Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)
Chapter 2
«Deixada a traça da sentença seguiram a da eleição, determinando fazer este auto solemne dia de S. Pedro e S. Paulo, que era d'alli a dous dias, para que então se declarasse; e, sahindo os dous votos dos dous estados por Castella, como tinham por sem duvida, acolheram-se todos a uma galé e caravella da armada que tinham mandado vir de Lisboa a qual tinham já apparelhada na bahia de Setubal. N'este mesmo dia mandou o conde portuguez recado ao benigno rei D. Antonio que já era entrado e recebido em Lisboa, que acudisse logo antes de se concluir a traição; o qual sabido logo pelos mesmos da guarda dos paços, e pela gente leal que havia na villa, começaram de se amotinar com gritos e ameaços publicos no Sapal, defronte dos traidores, e tal que elles houveram por seu accordo vêr se podiam pôr-se em salvo, e assim determinaram n'aquella noite seguinte se embarcarem, deixando tudo em aberto para pôrem sello a suas traições. Não pôde isto ser tão secreto que tambem se não entendesse dos soldados que logo os começaram a vigiar; e recearam de maneira que, em anoitecendo, com muito risco de suas vidas, e tanto que um se deitou por uma corda, outro se vestiu em um chiote, e se acolheu sobre um asno, os mais buscaram mil invenções baixas, como elles eram dos espiritos, para se irem embarcar. Estes foram Francisco de Sá, alcaide-mór do Porto, D. João Mascarenhas, capitão que foi do segundo cerco de Diu, Diogo Lopes de Sousa, governador da casa do civel. Os da villa vendo já com os olhos a traição, e engano em que os traziam, bramiam como leões, desejando dar-lhes o pago de seu bom governo e lealdade. A este motim acudiu o conde portuguez com animo de christão, e leal como sempre o teve, o qual por muitos justos respeitos impediu não se fazer carniça, entretendo com razões o impeto dos soldados por largo espaço da noite até se porem em salvo, e se embarcarem; porque, se elle não fôra, todos os da conjuração houveram de pagar aquella noite o que deviam á patria, porque parece que de proposito os trazia alli seu peccado juntos ao talho.
«Não faltou quem dissesse que o conde errava n'isto; mas a sua razão convenceu a todos n'aquelle tempo, dizendo que mais fazia a nosso caso fugirem elles que não matal-os em terra, o que soaria mal a quem desapaixonadamente visse este negocio. Basta que os salvou, e deu passaporte por terra a D. Christovão de Moura para se pôr em salvo.
«Bem visto fica n'este breve summario quaes foram os traidores em seu officio e dignidades. Não fallo em D. João Tello porque, quando se foi juntar com elles em Setubal, em uma galé que tomou em Lisboa, entrando pela barra, sabendo os quatro do governo que elle era o quinto, o mandaram servir de bombardas arrazoadamente da torre d'Outão, por não ser da sua tenção a liga. Depois que o viram entrado pelas boccas dos tiros, e isto visto e sabido pela villa, soffreram-no por dissimularem até que seu peccado os levou de mar em fóra, onde andaram em calmaria dous dias á vista da villa, desmaiados, olhando se iam os da terra prendel-os. Este só governador se foi quietamente para sua casa por ser portuguez, onde morreu, dizem que de paixão de vêr as injustiças dos traidores.
