Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 05 (de 12)
Chapter 1
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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 5--MAIO
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON _96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON _4, Largo de S. Francisco, 4_ BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
Petronilla, Gamarra, Zamperini--Entrada para os salões--Os salões, introducção, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Ecce iterum «Silva» Chrispinus--Santos-Silva--Doudo Illustre--A catastrophe--Renan--Correcções--Mau exemplo de poetas casados--A casa de Bragança «ab ovo»--Um inquisidor portuguez e o principe de Gales--Trilogia da «Actualidade»
PETRONILLA, GAMARRA, ZAMPERINI
Assim se chamaram as tres actrizes que mais dinheiro vampirisaram aos argentarios portuguezes no seculo XVIII.
Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745. Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas cabeças, sem respeitar as testas coroadas.
Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta. Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor platonico. Havia no theatro o _camarote dos frades_, collocado por baixo do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas não passavam d'estes resfolegos os frades.
A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, _morceau friand_,--dizia o cavalheiro de Oliveira--que só aos grandes senhores competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.
D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de ouro e pedras.
Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras carregadas de riquezas--diz Francisco Xavier de Oliveira--e acrescenta que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja. (_OEuvres mêlées..._ Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.
* * * * *
Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e cortezão--assevera Francisco Xavier de Oliveira.--D. João V dava-lhe uma pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e medrou longos annos em Lisboa.
Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de grande fôlego.
Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro, justiçado como regicida em 1758.
Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.
Amor, zelos, a gangrena que afistulava os costumes do tempo, e o descredito das ordens religiosas femininas, compelliram o marquez a instar com a Gamarra que professasse no mosteiro de Santa Monica, da ordem de Santo Agostinho.
E professou.
O marquez não despegava das grades, senão para servir o rei como mordomo-mór. Tinha esposa e filhos, já homens. Um foi o que fugiu com D. Maria da Penha de França e não voltou; o outro, já tambem sabem que tragico destino teve. Não tinham tido pai, senão para lhes dar o exemplo da libertinagem, com cabellos brancos.
E, por isso, a freira monica o ralava com impertinencias, instillando-lhe no peito bravos ciumes, que eram a vingança da moral.
O marquez recebeu um dia simultaneamente duas ordens: o rei chamára-o ao paço, e Soror Isabel ao convento. O mordomo-mór oscillou alguns minutos quando já ia caminho da côrte, e mandou retroceder o coche para Santa Monica.
--Vês tu quanto te amo?--disse o marquez--dei-te a preferencia, entre ti e o rei.
--Se fizesses outra cousa nunca mais me verias--replicou ella abespinhando-se.
--Mas olha que me arrisco a muito, obedecendo-te!...
--O teu dever é esse... _Antes que todo es mi dama_, diz Calderon de la Barca; e, se te não arriscares, e tudo sacrificares ao meu prazer, fraco amor me tens.
_J'ai entendu moi-même tout ce petit dialogue, où il n'y a pas un seul mot de ma façon_, diz o cavalheiro de Oliveira, (_OEuvres mêlées_, t. 3.º p. 34).
Isto é apenas irrisorio, mas desculpavel. Todos temos na vida a má digestão de um pedaço de Gamarra. O que excede toda a piedade, que uns merecem os consocios de infortunio, é que ella o trahia com um Valentim da Costa Noronha, rapaz galante, valente, o unico por quem ella sentira alguma cousa que a indemnisava da repugnancia do habito. O cavalheiro de Oliveira conta-nos assim as miudezas d'aquelles amores, que levaram o velho marquez á cova:
«Conheci Gamarra melhor que ninguem. A estreita amizade, que tive com o Noronha, me occasionou durante dous annos ensejo de vêl-a, conversal-a, e conhecer-lhe os merecimentos e defeitos. Noronha, apaixonado por ella quanto cabe em peito de homem, sacrificou á intriga d'esta actriz monastica tudo que mais caro lhe era no mundo. A estima devida á esposa, o respeito paternal, o affecto dos melhores amigos, o porvir dos filhos, socego, interesses, em fim, a propria vida que expoz em muitos lances á vingança do marquez, cujo respeito benemerito soffreu muitos desfalques de encontro á coragem intrepida de Noronha... Era elle, porém, o possessor unico da ternura de Gamarra. O marquez traçou perdêl-o. Duas vezes projectou matal-o. Estava eu com Noronha, uma noite, quando o aggrediram: felizmente repulsamos os assassinos. A final, o marquez, authorisado pelo rei, logrou encarcerar Noronha no Limoeiro, onde esteve nove mezes; e com muita difficuldade obteve soltura depois da morte do marquez. Fr. Gaspar, tio d'aquelle senhor, e valido do rei, fêz quanto pôde por demorar tão injusta prisão, vingando d'est'arte os manes do marquez, seu sobrinho.» (_Obra cit._, pag. 34 e 35).
