Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12)
Chapter 1
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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 7--JULHO
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON _96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON _4, Largo de S. Francisco, 4_ BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
Os salões, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Uma viscondessa que não era--Bibliographia--Para a historia de D. João 4.º--Inedito de Manoel Severim de Faria--O Manoelinho poeta--Um baile dado a Junot, em Lisboa--Que saudade!--Carta a respeito... d'aquella coisa--Nil admirati.
OS SALÕES
CAPITULO V
TENEBRAE ERANT
Portugal ora olhado com desdem o sobrecenho pelas mais nações da Europa, como tendo, desde o ápice de sua grandeza e poderio, baixado rapidamente aos termos derradeiros da sua degradação. Quando lord Tyrawley foi mandado pelo gabinete inglez a Portugal, pouco antes da guerra de 1762, a descripção, que fizera d'este reino, desenhava-o incapaz de nenhuma resistencia, e pouco distante da barbarie.
LATINO COELHO.
Nous sommes au seuil d'un monde nouveau.
L. JACOLLIOT.
Dans l'histoire humaine, parfois c'est un homme qui est le chercheur, parfois c'est une nation. Quand c'est une nation, le travail, au lieu de durer des heures, dure des siècles, et il attaque l'obstacle éternel par le coup de pioche continu. Cette sape des profondeurs, c'est le fait vital et permanent de l'humanité. Les chercheurs, hommes et peuples, y descendent, y plongent, s'y enfoncent, parfois y disparaissent. Une lueur les attire. Il y a un engloutissement redoutable au fond duquel on aperçoit cette nudité divine, la Vérité.
VICTOR HUGO.
Foi em Alcacer-Quivir que rolou a corôa de Portugal pelos areaes d'Africa. Deus sabe o que havia de grandioso, que sonhos esplendidos de futuro iam na mente de Sebastião--_o Desejado!_
Os formosos palmares da India, a opulencia fascinante da Asia, as sumptuosas magnificencias do berço da humanidade, as lendas fabulosas do Preste João, os riquissimos e legendarios templos de Brahma, e dos deuses mysteriosos da cosmogonia secular d'aquella raça, e todos os sonhos e sedenta avidez d'uma nação pobre, habituada a lutas heroicas, e obscuras com os musulmanos d'Africa--fascinaram, e enlouqueceram, por tal fórma, os guerreiros e fronteiros de Ceuta, Tanger, e Arzila, que, aos primeiros descobrimentos dos navegadores do seculo XV, os portuguezes invadiram o Oriente, abandonando aquella escóla de valor e de heroismo, onde expirou o infante santo, e onde a cruz do Redemptor era o incentivo e estimulo das mais nobres façanhas, e dos feitos mais esforçados.
Quiz D. Sebastião, com a mystica lenda do Golgotha, salvar Portugal do ignobil desdouro, do scepticismo miseravel, da louca ambição de riquezas, e da cobardia e enervação, que ia corroendo e gangrenando os nobres na sordida mercancia das especiarias da Asia?
Sabe-o Deus.
Sabel-o-hia a historia--se os aios, e confessores de principes e de reis, em vez de serem bonzos, fakires e derviches d'um credo intolerante e sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do desenvolvimento da humanidade.
Havia, de certo, um profundo pensamento politico detraz d'este fervor religioso, que arrastava a christandade para lutas e pelejas com agarenos.
Uma geração enervada e corrupta, uma nobreza effeminada e devassa deixou abater o pendão das quinas, em terras de berberes, quando as intrigas, a sordida cobiça, e traições de Castella almejavam por esta derrota d'um principe christão.
Os Philippes de Hespanha iam projectar a sua sombra sinistra n'este estacionamento inexplicavel das gerações europêas.
A historia um dia dirá--a historia escripta pelo povo--se foi sómente o fanatismo religioso que arrastou o moço rei aos campos de Alcácer-Quivir, ou se o herdeiro do sceptro de D. João I quiz arrancar ás devassidões e torpezas da India uma nação, que cobrára em Africa pundonorosos alentos, esforços guerreiros, e energicos brios com que escrevêra a mais esplendida e brilhante pagina dos feitos memoraveis nos seculos XV e XVI.
