Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)
Chapter 5
Eis que o snr. Vasconcellos dá á luz um livro de critica á versão do _Fausto_, pelo snr. visconde de Castilho; e, ainda antes de o lêr, já eu sabia que o meu hospede tão graciosamente recebido, me insultava como escriptor e como homem, enxovalhando-me com vilipendiosas aleivosias, como se não bastasse ao seu injusto rancor malsinar-me de ignorante.
Aqui tens, meu caro amigo, repetido o assignalado successo do advento do snr. Vasconcellos a esta quinta de Seide.
Como elle está escrevendo os escandalos da minha vida, que naturalmente veio espionar quando cá entrou, bom seria que elle dissesse que ca tenho grandes infamias na minha historia lendaria, e uma das mais graúdas foi recebel-o em minha casa.
Falta-me explicar-te onde está o procedimento honroso do snr. Vasconcellos na hospedagem que lhe dei. Está no seguinte: quando elle sahiu da minha mesa, contaram-se as colheres de prata, e não faltava nenhuma! Honra lhe seja!
Teu do coração,
_Etc._
_P. S._ Se o snr. Joaquim de Vasconcellos, depois da publicação d'esta carta, entender que me deve pagar o aluguer da cavalgadura, o almoço e o jantar, authoriso a thesoureira das Velhas do Camarão a receber a importancia, e passar recibo.
ESTUPIDO E INFAME
(Á _ACTUALIDADE_)
Alguns rapazes sem habilidade, nem estudo que lhes supprisse a incapacidade do engenho, appareceram ahi a pinchar na vaza das letras como sapos de lameiro em tarde trovejada de julho. O mais sapo nas _verdes podridões_, consoante o phrasear colorido do snr. Guerra Junqueiro, é este marau da _Actualidade_.
Veio de Lisboa assoldadado para a imprensa do Porto, em serviço de um ignobil aventureiro. Pôz o seu pulso á disposição do estomago, e aviltou a probidade de homem no começo da vida publica, prestando-se a dar vaias,--_piadas_ no calão fadista do birbante que o estipendía--a pessoas que pareciam respeital-o com o seu desprezo silencioso.
Fui eu, desde muito, insultado em livros e folhetos por este gandaieiro da vadiagem lisboeta. Perguntei um dia quem era o enxovêdo, e que razões lhe teria eu dado para não perder lanço de me offender. Responderam-me que era um dos Báthylos do Joaquim Theophilo; e que um dia, o sordido Anachreonte, que poetára amores de Gomorrha na _Visão dos tempos_, desembuçára-se da mascarrada chlamyde, e dera á luz este safado _pinto_ que sahiu grôlo do ovo.
Já sabem d'onde elle vem.
Disseram-me, outro sim, que um escriptor brioso, chamado Santos Nazareth, jogára com elle a bilharda nas pontas das botas em pleno café-Martinho; de modo que nenhuma pessoa medianamente briosa póde hoje roçar-lhe na cara a palma de uma luva. A parte, portanto, que porvindouramente me houvesse de caber em despiques de pundonor, essa--aviso á _Actualidade_--pertence á alçada do meu gallego.
Não sei se o publico portuense tem reparado que os seus bons escriptores ou morrem ou fogem. O visconde de Benalcanfor, Ricardo Guimarães, aquelle florido talento que disputou a Lopes de Mendonça as galanterias do folhetim;--Ramalho Ortigão, o prosador elegantissimo, o fidalgo da graça senhoril, a revelação mais assignalada que ainda tivemos do espirito francez;--Alberto Pimentel, a quem se estão desentranhando em fino ouro os minerios mais copiosos da vernaculidade; Sousa Viterbo, dulcissimo poeta e prosador correcto, estes, que seriam para o Porto bastantes padrões de sua litteratura, passaram para Lisboa;--e Silva Pinto, a escoria da cainçada litterateira de Lisboa, baldeou-se no Porto.
É sorte funesta!
Entra o homem na fiscalisação de uma sentina jornalistica; e, apenas me vê a sombra na pagina de um livro, insulta-me. Lanço mão do ferro, carmeio-lhe parte da lã, almofaço-lhe a carepa, e deixo-o. O leitor das _Noites_ bem viu. Mostrei ao insolente que não sabia portuguez nem francez; que não estava na plana dos criticos; que a sua ignorancia, com alguma modestia, poderia grangear a caridade publica; emfim, este sentimento da compaixão ia manietar-me, quando elle, sacudindo o aziar, volveu a espojar-se-me na testada da casa.
O desgraçado resvalou á ignominia. Como não teve que redarguir contra as lagantadas litterarias que lhe verberei á ignorancia, ameaça-me com devassar os actos da minha vida particular. São-lhe franqueados os umbraes da minha vida. Póde entrar o infame.
