Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 05 (de 12)
Chapter 4
O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a figurar por alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua mudança para a ilha é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam abaixo de toda a critica: D. Affonso VI não era admittido a escrever; o mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppôz as cartas para dar ao preso a laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro. Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D. Pedro em côrtes a pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha realeza.
Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto aos bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança. O governo passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho e prova de sua torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e póde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de julgar que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada individuo é obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para ficar doudo e bem sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus verdadeiros senhores e tyrannos.
Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou de má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a lingua do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo pretenderam fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula, nem suscitaram as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão inauditas usurpações e falsidades, e de tão grande subserviencia aos estrangeiros e a todos os inimigos da nossa fé e da nossa gloria e renome.
João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam entre nós; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes á lei regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os Tusculanos de Cicero e de sua REPUBLICA, só para a posteridade; e estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar e apparecer sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e eterno d'el-rei o snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades causam tedio e nojo. D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal sempre foi protestante; mas não dizem como se retractou a viuva, nem diz como precisou a ignobil memoria de D. João IV de ser absolvida como contrita á hora da morte para ter sepultura de corpo.
Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte e pensamento do desprezo da santa lei e fé.
Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e para resuscitar os immortaes.
Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros da maior abominação de seu secreto esconjuro.
Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico reinado e se lhe põe o nome de _mechas_, ou de _põe mais_..., mais adiante o fazem _José do nabo_, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da nova crueldade dos monstros.
Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para a sua ruina e perdição.
A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro. Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter n'este mundo e no outro a mesma sorte--a catastrophe--e o mesmo exito e cruel engano.
RENAN
O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto Renan. Estas linhas do _Jornal da Noite_ compendiam todos os argumentos do esclarecido publicista: _Merecem respeito as convicções. Mas a consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de todo o ponto respeitavel._
É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da Republica: _nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos intolerantissimos como frades_.
O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão do author da _Vida de Jesus_. Os adaís da liberdade forjam golilhas de phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia. Offendem e injuriam.
O author do romance intitulado _Vida de Jesus_ é malquisto dos seis academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é motivo bastante a que as almas profundamente christãs se devotem á apotheose do depreciador de Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do romance nos descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do chaldeu.
Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia, mórmente quando, á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da _Vida de Jesus_, e o author da _Historia geral das linguas semitas_.
Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que Renan recebesse publicamente em Portugal a consideração que o snr. Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.
CORRECÇÕES
Convém fazer algumas ao artigo _O Decepado_ (n.º 4, pag. 71). Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á gratidão o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas tão remotas e alheias das _novissimas_ charadas, das _capitações_, do _don-juanismo_ e dos bancos.
Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e, se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o appellido que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que levante turbilhões de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal. Eis a carta do snr. J. F. Torres:
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«Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu conterraneo Duarte d'Almeida, _o Decepado_. Ora, v. incansavel em revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em tão gloriosa e ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o arrojo de lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu author.
«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella[4]; mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho, para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem á capellinha de Santo Amaro, pertenças da mesma casa Penalva. Existe outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunços.
«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia ter sido uma vivenda ostentosa, como se vê do que ainda hoje existe, pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa d'Oliveira.
«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada alli existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha porém na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S. Francisco de Santarem.»
Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: _A exc.^ma madrasta d'el-rei D. Luiz I calumniada_.
O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra biblica.
João de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em Coimbra o dadivoso prestigiador:
Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo Nos prodigios da milagrosa vara Que o Senhor Deus te deu: Teu coração, Moysés do christianismo, Tua alma é que eu admiro, e te invejára, Se o que é teu fosse teu.
Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus, que tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita, ainda não é banqueiro, segundo me consta.
Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras, sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do _Instituto_:
Le coeur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait. Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel Une promesse sainte, dans un voex solennel!
Si, par lui, mon talent me donne la richesse, J'ai ma mission aussi, soulager la détresse, Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi, Pour ramener enfin le calme en mon esprit.
N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára n'aquelle recinto da _charmante jeunesse_. Queixava-se outro sim, de ingratidões que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á orla de um throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces!
E foram os rapazes de Coimbra--aquelles viventissimos rapazes de 1859, Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração retranzido. _Gloire à vous!_ exclamava Herrmann.
[4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto nobiliario de testemunha coeva e ocular.
[5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde nascera S. fr. Gil.
MAU EXEMPLO DE POETAS CASADOS
... Une femme prudente y doit regarder à deux fois avant d'épouser un poete!
J. JANIN, _Le livre_.
Se o fino amor não é condão dos poetas, é escusado esgaravatar essa rara perola em outra concha. O amor duradouro é incompativel com a creatura sujeita á decomposição e á morte. As recomposições interiores são incessantes, até ao momento em que o espirito vital se evóla, e a podridão começa.
As reformações da alma operam-se mais de afogadilho que as do corpo. Envelhecem almas em corpos novos. Muita gente sente o graváme e a melancolia da idade de ferro nos annos dourados. Ha tambem o reverso d'isto. Almas floridas em corpos devastados. Os primeiros tem auréola de poesia lugubre. Os segundos são lastimaveis quando, em honra de suas cãs, arrancam um a um os renovos da alma, ou os vão delindo com secretas lagrimas; e são irrisorios, quando aviltam a magestade da velhice, dando resplendor á calva com um nimbo de namorados.
