que indagasse em França se existiriam descendentes de seu tio Geraldo de Carvalho, que já era coronel, quando se expatriou com o exercito francez.
Respondeu Alvaro que seu tio morrera general em Waterloo; e mais nada, quanto a descendentes. Toma tu nota d'esta digressão que ha de vir a ponto frizar na historia. Já dormes?
--Essa pergunta hei de eu fazer ao leitor quando lhe repetir o teu conto.
* * * * *
As cincoenta libras mensaes tinham subido a cem, quando D. Antonia, ao cabo de dous annos, em apuro de paciencia, fez saber ao sobrinho que não podia continuar a mezada.
O pseudo-addido, que já se dizia secretario de embaixada nas cartas á tia, sahiu de Paris, trazendo comsigo a franceza, a quem amava com a cegueira já descabida nos seus trinta e cinco annos, mas natural de um coração mal compleicionado.
Chegou Alvaro ao Salgueiral, deixando a franceza no Porto.
A tia recebeu-o com a sua inalteravel ternura, e levemente o arguiu de perdulario. Queixou-se elle de lhe ser cortada uma brilhante carreira. D. Antonia consolou-o antepondo á vaidade de o vêr ministro o contentamento de o ter comsigo. Alvaro contrafez o prazer de se sentir tão querido, e nunca fôra tão amoravel para sua tia.
Esta senhora herdára da indole do pai a mania de se afidalgar. Muitas vezes me pediu que lhe lêsse uns codices genealogicos, escriptos no seculo XVII, relativos ás proezas dos avós de seu marido; e coriscava-lhe então nos olhos o enthusiasmo, como se o inclito sangue dos façanhosos Eças se lhe infiltrasse das arterias do chorado esposo.
Uma vez, contando-lhe eu que o filho de um socio de seu pai acabava de ser agraciado com o baronato, D. Antonia, por entre gargalhadas de sisudo espirito, revelou despeito, e talvez cubiça de ser ridicula como o filho do socio de seu pai.
Não me espantei, pois, quando Alvaro Cordeiro me disse que ia a Lisboa agenciar o titulo de viscondessa para sua tia. Dei os parabéns a D. Antonia, persuadido de que o titulo seria negocio feito, desde que o agente levava ordem franca para negociar a mercadoria.
Passadas algumas semanas, D. Antonia de Eça recebeu a participação de que era agraciada por sua magestade, em attenção á illustre ascendencia e serviços de seu marido, com o titulo de viscondessa do Salgueiral, em uma vida.
Fui eu o encarregado de transmittir mil libras ao sobrinho para pagar os direitos de mercê, luvas, etc.
Ora, seria uma offensa á tua critica dizer-te que Alvaro estava em Cintra com a franceza, dissolvendo em prazeres as mil libras da excellente creatura, e forjando cartas de aviso e alvarás de viscondessa.
Fazia tristeza a pobre mulher! Só eu sabia que ella era enganada pelo sobrinho, porque tive pessoa que procurasse informações na respectiva secretaria. Todos a tratavam de viscondessa, e eu tambem. E o titulo desconcertára-lhe por tal maneira o siso que, ás vezes, fallando-me do marido defunto, chamava-lhe o _seu visconde_, tornando a graça retroactiva uns bons vinte annos. O letreiro, que lêste na porta, mandou-o ella gravar tambem no jazigo de familia, na baixella, nos reposteiros da sala, que nunca os tivera; e então a corôa essa appareceu mal pintada em tudo, desde os escabellos antigos do salão-de-espera até aos portaes de todas as quintas.
Um dia, escreve-lhe o sobrinho de Lisboa, contando-lhe o seguinte: que, ao sahir de Paris, encarregára o seu ministro de continuar indagações ácerca dos descendentes de seu tio o general Geraldo de Carvalho, morto na batalha de Waterloo; e acrescentava que a final o visconde de Paiva descobrira em Saint-Nazaire uma neta do general, menina de muitas prendas e virtudes, vivendo de uma prestação do estado, proposta ao parlamento por Napoleão III. Continuava Alvaro pedindo licença á palerma da velha para ir visitar sua prima, e offerecer-lhe em nome de sua tia viscondessa passar um verão no bello Minho.