Não foi a purpura real que rasgaram os leões africanos, não foi o throno do Occidente que cahiu despedaçado e partido nas vastas planuras da Lybia. O sôpro ardente das tempestades do deserto varreu mais do que um throno, abrazou mais do que uma purpura; abateu, humilhou, e arrancou a seiva a um povo cheio de pundonor, e coroado de gloria, arremessando-o de abatimento em abatimento, de humilhação em humilhação, de desventura em desventura até á invasão franceza, até á fuga do rei portuguez, até á mais ignobil vassallagem prestada á soberba Albion, pela nação mais cavalleirosa, emprehendedora e aguerrida dos extremos da Europa.
Dizia a Polonia, quando se debatia nas vascas da mais dolorosa agonia--a agonia d'um povo que vai morrer: «Deus está muito alto, e a França muito longe!»
E nós?--Tratados como os rajahs do Indostão, como os nababos, e como os parias, tambem, da India ingleza, dobravamo'-nos, submissos e obedientes, como colonia britannica, á fé punica, á avidez implacavel e inexoravel politica da nossa fiel alliada.
A Veneza dos inquisidores e dos doges immergira-se nas lagoas do Adriatico, quando nós invadimos o mar Vermelho, para deixar erguer este colosso da Grã-Bretanha, a quem Cesar appellidára barbara nos seus formosos Commentarios. O leão de S. Marcos escondeu as garras, ao tremularem as nossas quinas no berço da nossa raça, na vastidão do esplendido Oriente, para mais tarde os ferozes leopardos bretões serem a taboleta do commercio da Asia.
Na immensa grandeza do nosso heroismo, nós, cavalheirosos, desinteressados, e imprudentes avassallamos os reis de Calecut e Cochim, escreviamos _Os Lusiadas_, empenhavamos as barbas de D. João de Castro, deixavamos agonisar, cheio de affrontas, Affonso d'Albuquerque, na barra de Gôa, algemavamos Duarte Pacheco, enchiamos de odio o nobre coração de Fernando de Magalhães, e recusavamos, com desprezo e altivez, a nobilissima dedicação de Christovão Colombo, a quem Americo Vespucio, mais tarde, roubou o nome e parte da gloria.
De affronta em affronta, de vilipendio em vilipendio, de ingratidão em ingratidão degeneramos tanto, que, em 1817, viviamos como parias e ilotas da soberba Albion, sob o mando e dominio do marechal-general Beresford.
Trasbordava o calix das humilhações.
Portugal era um paiz conquistado. Pouco importava que fossem as aguias do imperio ou os leopardos britannicos que subjugassem este solo.
Haviamos tocado os extremos da ultima abjecção.
As industrias fabris jaziam completamente arruinadas, a agricultura estava reduzida á maior miseria, o fanatismo religioso campeava sobranceiro por sobre este ignorantissimo povo, as arcas das rendas publicas e particulares iam caminho do Brazil, o paiz achava-se recortado em bens vinculados, entregue aos morgados, aos possuidores de bens da corôa e ordens, e aos opulentos mosteiros de todas as religiões, que escravisavam o solo; o governo fomentava as intrigas politicas, enganava a corôa, escondida n'outro hemispherio; e o exercito, governado e dominado por officiaes inglezes ás ordens da Grã-Bretanha, curvava-se aqui ao mando e poderio do muito alto e poderoso lord Beresford.
As citações, que vou dar em seguida, serão mais judiciosas do que todos os meus commentarios.
Diz Gervinus, na sua _Historia do seculo dezenove_: «Esta ruina da economia politica de Portugal caminhava parallela com a sua decadencia moral e intellectual.»
Era assim.
O governo para sustentar uma dignidade ephemera, um simulacro de authoridade, que não tinha, carecia d'um exemplo efficaz e energico, embora o sangue das victimas espadanasse a jorros encharcando o solo da patria.
Inventou a conspiração de 1817.
