Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)
Chapter 1
Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images of public domain material from Google Book Search)
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 6--JUNHO
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON _96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON _4, Largo de S. Francisco, 4_ BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
Subsidios para a historia da serenissima casa de Bragança--Os salões, pelo exc.mo snr. visconde d'Ouguella--Manoelinho d'Evora--A morte de D. João--Poetas e prosadores brasileiros--Ácerca de Joaquim 2.º--Estupido e infame (Á «Actualidade»)--Carta ao snr. conselheiro Viale--Quinta essencia de malandrim (Á «Actualidade»)
SUBSIDIOS PARA A HISTORIA
DA
SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA
I
PEDRO DE ALPOEM
(Veja a pag. 93 do n.º 3 das _Noites_)
CARTA DO DOUTOR PEDRO DE ALPOEM CONTADOR PARA O DUQUE DE BRAGANÇA
«_Muito illustre snr. duque de Bragança._
«Obriga-me a escrever a v. exc.ª cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos, sobre este negocio de tanta monta, e materia tão importante á honra, vida e estado vosso, e de todos estes reinos de Portugal, a memoria de um avô que tivestes muito conhecido no mundo[1], a quem em tempo tão necessitado de homens, qual elle foi na vida, por nossos e vossos peccados, succedestes no casco da illustrissima casa, sómente, que não na lealdade portugueza, no coração real, no zelo da conservação do reino que houvereis de herdar afamado no mundo todo. Os oleiros, sapateiros, alfaiates, e os mesteres do paço vos furtaram a benção, e o lugar, mostrando-se tão inteiros, generosos e leaes n'este derradeiro termo, que Portugal fez, e com que acabou por alguns annos, como se os privilegios honrosos, ou os titulos illustres, e os morgados e reguengos foram seus d'elles, e não vossos. E como se de rei natural (que podiam ter e dar-vos) não fôra sempre o melhor quinhão o vosso, e dos mais senhores fidalgos a quem favorecia, conversava, e sabia o nome, e com quem distribuia a maior parte dos bens da sua corôa, ficando elle sómente com o estado, e titulo real, com as obrigações, e trabalhos de nos defender a todos, e governar. Porque quem vir com curiosidade as rendas da corôa, e bens patrimoniaes dos reis nas alfandegas, nos contos, e nas sizas da cidade de Lisboa, do Porto, e das mais, achará esta verdade clara, a saber: que todo o bom, e grosso estava repartido, e derramado em juros, tenças, morgados, reguengos, jurisdicções de vassallas, e vassallos, tudo desmembrado da corôa real nos senhores, e fidalgos do reino, de maneira que mais parecia o rei seu pai, ou almoxarife d'elles, que rei, nem senhor. Oh! mal afortunados tempos! Hora infeliz, e desaventurada, e lastima para sentir! Quem de todo não perdeu o juizo com as razões castelhanas de portuguezes elches! É possivel que chegaram estes mesmos senhores de bom sangue, de bom entendimento, de sua livre vontade, e motu proprio, a escolher e a negociar por todos os meios humanos e diabolicos extinguir-se com o sceptro portuguez sua patria, nação, sua honra, fama, estados e suas mesmas casas, vencidos de respeitos, odios e interesses! Mal me parece que lhes lembrou aquella notavel resposta que o conde d'Ourem D. Nuno Alvares Pereira deu a seus irmãos em outro caso semelhante a este. O qual, tendo guerras com Castella o mestre de Aviz que depois foi rei D. João o primeiro de gloriosa memoria, e andando os irmãos d'este valoroso portuguez lançados da parte do rei de Castella, sendo commettido d'elles por parte do rei castelhano com grandes promessas, e partidos que se lançasse tambem com elles, respondeu: «Nunca Deus queira que por dividas, nem haveres eu seja traidor, nem ingrato á terra que me creou, e aonde eu nasci.» Os senhores fidalgos d'este nosso tempo por interesses, e promessas falsas, assignadas em branco, não sómente venderam sua patria, mas pregoavam, e persuadiam esta seita castelhana com tanta vehemencia, elles, suas mulheres, filhos e criados; e com tanto desejo de nos verem a todos convertidos a ella, que Martim Luthero, e os outros heresiarcas que o seguiram não zelaram mais seus erros, e falsa doutrina para a verem perpetuada na igreja de Deus.
