Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 05 (de 12)
Chapter 5
A poesia, que um sorriso meigo de mulher agradeceu, logrou a sua nobre missão: divinisou-se. Essa outra cousa, que se chama poesia, porque metrifica a injuria ou o chasco vil á mulher, é a hydrophobia do talento, é enfermidade repugnante.
[6] Segue uma estrophe cuja nudeza, posto que não envergonhe o realismo hodierno, nos pareceu propriedade dos livros escriptos para _homens_, cuja deshonestidade os authores lisonjeam com as dedicatorias dos seus romances.
[7] _Metter medo aos medos de Santo Antão_, era adagio do tempo, que teve a seguinte origem: No terceiro domingo de agosto de 1577 sahiu uma procissão da antiga parochia de S. Julião. Entre varias figuras e carros triumphaes ia um homem representando Santo Antão no deserto, e á volta d'elle varios demonios com feitio de monos o aterravam com caretas e tregeitos medonhos.
A CASA DE BRAGANÇA «AB OVO»
D. Gonçalo Pereira, trigesimo-quarto arcebispo de Braga, quando estudava as santas theologias em Salamanca, achou compativel a sciencia de Deus com as curiosidades philoginias, gregamente faltando.
D'esta compatibilidade, em que foi parte integrante e constituinte, chimicamente fallando, D. Thereza Peres Villarinho, resultou nascer um menino robusto, como os recem-nascidos do _high-life_, o qual se chamou Antoninho.
Este D. Antonio Gonçalves Pereira ordenou-se, foi prior do Crato, e pai de 32 filhos, compativeis com o priorado. Uma das mães d'este rapazio todo chamou-se Eyria de Carvalhal, e das predestinadas entranhas d'esta menina apojou D. Nuno Alvares Pereira, pai da primeira duqueza de Bragança, casada com o bastardo de D. João I.
D'esta estirpe, bastantemente gafa de couto-damnado e bastardias, nos veio a redempção em 1640.
Bemditos e louvados sejam aquelles padres arcebispos e priores! Se elles fossem castos ou infecundos, não teriamos Braganças, e gemeriamos ainda hoje captivos de Hespanha.
O arcebispo descança ha 526 annos, em uma capella contigua á porta travessa da sé de Braga. La lhe vi, um d'estes dias, a figura esculpida no mausoléo. Portuguez de lei era aquelle padre, posto que se apaixonasse por hespanholas. O coração não tem _ubi_. O escolar de Salamanca lêra talvez o philosopho grego que dissera serem todas as mulheres uma. Se a natureza as não discriminára, como estremal-as por fronteiras?
Mas tão portuguez era que articulou em seu testamento que, se um dia a mitra primacial cingisse a fronte de prelado castelhano, fosse arrazada sobre suas cinzas a capella em que ia esperar o clangor da trombeta!
Ainda não vi impressa a noticia do desastre extraordinario que motivou a morte do D. Gonçalo. Nem D. Rodrigo da Cunha nem o padre José Corrêa, biographos dos arcebispos bracharenses, a souberam ou quizeram divulgar. Parece-me, todavia, que o primeiro, tanto por haver sido prelado como por genio investigador de antiguidade, não ignoraria o que era constante de um processo existente no archivo da mitra.
Eis o caso:
Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a provincia transmontana. Chegando a Villa-Flôr com grande sequito, travaram-se alli os seus criados com os moradores da terra, e de ambas as partes belligerantes morreram quatro homens e sahiram doze mal-feridos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residencia do arcebispo, mataram-lhe seis homens, e matariam o proprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cahir de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Villa-Flôr com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as mulas, de envolta com parte dos capellães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante n'aquelle tempo, fortificou-se no castello, fez lavrar instrumento publico, e enviou-o a D. Affonso IV.
O rei, poucos dias depois, mandou a Villa-Flôr uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrilegos que pôde colher na devassa. Esta vingança nem por isso alliviou os incommodos do arcebispo descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro mezes depois adormeceu no Senhor.
E assim morreu, por effeito de tão miserrimo lance, aquelle valente do Salado, que deu o exemplo da bravura e legou a espada ao seu quarto successor D. Lourenço, o raio de Aljubarrota. Fôra elle o defensor da cidade do Porto, quando o enfurecido amante de Ignez levava na sua vanguarda o incendio e a devastação. Fôra elle ainda quem acaudilhára a hoste de portuguezes, quando uma invasão de hespanhoes, em desapoderada fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo.