Presentiu o desgosto profundo que ia no povo, apoiou-se nos maus instinctos, e na perfida politica do regulo da Grã-Bretanha, revolveu, com a sua abjecta espionagem, as ultimas camadas da plebe, escutou e deu vida a todas as invejas, a todos os odios, e a todas as ruins paixões, que fermentam sempre no coração de todos os intrigantes, e de todos estes reptis immundos e repugnantes, que se criam e desenvolvem n'este torrão luxuriante e vivificador. Aqui, como nos juncaes e densas selvas dos tropicos, existem, com face humana, o tigre real de Bengala, a vibora dos pantanos do Indostão, a hyena das margens do Ganges, a mosca venenosa dos tremedaes e terrenos paludosos da Zambezia, e os cascaveis hediondos das florestas da America, ao lado das virgens mais puras das creações do budhismo. Estas regiões, que vivem em maior contacto com o nosso astro supremo, mais aquecidas pelo sol, não admittem, nem consentem transições. Cortam bruscamente os crepusculos--não teem longos esvaimentos de luz--não desenham penumbras. Quando o sol se immerge no oceano adensam-se rapidamente as trevas.
Onde não ha a nobreza do sentimento, o estimulo das mais nobres aspirações, e o exemplo tocante da mais completa abnegação--é porque as sombras do cynismo se espalharam sobre a intelligencia do homem, é porque a ignorancia e os maus instinctos sepultaram, e apagaram a luz viva, o facho ardente, a idéa primordial, que vinha irrompendo na alma humana; e a consciencia do individuo, o senso moral confundem-se nas trevas, que escondem para todo o sempre estes arreboes divinos do ente creado.
Assim foi, e assim será sempre.
O tenente-general Gomes Freire de Andrade era a synthese d'estes soffrimentos, que minavam todos os membros corroidos da nação. Era o alvo de todas as invejas. Era a voz da patria, n'este estertor em que se debatia, e agonisava um povo inteiro. Por isso foi o martyr. Parecia, talvez, que, ao torturarem aquella alma nobilissima e generosa, Portugal ficaria sujeito e submisso como o ultimo ilota dos banquetes de Sparta.
Diz o author da _Memoria sobre a conspiração de 1817_ (livro que não foi estranho ás solicitudes de Beresford): «O tenente-general, Gomes Freire de Andrade, ha sido preso pelo desembargador ajudante do intendente, João Gaudencio, acompanhado de um forte destacamento da guarda da policia, commandado pelo tenente-coronel da mesma, Joaquim José Maria de Sousa Tavares. Depois de cercarem a casa do tenente-general (que morava no alto da calçada do Salitre) arrombaram a porta da rua, e foram arrombando as de mais até chegarem ao gabinete onde elle se achava; assim que foi arrombada esta, os soldados entraram no quarto, apontando as armas contra o general, o qual não fez a menor resistencia, nem se mostrou assustado, e por detraz dos soldados gritou o dito tenente-coronel:--«V. exc.ª está preso»--ao que Gomes Freire respondeu: «Assim se entra com tanta insolencia e desafôro em casa de um tenente-general?--e vossemecê não me póde prender, porque não tem a minha patente.» Então appareceu o desembargador, e mostrando-lhe a ordem, o general se deu á prisão sem nada dizer ao desembargador; mas voltando-se para o tenente-coronel, chamou-lhe um fraco, e insolente, ajuntando, que o seu comportamento não era nem de um official, nem de um cavalheiro, mas sim, de um esbirro, aguazil ou vil agarrador.»
O tenente-general foi conduzido logo para a torre de S. Julião, acompanhado pela mesma escolta de cavallaria da policia, que o fôra prender. As outras victimas d'esta perseguição foram conduzidas uma parte para o Limoeiro, e a outra para o Castello. Começou immediatamente o processo, diz o author da _Memoria_, «com aquellas tenebrosas formalidades do costume.»
«Parece, que os governadores do reino, acrescenta o mesmo apologista de Beresford, projectaram implicar, na conspiração, todos os maçons, para com este pretexto se desfazerem d'algumas pessoas a quem não eram affeiçoados.» Esta infernal lembrança era uma inspiração do secretario D. Miguel Pereira Forjaz.
Vejamos os maçons.