«Ora, excellente senhor, quero-vos capitular brevemente os erros gravissimos que n'este negocio commettestes, com os mais senhores fidalgos d'esta conjuração, para que vendo-vos a vós, e a elles n'este espelho claro não percaes alguma boa occasião, se a Deus der em algum tempo, de cobrardes o nome portuguez que perdestes, tanto para cobiçar, e perderes o que ganhastes, vós, e os mais por todas as nações, até com o mesmo rei, e nação a quem n'isso servistes; pois chegaram a chamar á rua onde moravam os governadores quando fugiram de Setubal _la calle de los traidores_. E não cuido que n'isto vos faço pequeno serviço, e ao bem commum.
«Primeiramente o senhor cardeal dos quatro coroados, jurado rei em Lisboa, lembrando-lhe a obrigação que tinha, e perigo entre mãos de conservar este pedaço de terra que seus antepassados tomaram aos mouros, e defenderam aos castelhanos, ha perto de 500 annos, á custa de muito sangue derramado d'elles, e de seus vassallos em continuas guerras com uns, e com outros, em tomando o sceptro, e vendo os tempos que corriam, logo se acautelou para assegurar o reino em sua liberdade, e rei natural, com perseguir ao snr. D. Antonio seu sobrinho, e a se temer de Bragança, mandando-os afastar de si o mais que pôde, e mettendo nos braços os embaixadores de Castella, de quem se devia temer.
«Dous erros infames commetteu esta leal cidade[2] em nossos tempos que eternamente nunca lhe sahirão do rosto, se houver chronistas desapaixonados: o primeiro foi consentir, e permittir a desaventurada jornada de el-rei D. Sebastião, que no seu porto se embarcou francamente sem haver um vereador, ou mester que acudisse a isto com uma honrada e portugueza doudice. O segundo erro foi aceitar esta cidade ao cardeal por seu rei, e dar-lhe posse do reino sem mais côrtes, nem consulta das outras cidades e povos tão nobres, e mais naturaes do reino do que é a mór parte da gente de Lisboa, recebendo esta cidade por herdeiro legitimo e forçado, sendo clerigo, e impotente, podendo (já que o queria) elegel-o em nome de todo o reino por seu rei arbitrario, eleito com protestação de por sua morte (que tão perto estava á vista) ser outra vez a eleição dos povos. Foi este tão mau conselho, e tamanho erro que bem parece faltar aqui um João das Regras que lembrasse e requeresse.
«Era este principe, como v. exc.ª sabe, irmão ultimo, e inferior em tudo a cinco que teve, e muito aborrecido d'elles todos e de seus proprios paes, de que não faltam ainda testemunhas vivas; por ser homem de baixos espiritos e condições, tençoeiro, vingativo, para pouco, tão inimigo da nação portugueza, e de seu proprio sangue que por mostrar esta natureza sua, perseguiu aos seus sobrinhos, affeiçoando-se aos castelhanos. Foi este principe guardado com vida tantos annos, depois da morte de seus irmãos, sobrinhos e herdeiros do reino, que foram vinte e tantos, para nos herdar, e governar com tantas desventuras, e mofinas que até o caso da ilha da Madeira tão affrontoso o vimos no seu governo e tempo. E para ser deshonra de todos seus avós que com tanto animo, e esforço offereceram sempre a vida e estados por nos não deixarem captivos de castelhanos, lançando ainda muitos d'elles em seus testamentos e cartas grandes maldições, e particularmente el-rei D. Manoel seu pai, a todos seus successores, se em algum tempo pretendessem alliança d'este reino á corôa de Castella, como se póde vêr nos cartorios da torre do tombo da cidade de Lisboa, e de Evora.
«Algum pouco tempo depois, este velho cobarde e cruel, depois de ser rei, dizem que esteve inclinado a declarar a snr.ª D. Catharina, mulher de v. exc.ª por herdeira e direita successora do reino,--parece que receoso d'estas maldições ou remordido na consciencia de algum bom espirito com que Deus nos falta. Depois de encarniçado com as lagrimas que via nos portuguezes por sua má e nativa inclinação, ajudado com as pregações de D. Jorge de Athaide, o algoz da côrte, e de outros discipulos occultos do duque de Ossuna, que pela unitiva desviava, ajudando-se do padre D. Leão, do sobrinho dissoluto e da sobrinha, por evitar guerras, se mudou este rei portuguez d'este santo proposito assestando-se de maneira na devoção de Philippe, e odio dos mais pretensores do reino que nem requerimentos dos mesteres, nem lagrimas dos povos, nem desenganos de procuradores das cidades o demoveram nunca d'este obstinado intento; antes vendo que o povo punha os olhos cheio de esperança no snr. D. Antonio por sua rara humanidade, e por falta de não verem outrem, todo o seu negocio n'este tempo foi proceder contra elle com sentenças crueis, cartas, e editos infames, sendo sobrinho seu, e filho do mais honrado irmão, e amigo que elle teve na vida, e a quem tomava por terceiro quando queria que o rei D. Manoel seu pai o visse, ou ouvisse. E para que v. exc.ª veja quão descoberto castelhano era com os da conjuração que depois se descobriu e fez, um dia, estando em pratica com alguns portuguezes elches, que trazia á ilharga, chegou a dizer que lhe pesava de uma boa somma de mil cruzados de um alvitre que applicava a obras pias, pelos não mandar gastar nos paços de Evora para que quando entrasse o castelhano (a quem n'este caso chamou sobrinho) tivesse logo na entrada bons aposentos onde se recrear.
