Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)

Chapter 3

Chapter 33,762 wordsPublic domain

«Pelo contrario--a democracia exige uma civilisação largamente desenvolvida, a completa ausencia das classes privilegiadas, a exclusão absoluta da nobreza hereditaria, uma certa homogeneidade nas populações, uma grande diffusão de luz--pela instrucção--, o desejo real da paz interna, e externa, e a intelligencia, e o trabalho, como unicas fontes da riqueza, da prosperidade, e da consideração publica. São os perigos, e a morte inevitavel da democracia os privilegios das castas, o espirito de conquista, a ignorancia, a ociosidade, e a falta de educação em todos os ramos, e nas diversas aptidões de todos os homens, que compõe uma nação.

«Os erros, e os vicios que sepultaram as republicas da antiguidade servem-nos de luzeiro, e são o pharol, para nos indicarem as condições em que a humanidade deve viver, nos rasgados horisontes do futuro.

«Não se illudam com a Roma pagã. Nunca conheceu a democracia--nem nas preconisadas fórmas tribunicias da republica, nem nas grandezas, e no fastigio do imperio.

«As republicas podem ser, e algumas d'ellas teem sido, excessivamente aristocraticas.

«A democracia não pôde nunca eslabelecer-se em Roma, por diversas e ponderosissimas causas.

«De passagem mencionaremos algumas d'ellas.

«Durante cinco seculos, foi o governo de Roma a guerra declarada ou latente, entre dous corpos sociaes inimigos. Era o antagonismo das classes, era o espirito de conquista, era a falta de homogeneidade nas populações, era a variedade de crenças, era a hedionda e asquerosa ociosidade das massas, era a escravidão, repugnante e execranda, decretada na lei, era a ignorancia do povo, que o trazia submerso nas trevas espessas da peor das servidões, e que lhe abria abysmos na consciencia. Ora, a desigualdade de cultura intellectual é a agonia lenta da democracia, e a arma mais poderosa da ignobil tyrannia do poder.

«Alumiemos o tugurio do proletario, levemos a luz da instrucção até ao antro mais recondito da desgraça.

«Que as ondas de luz se diffundam, emittidas pelas ultimas classes sociaes. Todos os despotismos fugirão espavoridos, porque são elles, na sua pueril tyrannia e oppressâo teimosa, os escravos das ridiculas e insustentaveis tradições de épocas que passaram.

«Interroguemos o seculo.

«Perguntemos aos democratas: quem sois?

«Somos milhares de familias, menos algumas--a classe media, e a nobreza--que queremos um regimen de igualdade, em que honradamente possamos viver do fructo do nosso suor, sem olhar com inveja nem despeito para o patrimonio de ninguem. Vós, as classes privilegiadas, vós, que vos dizeis distinctos pela casta, pela raça, pelos nomes que sabeis de vossos avós, tendes arvores genealogicas, e apresentaes-nos pergaminhos carcomidos pelos seculos.

«Nascemos nós hontem por acaso?

«Vimos de tão longe como vós. Dizeis-vos catholicos por excellencia--pois estudai, no genesis biblico da vossa crença, a origem de todos nós. Os nossos brazões não datam de nenhum salteador afamado, que responderia hoje, se existisse, em audiencia criminal, e soffreria, pelos seus feitos e façanhas, a pena de prisão cellular ou de degredo para os climas africanos. Os nossos titulos de nobreza não os devemos a complacencias cortezãs, nem á officiosidade torpe e obscena de alguns avoengos, derreados junto dos thronos, a levar da ante-camara para a alcova as Messalinas, Pompadours e Dubarrys, que não sabiam, nem sabem resistir á lascivia e impudicicia dos reis. Não foi nos prostibulos, nem nas encruzilhadas, que calçaram os nossos avós as suas esporas de ouro. Cingiram elles, com mais lustre e gloria, a espada de cavalleiros. Vem de mais longe os nossos brazões, e estão gravados, por fórma indelevel, na superficie do globo.

«Quereis vêl-os? Examinai-os. Os titulos nobiliarchicos, que possuimos, datam do primeiro homem, que cavou o solo, que accendeu o fogo, que descobriu e bateu o ferro, que sulcou a terra com a relha do arado, que desenterrou e fundiu metaes, e que devassou, no primeiro fragil lenho, as vastas solidões do oceano.