O mordomo-mór estava na idade critica dos cincoenta em que as paixões atabafam o coração como aos dezesete. Os velhos, quando amam, teem a sensibilidade das meninas que principiam a amar. Se não se percatam e escudam com o arnez da paciencia e da dignidade das cãs, _maus bichos os comem_, como disse o Sá de Miranda.
Maus bichos começaram a desfazer o corpo, que tão regaladamente vivêra, d'aquelle D. Martinho de Mascarenhas, terceiro marquez de Gouvêa, sexto conde de Santa Cruz, assassinado pela perfida actriz de Santa Monica no dia 9 de março de 1723.
O derradeiro golpe recebera-o com a noticia de que ella havia dado a Valentim de Noronha o retrato que lhe elle dera engastado em moldura de brilhantes... _Il me fit voir_ (diz o amigo de Noronha) _entre ses propres mains ce même portrait du marquis, le même jour qu'il en avail fait présent à son infidele Gamarra._
Se era formosa? Responde o cavalheiro que diz tel-a conhecido a preceito, _mieux que personne_:
«Era com certeza a mais formosa actriz que vi no theatro de Lisboa: era moça, azevieira, travessa, vivissima, espirituosissima, feiticeira em todos os seus requebros. Tinha um só defeito: era ser treda. Atraiçoava igualmente o marido e o amante. Por um tinha aversão, por outro sómente estima. Se amou rasgadamente alguem, foi Noronha.» (_Obra cit._, pag. 35).
Assim que o finado marquez a dispensou do capricho do habito, quiz sahir do convento, e naturalmente visitar Valentim no Limoeiro. A prelada oppoz-se. Mandou chamar o marido, que ainda não era frade. Communicou-lhe o proposito de se declarar casada e passar-se ao dominio de seu homem, como era de justiça. O marido sondou a profundidade do seu direito e a profundeza do peculio da mulher. Requereu, disputando-a ao patriarcha Santo Agostinho. Sahiu-lhe a igreja com embargos á annullação dos votos da freira. A religião permittia que ella os transgredisse com o marquez e com o Valentim; mas que os annullasse para se tornar ao marido, isso era feio. A final, Soror Isabel safou-se do mosteiro, metteu-se em Castella, e voltou a representar com o marido no theatro de Madrid. (_Obra cit._, pag. 33, nota _A_).
Quanto a Valentim, não lhe faltou medo que D. João V o mandasse enforcar como fizera áquelle gentil rapaz que ousára disfarçado em carvoeiro visitar-lhe, no convento da Rosa, a cigana Soror Margarida do Monte, a quem o rei mandára vestir o habito. O desgraçado ficou na tradição com o nome de _carvoeiro da Rosa_. Ao proposito d'esta perigosa cigana, escreve o tantas vezes citado cavalheiro de Oliveira:
«Vi o proprio monarcha arrastar duros grilhões, e longo tempo captivo da astucia ou do magismo de Margarida do Monte. Quantas desordens, quantos desterros e mortes causados por intrigas d'aquella mulher! Morreu enclausurada no mosteiro da Rosa, como freira da ordem de S. Domingos. Este pai, que lhe foi imposto á força, não lhe incutiu mais juizo. Induziu ella um galã a visital-a na cella. Fez-lhe a vontade o desgraçado; foi preso lá dentro, e pouco depois enforcado.» (_Obra cit._, pag. 66).
O encarregado da prisão foi o desembargador Marques Bacalhau, homem de cruas entranhas, chamado sempre a funccionar nos dramas que terminaram pela catastrophe da forca.