«D'el-rei D. João o segundo se conta que dizia muitas vezes á mesa entre pratica «quem me poderá fazer entre Portugal e Castella um muro de bronze que chegasse até o céo, que nem os passarinhos de lá voassem para cá, porque nenhum bem nos vem de lá, e males muitos.» Parece-vos, excellente senhor, que se este santo rei lá onde está descançando, e ainda inteiro está seu corpo, ouvira estas palavras de um seu sobrinho, e herdeiro, que ficára contente, e as approvára por acertadas?
«Estes foram seus desenhos e intentos, nos quaes continuou sempre, entretendo pouco e pouco com promessas falsas, que lhe daria principe portuguez, e em paz até sua mortal doença, na qual fez um testamento tão catholico, tão portuguez, tão pio, tão cheio de esmolas para mosteiros, e viuvas pobres e com boa declaração do successor do reino que em quanto o mundo durar será escandalo para quem d'elle souber: porque tão escasso e cruel, tão descuidado nas cousas do reino se mostrou, deixando por sua alma como um pobre escudeiro para que tudo ficasse _in solidum_ a Philippe, que chegaram até cantar pelas ruas de Lisboa e Santarem publicamente aquellas orações por sua alma que elle bem merecia, mas porém nunca ouvidas da bocca dos christãos e innocentes meninos, os quaes diziam assim:
_Viva el-rei D. Henrique nos infernos muitos annos, pois deixou em testamento Portugal aos castelhanos._
«Ainda que por obra isto não foi verdade, de tal maneira deixou elle estas cousas ordenadas, e sua tenção declarada aos que deixava commettido o negocio, que tinha razão o povo de lhe cantar estes louvores.
«Mas deixemos já de fallar nos escandalos que este Anti-Christo deu ao reino: porque esperamos ainda em Deus, e na sua justiça divina, que se forem vivos alguns portuguezes dos que agora andam escondidos, e perseguidos, e presos, quando Portugal resuscitar, que a sua ossada que Philippe trasladou para Belem, acompanhada das que estão em Elvas, no espinheiro de Evora, e em outras partes, sejam publicamente queimadas.
«Os cinco traidores do governo, com titulo de defensores nossos, e governadores do reino, herdando por morte d'este principe o odio que elle tinha ao snr. D. Antonio, e á nação portugueza, de maneira começaram logo, em tomando o governo, a guardar todos os respeitos a Philippe, e a seus mexedores ou embaixadores, e nenhum aos pretensores do reino, assim naturaes, como estrangeiros, que logo se viu, que dominava n'elles o humor castelhano. Por onde com infame nome que então cobraram para seus descendentes, terão sempre a culpa do nosso affrontoso captiveiro, e de todos os males que á sombra de boa guerra se fizeram, e ainda fazem n'este triste reino.
«Nem foi pequeno descuido, e pusillanimidade dos procuradores das côrtes, temendo isto d'antes, darem-lhes pacifica obediencia, reconhecendo n'elles a magestade real, porque além de n'isso abrirem mão da occasião e posse que o tempo lhes offerecia de ser do povo a eleição do rei, ou de quem os governasse até isto se determinar, mostraram grande cobardia, vendo já n'elles o que d'antes temiam, e (tendo as costas quentes em Santarem) não os mandarem todos após o cardeal a juizo a darem conta de suas damnadas tenções: porque, á fé, se Santarem desembainhava como o tempo pedia, a carniça começára em Almeirim por estes traidores, e outros que á sua sombra estavam claramente já vistos por falsos e castelhanos, e o reino despertára, e tornára sobre si para que nunca viessemos a poder de castelhanos, nem ousariam entrar elles cá, se viram estes começos sangrentos, porque são tambem ás vezes sadios, e necessarios...
«D. Manoel de Portugal, e um Phebus Moniz requereram nas côrtes que tirassem os governadores suspeitos no governo, ou lhes acrescentassem outros cinco; mas nada aproveitou para animarem os espiritos cobardes. Confiaram de suas palavras; e que, postos em tão alta dignidade com titulo de nossos defensores, fariam como leaes o que eram obrigados á patria e á justiça; mas foi claro e grosseiro engano: por onde os traidores cobraram tanto animo de o não verem em ninguem para lhes ir á mão, e de se verem reconhecidos por suprema e real dignidade, que sem mais temerem, nem fazerem caso de côrtes, continuaram desembaraçadamente com a venda e entrega do reino como lhes ficára encommendado do rei cardeal.
«Mas para sua traição e maldade ser mais abonada e espantosa, n'este mesmo tempo começaram a metter o insolente povo em pensamentos de guerra, e defensão da patria para o desmaginarem dos temores, e desconfianças que n'elles viam. Maldade foi esta nunca vista, nem lida em historia antiga, nem moderna, porque, se nos metteram a todos nos contractos, e partidos em que andavam com Castella, fôramos rendidos, ou entregues com menos deshonras, e perdas. Porque não estava Philippe desarrazoado nos partidos, e condições que nos commettia, ainda que nunca as cumprira, como fez a elles; mas estes senhores, para melhor fazerem seu proveito com este rei estrangeiro a quem pretendiam ganhar a vontade, quizeram elles sómente com os seus parentes e amigos ser os que negociassem esta contractação para que o povo (que d'estas meadas não tinha mais suspeitas e receios) na resistencia, e defensão que fizessem lhes acrescentasse a elles merecimentos e serviços para com sua magestade. E, assim, que palliadamente se communicavam todos n'esta conjuração com cartas, e correios muito tempo antes da morte do rei cardeal. E depois d'ella (que é caso de grande espanto) correndo entre elles esta linguagem de chamarem aos da conjuração _sisudos_, tendo por nescios e doudos a todos os que, não sendo da sua liga, queriam antes morrer valorosamente em defensão da patria que vêl-a entregue por traições e manhas, sem ordem nem justiça, a seus inimigos com perpetua infamia do nome portuguez, chamando aos taes por escarneo _os leaes_; de maneira que n'este tempo em que o reino ardia em motins e confusões, em temores e esperanças, suspenso e confuso do successo d'este negocio, começaram suas senhorias a ratificar mais seus ardis, e traições com mandarem cartas e provisões por todo o reino ao estado ecclesiastico em que pediam e recommendavam aos prégadores e curas das igrejas que claramente dissessem ao povo nos pulpitos, e suas estações que se animassem á defensão do reino, apparelhassem armas e fortificações nos muros, porque elles tinham já mandado prover os arraiaes, e ordenado fronteiros-móres, para o que passaram provisões a fidalgos para isso como foi a D. Diogo de Menezes na comarca do Alemtejo, D. Luiz de Portugal na comarca de Thomar, etc. E assim, com estas falsas mostras de leaes, alvoroçaram o povo a falsas esperanças de liberdade e defensão para de todo ficar perdido, e abatido no futuro. Possivel é que algum dos cinco governadores tivesse santo e leal intento n'este desenho; porque se affirma que alguns lhe resistiram, e que o arcebispo de Lisboa não quiz que dentro da cidade se publicasse, nem prégasse este apercebimento; mas elles todos juntos não fizeram mais n'este negocio da liberdade portugueza que o acima dito, sem metterem mais cabedal ou fazerem mais despezas para este effeito que de papel e tinta. É certo que cuidaram que assim como Philippe com estas armas conquistára a elles, e aos mais fidalgos do reino, assim tambem com papel e tinta nos defenderiamos dos tudescos e italianos que elle trazia enganados, havia dous annos, para o metter em Portugal.
«Tinha entendido este cobiçoso rei por espias allemãs que cá mandou reconhecer os fortes do reino em vida do cardeal-rei[3], que sómente para bater os castellos da raia, se n'elles houvesse de entrar, havia mister gastar toda a sua fazenda em polvora, porque se não tivesse por si todas estas achegas, a saber: armas, polvora, chumbo, tirando-nos tudo isto a nós n'este tempo, só Elvas com seu termo (aonde ha perto de quatorze mil homens de pé, e de cavallo) bastava para nos Olivaes, antes de chegarem os castelhanos a bater nos muros, lhes consumir todas as suas forças com a arcabuzaria portugueza. Os traidores dos governadores os seguraram d'este perigo.
..........................................................................