Foi d'esta especie D. Thomaz de Noronha, cognominado, no seculo XVII, _Marcial portuguez_. Amou numerosas primas, e casou com uma, de quem ficou viuvo. Deus sabe como o coração de sua esposa Helena de Salazar foi anavalhado de ciumes para a cova! O perfido, em quanto se andava pela côrte diluindo em trovas a fé conjugal, deixava em Alemquer a consorte, cuidando dos trigaes e dos parrécos.
Casou em segundas nupcias com D. Catharina da Veiga, tanto ou mais desafortunada que a primeira. Pensava ella, porém, que o marido, ahi pelos cincoenta, ganharia juizo, e se faria serio, acolhendo-se ao santuario da familia com a lyra e com o rheumatismo.
Enganára-se D. Catharina, a infausta esposa, que, por lhe agradar, se bezuntava de posturas, e arrebicava de inuteis artificios. Santa senhora!
O dissoluto não só a trahia, senão que a zombeteava em verso, depois de a ter mofado na prosa caseira--a prosa de marido enfastiado, que é o vasconso mais barbaro da glottica humana.
Aqui está um dos cantares com que o sobredito _Marcial_ desprimorosamente chasqueava as caricias, os vernizes, as tranças retintas, os algodões que lhe acolchoavam o seio, e arqueavam as ancas da esposa, em fim, tudo aquillo que a paixão engenhosa inventára, á custa de inexprimiveis magoas e dolorosos retrocessos nos vestigios da belleza perdida. E observem que o cruel a denomina _Sara_, equiparando-a á velha da Biblia. Lêde, senhoras, que hospedaes poetas no coração:
Escuta, ó Sara! Pois te falta espelho para vêr tuas faltas, não quero que te falte meu conselho em presumpções tão altas.
Lembre-te agora só que és terra e lôdo e terra te has-de vêr do mesmo modo; mas não te digo nem te lembro nada porque ha muito que em terra estás tornada.
Que importa que, alguma hora, a prata pura de tuas mãos nascesse, e que de teus cabellos a espessura as minas de ouro désse!
Se o tempo vil, que tudo troca e muda, sómente do ouro poz, por mais ajuda, em tuas mãos de prata o amarello, e a prata, de tuas mãos em teu cabello! se um tempo, foram de marfim brunido no seculo dourado, não vês que o tempo as tem já consumido, não vês que as tem gastado?
Deixa, Sara, deixa esses vãos enredos; que eu, quando toco teus nodosos dedos, me parece que apalpo, e não me engano, cinco cordões de frade franciscano. Viciando a natureza com taes tintas, com pinceis delicados, jasmins e rosas em teu rosto pintas. Deixa esses vãos cuidados; pois quando tua cara me alvorota, mascara me parece de chacota; e, se é das tintas, digo n'este passo que a mascara está inda em calhamaço.
Como pretendes, pois, com mil enganos, vestir mil primaveras sem ter a primavera de teus annos! Como não desesperas! que o tempo chegou já ao seu estio, aonde toda a fruta perde o brio; parecendo tua cara desmedrada fruta que se seccou, noz arrugada.
Se feitura de Deus Eva não fôra, dissera, sem porfias, que de Eva foste mãi, velha senhora, pois te sobejam dias para esta presumpção que agora tenho; e, concluindo em fim, a alcançar venho, pois alcançar não posso tua idade, que deves ser a mãi da Eternidade.
Teus olhos, por descargo da consciencia, a idade os tem mettidos em duas lapas, fazendo penitencia; e estão tão escondidos, que, quando os vou buscar porque me choram, não acerto co' bêco aonde moram; porque o tempo os mudou, seu passo a passo, da flor do rosto lá para o cachaço[6].
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Em fim, senhora, se te vejo em osso, com essa cara posta em tal pescoço, me parece, tirada a cabelleira, em cima de um bordão uma caveira.
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Sabe que sei, e d'isto me não gabo, que te alugou sem duvida o diabo, invejando teu corpo, cara e dedos para a Santo Antão fazer maiores medos[7] E deixa, em fim, tanto vão cuidado; e ao sagrado te acolhe primeiro que te ponham em sagrado. Este conselho colhe; admitte o que te digo sem desgosto; que eu, quando vejo teu funesto rosto, d'elle tambem o seu conselho tomo, pois cuido que me diz: _Memento, homo!_
Esta poesia ou outra peor tesourou os ligamentos da vida de D. Catharina, abrindo-lhe as portas do paraiso. Elle, o viuvo consolavel e impenitente, por aqui ficou até aos oitenta ou mais, deshonrando a idade provecta com poemas sordidos, e taes que os prelos não os despejaram á circulação dos enxurros. Sem embargo, Jacintho Cordeiro, no _Elogio de poetas lusitanos_, conceitua n'esta altura o descaroado marido:
D. Thomaz de Noronha em tanto augmento Confirma de sus versos la escellencia Que admirando sutil su entendimiento Puede hazerle a Quevedo conpetencia: Alma de tan ayroso movimiento, Luz parece de sol de su presencia Y sol a cuya luz crecen desmayos, Aguila no soy yo de tantos rayos...
Que te fulminem, Jacintho!--diria um leitor circumspecto. Achou-lhe airoso movimento na alma, assim como nós, os filhos d'este seculo cortez e cavalheiroso, lhe achariamos na arca do peito as vertigens ebrias d'um trovista de tasca.