A paginas quarenta e uma dos _Annaes e codigo dos pedreiros livres_, lê-se o seguinte:
«1814
«N'esta época foi iniciado _José d'Andrade Corvo_, sendo capitão d'infanteria n.º 10, ás ordens do conde de Rezende, na loja _Virtude_ ao oriente de Lisboa. Como então trabalhasse sómente a dita loja, e a _Regeneração_, ás quaes se tinham reunido poucos membros, receosos de que o governo renovasse as perseguições de 1809 e 1810, e houvesse falta de irmãos para os differentes cargos da loja, conferiram-se a José d'Andrade os graus de companheiro e mestre, e pouco depois elegeram-no secretario. Incansavel nos trabalhos da maçonaria, Corvo recrutou muitas pessoas, e encarregou-se de propôr á viscondessa de Juromenha, D. Maria da Luz, o ser iniciada na maçonaria, o que se fez no fim do mesmo anno, na quinta que antes era do marquez d'Angeja, no Lumiar, em sessão magna, a que assistiram alguns personagens respeitaveis, e que n'aquelle tempo occupavam postos e empregos eminentes na capital. Esta iniciação teve por fim o saber-se pela viscondessa quaes os sentimentos do marechal Beresford a respeito da liberdade; mas por fim ella, Corvo, e João de Sá atraiçoaram todos os maçons, e só serviram Beresford. O refalsado Corvo continuando a fazer muitos e valiosos serviços á maçonaria, e a distinguir-se mesmo entre os mais diligentes, obteve alguns dos graus superiores, e na installação da loja _Philanthropia_ ao oriente de Santarem, foi elle um dos tres deputados mandados pela grande loja para a installação. Esta loja nomeou-o depois seu representante, e em consequencia d'isso lhe deram o grau de Rosa-Cruz. Entramos em todas estas particularidades porque este homem de execranda memoria, pagando tantos favores com a mais negra ingratidão, e perfidia, atraiçoou a ordem, e denunciou o infeliz grão-mestre, Gomes Freire de Andrade, para o levar ao patibulo.»
Digamos quem era Corvo. Depois veremos Gomes Freire.
Continua o author dos _Annaes_:
«1824
«Em 30 d'abril o infante D. Miguel prende el-rei D. João VI, no paço da Bemposta, e assoalha _que os pedreiros livres o queriam matar_.
«Appareceram tambem duas cartas, que por serem pouco conhecidas, as vamos transcrever:
«_Carta de José d'Andrade Corvo a seu irmão em Torres-Novas_
«_Meu Francisco._--Saberás que o bravo infante acaba de salvar a patria, descobrindo uma facção que tentava assassinar el-rei e toda a familia real: toda a tropa d'esta capital esteve hontem em armas, e o _dia 30 d'abril será um dia memoravel nos fastos da historia portugueza_. Já estão presos os malvados, e entre elles os condes de _Villa-Flôr_, _Paraty_, e da _Taipa_, etc.
«Eu appareci immediatamente a cavallo n'aquelle dia, e andei sempre ao lado do infante, o mais bravo homem que tenho conhecido, e _portei-me como Corvo_; porém, meu Francisco, qual foi o meu desgosto por tu aqui não estares? Quando vi entrar o teu regimento, e te não vi, _correram-me as lagrimas_. Vai logo ter com o juiz de fóra, e faz com que ahi se acclame el-rei, e que se ponham luminarias, e se cante _Te-Deum_. Paiva Raposo foi quem descobriu tudo ao infante, e agora _levará o diabo_ os pedreiros livres, e triumpharão os homens de bem.--Teu mano, etc.»
Parece que o judas de Gomes Freire sentia lagrimas nas faces. É para crer que o Rosa-Cruz da maçonaria desejava que o diabo levasse os pedreiros livres. Aqui fica José d'Andrade Corvo.
A segunda carta que apontam os _Annaes_, diz assim:
«_Carta da rainha a el-rei, estando em Salvaterra._
«_Meu amor._--Agora me dizem, que os nossos inimigos teem espalhado em Lisboa, que eu pretendia fazer esta manhã uma revolução para ficar regente com o nosso filho Miguel, e mandar-te para Villa-Viçosa: isto é uma aleivosia muito grande, e n'ella por certo entrará o dr. Abrantes; e por isso te peço ordenes ao intendente, que proceda rigorosamente a este respeito, pois tu bem sabes que eu não desejo senão viver socegada, e que tu sejas feliz. D'esta tua--_C. J._»
«Esta carta escripta de Queluz--continua o author dos _Annaes_--e sem data, confirmou mais el-rei na existencia da conspiração contra a sua pessoa, por se recordar de que outra identica lhe tinha escripto a rainha para o Alfeite em 1807, por occasião da conspiração tramada em Mafra.»