D. Antonia rejubilou com esta nova, e fez-me participante da sua alegria. Que repugnancia eu senti em obtemperar a esta novissima velhacaria de Alvaro! Mas eu sentia que o descobrir-lhe uma trapacice me obrigava moralmente a descobrir-lhe as outras.
Entretanto--pensava eu--quem sabe? Póde ser que exista a neta do general Geraldo. Porém, não seria acertado averiguar primeiro se existia semelhante general?
Escrevi a um sabio de Braga perguntando-lhe se tinha noticia de tal nome na historia militar de Napoleão I. Respondeu-me o sabio que consultára miudamente a _Historia do consulado e do imperio_, e entre os generaes vivos e mortos não se lhe deparára tal Geraldo, nem ainda entre os officiaes subalternos; mas que, consultando homens de mais de oitenta annos, de Braga, soubera que Geraldo, cunhado do chapeleiro, capitão de infanteria, morrera na defeza de Badajoz em 1811.
Como quer que fosse, á volta de trinta dias, Alvaro Cordeiro estava no Salgueiral com sua prima mademoiselle Cora de Carvalho, para quem D. Antonia se mostrava infinitamente graciosa. Uma franceza velha acompanhava a nova sob o titulo de aia, honestando assim a viagem do uma menina solteira com seu primo.
Escuso talvez dizer-te que...
--A franceza era a _cocotte_--atalhei para acabar hesitações a respeito da minha perspicacia.
--Mas uma rapariga diabolicamente bonita, com uns tregeitos sarcasticos, que me pareceram a expressão de escarneo e zombaria d'aquella senhora tão digna de menos ignobil sobrinho.
Era bonito ouvil-a fallar de seu pai, gentil-homem picardo, e de sua mãi, que vinha a ser filha do general Geraldo de Carvalho. E o que mais me espantava era a menina palavrear o portuguez menos mal, tendo fallado, um mez antes, com o primeiro portuguez que encontrára em sua vida!
D. Antonia brindou-a com parte de suas joias, foi com ella a Braga mostral-a aos seus parentes; e tanto se lhe devotou que a mim me chegou a dizer que não levaria a mal que seu sobrinho a desposasse.
Eu não pude então conter-me, que não exclamasse: «Deus nos livre!»
Ella instou por saber o motivo da exclamação involuntaria. Contentei-a dizendo-lhe que as francezas não podiam afazer-se á vida campestre; a que, a final, a snr.ª viscondessa viria a ficar sem o sobrinho, por a esposa lh'o arrebatar para França.
* * * * *
Planeou-se uma visita ao Palacio de crystal, no Porto. A «viscondessa» nunca tinha visto aquella bonita cousa. Eu tambem fui convidado.
Mandou-se fazer o jantar no restaurante do palacio.
Quando estavamos á mesa, e nas alturas da lingua grelhada, entrou um grupo de francezes, rapazes esturdios, de cachimbo de espuma, e rosa de Alexandria na lapella. Um d'elles, olhando a fito mademoiselle de Carvalho, estacou; e ella, que de relance o vira, purpurejou-se até aos lobulos das orelhas. Alvaro Cordeiro não foi estranho a esta scena muda, por quanto, guinando entre os dous a vista inquieta, empallidecera.
Os francezes abancaram gargalhando e proferindo phrases que eu não entendi. Apenas sentados, estralaram as rolhas do champagne, e a vozeria gralheava em chascos faceis de perceber nos olhares esconsos que dardejavam ao nosso grupo.
Alvaro, antes de concluido o jantar, pediu a conta. Observou-lhe a tia que a sobremesa ainda não tinha chegado, e que ella queria pudim de laranja e o seu chá.
N'este comenos, um dos francezes, galante rapaz, ergue-se da mesa, vem defronte de nós com um copo de vinho, e solta uma trovoada de palavras, com um ar mixto de zombaria e seriedade, as quaes eu, ignorante da lingua franceza, quando francezes a fallam, não percebi; mas as ultimas proferidas muito de espaço, entendi claramente: _A ta santé, Cora Pearl! Je felicite le beau Portugal et le beau portugais! Voilà un bijou de la corruption française que leur y manquait!_
--E Alvaro que fez?--atalhei eu.