«No principio d'esta conjuração já espigada, se foi v. exc.ª a Almeirim, quando o rei-cardeal descobrira sua tenção por Castella. E logo depois a snr.ª D. Catharina com grande estado, e capella de musicos, acompanhada com alguns poucos de ceifões enfronhados em libré de soldados de guarda de vossa pessoa. Já então as cousas eram taes, que para responderdes a quem ereis, e ás obrigações do estado braganção, não sómente não vos houvereis de temer, e ir medroso, mas ser tão temido, e entrar na côrte com um brio portuguez, e com um coração tão grande, que assombrasse o cardeal, e matasse por dentro a todos os traidores que lá andavam; e entretivesseis vossos vassallos todos apparelhados a som de guerra, e postos a piques para toda a desordem, e traição que visseis, ou no rei-cardeal, ou nos pretensores de que vos receaveis. Porque, fallando desapaixonadamente, vós só com vossos parentes, criados, e vassallos tinheis bastantes forças para receber todo o poder, que Philippe tinha apparelhado contra nós, e para obrigardes ao duque d'Alva a uma retirada muito affrontosa. Mas faltou-vos o coração do conde D. Nuno Alvares Pereira, vosso quarto avô. Não sómente nada d'isto fizestes, senão, quando o snr. D. Antonio,--apesar de aborrecido, desnaturado e perseguido não sómente do cardeal-rei seu tio, mas tambem dos traidores do governo, depois de sua morte d'elle--com animo real que herdára do infante D. Luiz, seu pai, se determinava defender-nos da ambição dos estrangeiros, e traição dos naturaes, arriscar sua vida, e estado na defensão do reino, antes que soffrer desordens na justiça da successão, e que todos os partidos honrosos vos fazia á conta de lhe seres companheiro n'este santo proposito, nunca jámais o pôde acabar comvosco por mais que visseis os inimigos entrados pelo reino, e tomarem-vos os vossos aposentos de Villa Viçosa, e armazem d'armas; antes para a vossa culpa ser causa mais de proposito, depois de desenganado de vossas esperanças reaes mais parvoas, dadas pelos traidores do governo, os deixastes em Setubal, e vos fostes a Portel ter consulta com os doudos de vossos parentes do que fazieis, estando já as cousas sem remedio: bem se vos podéra dizer n'este tempo: «Asno morto, cevada ao...» Em vida do cardeal-rei deverieis de cuidar em vós, e em nós. O estupido do conde lavrador, e o arabe do arcebispo de Evora, e o raposa do commendador-mór com os mais que se acharam presentes n'este vosso conselho, como havia muito tempo que estavam feridos da peste castelhana, e peitados a seu sabor com Philippe, accordaram em relação que vos lançasseis de fóra do jogo, e visseis os touros de palanque. Pela primeira lei de Solon atheniense, perdida tendes a casa, e estado só por esta culpa. Mandava esta lei, que quem nas dissensões e nos motins da cidade se não lançasse de algum dos bandos e parcialidades, esperando ser de viva voz quem vença, pelo mesmo caso lhe fossem confiscados todos os seus bens. Nada d'isto tivestes; antes, conforme ao conselho, que vos deram, e tomaram para si estes senhores vossos parentes, vos deixastes ficar n'essa vossa villa desviada, que era o que Philippe desejava e vos pedia. Com esta invenção tomou o turco Asia, Africa, e muita parte da Europa, pondo-se os reis christãos á mira quando este tyranno fazia guerra a algum d'elles. Assim tomou Hungria, Bohemia, o imperio da Grecia, Rhodes, etc.
«N'este tempo que v. exc.ª se apartou do bem commum, olhando sómente para si, o mesmo povo padecia a ultima desaventura de ferro e fogo, sem ter armas, nem resistencia por todo o termo de Elvas, Olivença, Estremoz e todos os outros lugares do Alemtejo. Não quero particularisar mais as culpas de v. exc.ª por não affrontar mais os ossos de quem come a terra.
«Os fidalgos, morgados, e commendadores que em todas as idades foram os nervos da republica, e por esta causa tão privilegiados, e venerados do povo, d'elles (ainda que poucos) se foram para o snr. D. Antonio depois de levantado em rei, para segurar o jogo de ambas as partes, fazendo d'alli o seu negocio com elle, e com Philippe, cosendo a dous cabos (como já fez Veneza muitas vezes em liga da christandade, escrevendo, e dando avisos ao turco contra a liga, e a liga contra o turco). Assim o faziam estes senhores, pendendo ainda mais n'isto para Castella; e tanto, que era grande vergonha, e espanto vêr as cartas que se tomavam cada hora, as espias dos fidalgos portuguezes que andavam á ilharga d'este vencido rei, e entravam em seus conselhos de guerra; outros eram capitães d'armada, que tambem foi vendida tantas vezes, que se cada dia se tirava um capitão-mór, e se punha outro para não o arrematarem, o que não aproveitou nada; tanto assim que o derradeiro capitão (Gaspar de Brito d'Elvas) que era leal, o qual pela não querer vender, o venderam a elle os capitães, ainda que escapou da morte.