Santo Deus! um heroe d'esta polpa chega a Villa-Flôr, amotina-se a arraia-miuda, foge de escorregão por uma corda, cahe de cangalhas, amolga o osso sacro, e morre! Mas em fim, maior seria a desgraça de Portugal se elle, antes de lesar as vertebras lombares e regiões visinhas, nos não tivesse deixado os embryões da casa de Bragança na pessoa de seu filho prior!
UM INQUISIDOR PORTUGUEZ E O PRINCIPE DE GALES
O filho de Jayme I de Inglaterra veio a Madrid, em 1610, para vêr de perto a princeza Anna, filha de Philippe III, uma das mais formosas mulheres d'aquella época. D. Fernão Martins Mascarenhas, inquisidor geral de Portugal, e residente em Lisboa, assim que soube da chegada do heretico neto de Maria Stuart, escreveu-lhe com a santa presumpção de o reduzir á fé catholica. O principe, todo embebecido nas magias da filha de Philippe III, guardou a carta para mais tarde resolver esse negocio que se lhe figurou de importancia subalterna. A opinião de alguns historiadores, porém, é que a Inglaterra voltaria ao redil da igreja romana, não tanto pela influencia theologica da carta, como pelos filtros amorosos da princeza Anna. O principe de Gales pediu-a para esposa; e, quando em Londres se preparavam os festejos do noivado, morreu o noivo em 1612.
A carta do inquisidor bispo do Algarve é inedita. A este prelado devemos a impagavel fineza de expurgar das livrarias de nossos avós todos os livros gafados de heresias. Se não fosse elle, é muito de recear que em Portugal se lêssem então os livros que no seculo XVII propulsaram as sciencias na França e Allemanha: o que seria uma calamidade. Eis a carta do santo varão:
«A vinda de V. A. a esta côrte foi de tanta alegria para todos os que nascemos em Hespanha, que ainda aquelles que estamos mais distantes da sua presença, temos obrigação de fazer demonstração publica, assim em dar graças a Deus por esta mercê, como em significar a V. A. o animo, e a vontade com que festejamos a honra que todos alcançamos por esta causa.
«O que todos agora desejamos, e pedimos a Deus com continuas orações, para melhor servirmos a V. A. n'aquillo que mais lhe importa, é que queira V. A. ouvir e entender a razão do que por cá acha, e é professarmos a fé, e a religião que professa, e ensina a igreja catholica romana, verdadeiramente apostolica; porque o animo com que desejamos paz perpetua entre as corôas de Hespanha e Inglaterra, nos obriga a procurar a conformidade na religião entre os principes dellas, pois, como diz Santo Agostinho, não póde haver verdadeira concordia aonde os entendimentos estão desunidos na terra.
«Muitas razões se podiam allegar para V. A. se dispôr a fazer este serviço a Deus, e mercê a toda a Hespanha, porque os livros estão cheios d'estas materias, mas tres são só as que lembro a V. A. para satisfazer a obrigação que tenho n'este reino de Portugal.
«A primeira é considerar V. A. que isto que nós professamos em Hespanha, acerca da obediencia á sé apostolica-romana, professaram, sem nenhuma interrupção, os serenissimos reis de Inglaterra por mil annos, desde o tempo de S. Gregorio Magno pontifice, e Mauricio imperador, até o de Henrique VIII de Inglaterra, que por seus respeitos fez mudança na religião; porque como nunca se havia preferir o parecer dos que querem innovar cousas ao juizo d'aquelles que dellas perseveraram por tantos annos, bem se vê, a prudencia natural está pedindo que se repare muito n'esta variedade que se introduziu em Inglaterra nos derradeiros annos. E é muito para vêr a fórma em que escreveu Eduardo, rei de Inglaterra, ao papa Alexandre III, porque ambos estão condemnando o que agora se segue no mesmo reino com palavras tão claras que não soffrem interpretação alguma.