Correram então em Lisboa umas insipidas quadras de queixume de Margarida do Monte contra o desembargador aguazil do _carvoeiro_. Diziam assim:
Oh! descahido te vejam Estes olhos peccadores: Arrastado e perseguido Já que perco os meus amores.
Todas nós, as freiras juntas Te havemos de praguejar Pois por caber com el-rei Nos vaes desacreditar!
Justiça de Deus te cáia, E com todo o seu poder; Na bocca de um bacamarte Te vejamos padecer.
Homem, deixa-nos viver, Não sejas tão turbulento; Deixa divertir as tristes Que não sahem do convento.
Etc.
Um amigo, que me ouviu lêr estas noticias do theatro do seculo XVIII, perguntou-me se eu as bebi nos livros do snr. Theophilo Braga.
--Que livros?
--A _Historia do theatro portuguez_, onde elle conta pouco mais ou menos essa historia. A paginas 8 do 3.º tomo diz elle o que vossé diz do actor hespanhol Antonio Ruiz.
Possuo com singular curiosidade os livros originaes d'aquelle sabio. Abri a obra citada e li. Effectivamente copiei o doutor Theophilo, como o leitor vai observar. Em expiação da minha fragilidade, confesso a culpa, confrontando o original e o plagiato.
ELLE
(EM 1871)
_Antonio Rodrigues hespanhol sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e palaciano._ Era homem de bem tanto ás direitas como actor de merito. _Do seu_ porte _honrado_ redundou-lhe _uma pensão annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._
HIST. DO THEATRO PORT.
EU
(EM 1866)
_Antonio Rodrigues, hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa. Era bonissimo poeta, philosopho, historiador e palaciano._ Era tão homem de bem quanto actor de merecimento. _Do seu_ proceder _honrado_ resultou-lhe _uma pensão annual de cento e vinte moedas de ouro que lhe dava o rei. Querido das mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos prelados do reino, até do povo se fez idolatrar._
O JUDEU (romance).
Quem, primeiro que elle e eu, dissera isto em francez foi Francisco Xavier de Oliveira, em um livro que provavelmente o snr. Theophilo nunca viu; mas adivinhou-o, e eu copiei d'elle. Porém, no acto da copia, deslisei da versão do professor de litteratura em tres pontos. 1.º Elle escreveu em 1871: _Era homem de bem tanto ás direitas como auctor de merito_; e eu escrevi em 1866: _Era tão homem de bem quanto author de merecimento._ E o cavalheiro de Oliveira tinha escripto: _Il étoit aussi homme de bien qu'il etoit Acteur de mérite._ O _tanto ás direitas_ do snr. Theophilo é uma perola de estylo de que eu não quiz defraudal-o nem _ás tortas_. 2.º ponto: Elle disse: _do seu porte honrado_. E eu, gafando a phrase de francezia, puz _proceder_ em lugar de _porte_. Foi ignorancia que me pesa como _porte_ ou carreto; mas ainda me fica _porte_ ou capacidade para mais toneladas de materia bruta com que me quero dar _porte_ ou importancia. 3.º ponto da minha divergencia, quando em 1866 eu copiava o que o doutor escrevia em 1871: Elle pôz _redundou-lhe_, e eu _resultou-lhe_. Do feitio que elle escreveu a idéa fica mais aceada. Na nova edição do _Judeu_ hei de apanhar-lhe o _redundou-lhe_ que é bom.
No entanto, posto que eu plagiasse este erudito, não sei por que artes lhe armei a sancadilha de chamar Antonio _Rodrigues_ ao actor hespanhol que nunca foi _Rodrigues_; mas sim _Ruiz_. Faz-se mister sestro de muito mentir para enganar um homem, de quem se copía o engano cinco annos depois! Parece enguiço! O cavalheiro de Oliveira escreveu _Ruiz_. Cuidei que era abreviatura de _Rodrigues_, e lá vai a peta de recochête lograr o doutor que m'a encampou cinco annos antes, a mim, seu copista! Quem me desenganou foi o poeta jocoso Thomaz Pinto Brandão; e contarei ao leitor como e quando, se é que lhe não vou contar o que v. exc.ª já sabe do doutor Theophilo.
