Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)
Chapter 4
Por mais que a Inglaterra simule os enthusiasmos d'um povo livre, por mais que apparente respeitos, e affirme sentimentos generosos, e magnanimos--em quanto Santa Helena fôr uma ilha e Hudson Lowe uma verdade historica, temos nós todos, nós--raça latina--o direito, e o dever de lhe atirar ás faces, no soberano desprezo da nossa lealdade, com um nome só:--o nome do Bellérophon.
Este vocabulo é o epitaphio sinistro, lugubre, e affrontoso da generosidade britannica.
VISCONDE D'OUGUELLA.
MANOELINHO DE EVORA
É errada a presumpção historica de que o _Manoelinho_--pseudonymo grutesco de uma assembléa de revolucionarios--figurasse tão sómente nos decretos expedidos durante o levantamento do povo eborense, acaudilhado por Sezinando Rodrigues e João Barradas, em 1638.
Consigne-se de passagem que eu ainda não vi algum d'esses decretos, nem D. Francisco Manoel de Mello, o mais detençoso historiador dos tumultos de Evora, nos transmittiu traslado de algum.
Representações a Filippe IV, e satyras aos portuguezes infamados de hespanholismo, em fim a gazeta manuscripta, como ella podia clandestinamente correr n'aquelle tempo, começou a circular, em 1635, logo depois, que a duqueza de Mantua chegou a Lisboa.
Entre os manuscriptos relativos á ultima decada do nosso captiveiro, possuo dous. É um assignado por _Manoelinho menino_, em Evora, aos 29 de agosto de 1637, poucos mezes antes do motim: _Uma carta que os meninos de Evora mandaram ao bispo do Porto_.
Este bispo era D. Gaspar do Rego, nomeado n'aquella prelazia n'esse mesmo anno, anteriormente bispo de Targa, muito affecto a Filippe IV de Castella, e um dos tenacissimos alvitristas dos impostos sobre a sua patria. O seu biographo padre Agostinho Rebello da Costa (_Descripção da cidade do Porto_, pag. 83) exalta-lhe as virtudes prelaticias, a termos de o sentar no refeitorio comendo com a sua familia, virtude que todos nós possuimos pouco mais ou menos.
Mas nem essa lhe concediam os detrahidores que se chamavam os _Meninos de Evora_; e eu não sei o que lhe fariam em 1640, se elle não tivesse morrido em 13 de julho de 1639, fóra da sua diocese em Lisboa, onde o tinham chamado Miguel de Vasconcellos e os outros que se temiam do rugir soturno do vulcão popular.
Vai vêr o leitor pela primeira vez, se me não engano, qual era a prosa do _Manoelinho_. No proximo numero d'estas _Noites_, lhe darei amostra das musas acamaradadas com os heroicos revolucionarios de Evora.
Eis a _carta_:
«Á noticia d'esta cidade chegou, reverendissimo bispo tyranno, ser v. s.ª a origem de que este reino tão catholico padeça oppressões tão insoffriveis, como elle testefica no miseravel estado em que se vê, tomando-vos para executar a mais infame empresa que em nossos tempos vimos, nem de nossos antepassados sabemos;--que até considerada envergonha. Porque, quando a desventura chegasse a tanto, que, como por prophecia, houvesse alguem de tyrannisar a patria, fosse o fidalgo pobre, rico de filhos e falto de rendas; e ainda n'este, depois de satisfeito, cessaria a ambição. Mas um prelado, a quem havia de faltar o tempo para dar graças a Deus de o chegar a ser, e que aos pobres havia de dizer: _tribuo vobis pro omnibus quæ retribuis mihi_--grão maldade! e com razão podem dizer por vós o que Platão por Dionisio: _Vidimus monstrum in natura honimis_.