O livro a que me refiro tem a seguinte nota:
«Estas cartas acham-se hoje impressas na _Policia secreta_, publicada pelo intendente da mesma.»
Voltemos a Gomes Freire. Tinha nascido em Vienna d'Austria em 27 de janeiro de 1727, filho de Ambrosio Freire d'Andrade e Castro, embaixador de Portugal, e da condessa de Schafgoch. Descendia, por tanto, d'uma familia entroncada na antiquissima casa dos condes da Trava, e na dos Pereiras, Forjazes, e Bobadellas, e entre os seus antepassados contava Jacintho Freire d'Andrade, o panegyrista de D. João de Castro. Reputado o melhor general de infanteria portugueza, servira na Russia com um valor inexcedivel, combatêra no Roussillon em honra da patria, e depois de ter deixado o seu nome ligado ás glorias do imperio voltára para Portugal em seguida á paz do continente.
Os odios e invejas accendiam-se, e abrazavam em torno d'esta illustre victima.
Um dia o povo ha de narrar este prologo afflictivo da liberdade de Portugal.
Na madrugada de 25 de maio de 1817 entrou preso, na torre de S. Julião, o heroico martyr portuguez. Posto em um calabouço, sem meios de subsistencia alli, sem providencias tomadas para a sua alimentação, sem uma manta que o cobrisse ou lhe servisse de leito, arremessado para uma masmorra lageada e humida viveu assim cinco mezes--nos primeiros dias da caridade ingleza, mais tarde dos meios que pôde obter pelos seus haveres. A generosidade do governo viera, no fim de seis dias d'encerramento, em seu soccorro, arbitrando-lhe a sumptuosa somma de doze vintens diarios, no caso que elle não possuisse dinheiro ou qualquer outro meio para se sustentar á sua custa.
Desamparado, na carencia absoluta de todos os confortos, coberto de pustulas ou lepra hedionda, que lhe alastrava pelas faces, abandonado de tudo e de todos, offendido, injuriado, e calumniado até pelo proprio clero, é para crêr, e affirmam-no alguns, que perdera a razão.
Continuemos as citações:
«Um desembargador e um escrivão foram repetidas vezes interrogar o réo na sua masmorra sem outras testemunhas, senão os tormentos, e angustias que o cercavam. Quem tolhia, que entre o desembargador, e o escrivão houvesse intelligencia, para fazer constar o que o preso nunca disse, nem imaginou dizer? Quem nos ha de garantir, que isto não aconteceu assim? O seu amor pela justiça? A sua humanidade, e compaixão?... Mas sabem todos que desde o momento da prisão até ao momento da morte, os _officiaes_, e _ministros_ de justiça, que tiveram contacto com elle deram publicamente bastantes provas de serem seus algozes. João Gaudencio disse publicamente a alguem, que lhe representou a _inhumanidade_, com que era tratado Gomes Freire: «Nós não conhecemos essa palavra.» Acresce mais a difficuldade, que todos reconheciam em Gomes Freire de se explicar bem em portuguez; este inconveniente, unido ás dôres que soffria o desgraçado general, procedidas de uma inflammação do rosto, por lhe não quererem permittir que se barbeasse (_o que o tinha continuadamente em um estado de delirio_), é que deu causa a que o marechal Beresford recommendasse ao marechal Archiball Campbell, que vigiasse sobre o estado das suas faculdades mentaes; dava toda a facilidade ao desembargador, que lhe fez as perguntas de o surprehender á sua vontade, fazendo-lhe dizer o que elle desembargador quizesse, sem que o réo d'isso se precatasse.»
Basta. Turva-se a intelligencia perante tantos horrores. Apressemos o desenlace d'este medonho drama. Digamos rapidamente como terminou este supplicio hediondo.
A execução de onze desgraçados fez-se no dia 18 de outubro no campo de Santa Anna em presença da plebe fanatisada e escrava.