Ahi está o homem que denigre e deshonra as pugnas litterarias. Estrangulado pela critica severa, resfolegará ainda pela vilta da calumnia.
Veja-se o n.º 94 da _Actualidade_.
Ao mesmo passo (leia _trote_) que me insulta, espolia-me o ratoneiro. Cotejemos, e veja-se que até lhe escasseia o brio para se desforçar com palavras de lavra sua. Em um folhetim meu, intitulado a _Corôa de ouro_, publicado em 1872, escrevêra eu as seguintes linhas:... _Uns taes cujo nome infame ha de sobreviver ás producções gafadas, e cuja probidade é tão sómente a necessaria para não serem enforcados, como dizia Molière... Os magarefes da carne putrida que lhes sobeja nas alcovas..._ E vai elle, o _escroc_ litterario, com pouca alteração, como o leitor ahi viu, faz suas, assignalando-as em grypho para lhes imprimir energia, essas mesmas phrases.
Este bargante, se um dia vier a ganhar a vida esfaqueando a gente, rouba primeiro a navalha á victima. Lacénaire foi muito mais intelligente e honrado: era melhor escriptor, e comprava as facas com que escrevia as suas locaes no redenho do proximo. E Pasquino, quando injuriava, era com palavras proprias.
Supponhamos, porém, que o traste é originalmente insultador. Que motivos lhe dei para o insulto? Dissera-lhe eu que elle estupidamente chamára _trilogia_ a tres comicos. E defendeu-se elle d'essa arguição, que era o ponto da contenda?
Veja o leitor a defeza. Primeiramente attribue a erro do typographo a bestidade. Que villão! Se o artista, que lhe compôz o artigo, tivesse bastante dignidade ou independencia, devia desfazer-lhe o original na cara. Eu de mim creio que na officina da _Actualidade_ não ha typographo tão soez como o gamenho que a redige.
Depois (veja o leitor a meio da columna) nega que houvesse escripto a noticia como eu a interpretára. E escreve que eu _alludira ao seguinte periodo de uma local_ do seu n.º 28: _Estão em scena Robespierre, Marat e Danton, a trilogia collossal_ (com tres _ll_.--Nem orthographia!)
E acrescenta:
_O chapado ignorante que só serve para fabricar descomposturas, não percebeu o porquê da trilogia applicada aos tres nomes que representam tres quadros distinctos da_ tragedia _da Revolução.»_
Nega, pois, que chamasse _trilogia_ aos tres artistas; e o leitor mais ou menos desmemoriado, ou indeciso a respeito da lealdade da minha critica, fica talvez imaginando que eu distendêra iniquamente as orelhas elasticas da besta, calumniando-a.
Ah! não. Eu vou dar á respeitavel opinião publica o fiel traslado da asneira em litigio.
«Actualidade» _n.º 51 de 7 de abril de 1874._
«BAQUET.--_Corre que estão escripturados, ou que vão sel-o, n'aquelle theatro os actores Polla e Pinto de Campos, e actriz Maria das Dôres, de Lisboa._
«_É uma esplendida acquisição para aquelle theatro a da TRILOGIA que acima fica. Agouramos bellas noites ao publico e á empresa._»
Que faz o leitor depois que leu isto? Vai extrahir da propria noticia uma palavra composta de duas syllabas. É um passatempo que tem seu tanto ou quê de philologico. Procuremos as duas palavras com pachorra, visto que a temos para as charadas novissimas. Eu ponho em versaletes as syllabas quando fôr tempo. Vamos lá: «É uma esplendida acquisição (diz elle) para aquelle theatro a trilogia que acima fiCA. AGOUramos _etc._» O publico depois de compor a torpissima palavra, entendeu mentalmente, e de si comsigo, que o escriptor previa o que o leitor lhe faria na reputação.
Agora, canalha! levanta-te d'ahi, e senta-te n'uma tripeça! Antes que faças da penna faca de sicario, converte-a em sovella.
E tu, divino Apollo, que uma vez escorchaste Marcyas, permitte que eu te deponha nas aras este fétidissimo bode esfolado.
CARTA AO SNR. CONSELHEIRO VIALE
_Ill.mo e exc.mo snr._
Não sei se v. exc.ª é assignante d'estas NOITES DE INSOMNIA. A certeza affirmativa ser-me-hia por tanta maneira estimulo de desvanecimento que eu não ouso preluzir-me a hypothese de que v. exc.ª contribue com dous tostões para a minha gloria. Quero antes, absorvendo as fumaças da vaidade, prefigurar-me que v. exc.ª nunca se apoucou até ás futilidades dos meus livros. Na modesta conjectura, pois, de que estes folhetos lhe são menos conhecidos que as lyricas ineditas de Amphião, filho de Jupiter e Antiope, afouto-me até á temeridade de enviar-lhe este n.º 6 das _Noites_, solicitando da sua cortezia a graça de m'o lêr desde paginas 88 até paginas 94.