«Fomos nós que metamorphoseamos este globo, triste, arido e deserto, n'um paraiso esplendido e animado. Creamol-o segunda vez, para cumprir a palavra de Deus, que nol-o deu para este fim: _ut operaretur eum_.

«Se os céos celebram a gloria do Eterno, se, como clamava o psalmista, o firmamento annuncia e proclama as obras do Senhor, a terra--que é a nossa obra--narra a nossa propria gloria.

«Fomos nós que lhe fendemos a crusta, que a semeamos, cultivamos, aformoseamos, cobrimos de monumentos, que, como perolas desenfiadas, rolaram pela vastidão das campinas, e que lhe demos, como cinto da sua propria formosura, essa rede infinda de estradas e canaes, que se cruzam, e estendem por toda a amplidão da esphera terrestre. Fomos nós que descemos ao centro das suas entranhas, para lhe extorquir os seus inapreciaveis, e inexhauriveis thesouros. Não ha flôr, que desabroche nos campos, não ha espiga, que se erga robusta, em toda a vastidão da cultivada leziria, não ha fio de linho, nem de algodão, nem de sêda, não ha lamina de ferro, de ouro, ou de platina, não ha pedaço de pedra, prancha de madeira, capitel de columna ou mastro de navio, que não conserve o cunho das nossas mãos, e o perfume do nosso amor. Sim, o perfume do nosso amor--porque o trabalho é a oração--e o perfume do nosso amor é o incenso e a myrrha, que acompanham as nossas offerendas ao Eterno.

«Subi da galeria subterranea das minas até á cupula das sumptuosas basilicas, e das calhedraes mais augustas e imponentes, sahi das elegantes capitaes da civilisação moderna e devassai as praias selvagens mais longinquas, encontrareis, em toda a parte, os passos dos filhos do povo: _a democracia_.

«Somos o lavrador, que prende os bois ao arado, e que sulca a terra laboriosamente--o nosso insaciavel e inesgotavel thesouro. Somos o segador, que ceifa o trigo, nas ardentes, e afflictivas calmas do estio; o robusto ceifeiro, que corta, nos prados, esmaltados de papoulas e boninas, o alimento constante dos rebanhos; o vinhateiro, que poda, empa, e cava a vinha; o navegante, que se afadiga em transportar os artefactos da creação humana; e o commerciante, que leva e faz circular em todas as zonas habitadas--como o sangue nas arterias--os succos da terra, e os productos das mais variadas industrias.

«Nós somos o operario curvado sobre o tear, o mineiro, que vive soterrado, e arranca das entranhas da terra o carvão, que alimenta a machina, multiplicando os productos; o ferreiro, que forja e bate o ferro; o carpinteiro, que aperfeiçoa e adelgaça a viga; o pedreiro, que abre os caboucos, e levanta os muros do edificio; a fiandeira, que estende na roca a estriga de linho; o tecelão, que faz o panno, transformado em enxoval da familia; o soldado, que vela nos limites sagrados do solo da patria; e o marinheiro, que atravessa os mares, levando bem alto o pavilhão, que é o emblema d'um povo, e o estandarte sacrosanto do seu paiz.

«Nós somos tudo. O nosso nome é _legião_.

«Somos nós, que nutrimos, vestimos, e abrigamos a humanidade, e que lhe damos a paz, a abundancia, o repouso moral, e a tranquillidade publica. As artes, que alindam, e encantam a vida, as letras, que robustecem, desenvolvem, e fortificam a alma, as sciencias, que a illuminam, e esclarecem, somos nós, que as cultivamos, que as honramos, e desenvolvemos. Quaudo fallamos, quando reivindicamos os nossos direitos é sempre pela voz dos nossos apostolos.

«Temos tido guerreiros para vencerem, poetas para cantarem as nossas fadigas, e as alegrias modestas do nosso lar, e artistas para commemorarem os nossos heroismos no trabalho, e esculpirem, no bronze, as imagens dos grandes inventores.

«Temos tido operarios, para crearem machinas maravilhosas, e astronomos para nos narrarem as maravilhas dos céos, devassando os esplendores e magnificencias do universo. As lentes, preparadas por nós, teem-nos feito conhecer, pelo telescopio, os globos luminosos que giram no espaço, e teem descido comnosco, pelo microscopio, aos mundos infinitamente pequenos.