O tenente-general Gomes Freire foi enforcado sobre a esplanada da torre de S. Julião ás nove horas da manhã do mesmo dia. Levaram-no d'alva vestida, e descalço. Os odios dos seus algozes careciam d'estas ultimas affrontas.
Ainda a 16 d'outubro escrevia elle a seu primo, Antonio de Sousa Falcão: «No caso que se não attenda aos embargos, então, peço-te, que o letrado faça um requerimento em meu nome, para que em vez de me enforcarem, me fuzilem. Quero a morte do soldado. Peço-te que ponhas n'isto toda a efficacia possivel, que é a ultima vontade, que te pede um amigo verdadeiro com o ultimo adeus.--_Gomes Freire._»
Baldado pedido--derradeira illusão d'aquelle grande espirito! Quizeram que a morte fosse affrontosa na forca, e assim terminou a existencia um dos mais distinctos generaes portuguezes.
O illustre soldado subiu ao patibulo sereno e impassivel. Proferiu algumas palavras. É para crêr que foram as ultimas aspirações d'aquella nobilissima alma, pela independencia e liberdade da patria. Mas os padres que o acompanhavam romperam em vozeria tão escandalosa, e descomposta que não se poderam recolher as intenções solemnes e derradeiras do martyr.
Descido da forca, foi o cadaver queimado em presença d'alguns dos seus verdugos, e as cinzas lançadas ao mar na conformidade da sentença.
Todos os actores da cruenta tragedia receberam o premio do serviço.
Has a patria soube guardar-lhes os nomes execrandos para os transmittir immorredouros ás gerações futuras.
Quizera e devêra, talvez, deixar, aqui, impressos os nomes dos ignobeis judas d'este torpissimo martyrio. Mas a penna recusa-se-me a este sacrificio.
Não é bom tocar em nomes de carrascos. Ennodôa e macúla remexer os tremedaes do cynismo que se transmitte e contagía como o virus das febres paludosas e epidemicas do Mexico e do Ganges.
A urna cineraria d'este grande vulto foi o oceano.
Aceitemos ainda o oceano, como o vasto salão da nossa fiel alliada--a Inglaterra.
VISCONDE D'OUGUELLA.
UMA VISCONDESSA QUE NÃO ERA
(EPISODIO DAS PODRIDÕES MODERNAS)
Como quer que eu andasse jornadeando, ha cinco annos, por aldêas do Minho, intransitadas e menos conhecidas, encontrei um sahimento, que, ao principio, cuidei ser procissão.
Afóra a cleresia, que era numerosa, realçavam com as suas côres rubras, amarellas e roxas os balandraus de tres irmandades. Seguiam-se as alas dos visitantes da familia anojada mui bem postos e quasi serios com as suas casacas de gola enroscada e canhões arregaçados para evitarem os pingos de cêra. A espaços, palmilhava o chão juncado de rosmaninho, espadanas e hortensias, um anjo que atirava as pernas compassadamente ao rythmo da musica, bamboando as saias, as plumas e as azas relampejantes. Seriam seis os anjos, de varios tamanhos e significações imaginosas, parecendo-me todos tão pouco celestiaes, quanto alguns d'elles tinham escanhoado as queixadas para se darem o imberbe rubor de quem fingiam ser. Eram deveras funebres e apropriados ao cortejo. Na vanguarda do prestito ia a banda musical trovejando marchas funebres de metal e bombo; no remate negrejava o esquife, roçagando baeta-crepe, levado á mão por quatro sujeitos de casaca e catadura adequadas.
Apeei, e desviei-me a um recanto da estrada, em quanto perpassava o sahimento; depois, perguntei a um homem retardado da comitiva quem era o defunto.
--Era a snr.ª viscondessa--disse elle.
--Viscondessa de quê?--volvi eu.
--De quê?!
--Sim; pois ella havia de ser viscondessa de alguma cousa.
--Isso não sei, nem me consta. Acho que era só viscondessa.
Não prosegui na ociosa averiguação; mas, d'ahi a pequena distancia, encontrei uma casa grande com seu portal de ferro, e na cimalha da padieira esta legenda em letras bronzeadas: _Viscondessa do Salgueiral_.
Eu não conhecia este titulo.