O bode que eu ahi offereço a Apollo, á imitação do _cultrarius_ dos sacrificios antigos, chama-se fulano de Silva Pinto, e diz que foi discipulo de v. exc.ª em historia antiga, depois de ter escripto que uma actriz e dous actores eram uma _trilogia_.
Tenho a honra, exc.mo snr., de trasladar, para escarmento de tão erudito professor, as textuaes palavras d'este seu discipulo, estampadas no n.º 94 da _Actualidade_: ..._Nós merecemos a honra de obter do professor Viale officiaes informações em aula de litteratura antiga._
Realmente, snr. conselheiro, este sujeito foi discipulo de v. exc.ª em historia antiga? No caso affirmativo, deu-lhe v. exc.ª a tal citada honra de o informar officialmente?
É de esperar que v. exc.ª me não responda; todavia ouso pedir-lhe que ao menos se digne indicar-me como devo interpretar o seu silencio; a não querer v. exc.ª antes, em carta confidencial ao seu discipulo, dizer-lhe em grego: +chelenô pinein+ ao mesmo tempo que eu cá lh'o digo a elle em portuguez.
Ponho á disposição de v. exc.ª a minha ignorancia com as informações officiaes de que sou digno, e a relevante bravura com que entro ao circo qual outro _bestiarius_ (+thêriomáchês+), a arcar com esta besta-fera que sahiu da escola que v. exc.ª tão vantajosamente rege.
De v. exc.ª
Ill.mo e exc.mo snr. conselheiro Antonio José Viale
devoto humilimo e derreado admirador
_Etc._
QUINTA-ESSENCIA DE MALANDRIM
(Á _ACTUALIDADE_)
Trata-se de Silva Pinto.
Este pifio e latrinario jornaleiro da _Actualidade_, escreveu, no dia 11, que eu pedira que me apresentassem a Castellar, no theatro.
No dia 16 e 17, publicaram o _Commercio do Porto_ e o _Primeiro de Janeiro_ a seguinte correspondencia:
DECLARAÇÃO
Constando ao snr. Camillo Castello Branco que uma local inserta na _Actualidade_, de 11 do corrente, com a epigraphe--Elle--se refere á entrevista que o referido senhor teve com o snr. Emilio Castellar no theatro do Principe Real, d'esta cidade, na qual se inverte a verdade dos factos, apressamo-nos, como testemunhas presenciaes, a declarar com toda a imparcialidade como as cousas se passaram.
Achando-nos n'um dos intervallos do espectaculo em companhia do snr. Camillo Castello Branco, junto á varanda que separa a orchestra da plateia, appareceu alli o snr. D. Marcos Arguelles a convidar o snr. Camillo para uma entrevista com o notavel orador, o snr. Castellar. O snr. Camillo, depois de agradecer as attenções do snr. D. Marcos, pediu-lhe escusa, apresentando para isso algumas razões muito dignas e a circumstancia de não estar n'aquelle momento com um vestuario proprio para uma tal apresentação. O snr. D. Marcos continuou, porém, a insistir e, como o snr. Camillo persistisse na sua recusa, disse-lhe por ultimo que, se era preciso, ia chamar o consul hespanhol para o convidar, e que o snr. Castellar já estava no salão á sua espera para o comprimentar. Foi então que o snr. Camillo se resolveu a aceitar o convite do snr. D. Marcos.
Eis aqui a narração fiel de tudo quanto alli se passou, com relação a este facto e que está em completa contradicção com a local da _Actualidade_, se com effeito o que n'ella se affirma, se refere ao snr. Camillo Castello Branco.
Porto, 15 de junho de 1874.
_João Pereira d'Albuquerque._
_Antonio Nicolau d'Almeida Junior._
Ahi fica o perfil do mariola, e a torpe vida que se vive n'aquella gazeta.
No dia seguinte, a _Actualidade_ injuriava a probidade d'essas duas assignaturas que me honraram com o seu testemunho.
Já ouvi dizer a certas pessoas incautas que este Silva era um bom rapazinho, forçado pela fome a rabiscar diffamações.
Não póde ter bondade quem, de animo frio, divulga aleivosias: o mais que póde ter é fome.
Desista o snr. Silva de trocar calumnias por meios-bifes, que eu lhe prometto obter-lhe entrada no asylo dos _Garotos desamparados_; e, desde já, escrevo ao snr. David, da rua de Santo Antonio, para que o vista de novo; e, pois que a sua hyndiocrasia é o couce, recommendarei que lhe deixe bem folgada a retranca.
FIM DO 6.º NUMERO
Nota de transcrição:
As palavras rodeadas pelos sinais + + estão em grego no original. Nesta versão electrónica não é possível representar os caracteres gregos pelo que as palavras foram substituídas pela transliteração para caracteres latinos.