«Os raros talentos d'essas ociosas, e rachiticas aristocracias, d'essas estereis, e inuteis classes privilegiadas, quando lhes estala a ultima corda da lyra, nas tristes estrophes das suas sinistras e tenebrosas lendas de familia, vem sentar-se na lareira do povo, e buscar ahi as harmonias mais sonoras, mais suaves, e mais duradouras--as unicas que hão de achar echo nos seculos do futuro--as lutas incessantes, pelo progresso, em que lida a geração actual. A sua derradeira canção é para o povo: o canto do cysne é o hymno da democracia.

«Nós somos a arvore gigante e immensa da humanidade, com as raizes perdidas nos limbos do passado, com o tronco vigoroso, que resiste aos embates dos tempos, com os festões de flôres que desabrocham, e emmurchecem passando, e com os fructos sazonados do presente, na esperança das odoríferas flôres, que, com o seu calix radiante de vida, hão de perfumar o espaço no futuro.

«Eis-aqui a democracia.

«E quem são os seus adversários junto d'esta frondosa e copada arvore da humanidade?

«São os cogumelos parasitas e venenosos, que vegetam á sombra d'este cedro magestoso e secular.

«Os privilegios e as castas são o absurdo, são a torpeza dos costumes, são o desconhecimento completo do seculo que atrevessamos, são as tristes relíquias das épocas feudaes, são os distinctos das ridículas nobiliarchias byzantinas, são a ignorancia e o odio ao trabalho, são, finalmente, a protecção dada em premio, por feitos e acções, que, as mais das vezes, tem sido um poderoso obstaculo ao progresso, e á civilisação da humanidade.

«As recompensas, as glorificações, e as apotheoses, quando justas, quando bem merecidas, quando conquistadas pela aptidão, pela sciencia, pela arte, pela industria, pela propria virtude ou pelas grandes dedicações, são vitalicias, e passam á posteridade com o nome que se engrandeceu, e vem a historia esculpil-o nos marmores dos seus fastos.

«A democracia, como hereditario, só reconhece um direito, um dever, e uma nobilitação para o homem: é o trabalho.

«É absolutamente necessario que se contem todos os partidarios sinceros e leaes da justiça, e que pela palavra, pelo livro, e pelo exemplo, arrastem os indecisos, e abandonem o restante--os poderosos do dia--aquelles, que não aprendem, nem esquecem nada.

«Attendam a que chegou a hora, em que a menor hesitação, a menor duvida, o menor passo irreflectido, ou a mais timida concessão, podem fazer recuar, para muito longe, o reinado da justiça--o governo do povo pelo povo.

«E povo somos nós todos, que vivemos debaixo do mesmo céo, sujeitos ás mesmas leis, e que exercemos, na sociedade, funcções e misteres diversos, mas igualmente uteis e necessarios.

«Hoje, ha uma só nobilitação: é o trabalho.

«Trabalhemos todos para a revolução nos espiritos--porque concorremos para o advento da verdadeira liberdade, para o governo da justiça social, e para a emancipação da humanidade.

«E assim realisaremos a democracia.»

* * * * *

Terminava aqui o papel, escripto pelo ancião, condecorado em Souto-Redondo.

O MANUSCRIPTO DO DESEMBARGADOR

IV

CARTHAGO

Cæturum, censeo Carthaginem esse delendam.

MARCUS PORTIUS CATO.

L'histoire n'est pas seulement un drame, elle est une justice.

LAMARTINE.

A philanthropia ingleza é puramente mercantil, assim como o são todas as suas virtudes, que deixam de o ser logo que se não conformam com os seus interesses.

FREIRE DE CARVALHO.

Na deslumbrante e magnificente descripção da aurora biblica do nosso globo, diz o Genesis, que o Espirito de Deus era levado sobre as aguas: _Et Spiritus Dei ferebatur super aquas_.

Parece que a magestade divina escolhera este elemento, na sua esplendida grandeza, para encetar a obra da creação.

Seja assim n'este modesto trabalho.