«Os outros fidalgos em geral, tirando os criados, inda não todos, d'este senhor rei eleito, parecendo-lhes ainda mau conselho de se arriscarem a alguma desgraça da guerra, e terem comprimento com sua patria sequer nas mostras de fóra, como todos estavam mettidos na conjuração castelhana, e assegurada sua fazenda, e mercadoria, tomaram o conselho que v. exc.ª tomou para si, escondendo-se pelos mattos em recintos, em bandos, como zorzaes[5], esperando ouvir novas do mundo, como se conta de um esforçado em uma galé, que escondendo-se na escotilha, ou coberta ao tempo da briga, depois de acabada, perguntou de lá: «Levam-nos, ou levamol-os?»
«Outros, depois de tomado Cascaes, batendo-se já a torre de S. Gião, ouvindo-se os tiros em Lisboa, se esconderam dentro na cidade com tanto segredo e resguardo para não serem chamados; e obrigados a acudir a tão extrema necessidade, como padecia o reino, chegaram a mandar fechar as portas de pedra e cal das casas onde se escondiam, mettidos com armas, e cavallos dentro em casa, dando-lhes os seus de comer por janellas de noite, parecendo-lhes que quando os reis, e republicas instituiram os grandes, os fidalgos, e morgados, que foi para comerem, e vestirem melhor, para jogarem mais grosso, e para terem muitos criados para lograrem as delicias do mundo; e que, quando viesse o tempo da guerra e do trabalho, não tivesse n'elles a republica braço e columna para se defender e onde se encostar.
«As escusas que elles davam n'este caso são para aceitar. Diziam estes senhores que não podiam em boa consciencia seguir ao snr. D. Antonio, porque era um alevantado, e filho não legitimo. Não attentando, que andando em prova a sua legitimidade, o alevantou em rei a leal villa de Santarem em nome de todo o reino, tendo já Philippe tomado com a mão armada Elvas, Olivença, Campo Maior, e Estremoz, não como alevantado pelo povo, mas como tyranno, a quem elles seguiam sem nenhum escrupulo. Tambem diziam, que o poder de Castella era tão grande, que tocava em doudice querer-lhe resistir. A isto respondem os contemplativos que não nascia d'aqui a tosse. E porque fallemos portuguez claro: saberá v. exc.ª por que não queriam pelejar, nem defender o reino, e andaram com estes contractos e traições? Foi fina cobardia, e puro medo, que os mais d'elles trouxeram mettido nos tutanos, da destruição, e captiveiro d'Africa, medo que damnificou o mui esforçado e invencivel rei D. Sebastião de saudosa memoria; elles o desampararam, e entregaram aos alarves com suas judiarias, chamando-lhe doudo, e temerario, pondo-lhe todas as culpas que quizeram, por encobrirem as suas, que a verdade é esta; elle os conhecia muito bem, e tinha na conta que elles mereciam; mas não lhe lembrou, em tempo que lhe ia mais a vida e honra. Era este um rei a quem se não póde negar muito esforço, e muita liberalidade, muito boa conversação, ainda que os padres da companhia o crearam fóra d'isto, e mancebo de muito raro entendimento; e, se os fidalgos que com elle foram, o acompanharam ajudado com o animo e esforço que n'elle viram, pelejára dobrado, ou a victoria fôra nossa, ou a desventura não fôra tanta. Mas como estes senhores não sabiam mais que rasgar sêdas, lograr perfumes da India, aguas estilladas, passear as damas, inquietar donas virtuosas e honestas, andar com a barba no ar, soberbos mais do que Lucifer, cuidando que n'isso estava o ponto e ser da fidalguia, indo armados d'esta côr e tenção mais para bodas que para brigas: em vendo o campo do Maluco, arraiaes calmosos, e armas pesadas e desacostumadas, logo esmoreceram, cahindo-lhes o coração aos pés. Pelo que, ao primeiro _S. Thiago_ que se deu, elles foram os primeiros que mostraram as costas aos mouros, voltando á redea solta com tanta desordem e cobardia, que o esquadrão dos aventureiros, ou desaventurados, de pé, á custa da vida lhes deu lugar, e elles deram principio a todo o mal e destruição, que logo se seguiu. Esta é a verdade pura e clara; o contrario é quererem cobrir o céo com uma joeira, tapar a bocca aos soldados, e pôr a culpa ao rei. Digam isto aonde se não sabe como elles se cruzaram diante dos mouros, mettendo-se debaixo das carretas; sem algum esforço, e valentia de leaes portuguezes, deixaram seu rei em Africa, sem saberem dar novas d'elle, rendendo-se por captivos de negros desarmados. No captiveiro houveram-se tão vãos, tão deshonestos, tão insensiveis de sua honra, e fidalguia que muitos d'elles aceitaram resgate dos embaixadores de Philippe com vergonhosos partidos sobre a successão do reino, que já começavam a vender.