«Que naus vistes entrar n'estes portos? Que frotas vistes vir lá das Indias? Que riquezas n'este pobre reino? E que farturas n'este nosso Alemtejo que, como filho tão mimoso de seus paes, sentiu como de padrasto o pão de vosso alvitre? Mas a verdade, Aquelle que é a mesma verdade, diz no _Deuteronomio_, cap. 4: _Colligite ex vobis viros sapientes, et nobiles_. A sciencia em vós é em tudo um retrato natural da de Nero, que aprendeu todas tendo por mestre ao grande Seneca, e foi um dos mais torpes tyrannos do mundo, até chegar a matar sua propria mãi, como vós agora quereis fazer á amada patria; porque em fim, sciencia sem virtude, não vem a ser uma nem outra cousa; mas elle já nenhuma professava, e vós professaes ambas, e não exercitaes alguma. A nobreza conservam os que carecem d'ella, e o dar-lhe nascimento, na benigna clemencia, é para que, convocando os animos, esqueçam a baixeza dos seus progenitores. E vós, pelo contrario, querereis dar vida ás de Antonio Fernandes, vosso pai, e de Anna Antonia, sua mulher... Os extremos todos são maus. Temos rei catholico, não o façaes tyranno; é principe benevolo, não o façaes cruel. Deixai Portugal ser pobre já que vos deixou ser bispo. Não vêdes que por Targa ser de herejes, vos fizeram do Porto? e que por o Porto não querer, vos faziam de Coimbra? As cidades são como os parentes; corre-lhes a dôr pelas veias como o sangue a ellas. Ao menos estai advertido no salto em claro que haveis de fazer por este arcebispado, tomando o pé atraz como Sebastião de Mattos[8], mas não seja d'estas partes. Não sei se vos poderão valer os fóros das casas de Luiz de Miranda. O cavalleiro, se lhe chamam tardo, madruga; se desbocado, cala-se; se demasiado, tempera-se; se adultero, abstem-se; se peccador, emenda-se; mas, se é traidor á patria, não ha emenda nem desculpa. Sabei que a propriedade d'este reino foi sempre não desobedecer nunca ao seu rei, nem deixar-se mandar de tyrannos, e que vale mais pobre, dando pouco, que desesperado.
«De muito atraz trazemos por criação a distribuição de tres cousas: a alma para Deus, o melhor para nós, e a fazenda para el-rei; e quem se viu n'isto, não duvída dar quartos, mas quintos para quintas; e por vosso conselho não havendo n'este reino quintaes (digo de arvores, que de canella já nem sabemos de que côr é) soffre-se mal. E se vós quereis excessos para a patria, e permittir-se contra ella o favor que houve Nuno Alvres para Pedralves traidor, a quem o céo subverteu, haverá meninos em Evora para Gaspar do Rego se abrazar.
«Por Ithaca, nobre ilha de asperos penedos, passou Ulysses immensos trabalhos. Disfarçado el-rei Codro para libertar a patria, se offerece á morte; pela patria renunciou o imperio; e Mucio Scævola renunciou a esperança da vida por a tirar á propria que como vós a perseguia[9]. E os naturaes que a isto não se oppõe vem a acabar n'ella, como Annibal em Carthago e Catilina em Roma. Attendei ao que diz o apostolo: _Anna militiæ nostræ non sunt carnalia, sed spiritualia._ Sois christão, sois sacerdote, sois prelado, sois natural do reino: dizei d'elle o que n'elle vêdes, informai das Necessidades; e, se não sabeis d'ellas, ahi amam a caridade, vereis de quantas sois secretario, quantos fidalgos padecem, quantos senhores acabam, quantas donzellas perecem. Falta o ouro, a prata; o contracto, por que vós não faltaes, que nem Deus o quer dar superfluo, nem o necessario se promette dar-se. Perguntando-se a Alexandre para que queria ser senhor de todo mundo, respondeu: Todas as guerras que se levantam são por uma de tres causas: ou por haver muitos deuses, ou por haver muitos reis, ou por haver muitos tributos: quero ser senhor de todo o mundo e rei para que não haja n'elle mais que um Deus, nem se conheça mais que um rei, nem se pague mais que um tributo.
«Elle era pagão, e vós christão; elle rei, e vós bispo; elle creado na terra, e vós na igreja; nunca ouviu o nome de Christo, e vós jurastes defender o Evangelho. Parece que muito differe uma cousa das outras. Se o fazeis por fama, já é geral, pois nós vos sabemos o nome. O vosso nome é _flagellum patriæ_. Se o fazeis por interesse, já basta o que tendes; se mais quizerdes, já cá passamos signal; se nós podermos, com o mais constará a pontualidade... Tende lastima de um reino que, sendo antigamente um mar, se vai esgotando a Castella por um _Rêgo_. Nosso Senhor vos converta, e vos traga a nossas mãos, para augmento d'este reino, e vida e paz e quietação de seu rei. Evora 27 de agosto de 1637. Por mandado do povo todo junto
_Manoelinho Menino_.»