Busquemos os primeiros salões do nosso seculo nas solidões immensas do oceano. E a Carthago moderna, a nobre e fiel alliada de Portugal, á luz sinistra do execrando bombardeamento de Copenhague, em 1807, ao clarão avermelhado dos primeiros foguetes do coronel Congréve, ensaiados no acto da mais atroz e inaudita pirataria, mostrar-nos-ha o Bellérophon, o Windsor Castle, e o Belfast, tres salões em que a fé punica da Grã-Bretanha se expandiu, no seio das ondas, á sombra das suas flammulas, que são a divisa dos bastardos da raça latina.

Ha duas infancias na vida: a juvenil, e a senil. Perdoem ao homem, que já vê a sombra projectada na beira do fosso da sua ultima jazida, estes echos longinquos, que vem ferir-lhe o tympano nas vesperas da sua dissolução physica.

Convém que nos entendamos:

A Carthago na designação latina, a Karkhédôn no vocabulo grego, a Kereth-hadeshot ou em pronunciação dialectica Karth-hadtha, segundo os termos punicos e phenicios, finalmente a cidade nova pela traducção e tradição da capital carthagineza significa, para mim, na actualidade, a futura ruina da rainha dos mares, da soberba, orgulhosa e egoista Albion. E nada mais.

Deixemos passar as correntes historicas.

A analyse verdadeira, justa e consciente d'uma sã e severa critica atira ás faces dos romanos com esse ignominioso epitheto de _fé punica_, que só a elles cabe na antiguidade das ambições latinas, e no ardiloso espirito dos Machiaveis da Italia, transmittido até ao ultimo papa. E a mais ninguem.

Desde Romulo até Antonelli são vastas as concepções de perfidia, erguidas, a principio, no capitolio, para ficarem mais tarde, como tradição e doutrina, nos salões do vaticano.

Havia um dia em Roma, em que, ao commemorar o supplicio e resurreição de Christo, subia ás sumptuosas varandas da basilica de S. Pedro o escolhido entre os bispos, arremessava o facho do incendio, o emblema do inferno á praça publica, anathematisava os herejes, e invocava sobre elles a colera do Eterno.

Era a fé punica, na singela e curta interpretação de Scipião o Africano.

A igreja catholica, na ingenuidade d'estas crenças ferozes, segue as tradições latinas, e a innocencia virginal de Scyla, de Mario, de Nero, de Constantino, de Alexandre VI, de S. Domingos, e de todos os Simões de Monforte, e de todos os Torquemadas da religião do operario nazareno.

Olhemos para Carthago.

Vejamos o que era a fé punica.

A cidade phenicia assombrava Roma. Dobrava-se, porém, aquella diante do orgulho da cidade de Romulo. Curvava-se submissa a raça semitica na presença do povo indo-europeu. Carthago sujeitára-se á dura condição de não defender os seus direitos, nem a sua propria independencia sem authorisação de Roma. Aproveitou-se Massinissa, principe da Numidia, d'este abjecto e humilissimo pacto, para avassallar o emporio das riquezas d'Africa;--e quando a commissão, enviada pelo senado, voltava ao Lacio, depois de ter fomentado e atiçado a discordia, Catão--no seu odio implacavel, e cego pela torpe e abjecta cubiça, que o movia, terminava constantemente os seus discursos com a celebre phrase, que revelava toda a negrura d'aquella alma: «E de mais é preciso destruir Carthago»--_Delenda quoque Carthago_.

E quando Carthago, confiando na lealdade romana, entregava e depunha todas as suas armas e machinas de guerra, ficando indefesa, e inerme--agradecia-lh'o com a mais hypocrita e pungente das ironias, o consul Marcio Censorino, dizendo aos carthaginezes: «Louvo-vos pela vossa prompta obediencia em cumprir as ordens do senado. Sabei agora a sua ultima vontade: manda-vos sahir de Carthago porque resolveu destruil-a.»

E mais tarde--ardia dezesete dias a cidade nova dos phenicios, por ordem expressa do senado, e, na voragem e horror do incendio, saqueava a soldadesca infrene as immensas riquezas, que sete seculos alli tinham accumulado.

A fé punica é uma calumnia historica, inventada pelos romanos, cujo odio e ciume, sem repouso nem tregoa, sobreviveram á carnificina mais cruel e hedionda de que rezam as chronicas e lendas da antiguidade.

Aceitemos, pois, Carthago como a imagem do aniquilamento, e da destruição.

Seja a fé punica, na inversão da phrase, o estigma e ferrete da lealdade latina.

A Grã-Bretanha será a Carthago do futuro, como é, na sua machiavelica e perfida politica, a Roma do passado, do presente e do porvir.

Alliança e alliados, na bocca de qualquer governo inglez, diz um escriptor liberal, quando não são palavras enganadoras, são, pelo menos, palavras sem sentido.

Sem sahirmos do seculo XIX, desde o porto da capital da Dinamarca até ás muralhas de Metz e trincheiras de Sédan, são longas e monstruosas as provas da fé britannica, e da lealdade ingleza. Hudson Lowe, o carcereiro do Prometheo moderno--imagem do abutre roendo-lhe as entranhas nos rochedos de Santa Helena, será a ignominia e affronta eternas dos algozes da Irlanda.

Estamos nas amuradas de Bellérophon.

Entremos no convez.

Antes do desenlace final d'esta tragedia antiga, que parece modelada por Sophocles ou Euripides--escrevia Napoleão ao principe regente de Inglaterra a seguinte carta:

«Alteza Real.

«Alvo das facções, que dividem o meu paiz, e da inimizade das grandes potencias da Europa, acabei a minha vida publica, e, á semelhança de Temistocles, venho sentar-me no lar do povo britannico. Abrigo-me á sombra das suas leis, e para isso invoco vossa alteza real, como o mais poderoso, o mais constante, e o mais generoso dos meus inimigos.

«_Napoleão._»

Responder com um asylo magnanimo, e grandioso a esta invocação escripta, teria sido para a Inglaterra a mais nobre das vinganças, e a pagina mais magestosa da sua historia.

Irrisoria illusão! A orgulhosa Albion não vive de gloria: vive de dinheiro. Quem deixou mutilar a Polonia, quem escravisou a India, quem fomentou a guerra civil nos Estados-Unidos, quem viu impassivel as desgraças da França, e quem subjuga, pisa, e tortura a Irlanda, escolheu adrede os leopardos, para insignia e emblema heraldico dos seus armazens da _city_. A Inglaterra é a feira da Ladra da Europa. Seja assim para honra da raça latina, onde não ha filhos espurios dos chatins do Oriente.

Napoleão vestiu aquella farda dos caçadores da velha guarda, como se estivera em Marengo, Austerlitz ou Iena. Entrou com o general Becker, e com os legionarios dedicados da sua heroica Iliada, n'um escaler--ultimo refugio das suas glorias--e subiu para o brigue francez, que ia leval-o á esquadra ingleza. Becker quiz acompanhal-o n'esta via dolorosa. «Não, não, general, bradou-lhe o vencedor de Arcoli, cuidemos da França. Se entrardes commigo no Bellérophon dirão que me entregastes aos inglezes. Não quero que a França soffra a responsabilidade, a suspeita, e nem sequer a apparencia d'uma traição tamanha.

A bordo do Bellérophon estava o commandante Maitlaud, os seus officiaes, e toda a equipagem esperando o vencido de Waterloo. Dias depois entrava na bahia de Plymooth o Bellérophon ás ordens do almirante Keith, que o recebeu com o respeito obrigado com que o visitára a bordo d'um pontão inglez o almirante Hotham.

A Inglaterra aceitou a affronta e o escarneo das potencias alliadas. Disseram-lhe estas no artigo 2.º da sua famosa declaração: «A prisão de Napoleão Bonaparte é confiada especialmente ao governo britannico.»

Foi a Inglaterra o carcere, foi o traidor, e foi o algoz.

Aceitou tres papeis infames.

Entregou á Europa o banido, que lhe vinha pedir refugio e hospitalidade, investiu-se na missão execranda de carcereiro, e gizou, com a sua fertil imaginação, o carcere da aguia da Corsega, o antro onde ia sepultar o genio das batalhas.

Cuspam na memoria, em parte talvez calumniosa, de Judas de Kerioth, no drama sanguento de Jerusalem, e respeitem e curvem-se reverentes diante dos suffetas da Carthago britannica.

Arrancaram-lhe a espada epica das cem batalhas, quando elle, abandonado e indefeso, meditava encostado á proa do seu carcere fluctuante--e foi preciso, que o genro do imperador da Austria, o antigo tenente de Toulon, os encarasse face a face, para que os almirantes da velha Albion estremecessem de vergonha, e corassem de pejo, satisfazendo-se, no seu vil orgulho, com as adagas de Bertrand, Savary, Lallemand, Gourgand, e de todos os outros legionarios d'esta phalange homerica.