«Este mesmo ser e fidalguia tiveram na derrota de Alcantara, a saber: escondendo-se, fugindo em tempo que seus avós se podiam desejar vivos para lancearem castelhanos, e os lançar fóra do reino. Por onde digo a v. exc.ª que podemos affirmar com muita verdade que se acabou já a fidalguia de Portugal; e, se Deus der n'elle rei natural, poderá com justiça, e com boa consciencia fazer o que fazia Lycurgo, e faz o grão-turco hoje em dia, que é tirar-lhe os contos de renda, os morgados, e privilegios, arrazourando-os com os mecanicos, e começar-se outra enxertia de fidalgos, fundada em merecimentos pessoaes, sem opinião de gerações, nem appellidos, porque os _Castros_, os _Menezes_, _Mellos_, _Mascarenhas_, _Tavoras_, _Barretos_, etc.[6], já não dão fructo senão de baixezas, cobardias, deshonestidades, e pouca christandade; e se alguns ficaram bons, o nome e appellido se lhes houvera de tirar. Não fallo nos portuguezes _Coutinhos_ e _Britos_, a quem pelos honrar dou logar entre os negros, em quem se achou tanta lealdade e esforço, que até a torre da polvora em que estava a nossa defensa se não fiou senão d'elles, e acompanharam o snr. D. Antonio até de todo se perderem em Vianna. O povo, cuja voz se chama _vox Dei_, ainda que nunca foi ouvido, conservou a fé portugueza nas côrtes, e fóra d'ellas com pacto, esforço, e desejo, pedindo, e buscando guerra: até as mulheres (que parece cousa de espanto)! porque a ellas só vinha o mór mal d'ella.
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«Os inconvenientes que se seguiram dos nossos governadores e fidalguia portugueza ser isto que v. exc.ª vê, e de el-rei de Castella ser tão comedido, e sujeito á razão, são os seguintes. Primeiramente: se seguiu entrar o turco lutherano duque d'Alba em Lisboa com tanta crueldade e deshonra nossa, que, chegando a Alcantara, com menos de dezeseis mil homens, todos irmãos, visinhos e companheiros, nos rompeu, e deshonrou a todos para sempre, não por forças suas, mas por traições dos corruptos, por promessas, dando o saco tres leguas de termo, com duas que tomaram mais os soldados, estando por causa da peste a mais gente e fazenda derramada pelas quintas fóra de Lisboa. Entrando as suas galés pelo rio, e soldadesca pelas ruas com tanta crueldade, disparando no triste e rendido povo toda a mosquetaria, e artilheria do mar: indo n'este tempo muitos contentes, triumphando entre elles de sua patria, e nação nas galés--a saber: Diogo Lopes de Sequeira, D. Antonio de Cascaes, Luiz Cesar, e outros muitos arrenegados, de volta com os leaes, a quem o traidor castelhano tinha passado provisões de marquezados, condados, e contos de renda por este serviço, tão custoso não sómente ás pessoas, mas tambem á honra d'estes senhores que lhe entregaram o reino. Mas, assim como estas provisões foram assignadas em branco, tambem foram despachadas em branco; porque lhes sahiu em despacho na mesa da consciencia (qual Deus sabe) que não era Philippe obrigado a cumprir estes assignados; mas a v. exc.ª como principal parte n'este negocio, como verdadeiro, e legitimo herdeiro d'estes reinos, segundo dizem e assignaram alguns juristas doutos, despachou este seu rei muito bem com lhe fazer uma mesura muito bem feita em Elvas, quando lhe foi beijar a mão, e renunciar todo o direito que tinha no reino, e com o acompanhar até á porta da sala, e com lhe lançar depois o habito _del tuson_ em Thomar, que é de mui grossa renda, e estados, mas pago em _panem nostrum quotidianum_, e em uns poucos de maravidis para vinho, e faça-me mercê que não mande cada dia recadar esta ração do paço com muita humildade como cavalleiro _del tuson_, como lhe mandou dizer um dia em Abrantes o mantieiro, ou vedor por um descuido que n'isto teve. Outra mercê fez a v. exc.ª de condestavel do annel d'este reino que santa gloria haja; outra lhe fez muito maior em o ter na reputação que v. exc.ª merecia pelo seu fraco juizo.