[8] Este Sebastião de Mattos é o arcebispo de Braga que depois conspirou contra D. João IV, e morreu no carcere.
[9] Não nos parece clara a redacção, ou ha elisão de palavra no meu traslado.
A MORTE DE D. JOÃO
(POR GUERRA JUNQUEIRO)
É um livro de 330 paginas que eu li sem intermittencias.
A poesia é quasi sempre portugueza e dos mais altos quilates; mas a substancia do livro é estrangeira.
Aquellas podridões, desenhadas do vivo com primorosa execução, não fermentam n'este paiz mais atrazado e menos devasso que o restante da Europa.
É verdade que ha creaturas um tanto putridas nos hospitaes, e lá se dissolvem: peor seria, se não tivessem aquelle paradeiro onde a misericordia humana lucta com a fatalidade da morte á beira do catre da agonia.
O D. João portuguez, por via de regra, aos quarenta annos, tem a espinha dorsal amollecida, cauterisa as frieiras e lima os callos. As Imperias, entre nós, não acabam por tanger cornelim em companhia de ursos; mas tem ursos e dromedarios, uns Tenorios farinaceos que lhes tornam a velhice divertida e, ás vezes, serodiamente honesta.
Não obstante, eu, em Lisboa, conheci um D. João, que, tirante a chalaça e o urso, era o D. João de Guerra Junqueiro.
Conheci-o gentil, capitão de lanceiros, com um appellido dos mais nobres do reino, bizarro, petulante, fatuo, bandarreando com os seus cavallos oriundos da Lybia alli pelo Chiado. Amavam-no as burguezas e as princezas. Amavam-no tão doudamente que se perderiam, se não estivessem perdidas quando elle as achava. Alli, em Lisboa, um D. João acha sempre uma D. Joanna tão boa como elle.
Era isto em 1849.
Onze annos depois, estando eu na _casa-da-saude_, vi entrar, no quarto de certo doente, um homem maltrapido, com o nariz rubido, a cara esvurmando brotoeja, os dentes ferruginosos, os beiços esfoliados como escama de sarda de barrica, os olhos broslados de malaguêta, e a pupilla oleosa. Era o capitão de lanceiros, que vinha alli visitar um homem que costumava dar-lhe um tostão para aguardente. E n'essa tarde levou o tostão e roubou-lhe um relogio de prata, um caldeirão que valia um quartinho!
--O meu relógio!--exclamava o pobre Sousa Netto--é o que me restava da minha mocidade!
Sousa Netto orçava pelos sessenta e seis; tinha gota, intervallos de demencia, havia sido tambem D. João, e usava constantemente habito de Christo no peito, mouras vermelhas nos pés, e um capacete de lontra na cabeça.
O outro, aquelle que encontrava Imperias no paço, esphacellou-se na testada de uma taverna; os guzanos da cova de certo taparam os seus narizes microscopicos quando o esquife o vasou nas entranhas da natureza, mãi carinhosa do cão podre, do homem podre e de tudo que é perfeito n'este mundo.
O homem espoliado do caldeirão ensandeceu a final, abrazado em concupiscencias que resfolegavam em colcheias, em decimas, em sonetos, que me recitava a mim e a Matheus de Magalhães com uns olhos tamanhos e tão accesos que parecia o diabo de Santa Thereza de Jesus.
Estes dous typos teem moldura no poema de Guerra Junqueiro.
* * * * *
As mais nervosas e engraçadas paginas de versos que eu tenho lido de lavra portugueza são a parte d'este poema intitulado _Romanticismo_, e a outra chamada _Os saltimbancos_. São trovoadas de talento. Paradoxos assombrosos que vos tiram do diaphragma epilepsias de riso.
Ás vezes, magôa uma especie de motejo que parece rebellar-se contra tudo que grande parte da sociedade respeita. Vem alli de camaradagem com a ironia implacavel do snr. Junqueiro o estylete sarcastico de lord Byron e de Alfred de Musset; mas o nosso poeta avantaja-se na crueza das invectivas contra o dogma, afistulando soberbos versos de um atheismo que de certo lhe não está no coração, nem na educação nem nos irreprehensiveis costumes. Tirante isto, ahi é tudo alegria; e até, quando a musa philosopheia por transcendentes contemplações, lá surde a palavra comica, o simile galhofeiro, esta cousa moderna que não tem nome,--uma bella extravagancia que nos regosija. E assim é como se querem os livros, porque lá diz Aristoteles no 2.º da _Ethica_, cap. 12, que _a melancolia corrompe a natureza e faz pasmar o coração_.
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Este modo de poetar será o _Ideal_ moderno? É, com toda a certeza. Quando eu era rapaz, o poeta ideal era o ethereo, o metaphysico, o espiritualissimo. Por tanto, o ideal, segundo Taine, não tem que vêr com o ideal, segundo Lamartine. No livro do snr. Junqueiro, bem que os carnalissimos assumptos alli poetisados não pareçam ideaes, abona-os o indeclinavel legislador n'esta materia. A obra d'arte--diz Taine--põe o fito em manifestar algum caracter essencial ou relevante, mais perfeita e lucidamente do que os objectos reaes nol-o mostram. O artista, por tanto, concebeu a idéa d'esse caracter, e, a sabor da sua idéa, transformou o objecto real. Este objecto assim transformado, sahe conforme á idéa, ou, para melhor o dizer--é o ideal. Assim, pois, passam as cousas do real ao ideal, quando o artista, ao reproduzil-as, as altera a bel-prazer da sua idéa, etc. (_L'Ideal dans l'Art_).
Quer dizer, ao que parece, que o ideal é uma modificação do real a talante do artista; por maneira que o sobrepor miserias imaginarias ás miserias positivas--exulcerar desgraças inevitaveis com a imprecação de desgraças ficticias--é o _Ideal_.
Em fim, são seitas, e o impugnal-as quando ellas ainda verdejam é perigoso: o melhor é deixal-as apodrecer.
O que ha de ficar e sobreviver ás escolas (porque o snr. Guerra Junqueiro de certo não crê em Taine, e é _realista_ na maxima latitude da palavra) são estas paginas da _Morte de D. João_, alumiadas pelos relampagos do genio. Este livro será lido por aquelles mesmos que o malsinarem de propagador de peçonha em calices de ouro. É a obra prodigiosa de uns annos muito em flôr. Quando a mão do tempo, a desgraça dos annos, e algumas noites de meditação dolorosa, levarem á consciencia do admiravel poeta a imagem da Justiça, enquadrada na moldura fatal em que ha seis mil annos a conhecemos na historia, então os poemas do snr. Guerra Junqueiro serão por igual bem versejados, mas muitissimo mais consolativos para os infelizes que elle deplora com generoso coração.
POETAS E PROSADORES BRAZILEIROS
Seis livros de variada leitura me vieram aligeirar as horas da aldeia, n'este inverno de junho; que no decantado Minho já não ha primavera nem estio, nem melros nem rouxinoes. D'esta familia de cantores tão gabados nas eglogas de Sá de Miranda e Diogo Bernardes abalou-se a especie, desde que o Minho, policiando-se do agro primitivo da sua natureza alpestre, estrondêa com o caboucar das vias-ferreas e o estridor das diligencias. De rouxinoes restam-nos apenas aquillo que os francezes chamam _Roussignol à gland_, e _Roussignol d'Arcadie_. Estou a vêr se me desmente o meu presado amigo D. Antonio da Costa no seu promettido livro das delicias do Minho.
Eu por mim, se quero convencer-me que estou na sazão do calor e das flôres, mando abrazar o fogão, accendo a machina do café, espalho uma abada de rosas no estrado, cubro-me com um cobertor, imagino que estou no junho de Fernão d'Alvares do Oriente, e, com o nariz de fóra, e espirrando, exclamo, em nome do poeta:
_...................... Pomona e Flora Seus dons vem pelos campos espalhando, Cantando espalha Fauno a voz sonóra.
Fazem doce harmonia os arvoredos Que o vento bole, e as aguas derivadas Das asperas entranhas dos penedos.
As aves umas d'outras namoradas Enchem de saudosa queixa o monte N'um desconcerto alegre concertadas.
Boninas varias vai regando a fonte Que convida, correndo manso e manso, O rouxinol, que suas maguas conte.
A qualquer parte, pois, que os olhos lanço Materia me offerece de alegria Tudo quanto co'a vista alegre alcanço._
_Etc., etc._
E, ao mesmo tempo, vou aconchegando os pés do varandim do fogão, e fazendo-me um estio interior de café de Moka.
N'esta situação, deixa-se a natureza aos naturalistas; e a gente, que vem ao campo em cata de brisas olorosas, não sahe de casa, e lê sempre, a fim de desviar a tentação ao suicidio inglez, que é a congestão fulminante do _tædium vitæ_.
Tenho, pois, seis livros de escriptores brazileiros, a quem devo a fineza de m'os enviarem a esta região de getas.
Os IDYLLIOS do snr. doutor Caetano Felgueiras. As TETÈYAS, em prosa do mesmo poeta. Os APONTAMENTOS DE VIAGEM do snr. J. C. da Gama e Abreu (1.º tomo). O PANTHEON MARANHENSE (1.º tomo). SCIENCIAS E LETRAS. APONTAMENTOS PARA A HISTORIA DOS JESUITAS NO BRAZIL (1.º tomo). As tres ultimas obras são do mesmo author, o snr. dr. Antonio Henriques Leal.
Ha annos que o snr. Felgueiras me enviou a sua EPISTOLA _a Machado de Assis_. Era a revelação de um espirito antigo no affecto ás maviosas cousas do campo. Versos que recendem o tomilho e a madre-silva. Desenhos correctos da corporatura gigante das arvores americanas. Rumorejos dos meandros que serpejam na tige das boninas. O estridor das cascatas que ruem estrepitosas. A suavidade dos jardins. O verde das arvores, e os pomos a lourejal-as. E, depois, o espirito da alegria no sorriso da paz a colher as bençãos que Deus cruza por sobre as almas modestas que se alam até Elle, desde o estrado de seus pés, desde as magnificencias da terra até aos estrellados silencios do céo. Esta formosa poesia vem entre os IDYLLIOS, que se lhes irmanam na alteza do pensamento e no primor da phrase.
Não me agradam por igual as suas prosas (TETÈYAS). Sobram ahi arabescos de linguagem: muito rendilhado, muita filagrana, que enreda a idéa, e accusa o escopo muito moroso de Cellini. Sei que o snr. J. de Alencar tem dado o exemplo d'este esmerilhar da phrase, que, a meia volta, se desaira no amaneirado. Isto não é pobreza da lingua: é um luxo vicioso da abundancia. Augmentemos, porém, quanto ser possa o concurso dos que nos percebam, e imaginemos sempre que até os mais cultos nos agradecem a simplicidade de Luiz de Sousa, o nitido puritanismo dos Castilhos, e a correcção chã, sem plebeismo, de Teixeira de Vasconcellos.
Os APONTAMENTOS DE VIAGEM do snr. Gama e Abreu é um livro muito bem escripto, com resaltos de humorismo discreto, graça anecdotica a interpôr-se nos usuaes fastios das descripções de viagens; apreciações de Portugal na maior parte benevolas, e, por excepção, reparaveis; a França e as suas recentes desventuras atiladamente compendiadas em poucas paginas, que se revalidam com bem cabidas noticias historicas. É um livro de cunho moderno, com o superior quilate da despretenção, sem desvanecimento, por onde se nos antolha optima lição, bom discernimento, critica despreoccupada, lhaneza de apreciação, e excellentes predicamentos de espirito. Os subsequentes volumes hão de corresponder ao titulo que amplia as viagens desde o _Amazonas ao Sena_, _Nilo_, _Bosphoro_ e _Danubio_.
O PANTHEON MARANHENSE, do snr. dr. Henriques Leal, como do titulo se transluz, é um selecto feixe de biographias de homens, que se illustraram no Maranhão, por prendas da intelligencia. Este livro é tanto mais de estimar entre portuguezes quanto nós andamos arredados da convivencia de escriptores brasileiros. O snr. Leal, que reside em Lisboa, ha annos, é o escriptor a quem os seus conterraneos mais devem no pregão incessante das eminencias intellectuaes do Brazil. É vêr o esplendido, e, ainda mal, que incompleto, vestibulo que elle erigiu como entrada para as obras completas de Gonçalves Dias, o portentoso poeta, o prosador inviolavel na pureza da dicção.