«A segunda razão é porque todos os reis de Inglaterra que antes de Henrique VIII tiveram o sceptro d'aquelle illustre reino depois de Alberto, fundaram a sua jurisdicção na obediencia á igreja romana, em que presidem os verdadeiros successores de S. Pedro, principe dos apostolos, e vigario universal de Christo na terra, até Ina e Ataulfo fazerem o proprio reino tributario da sé apostolica, e este tributo durou por novecentos annos. E ainda que alguns reis de Inglaterra houve que em cousas e casos particulares guardaram menos respeito do que deviam aos pontifices romanos, nunca lhes negaram o serem cabeças da igreja catholica, e sempre depois vieram a fazer penitencia de seus erros, como consta dos proprios annaes e chronicas de Inglaterra que Polidoro Virgilio II seguiu, e tratou em sua historia.
«A terceira razão é porque o mesmo Henrique VIII que fez esta mudança, quando morreu declarou que errára, e por esta causa expirou com summa pena, e inquietação, como consta da relação que fizeram homens de muita virtude, letras, e authoridade que assistiram á sua morte, e os aponta Sandero, com outros muitos historiadores inglezes que trataram de suas cousas; e se não remediou seus erros foi por occulto juizo de Deus que permittiu lhe faltasse n'aquella hora quem o encaminhasse, e lhe lembrasse o que o proprio escreveu tão doutamente contra Luthero, e dirigiu ao papa Leão X.
«Por onde tornando V. A. a receber aquillo que os reis seus antecessores tiveram e professaram por largos annos, sendo tão virtuosos, prudentes e valorosos, como o mundo todo reconhece, não fará mais que restituir á fé a casa d'onde contra razão e justiça anda desterrada; e com esta restituição além da gloria immortal, que alcançará em todos os seculos vindouros, obrigará a Deus Nosso Senhor abrir as mãos da sua liberalidade para lhe acrescentar muitos reinos com novas prosperidades temporaes.»
A TRILOGIA DA «ACTUALIDADE»
Quando o snr. Moutinho de Sousa, ha pouco tempo, negociava, em Lisboa, actores que preenchessem e aperfeiçoassem a companhia dramatica do theatro Baquet, o snr. Silva, roto saboyardo do escangalhado realejo litterario da _Actualidade_, escreveu, com o desplante da sua ignorancia impenitente, que a escripturação dos tres indicados actores formava uma agradavel TRILOGIA.
Tres actores, tres pessoas--uma _trilogia_!
O leitor (se não é elle) sabe que os gregos denominavam _trilogia_ o conjuncto de tres peças theatraes, quando o poeta pleiteava o premio da tragedia. Uma compoz Eschylo, a mais commevedora que nos legou a antiga scena. Shakspeare fez uma _trilogia_ com as tres tragedias que completam Henrique VI. O _Walstein_ de Schiller é tambem uma _trilogia_. Querem os francezes por igual ter a sua na concatenação do _Barbeiro de Sevilha_, _Casamento de Figaro_ e _Mãi delinquente_ de Beaumarchais. Tambem nós, em os nossos humildes fastos litterarios, temos uma _Trilogia romantica_, em que se annunciavam collaboradores Antonio Pereira da Cunha, D. João de Azevedo, e João Machado Pinheiro (visconde de Pindella).
Por analogia, tres composições em um livro, tres tratados, tres discursos, poderemos denominal-os _trilogia_; mas chamar _tratado_ (_logos_) ao snr. Pola, e _composição_ á snr.ª Virginia, e _discurso_ á snr.ª Emilia das Neves, hellenisando-as pessimamente, seria uma fineza grega, se não fosse uma asneira portugueza.
Este snr. Silva (aviso aos naturalistas) dizem-me que tem as orelhas de tamanho regular. Elle e os 2 Joaquins são tres partes de uma só cousa--_trilogia_. Aqui vão bem; cálham: são tres peças que arredondam um tolo superlativo. Ainda, no dominio grego, podéramos chamar aos tres--_triga_. (Veja um _Lexicon_ o snr. Pinto). E, quando apparecer um quarto, por não sahirmos de Athenas e das analogias remotas, os quatro serão _quadriga_. Ora ahi tem gregarias em barda. Divirta-se.
_P. S._ Eu dissera-lhe _adeusinho_, quando fui _banido_; mas elle, mentindo e espremendo novamente o figado, espirrou um golfo de bilis negra. Faz-se mister não levantar mão das ventosas. Ou elle estuda, ou eu o esfolo.
FIM DO 5.º NUMERO