Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 05 (de 12)

Chapter 2

Chapter 23,756 wordsPublic domain

Este livro dos SALÕES será a porção mais para durar e sobreviver ás futilidades das _Noites de insomnia_. O visconde de Ouguella, ainda em annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado Rousseau: _Je sens mon coeur et je connais les hommes_. O seu livro esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas e pungentes ironias de Proudhon--aquelle vidente que Deus mandou apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda Jerusalem derruida.

A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os SALÕES, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da historia--a Fatalidade inflexa--; e emerge á flôr d'estes parceis, que nos atormentam, as evoluções da Providencia.

Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma balbuciação em linguagem nova.

A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não se compadece com uns corações que nasceram velhos.

Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que moralisemos as _massas_. Mas sejamos todos _massas_ em quanto o povo--a arraia das hortas e das galerias parlamentares--desconfiar que lhe desce do alto o exemplo que a dissolve e acanalha.

O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em _palavras de crente_, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay. Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis seus Pansas.

E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos SALÕES, e peço ao visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto lhe deparou o manuscripto do desembargador.

OS SALÕES

INTRODUCÇÃO

... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière sous le ténébreux manteau de l'océan.

THEOPHILE GAUTIER.

Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei o seguinte:

«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do hospital de S. José.»

Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o espirito.

Resolvi ir á feira da Ladra.

Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano, na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado.

Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, aprendem-se nas _Mil e uma noites_, adivinham-se nas chronicas dos nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um mytho. Para nós--pobre povo--empurrado para as vagas espumosas do oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.

E o que somos nós? Deus o sabe.

Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam thronos e proclamam republicas.

«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das raças e linguas orientaes.

As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A _graça_, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de reminiscencias tão pagãs.

E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.

Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal artigo--esculpido hoje nos bronzes da historia--com esta phrase singela e prophetica: _Pobre França, pobre rei!_...

Se eu dissera aqui: _pobre_ Portugal!--Não digo.

Entrei na feira da Ladra.

Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.

Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões indo-britannicas.

Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.

Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:

«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»

Achava-me em presença do inventario de uma capital.

Examinei:

Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de _parvenu_, um saleiro da modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.

Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas, tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha, talvez a ultima illusão dos seus possuidores. _Sic transit gloria mundi_, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros dourados dos triumphadores romanos.

Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as civilisações.

Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente lustrosa--despojo venerando de algum desembargador da casa da supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte, abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes inspirações de Benvenuto Cellini.

Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. Envolvia-se n'um cafran ou burnus--uma especie de farrapo de panno, que lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um pedaço de cera amollecido entre os dedos.

Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe, uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!

A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas allucinações e devaneios acusticos.

Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?

A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, algum preito a Satanaz,--e depois accentuou em voz clara e cadenciada as seguintes palavras:

--Dê-me dez libras, e leva-o de graça.

--E a chave?

--A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito nos ultimos annos da sua vida.

--Conheceu-o?

A velha sorriu-se.

A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo infernal.

--Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu vendo os moveis para comer.

Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua curta narração.

Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa como um mysterio.

Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:

AO LEITOR

Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com ellas povoar

OS SALÕES

Segue-se o livro.

Vou publical-o.

VISCONDE DE OUGUELLA.

ECCE ITERUM «SILVA» CRÍSPINUS

Escreve elle no n.º 69 da _Actualidade_:

«Publicou-se o n.º 17 da _Tribuna_. Insere artigos e versos dos snrs. Ferrer Farol, Guimarães Fonseca, e outros escriptores, e não desmerece dos numeros _ulteriores_.»

_Ulterior_ quer dizer _que vem depois_, ou _que tem data posterior_.

Á vista do quê, o n.º 17 já publicado é posterior ou _ulterior_ ao n.º 18. Segundo este systema chronologico de Pinto, o _depois_ está primeiro que _antes_, 6 é a continuação de 7, e os filhos nascem primeiro que os seus paes. Se elle quizesse dizer que os n.^os 18, 19, etc., da _Tribuna_ promettiam ser iguaes aos seus precedentes, escreveria: «Tudo nos assegura que os numeros, que hão de sahir anteriormente, serão dignos dos numeros que já sahiram posteriormente.»

Sem impedimento d'estes e d'outros anteriores e ulteriores furunculos de aposthema intellectual, proponho á academia real das sciencias este snr. Silva... para varredor.

SANTOS-SILVA

Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e os sete orphãos do egregio orador!

Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos filhos!

Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos banhados das ultimas lagrimas de seu pai.

Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.

João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado grupo de crianças que punham as mãos--expressão unica das agonias inexprimiveis.