--Alvaro que fez? o que eu fiz. Olhou para o francez como se elle estivesse representando um monologo. Lá na mesa d'elles as gargalhadas eram estridentes...
--E a franceza?
--Levantou-se com a soberania de rainha da sua especie, e fez um gesto de retirada a Alvaro.
--E D. Antonia?
--Pasmou, abrindo a bocca tumida de feijão carrapato, e jogando com os olhos pelas caras dos circumstantes.
--E tu?
--Eu estava a traduzir. Sahimos todos silenciosos, e entramos no hotel Francfort. N'essa mesma noite, partimos para o Salgueiral. Alvaro explicou a sua tia o incidente:--aquelle francez amára sua prima que o desprezára; e o infame, que a perseguira desde Saint-Nazaire, vendo-a alli, a insultára. Ouvi estas explicações, e achei-as plausiveis; mas as que me deram depois no Porto foi que o francez havia sido uma das ludibriadas victimas de Cora Pearl, a qual tambem era uma das mais despejadas e absorventes devassas de Paris.
* * * * *
D'ahi a poucos dias, a hospeda da «viscondessa» mostrou-se enojada da aldêa, e fallou em retirar-se para França. A carinhosa _tia_ pediu-lhe que ficasse até ao inverno; ella, porém, não pôde disfarçar o seu fastio tanto da aldêa como do amante. A meu vêr, a cobardia de Alvaro, na scena do Palacio, devia encher-lhe a medida do tedio. Chegou-lhe a nostalgia dos cafés e dos bosques. Não havia demovel-a.
Era justo que o primo a acompanhasse a Saint-Nazaire. A tia forneceu-o de dinheiro abundante para seis mezes de ausencia, recommendando-lhe que, se encontrasse o francez, o mandasse ao diabo, e não tivesse testilhas com tão malcreado homem. Bem se via que o sangue ardente dos Eças não se transfundira no corpo burguezmente pacato d'esta senhora, nem Alvaro Cordeiro desmentia os pacificos pundonores do avô chapeleiro.
Ha seis mezes que Alvaro foi para França, e por lá está.
D. Antonia adoeceu ha quinze dias, e morreu antes de hontem, legando todos os seus haveres, que montam a cem contos de reis, a seu sobrinho, e as preciosas joias a sua sobrinha Cora de Carvalho, neta de seu tio o general Gonçalo de Carvalho.
Que conclues d'esta historia?
--Que ha infames felizes, e que é preciso acreditar no inferno de além-mundo.
--Eu não tiro essa conclusão assim absoluta. Infames são aquelles que convertem a sua perversidade em desgraça alheia. Alvaro Cordeiro logrou sordidamente a sua honrada tia; mas, logo que ella morreu na ignorancia do seu logro, a responsabilidade do sobrinho é menor do que seria, se lhe tivesse feito chorar uma lagrima. Pelo contrario, fêl-a viscondessa, e deu-lhe a consolação de ter um tio general que morreu bravamente em Waterloo.
CONCLUSÃO
Alvaro Cordeiro de Magalhães está hoje na sua quinta do Salgueiral, casado com uma senhora de casa muito illustre, e pai de algumas crianças educadas religiosamente. Nos letreiros que diziam viscondessa, subtrahiu as tres ultimas letras; mas é visconde a valer. Fez uma economia na fundição dos caracteres. Ao meu amigo abbade, seu commensal e confidente unico, diz elle que a sanguesuga que lhe defecára o sangue da podridão original e dos vicios da educação, fôra Cora Pearl.
* * * * *
Esta Circe de illustres cerdos ainda hoje exercita as mesmas funcções depurantes em Paris. Houve, todavia, uns apopleticos de ouro que ella vampirisou até os matar exangues. Se succede uma sanguesuga introduzir-se na larynge, é mister recorrer á bronchotomia--á incisão da parte anterior do pescoço; mas o mais ordinario nestes lances é morrer o doente. As bichas da natureza de Cora Pearl, quando se mettem na alma de um homem, deixam um só recurso: a operação do suicidio. Felizes aquelles que, á imitação de Alvaro Cordeiro, apenas foram sangrados!
É a sorte que eu desejo aos meus leitores plethoricos.