Ahi por 1730 chegou a Lisboa a companhia hespanhola, que se hospedou em casa de um clerigo seu patricio chamado D. Hieronimo Cancer. Ao assumpto d'esta hospedagem de raparigas em casa do padre fez Brandão as seguintes decimas:
Victor! já chegou a gente de Madrid, tão esperada, e já foi agasalhada do seu superintendente. Este padre impertinente se intitula em Portugal Dom Hieronomio de tal, e _Cancer_ tambem seria, pois á sua enfermaria puxa as damas do hospital. Porém, viva o tal padrinho! só a taes afilhadas chega; que á Undarro, e á gallega abençôa o seu carinho. E baptisa de caminho com fé pia e fervorosa a dama em flôr magestosa, confirmada no primor; porém, se a Undarro é flôr tombem a gallega é Rosa.
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Com que já por uma vez, temos boa companhia, graças ao nosso Atouguia que tal companhia fez, Em fim, já chegou Garcez,[1] galan de primeira classe, que eu não cuidei que chegasse; e já muita gente diz que morreu Antonio Ruiz; mas _requiescat in pace_.
_Amen._
Digo o mesmo, respectivamente ao sabio que desbalisei do seu trabalho de traductor de um livro que nunca viu. E agora vem de molde penitenciar-me d'um insolente repto que escrevi ha dous annos por occasião de recommendar certo livro escripto portuguezmente:
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«Admiro como elle (o author) se manteve austeramente portuguez em meio dos sycambros litteratiços que, áquelle tempo, coaxavam por esses paues! Parece-me que já então por alli era (em Coimbra) contagiosa a sarna letrada do insigne rhapsodista, snr. Theophilo. Este sujeito traduzia as suas cousas originaes em vasconço azado para nos capacitarmos da sua ignorancia dos idiomas neo-latinos. Vislumbrava-se d'aquillo muito lidar com linguas teutonicas; uma construcção que cheirava ao grego, mas fallava mouro. O seu forragear no francez era um justo despique dos latrocinios que elles cá nos fizeram em 1808. Se os não citava, tambem elles lá não disseram cujas eram as patenas e os calices de ouro que nos arrebanharam nas igrejas. Retaliação justa.
«Ainda assim, as rhapsodias d'este philosopho, derrancadas pelo estylo, não tinham cunho d'author escorreito. O polygrapho, chamado ha pouco a ensinar a mocidade, sustenta creditos de original, affirmados e cimentados na singularidade bordalenga com que transpõe idéas peregrinamente formosas para as suas locuções de chouto, coxas, esparavonadas, pragaes infindos, florilegios de absurdos, listrados d'algumas raras clareiras de siso commum, apanhadas de outiva, mas desordenadas no vascolejar d'aquelle craneo legendario onde o enxofre sobrepuja o phosphoro.
«O homem, um dia, traduziu Balzac. Dizia elle que ia traduzir novellas para que o publico soubesse onde os romancistas portuguezes ceifavam, a furto, as suas messes. Era contra mim que o doutor desempolgava a flecha. Ai do Balzac, se o avaliaram na injuriosa versão do meu malsim!
«Eu tinha então oitenta volumes com o meu nome, oitenta provocações atiradas á cara juvenil do prodigio. Lá lh'as deixo estampadas. E prometto lembrar-lh'as.
«Não me ha de ser acoimada como desvanecimento a presumpção de que umas negaças litterarias, que vou tregeitando a este vidente vêsgo, hão de viver tanto como os seus apocalypses, em que a besta é muito mais intelligente e manhosa que a de S. João Evangelista. Eu, por mim, desejo que, lá ao diante, se saiba quo morri na desconfiança de que o snr. Theophilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os applausos do gentio lôrpa.»
Desdigo-me de tudo que ahi fica para minha eterna vilta. Logo que fui apanhado a copiar do snr. Joaquim Theophilo Fernandes Braga, julgo-me capaz de copiar de toda a gente.
* * * * *
Agora, direi da Zamperini.
Cantou no theatro dá rua dos Condes ha 104 annos. É a terceira das forasteiras que mais ouro mineraram em Portugal e mais authenticos documentos levaram da sensibilidade do peito lusitano.