Larga resenha da litteratura brazileira nos dá o snr. Leal no seu livro intitulado LOCUBRAÇÕES. Ahi se queixa judiciosamente das graves iniquidades com que alguns syndicos, sem legitima alçada na critica, desdenham dos escriptores brazileiros, não lhes sabendo sequer o nome de baptismo. Que quer o illustre escriptor? A necedade impa de petulancia. A barateza dos prelos, a profusão dos periodicos e a mingua de escriptores escorreitos abriram praça a todo o adventicio, tanto monta que elle proceda das covas de Salamanca como do café da Aurea. Gonçalves Dias, apoucado pela ignara bitola de um zoilo vêsgo, tem dous monumentos: um de marmore na sua patria, outro nos livros que são d'ella, que são nossos, que os temos na memoria do coração desde a mocidade. Mas a nossa mocidade era tão amoravel com os seus contemporaneos, quanto respeitosa com os antepassados. Nós não ousariamos descrêr dos mestres, e desacatar-lhes as cãs aureoladas sem que o longo estudo, sem que a consciencia nos désse a intima certeza de que não eramos tão nescios e tão ignorantes quanto hoje se faz mister para abrir barraca de mordacidades, mascaradas em critica.
Derivemos d'este mau trilho para as placidas e serenas regiões do livro chamado APONTAMENTOS para a historia dos jesuitas no Brazil.
N'este complexo de rapidas biographias, narrativas, e, esclarecida analyse das chronicas da companhia de Jesus, e onde a fórma, a execução e o castiço da linguagem se aprimoram mais, de envolta com a riqueza das noticias históricas. É trabalho de mão experimentada, de consulta detençosa, e juizo muito attento. Quando o tomo 2.º me vier satisfazer o desejo de o lêr, formarei mais dilatado e completo conceito d'esta importante publicação do abalizado escriptor.
ÁCERCA DE JOAQUIM 2.º
(RESPOSTA A UMA CARTA)
A carta, a que respondo, veio do Porto. E o periodo respondido reza assim:
_.....Asseveram-me que o teu Plutarco, annunciado na ACTUALIDADE, é o Joaquim de Vasconcellos, que tem batido á porta dos teus antigos inimigos, pedindo factos e calumnias para urdir a tua biographia. Se isto é tão verdade como é verdadeira a pessoa que m'o afiançou, prepara-te para desprezar a affronta, e veste arnez de aço que rebata o ferro do couce. Alguem lhe perguntou que motivo teve para te provocar; respondeu que apenas te conhecia de vista; eu, porém, se a memoria me não falha já te ouvi dizer que este Joaquim de Vasconcellos foi teu hospede em S. Miguel de Seide, etc._
RESPOSTA
Tens boa memoria. Joaquim de Vasconcellos foi meu hospede em S. Miguel de Seide; mas procedeu honradamente, e logo te direi a razão que tenho para te affirmar que se houve briosamente na hospedagem que lhe dei.
Foi assim o grão caso. Um dia, no anno do 1870, me escreveu de Guimarães o maestro Francisco de Sá Noronha, prevenindo-me que viria a S. Miguel de Seide apresentar-me um seu amigo de grande talento, notavel theorista musical, educado em Allemanha, e litterato de muitas esperanças. Alvoroçou-me a noticia, tanto pela visita do celebre violinista, como pela apresentação de um moço prendado das bellas cousas do coração e do espirito, que todas brotam de seu onde o amor das amenidades litterarias e das deleitações da harmonia lhes aquece os germens.
Em uma alegre manhã de julho chegaram os snrs. Noronha, e Vasconcellos a esta casinha, á volta da qual os sylphos da poesia borboleteam, desde que o visconde de Castilho e Thomaz Ribeiro por aqui estiveram.
Recebi o snr. Joaquim de Vasconcellos com quanta cordealidade e lhaneza cabia nas minhas posses de aldeão. Dei-lhe o lugar de honra na minha mesa. Ouvi-lhe attenciosamente por espaço de dez horas as suas idéas republicanas, sem lh'as impugnar, e as suas theorias sobre musica sem lh'as perceber, e os seus dislates em litteratura sem lh'os contrariar.
Ao cahir da tarde, o snr. Vasconcellos, que não podia demorar-se, fez-me o obsequio de aceitar o meu cavallo, que teve a honra de o levar á estrada do Porto. Ao despedir-se de mim, o meu affavel hospede abraçou-me com effusão de vehementissimo jubilo por me haver conhecido e devido alegres horas tão rapidamente passadas.
Devolveu-se um anno, sem que eu tornasse a vêr o snr. Vasconcellos; não obstante, a imagem d'este cavalheiro, uma vez por outra, acudia ás minhas reminiscencias d'aquelle dia tão litterario, tão cheio de palavras, de systemas, em fim, de mutuas promessas, que me faziam esperar d'aquelle moço alguma cousa menos cruel que um inimigo.