[1] O rebanho de ovelhas, fato de cabras, e manada de gado bovino chama-se em algumas partes do Minho _mundice_, talvez corrupção de _immundicia_.
BIBLIOGRAPHIA
(Pedro Ivo--Pedro de Amorim Vianna--Alberto Pimentel--Visconde de Castilho--Pinho Leal).
PEDRO IVO. _Contos._ Porto, 1874.--Formoso livro! Dir-se-hia que Julio Diniz, o viajor eterno das regiões luminosas, deixou na intelligencia e no coração dos que mais de perto o conheceram e amaram, as serenas imagens das suas visões, as maviosas figuras dos seus quadros, a suave indulgencia e conformidade com que elle florejava de nenuphares os pantanos da vida.
Quando eu li alguns d'estes contos no _Commercio do Porto_, e lhes não conhecia author, nem acreditava na authenticidade de Pedro Ivo, disse sempre commigo: «É a continuação do gentil espirito de Gomes Coelho. Ha de haver muita gente que passe inadvertidamente por estes graciosos romancinhos, reveladores de poderosa vocação; porém, quando o author chegar á meridiana da sua gloria, estes contos--aurora d'um dia esplendido--serão relidos com renovado prazer.»
Reli hoje os que já lêra, e os que vem de primeira mão no livro. No correr aprazivel da leitura, quando senti o alvoroço das lagrimas, ao passo que as paginas commoventes eram singelissimas, saudei o amavel romancista, e dei-lhe o culto sincero e raro da minha admiração, como daria um beijo na face de meu filho, se elle um dia legitimasse a minha vaidade de pai com um livro d'este valor. Invejo estas santas alegrias ao snr. José Carlos Lopes.
* * * * *
_Memorias de M.me Lafarge, traducção de PEDRO DE AMORIM VIANNA, com um estudo moral ácerca da authora, escripto pelo traductor._ Porto, 1874. 2 tom.--Ouço dizer que a sciencia do snr. Amorim Vianna se prolonga até ás fronteiras do hebraico. O que elle desconhece em linguistica é os idiomas francez e portuguez. Isto, porém, não impede que o digno professor de mathematica saiba tudo mais. Eu duvidaria da anthenticidade do traductor, se o estylo do _Estudo_ não apparelhasse tão consoante com o da versão: tamanha é a disparidade de um nome celebrado nas letras com esses dous volumes imperdoaveis a um alumno de lingua franceza.
Versão e _Estudo_ ajoujam-se frizantemente. Quanto á primeira, se algum incredulo me quizer obrigar pela palavra, demonstrarei que rara é a pagina em que os erros não orcem pelas linhas,--erros de interpretação franceza e de grammatica portugueza.
M.me Lafarge escrevia com a sublimidade e correcção classica de Jules Janin. Desfigurada pelo traductor, dir-se-ha que a franceza escrevia francez como o snr. Amorim escreve portuguez.
Pelo que respeita ao presumido _Estudo moral_, o que d'ahi se deprehende é que Lafarge foi ladra e envenenadora porque lia romances. O snr. Amorim, no processo de seu estirado estudo, revela farta leitura de romances; e todavia, os seus costumes são exemplares, penso eu. Verdade é que o insigne professor declara que Méry lhe faz nauseas, e que a reputação de Balzac se deve _á corrupção do seculo, ao rebaixamento dos espiritos, e desfalecimento dos brios no publico_ (pag. 176). E que _Balzac se fanatisou pelo crime desenhando-o com o nome de Vautrin, etc._ Conta que Lafarge tivera _mil pretendentes á sua mão depois de condemnada e presa_; e explica este fanatismo por ser ella o _producto das más paixões da época_.
Se Méry faz nauseas ao snr. Pedro de Amorim, quer-me parece que o author da _Guerra do Nizam_, não preferiria o perfume... litterario do snr. Amorim aos aromas das florestas indianas. Balzac, posto em pedestal de corrupção para ser admirado, é um deploravel paradoxo que eu teria pejo de vêr na minha lingua, se o snr. Amorim Vianna escrevesse lusitanamente. Que, ao menos, estes absurdos se não possam tirar a limpo d'entre locuções mascavadas.