«Chegaram estes traidores a tanta cegueira e desavergonhamento, que, tendo jurado todos não tomar voz por algum sem se dar primeiro sentença pelos letrados deputados na causa, avocaram a si, e intentaram de que vindo a Setubal ser juizes em caso tão grave, tão duvidoso, e dar sentença por Philippe, para este fim se partiram de Almeirim para Setubal, porto de mar, convocando a ella os mais fidalgos da conjuração assim leigos, como ecclesiasticos, a saber: o meirinho-mór, D. Antonio de Cascaes, D. Fernando de Linhares, D. Jorge de Athaide, o bispo Pinheiro, e outros muitos que seriam perto de quarenta fidalgos conhecidos[4]. Mandaram logo fechar todas as portas da villa de pedra e cal da grossura do muro, deixando sómente duas abertas com guarnições de soldados postas n'ellas para que não entrassem dentro senão os da conjuração. N'este tempo o conde portuguez do Vimioso (herdando o espirito do conde D. Nuno Alvares Pereira, seu bisavô) que em Almeirim tinha já visto suas traições, os veio seguindo muito á pressa para vêr se podia impedir tanto mal quanto se temia. O que entendido por elles, antes do conde chegar, mandaram dar rebate ao traidor Diogo da Fonseca, seu guarda-mór na mesma villa, que por nenhum modo o deixasse entrar dentro. E assim o esperou ás portas com murrões accesos para lhe defender a entrada; mas, antes d'elle chegar, vendo estes traidores que o povo da villa sabia isto, e se começava a amotinar por parte do conde portuguez, em que escorava grande parte de suas esperanças, tornaram a mandar recado que deixassem entrar, em tempo que elle já vinha pelos arrabaldes. Depois, entrado na villa, e vendo que este conde portuguez com alguns procuradores das côrtes, que á sua sombra se foram tambem lá, para lhes resistir a seus maliciosos intentos de quererem ser juizes, e dar sentença, e que não podia isto ser pelas razões, e embargos que lhes punham, usaram de outra invenção o ardil não menos desaforado que o primeiro, querendo avocar a causa e litigio da successão do reino a votos dos que então se achavam presentes; e porque os procuradores das côrtes que ahi se achavam, á sombra do conde, eram leaes e muitos, determinaram de reduzir n'este conselho e eleição os votos dos tres estados--a saber: ecclesiasticos, fidalgos, e procuradores dos povos a numero de tres votos sómente, dizendo que não era tempo para mais vagar (por ser já Elvas entregue a Philippe) senão de votarem todos Portugal, ou Castella, por favas brancas e negras, os tres estados cada um por si; e, para onde prevalecessem os dous estados nos votos, assim se fizesse. E porque tinham por si os votos dos fidalgos, ao conselho acrescentaram alguns homens novos a saber: Bernardim Ribeiro, e outros por se segurarem mais n'este voto. Tinham tambem pela segunda liga o segundo voto que era o do estado ecclesiastico presente que era o arcebispo de Lisboa e capellão-mór, D. Jorge de Athaide, o bispo Pinheiro; o terceiro voto a que tinham reduzido todos os procuradores dos povos não lhe fazia mau jogo, ainda que votasse, por Portugal. Esta panella assim mexida por D. Christovão de Moura, e proposta no conselho pleno, não pareceu bem aos leaes. E logo o conde portuguez acudiu, e resistiu a ella com os procuradores de sua tenção, protestando que a tal eleição não seria valiosa, e que em caso tão grave, e tão importante a todo o reino, já que o não queriam deixar nos pareceres dos letrados, senão dos votos, que mandassem primeiro chamar os mais procuradores, e senhores do reino para que o que alli se accordasse e resolvesse fosse com consentimento e contentamento das partes. Mas como estes traidores do governo, e fidalgos da conjuração estavam de muito tempo penhorados por Castella, e não sómente na villa, mas tambem nas mesmas casas do duque de Aveiro em que se mostravam com muitos mosquetes, polvora e pellouros para fazerem a sua mais a seu salvo, esperando d'hora em hora pelas galés de Philippe que tinham mandado vir para este intento, a nenhuma cousa se demoveram pelas protestações, e requerimentos que lhes foram feitos sobre este caso, estando tão enfadados da tardança que as galés faziam em chegar, que se ouviu um dia esta palavra ao turco D. João Mascarenhas indo pela varanda que mandou tapar por se temer de algum pellouro bem merecido: «Ah! Philippe, que assim és vagaroso!» E como Deus não queria que o innocente e leal povo ficasse embaraçado na consciencia com a sentença e abominavel eleição do rei, cursaram tantos nortes e tão rijos todo o tempo que elles esperavam pela armada, que, depois de muitas consultas e confusões de accordos, que houve um um dia o de apunhalarem quasi todos os do conselho o conde portuguez.