«Os mais senhores, e fidalgos, de presumir é que tambem Philippe usou com elles d'esta magnifica liberalidade castelhana. Porque a D. Antonio de Cascaes fez o mesmo que a Tristão Vaz em satisfação de lhe entregar a mór força do reino, e renunciar quatro mil reis de juro que el-rei D. Antonio lhe tinha dado por provisão.
«Fim das razões: já v. exc.ª, e os mais da conjuração começam a vêr o erro, e desconcerto seu, e dizem entre si pela bocca pequenina: «Sofframol-o, pois o quizemos.» Quando isto virem, lembrem-se quanto differentes na verdade e liberalidade eram os despachos e mercês dos reis portuguezes, naturaes de Portugal; pois com terem tão poucos contos de ouro, as viuvas dos seus criados, os orphãos, os fidalgos pobres, em gemendo, eram ouvidos, e despachados como filhos; se agora, estando o rei á porta, os despachos de tão grandes serviços pessoaes, são os que vêmos, quaes serão depois que virar as costas? Que farão os tristes que vieram da India, ou de Africa com serviços de paes, dos irmãos mortos, e com vida gastada? irão caminho de Madrid, e Toledo rogar por terceiros castelhanos que não sabem o que isto custa. Este é o primeiro inconveniente que succedeu n'este caso.
«O segundo erro foi ficarmos captivos e escravos da mais soberba, odiosa, e aborrecida nação que ha no mundo todo; não sómente aos portuguezes a quem foram em tudo inimigos; e, não sem muita causa, tem esta má nação tal fama, porque se tem isto claramente visto no caso de Lisboa, e das mais terras por onde o arraial passou; a saber: fizeram todos os roubos, estupros, e adulterios, homicidios, e tyrannias, desaforamentos, commettidos por castelhanos de nação, sendo n'esta parte mais comedidos, e humanos os tudescos, e allemães. Sómente os castelhanos fizeram tantas affrontas, crueldades, sacrilegios a homens nobres, a mulheres honestas, a religiosos desarmados, até nas igrejas, e mosteiros de freiras, como se viu na igreja de Bellas, no mosteiro de Monchique, e Vairão[7]. Muito melhor nos fôra morrer mil mortes, que vêr, nem chegar a taes tempos. Basta que cumpriram seus desejos nossos inimigos capitaes, e chegaram a nos dizer nas barbas com muito gosto, e soberba quando nos viam tristes: «Teneis de tragar este bocado.» E de tal maneira nos tem o pé no pescoço que nem para chorar nossas desaventuras nos dão licença; e, se não fôra estarem ainda as cousas no ar, sem assento, já os desterrados com titulo de despacho houveram de ser tantos os occupados nas guarnições de Flandes, Napoles, e Italia, que se não vira já mais portuguez de capa preta andar pelas ruas como se costuma em Galliza.