A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do Altissimo.

* * * * *

Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e energico orador parlamentar.

Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem.

Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo adeus.

E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis criancinhas.

Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...

Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia de Santos-Silva?

Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.

«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se enganam, por que são os que mais exageram.

«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres.

«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do santo amor de seus filhos.

«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus. Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não desmentir.

.........................................................................

«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus antecessores.

.........................................................................

«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a vida de seus filhos.»

Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina, posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia.

O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: _A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus antecessores_.

Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete filhos.

DOUDO ILLUSTRE

O arcebispo de Mitylene, D. Domingos José de Sousa Magalhães, doutor em canones, jurisconsulto eminente, orador esclarecido tanto no magisterio universitario como no parlamento, ensandeceu em 1858, quando contava quarenta e nove annos, e acabou de morrer em 1872, em Villa Pouca de Aguiar, na casa onde havia nascido.

Motivou a demencia d'este douto prelado a suspensão das funcções de provisor e vigario geral do patriarchado de Lisboa, dada pelo cardeal D. Guilherme I. A causa da suspensão, pleiteada acerbamente por parte do arcebispo e dos seus contendores, foi um opusculo d'aquelle prelado, que denunciava irregularidades e delictos ecclesiasticos. Teve parte n'esta pugna um dos nossos contemporaneos mais abalisados em jurisprudencia e em variada litteratura, o snr. visconde de Paiva Manso, a favor do arcebispo, e contestando o doutor Cicouro. Pleitearam com energia, por parte do patriarcha, o conego João de Deus Antunes Pinto e o reverendo academico Francisco Recreio, digno dos vigorosos impugnadores.

Como quer que fosse, o arcebispo de Mitylene perdeu na brava luta a razão; e, ao parecer de illustrados juizes da sua justiça, foi a iniquidade que matou o robusto athleta.

Transferido de Lisboa para o amparo de sua familia em Traz-os-montes, a esperança de restaurar-lhe o juizo desvaneceu-a a progressiva condensação da escuridade á volta d'aquella alma triste, lethargica, absorta na contemplação estupida das lagrimas dos parentes e amigos.

Do torpor silencioso e abstrahido passou ás manifestações irrequietas do delirio, do sonho, das miragens que lhe tumultuaram, durante quatorze annos, nas suas escuridões interiores.

Escrevia muito; dormia poucas horas; palmilhava em vertiginoso regirar o taboado do recinto, onde se refugiava dos olhares amargurados de sua familia.

Possuo pequena parte dos seus manuscriptos autographos, com as datas de anno, mez e dia.

Deprehende-se de alguns que o illustre alienado se considerava rei de Portugal, umas vezes; pontifice outras; e não é raro enxertar-se em jerarchias mais elevadas no reinado dos puros espiritos. De envolta com os dislates d'aquelle sonhar incessante, ha, nos escriptos do homem que fôra um dos mais alumiados da sua época, admiraveis lanços de linguagem, de conceito e até de razão. Que espantoso contra-senso! É que tambem nos delirios ha raptos de luminosas visões.

Os seus escriptos são tratados, theses, dissertações cada qual com seu titulo, compostos desde o segundo até ao penultimo anno da demencia. Conhece-se, apalpa-se o espessar progressivo das trevas, a vertigem da desordem, o vasquejar das derradeiras scintillas.

Eis-aqui os titulos: _O gigante--Os privilegios da corôa dynastica--As cinco questões de direito natural, ou o estudo da philosophia de direito na universidade--A missão divina--A chronica real--Da santidade do direito--Cemiterio protestante--A tyrannia impossivel--O mesmo Senhor fez os seus martyres, epistola de S. Paulo aos fieis de Galacia--O impassivel--O erro commum--Os tres fundadores--O cordeiro--A surpreza--O burrinho e o menino dos protestantes--O templo--O penhor e a hypotheca, ou o juro e a herdade--O titulo da realeza--O parocho--O demonio tentador--A espada de S. Bruno--O enigma--Mascara de ferro--O sonho--D. Maria Caraça Bonaparte ou a burrinha protestante--O viatico da eternidade--A estrella do norte ou a misericordia dos mares--A vacca--Apologo--A catastrophe_.

Estes manuscriptos comprehendem sessenta cadernos em folha. Em poder da familia do finado arcebispo ainda ha rimas de papel escripto no trajecto de doze annos. Tirando ao acaso um de entre os cadernos cosidos com algodão verde e escarlate--para dar ao leitor a manifestação escripta de uma alma que esvoaça á volta dos residuos ainda bruxuleantes da sua razão---aqui vai a