Napoleão não sabia chorar. Passou impassivel por sobre quatrocentos mil homens, que juncavam os gelos da Russia. Viu immovel os desastres de Leipsick. Escutou silencioso, em Fontainebleau, o ruido surdo da catastrophe quando o imperio desabava. Afastou-se de Waterloo sereno, implacavel e severo como o destino--e nem uma lagrima deslisava por aquellas faces, assentes n'um busto grego, e que pareciam rasgadas pelo scopo de Phidias, como ornamento do mais vasto craneo, que a Providencia ousou modelar.

Mas rebentou em pranto desfeito, e corriam-lhe as lagrimas como em torrente caudal, ao lêr os pormenores aviltantes da segunda occupação de Paris.

Não era o imperador, não era o general, não era o tenente d'artilheria, não era o corso: era o ultimo dos francezes, se assim querem--que chorava de vergonha e de raiva ao vêr a nobre e formosa terra das Gallias pisada vilmente pelos cossacos do Don, e pelos ignobeis escravos do Czar de todas as Russias.

Virtude, tu não és mais do que um nome!--Estas palavras, attribuidas a Bruto, e que são apenas a citação d'um verso da _Medéa_ de Euripides, vieram reboar em Sédan, e feriram, ainda n'esta geração, as traições, as insidias, e os ardis do segundo imperio, que cahiu a pedaços esphacelado e podre sob as garras da aguia da Prussia.

O almirante Keith recebeu o ultimo protesto de Napoleão. Era o seu testamento de vingança arremessado á posteridade.

Terminava assim:

«Appello para a historia: dirá ella que um inimigo, que durante vinte annos combateu o povo inglez, veio, em liberdade, no seio do seu infortunio, buscar um abrigo á sombra das suas leis--que demonstração mais brilhante podia elle dar da sua estima, e da sua confiança? Mas como respondeu a tanta magnanimidade a Inglaterra? Simulou estender-lhe mão hospitaleira, e quando o segurou nas garras, quando elle se lhe entregou na grandeza da sua boa fé--trahiu-o, e immolou-o.»

O nome do heroe firmava este protesto. Foi com a mão habituada a empunhar a espada da victoria, que o vencedor dos reis, escolhidos por direito divino, escreveu: Napoleão.

Pouco depois, um vaso de guerra, o Northumberland arrostava as vagas do oceano, levando a seu bordo o homem, que fôra o terror do commercio da Inglaterra, e o missionario inconsciente da liberdade europêa.

E no meio d'uns rochedos de granito, na solidão dos mares, na insulação completa de todas as aspirações d'aquella vasta e grandiosa intelligencia, amarravam ao poste da mais tremenda perfidia o homem, que o mundo inteiro acclamára imperador, e a quem a Inglaterra, mesquinha e ridiculamente, nos seus odios e pavores vilissimos, regateava o _ave! imperator!_ que duas gerações lhe votaram, mandando-o appellidar seccamente: o general Bonaparte.

Detesto o heroe, mas choro ao lado do martyr. Curvo-me perante os altos designios da Providencia, que levantou sobre os broqueis da victoria o Attila moderno, o açoute de Deus--e vélo a fronte cheio de horror e de indignação, quando considero este homem feito á imagem do Creador, caminhando sobre cadaveres, na sua sêde insaciavel de conquistas; e por um rasto de sangue humano subia ao throno das monarchias do occidente, depois de perdidas as illusões com que sonhára o imperio da Asia.

Morreu em Santa Helena, no seio dos mares, para além das lutas democraticas da Europa, o mais ambicioso dos conquistadores, e o maior genio d'este seculo.

Alexandre lia Homero. Napoleão meditava os commentarios de Cesar. E Alexandre, Annibal, Scipião, Cesar, Attila, Frederico II, e Carlos XII, são pallidos meteoros, que fulgiram, e passaram diante d'este esplendido luzeiro, d'esta magestade immensa, que, como o astro do dia, tingindo de purpura o firmamento, vai immergir-se lentamente nas vastas solidões do oceano.

Hudson Lowe foi a synthese dos odios selvagens, e das cubiças inexcediveis da nação ingleza.