«O terceiro inconveniente não menos para sentir que os outros, o qual vai ainda em crescimento, é que as donas illustres, e as fidalgas portuguezas tidas sempre em tanta veneração, e respeito dos estrangeiros, acreditadas por todo o mundo por muito castas e honestas, até nos vestidos, vencidas da cobiça dos _reales_, ou da desenvoltura dos castelhanos, esquecidas de sua fama e honra, e do sentimento que devem ter da desenvoltura de sua nação, maridos, e parentes, tão desenvoltamente os namoram, e se lhes entregam, que disparam em mulheres de mancebia, que em outros tempos se estranhava muito, e que n'estas senhoras se vê agora publicamente. Já não podem vêr portuguezes, nem os proprios maridos. São tantos os adulterios, e deshonestidades suas, que os mesmos castelhanos e italianos andam espantados d'ellas, que chegaram a dizer que se não podiam defender d'ellas, e que elles eram os acommettidos. As visitações do arcebispo de Lisboa mofinas são taes que já chegou um cura a nomear algumas fidalgas por publicamente amancebadas com castelhanos. Na noite de S. João d'este desaventurado anno de 81, se acharam algumas senhoras mão por mão com os castelhanos a vêr as fogueiras. Tambem vão já tomando posse das carroças de Roma, e das carretas de Sevilha como cortezãs de Castella. Os casamentos com soldados picaros foram infinitos nas estações das igrejas de Lisboa. Deus nos livre dos males, que estes nos vão ameaçando, para que antes d'estes lançarem raizes, tenhamos rei natural e portuguez, e que nos ponha com Castella no andar em que estão os chinas com os tartaros, dos quaes affirmam que fizeram um muro por arraia de trezentas leguas quasi, ou como estamos com os mouros nos lugares d'Africa fronteiros, e para isto se effectuar suavemente, inspire Deus no peito de v. exc.ª, e dos mais senhores fidalgos d'este reino animo, esforço e lealdade para que se ao diante houver alguma occasião de se restaurar a liberdade portugueza, ainda que seja com o soccorro de turcos e mouros, o aceitem, e lancem mão d'elle; pois que, se o não fizerem assim, estou já vendo que perderam todos seus estados, a patria, e muitos a vida. E sentirei muito como portuguez leal saber lá na outra vida, para a qual estou já de caminho, que defendem os meus naturaes com mór esforço seu captiveiro (mandando-lhe Deus remedio), do que mostraram em defender sua liberdade.
«Muitas cousas das que n'esta carta vão, vi com meus olhos, antes de condemnado a tratos, pelos quaes o lutherano de Paulo Coelho, meu natural, e oppositor em Coimbra mandou pagar dinheiro aos que m'os davam, e depois me sentenciaram que fosse degolado por final sentença, que meus inimigos deram contra mim por amor de meu rei e patria; parte d'estas cousas vi cá em revelação, e outros muitos males que aos principaes d'este reino estão ameaçando, cujos nomes não digo, porque cedo sahirá um rol geral dos portuguezes herejes, e arrenegados, juntamente com os dos leaes na fé catholica de sua patria e nação: para que, quando Portugal resuscitar, e Deus der n'elle rei natural, se saiba na santa inquisição futura da lealdade portugueza a seita erronea que os maus seguiram, e se faça justiça d'elles, e de suas fazendas conforme as santas leis d'estes reinos, ao qual Deus tem promettido de conservar eternamente. Dada no Seio de Abrahão a 20 de junho de 1581.
PEDRO D'ALPOEM.»
[1] D. Constantino de Bragança.
[2] Lisboa.
[3] Em um dos seguintes numeros daremos traslado da conta que os espias deram a Philippe II do seu exame em Portugal.
[4] Provavelmente os avós dos quarenta fidalgos da restauração.
[5] Tordos ou estorninhos.
[6] Todos os fidalgos d'estes appellidos arrebanharam as melhores commendas em tempo de D. João IV.
[7] Em nenhum livro, ou ainda tradição oral se nos deparou esta novidade.
OS SALÕES
CAPITULO III
VOX POPULI
A definição mais exacta da democracia é chamar-lhe o reinado da justiça.
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Il n'y a que deux choses qui puissent sauver la société: _la justice, et la lumière_.
BASTIAT.
O papel do veterano e operário dizia assim:
«O que é a democracia?
«É o governo do povo pelo povo--é a omnipotencia soberana de toda a nação--é o predominio do poder popular em qualquer governo.
«Quanto mais um estado social se aproxima do ideal da justiça, tanto mais se confundem os interesses particulares com os interesses publicos.
«A democracia é, entre todas as fórmas de governo, a que melhor corresponde ás exigencias da verdadeira justiça social.
«Mas não nos illudamos. Estudemos-lhe os perigos, e evitemos-lhe os inconvenientes. Para que um paiz verdadeiramente democratico possa crescer, engrandecer-se e prosperar, carece de certas e determinadas condições. A democracia nunca surgiu, nem se manifestou na infancia das sociedades.