Para o theatro lyrico da rua dos Condes fintaram-se os argentarios em quatrocentos mil cruzados; e no anno seguinte, já não havia dinheiro para pagar ao tenor Schiattini. Adoptaram então os emprezarios um systema que não é hoje bastantemente seguido: como o tenor instasse pela mensalidade, metteram-o na casa dos doudos; mas, em noite de espectaculo, concediam-lhe a lucidez necessaria para cantar de graça. Iam então dous quadrilheiros trazêl-o da enfermaria dos orates em direitura ao camarim. O tenor vestia-se, e era escoltado até ao palco. Ahi, desatava o canto, compondo de sua lavra a letra, que era um desafogo de injurias rimadas aos emprezarios. O povo trovejava gargalhadas, e o improvisador, aquecido pelos applausos, sarjava a epiderme d'aquelles originaes patifes que, no fim da opera, o devolviam ao seu cubiculo no hospital de S. José.
Assim andou baldeado entre o palco e a enfermaria, até que D. José I, condoido do artista, o admittiu á sua real capella. Aos biltres illustres que capitularam de sandeu o tenor, não irrogou censura o rei nem o grande ministro: porque entre elles estava o conde de Oeiras, filho do marquez de Pombal, e um dos varios amadores da cantarina.
Não foi, porém, o primogenito do marquez a mais generosa victima no holocausto de Zamperini. O sagacissimo pai espiára-o até dar-se a crise da logreira dama se manter a expensas d'elle, sem o concurso dos capitalistas. Chegado o momento, Zamperini foi expulsa do paiz, por ordem do ministro.
Em 1772 espalharam-se em Lisboa alguns exemplares de uma reles gravura, figurando a camara de Zamperini. Está a cantora sentada ao pé de uma banca; e, ao lado, estas duas linhas com feitio de versos:
Prenez, belle et charmante coquette, prenes tout, puis que vous êtes dans un país de fous.
Defronte d'ella está Anselmo José Braancamp, dando-lhe 1:000 peças, que ella recolhe com a mão direita, em quanto o monteiro-mór, ajoelhado, lhe beija a mão esquerda. Da bocca d'este sujeito partem duas linhas em inglez:
The true property of an englishman T'is to pay and despise.........[2]
E mais abaixo:
Mylord, dont kiss her hand, Because she has no face, But kiss her... her... her... Kiss her elsewhere[3]
Á direita, está Ignacio Pedro Quintella com a bolsa aberta, mas, ao que figura, ainda não resolvido a esvazial-a. Correspondem-lhe estes versos:
A quoi pensez, Monsieur? elle encore ne vouz aime; allons, prenez l'exemple, et vous serez de même.
Á esquerda, Antonio Soares de Mendonça mette a bolsa na algibeira, e dá visos de safar-se, com estes versos:
Lasciate agli altri, amico, la campagna, questa sol con quatrini si guadagna.
A um canto, está o padre Manoel de Macedo repelindo à sua celebrada ode á cantora, e João da Silva Tello recita-lhe esta quadra:
Macedo, não te cances, Pois os gostos são diversos; Zamperini estima o ouro, E nada entende de versos.
E assim termina a relamboria semsaboria.
Os casos relativos a esta cantora são vulgares e muito sabidos da ampla nota de Verdier _Hyssope_. Os netos dos sujeitos que a opulentaram, hoje em dia, são pessoas de muito juizo, de medianas posses, e sorveteiras glaciaes em ternuras de camarins.
[1] O snr. Theophilo a pag. 151 e 152 do tom. 3.º do seu _Theatro portuguez_ desmente o Pinto Brandão, dizendo que o _Garcez não veio_. O doutor, 141 annos depois, estava mais em dia que o poeta, redactor diario dos factos que vai poetisando a seu modo. Theophilo é unico!
[2] O que bem caracterisa o inglês é pagar bizarramente e... andar.
[3] Mylord, talvez vos désse maior jubilo, em vez de beijar-lhe a mão, etc.
ENTRADA PARA OS SALÕES
Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas _Noites de insomnia_ o livro completo de physiologia social, intitulado--OS SALÕES.
Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.
Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença de 1:000 subscriptores.
E, pois que a publicação dos SALÕES principiou aqui desacompanhada da introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem.