Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 04 (de 12)
Chapter 4
Quando um homem do povo cahe mutilado, pela arma homicida dos poderosos do dia, chama-se Socrates, chama-se Spartacus, chama-se Gracho, chama-se Galileu, chama-se Danton, chama-se Vergniaud, chama-se Armand Carrel, chama-se Gomes Freire, chama-se _legião_. Mas a historia atravessa estes periodos symbolicos da vida das nações sem commemorar estes nomes?
Para que?--Levantou já alguem o estigma que pesa sobre Catilina?
A historia divinisou Cesar, e applaudiu Cicero.
Rasgaram já os crépes que envolvem o busto de Robespierre, e a fronte de Saint-Just?
A França reclamou Bonaparte, e mais tarde victoriou o cossaco, que dos estepes da Russia vinha impôr leis e dynastias ao capitolio da raça latina.
E nós?--Aqui o veterano fez uma pausa. Levantou a fronte como se sentira o clarim das batalhas, e continuou em voz sumida e cavernosa:
--A nós deram-nos uma carta constitucional, que é como um foral--para não dizer carta d'alforria--a nós deram-nos uma mentira, escripta com o sangue do povo, no sólo sagrado da patria.
E o veterano calou-se.
Depois como despertado pelo ruido dos combates, como se aquella alma aspirasse a novas lutas, para sustentar os principios por que pelejára, ergueu-se do catre onde estava sentado, e rumorejou: E fallaes-nos de patria! patria aonde, e patria com quem? No Rocio em treze de março?--em Torres Vedras em 1846?--no Porto em 1851?--A patria é o sólo sagrado onde jazem as ossadas dos nossos avós. A patria é o local onde assenta o nosso lar domestico, onde vivem as nossas familias, onde está cravado o pendão dos nossos direitos. A patria é nossa por que derramamos o nosso sangue por ella.
Em seguida curvou-se para mim, que estava sentado no fundo d'este triste e miseravel quarto, e disse-me em phrases breves:
--Faça-me só um favor. É o unico que lhe peço. Como prologo d'esse manuscripto, publique este papel. É a meditação das minhas noites de insomnia. É o symbolo das minhas crenças. É o credo da minha religião politica. Morrerei contente.
Começa por este prologo o manuscripto do desembargador.
VISCONDE DE OUGUELLA.
O DECEPADO
Duarte de Almeida, o alferes de Affonso V, conheço-o desde a minha infancia, por m'o apresentar em verso o meu finado amigo Ignacio Pizarro.
Chorei por Duarte de Almeida, como se elle fosse meu avô, quando o infeliz, na volta de Toro, onde os castelhanos lhe deceparam as mãos, se lastimava assim pela bocca do poeta do _Romanceiro portuguez_:
Nem a espada, nem a lança Posso nas mãos empunhar!... Ai de mim! triste lembrança!... Nem bandeira tremolar!... Nem bordão de peregrino Póde meu corpo arrimar! Nem o meu pranto contino Tenho mãos para limpar!... Luiza! já me esqueceste?... Talvez tu ora suspires Por outro... se tal fizeste... Coração! ah! não delires... Morto já, tu me julgaste, E se agora assim me viras, D'aquelle a quem tanto amaste Talvez agora fugiras. Talvez nobre cavalleiro Póde alcançar tua mão... Queira o céo morra eu primeiro, Não saiba a tua traição. Que eu antes quero da morte Ter gelado o coração, Do que vir amor tão forte Ter em premio a ingratidão.
Com estas e outras piedosas queixas ia o namorado alferes caminho do castello de Aguiar, onde vivia a castellã Luiza.
O leitor já me está dizendo que sabe o entrecho do romance de Pizarro: que a donosa castellã, julgando morto o seu amado, lhe fizera cantar os responsos em sumptuosos funeraes: que o cavalleiro, a deshoras, se annunciára na barbacã do castello; e, admittido á capella, encontrou Luiza a vestir o habito de monja: que o decepado, apertando-a ao peito, lhe fez vêr que estava vivo, e que ella, allegando o voto que fizera de professar, cahiu de encontro á eça, e morreu.
Termina o trovador:
Seu amante desditoso, Mais desgraçado, viveu; Mas o seu fim lastimoso Nunca ninguem conheceu.
Bastantes annos--e que ditosos annos!--andei enganado pelo meu amigo Pizarro. Fui tres vezes ao castello do Pontido. Creio que já disse, não me lembra aonde, que encontrei entre as urzes da matta subjacente ao castello um espigão de espora sem rosêta, e suspeitei que ella houvesse sido do infausto amador da castellã. Figurou-se-me, ao cahir da noite, vêl-a no gothico balcão, voltada para os serros fronteiros, suspirar no alaude:
Adeus, serra do Mizio! Adeus, val de Villa Pouca! Adeus, castello sombrio! Minha voz ouvi já rouca!
Estas impressões da primeira mocidade revivem quando a razão as impugna ao sentimento. De envolta com as minhas indagações historicas na triste sorte da princeza D. Joanna, chamada a _excellente senhora_, o vulto que mais me preoccupava era o alferes da bandeira, Duarte de Almeida, o heroe, o amante da castellã, o decepado cujo
..........fim lastimoso Nunca ninguem conheceu.
Quanto ao seu fim, citava Pizarro um trecho de Duarte Nunes de Leão (_Chronica de Affonso V_) muitissimo desconsolador. Alli se diz que o bravo, depois de tamanha proeza, vivera mais pobre que d'antes. Este opprobrio nacional confirma-o modernamente o snr. Pinheiro Chagas, com estas phrases austeras: «O cavalleiro heroico sobreviveu ás suas feridas, e voltou a Portugal onde foi sempre conhecido pelo glorioso nome do _Decepado_. Mas, ó vergonha! o homem que assim tão briosamente se portára, morreu na miseria, porque nenhuma recompensa lhe foi dada, e porque nem se quer podia ganhar a vida pelo seu trabalho, logo que o haviam impossibilitado de trabalhar as suas tristes mutilações[5].»
Por honra da patria e da humanidade, apresso-me a declarar que é menos exacto o que Duarte Nunes diz e o snr. Pinheiro Chagas encarece. Logo me justificarei com documentos.
Pelo que respeita ao romance de Pizarro, tão sómente dous elementos de verdade historica podemos aceitar-lhe: a existencia do alferes e a do castello de Aguiar. E o certo é que ao meu intelligente amigo não corria o dever de maiores exactidões.
Primeiramente direi do castello.
Lá está, e já lá estava assim, pouco mais ou menos, antes da fundação da monarchia portugueza. Quem o possuia ou governava, no tempo em que D. Affonso Henriques pleiteava nos arraiaes com sua mãi e com o imperador D. Affonso, era o rico-homem D. Gonçalo de Sousa, genro de Egas Moniz, e senhor da terra de Sousa. Traslada no tom. III da _Monarchia Lusitana_ (pag. 112), fr. Antonio Brandão da _Vida de Santa Senhorinha_, codice áquelle tempo inedito, uma passagem que faz ao nosso intento[6].
Reza assim, melhorado na orthographia:
_«Digo-vos que estando folgando em sua terra um principe nobre e cavalleiro d'este reino, o qual era mui privado d'el-rei D. Affonso, e havia nome D. Gonçalo de Sousa, mui poderoso, e todo conselho d'el-rei estava em elle; estando, como disse, folgando, chegaram a elle mensageiros dizendo que os inimigos lhe corriam a terra, e que lhe tinham cercado o castello d'Aguiar; o qual logo chamou suas gentes que pôde haver, e foi-se para haver de descercar o dito castello. E chegando aonde jaz o corpo d'esta santa lhe fez reverencia, e oração não lhe lembrou; e indo ainda em vista da igreja metade de um campo, esteve pegada a mula, em que ia o cavalleiro, a qual elle com esporas e pancadas não podia abalar, mas antes a mula quedava mais rija e pero se desceu d'ella e a não podia abalar; e, vendo elle isto, lembrou-lhe como passára pela igreja da santa sem lhe pedir benção, e mercê, e sem fazer oração, e por isso lhe detinha a mula; e, soffreando a mula para traz para se tornar á igreja, a mula logo tornou, e o cavalleiro fez sua oração encommendando-se á santa, e des i fez seu caminho, e com suas companhas descercou seu castello, e correu depois os inimigos, e tornou a sua casa com victoria_, etc.»
O chronista Brandão, por mal informado, escreve que o castello de Aguiar da Pena se avista com as montanhas de Barroso. Estas montanhas distam seis leguas do castello, e entre ellas e o valle em que negreja a fortaleza gothica estão os cabeços da serra de Alfarella, e no horisonte mais elevado alveja villa Pouca de Aguiar. Acrescenta que o castello «é crespo de torres, baluartes e cubellos, e está fundado sobre a corôa de uma penha talhada de uma parte por natureza, que parece obra feita á mão,» etc.
Póde ser que no seculo XVII, quando Brandão escrevia, permanecessem ainda as torres e baluartes. O que ha vinte annos parecia ter robustez para seculos eram quatro alterosas quadrellas de alvenaria ameiadas com seus adarves, bastiões, e janellas gothicas sem lavores.
Recordo-me ter lido na _Nova historia de Malta_ de José Anastacio de Figueiredo que o castello no seculo XIII pertencia á ordem hospitalaria de S. João de Jerusalem, e cita um aviso que obriga os lavradores circumvisinhos a carregarem pedra para reparos.
E não sei mais nada quanto ao solar da phantastica Luiza.
Agora vamos em cata do _Decepado_, depois que voltou de Castella. Encontramol-o na sua casa acastellada no seculo XII, que teve o nome de castello de Villarigas, no couto do Banho, hoje concelho de S. Pedro do Sul.
É elle o herdeiro de seu pai Pedro Lourenço de Almeida. Afóra aquelle castello, tem outro na quinta chamada da Cavallaria, honrada por el-rei D. Fernando em 1419, e onde os linhagistas enraizam o tronco dos Almeidas.
Quando alli chegou, esperavam-o a esposa e dous filhos.
A esposa chamava-se D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Louzã Rodrigo Affonso Valente e de D. Leonor d'Azevedo, que herdára grandes haveres de sua tia D. Ignez Gomes de Avellar.
Os filhos do _Decepado_ chamaram-se Affonso Lopes, e Ruy Lopes de Almeida. Affonso, o successor das honras e coutos de Villarigas e Cavallaria, casou com D. Leonor Vaz Castello Branco, filha de João Vaz Cardoso, aio do conde de Barcellos.
O filho segundo, Ruy, foi para Castella, como veador da princeza D. Joanna, filha de D. Duarte, e mulher de Henrique IV.
Esta geração de fidalgos continuou honrada e rica até á duodecima neta de Duarte de Almeida, a snr.^a D. Eugenia de Almeida de Aguilar Monroy da Gama Mello Azambuja e Menezes que em 15 de setembro de 1834 casou com o snr. Fernando Telles da Silva, marquez de Penalva, de quem teve dous filhos, Luiz, que, nascendo em 1837, morreu ha poucos annos, e D. Henriqueta de Almeida, que nasceu em 1838, e vive solteira. Do snr. Luiz Telles, que foi casado com a snr.^a D. Maria Francisca Brandão, sua prima, existe uma filha, que é já senhora.
Quanto á pobreza _e miseria em que morreu_ Duarte de Almeida, o snr. Pinheiro Chagas foi illudido por Duarte Nunes e Faria e Sousa, que na verdade o authorisaram a deplorar tão sentidamente a sorte do alferes de Affonso V.
Duarte de Almeida succedera a D. Duarte de Menezes no posto nobilissimo de alferes-mór da bandeira. Militando nas guerras de Africa, salvou o pendão real das presas da mourisma, quando Affonso V deu batalha na serra de Benacofuf. (Faria e Sousa, _Africa_, cap. 6, §. 7.º)
E tanto o rei não foi ingrato aos serviços do seu valente alferes, que, estando em Samora, em 1475, no anno anterior ao da batalha de Toro, ainda antes do heroico feito, lhe fez mercê pelos seus grandes serviços, para elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões, cuja carta de mercê póde lêr-se na Torre do Tombo no _Livro que serviu na chancellaria de D. Affonso V_, folha 17, e começa: _A quantos esta minha carta virem faço saber que pelos muitos serviços que Duarte de Almeida, fidalgo de minha casa, e meu alferes-mór me tem feito assim n'estes reinos de Castella como de Portugal e em Africa, onde sempre me serviu muito bem e lealmente_, etc.
O rei, que tanto o apreciára e galardoára, sabido é que foi para França solicitar debalde a alliança do velhaco de Luiz XI. Voltou a Portugal, onde viveu ainda cinco tristissimos annos, forçado a divorciar-se da esposa, desestimado do filho, e desvenerado dos vassallos. Não era, pois, tempo proprio aquelle para premiar heroismos batalha, cuja perda dissimulada em victoria, enlutára o brio e o coração de Affonso V.
O decepado, por sua parte, lá tragava o fel dos seus derradeiros annos na abastança dos bens que, certo, lhe não mitigavam as angustias da mutilação; mas em pobreza e miseria não consintamos sequer á poesia que nol-o figure.
Se D. João II não augmentou em coutos, honras e senhorios a casa do alferes de seu pai, não o arguamos por isso, sem haver a certeza de que Duarte de Almeida sobrevivesse ao Africano. Na batalha do Toro já devia ir no inverno da vida quem vinte annos antes desfraldára o pendão real em Alcacer-Ceguer, e quem já tinha um filho, que acompanhára como veador a Castella a mãi da princeza D. Joanna por amor de quem andava accesa a guerra. Afóra isso, é de crêr que Duarte de Almeida assistisse ao desastre de Alfarrobeira em 1449, e não fosse dos menos carniceiros na mortandade do duque de Coimbra e dos seus leaes amigos. Ora, transluz da historia que D. João II odiára todos os fidalgos que, de parçaria com o duque de Bragança, malsinaram de traidor o infante D. Pedro. Ajuda estas suspeitas ser o primogenito de Duarte de Almeida casado com a filha de um que fôra aio do conde da Barcellos, antes de ser duque de Bragança.
Já, porém, o successor de D. João II galardoou o neto do decepado, dando-lhe o senhorio da villa do Banho, a provedoria das caldas de Lafões, e lhe confirmou o privilegio e couto da quinta da Cavallaria.
Em remate de tão derramadas provas, quero deixar bem assente que Duarte de Almeida, o meu tão chorado heroe do sentimentalismo da infancia, não morreu pobre, nem acabou na miseria do homem que, á mingua de mãos, não póde trabalhar.
Por fim, não sahirei do paço senhorial da Cavallaria sem consolar o leitor pio e mais lido em cousas do céo que em nobiliarios, que n'aquella casa nasceu o bemaventurado S. frei Gil, chamado de Santarem, e que Almeida Garrett ajoujou com o dr. Fausto no poema _D. Branca_ e nas _Viagens_.
Ainda hoje, n'aquella casa, perdura uma capella edificada na alcova onde nasceu o sabio feiticeiro e pactuario do demonio. Observe-se que o conde D. Pedro, no _Livro das Linhagens_, tit. 25, pag. 151, diz que Gil fôra assassinado por Pedro Soares Galinato; mas o chronista-mór João Baptista Lavanha desfaz o erro,--o que eu muito estimo para que se não desluza a substancia da bella prosa de fr. Luiz de Sousa, historiador do santo.
[5] _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 28.
[6] O codice está integralmente impresso nas _Memorias resuscitadas da antiga Guimarães_, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 444-476. Sirvo-me d'esta copia, corrigindo os erros do traslado de Brandão.
CARIDADE BARATA E ELEGANTE
O advogado Sampaio Efrin morreu, ha cinco annos, em Lisboa, e deixou dous filhos illegitimos, que já não tinham mãi.
Amára-os extremadamente. As duas crianças excruciaram-lhe a agonia; mas expirára com a certeza de que seus filhos, e herdeiros de parte de seus haveres, não balbuciariam, em horas de fome, o nome de seu pai.
Mas a justiça desherdou os orphãos, e deu o espolio do advogado á sua viuva.
O menino alimentou-se cinco annos da caridade de uma criada de seu pai.
E, quando tinha seis, appareceu livido e pobremente vestido a pedir esmola no tribunal da Boa-Hora--alli, onde seu pai triumphára nas lides da eloquencia.
A bemfeitora que, até áquelle dia lhe repartira do seu pão, quando sentia a mão da morte sobre o seio, disse á criança que fosse ao tribunal e mendigasse, lembrando-se que alli concorriam pessoas que tinham conhecido seu pai.
O snr. João Bernardino da Silva Borges viu o menino andrajoso, a tiritar, com o espasmo da fome nos olhos--aquelle olhar espavorido da miseria--que parece sagrada nas criancinhas--aquelle olhar torvo, expressão de assombro do anjo a tremer sobre o cairel d'este inferno do mundo.
O menino tinha uma carta na mão. O snr. Silva Borges leu a carta. Era a supplica da moribunda a favor do desvalido filho de seu amo.
E conduziu a criança, onde lhe dessem a esmola do jantar e da cama.
Ao outro dia, o _Jornal da Noite_, publicando uma carta commovente do protector do orphão, acompanhava a invocação á caridade de sentidas e pungentes palavras.
E, no dia immediato, o mesmo jornal exultava noticiando que o orphãosinho estava amparado, no regaço da caridade abundante, nos braços de alguem que ouvira o echo das divinas palavras de Jesus: «Deixai que as criancinhas se aconcheguem de mim.»
Volvidas duas semanas, á volta do menino, a caridade faz-se representar por nove senhoras illustres, quanto cabe inferir dos appellidos.
Nove anjos, as nove musas da inspiração santissima, nove corações a desbordar de generosidade, dezoito mãos cheias de caricias e do superfluo da sua riqueza, para afagar, alimentar e educar um menino a quem esta setima primavera bafeja os primeiros risos de sua enfezadinha puericia. É muito!
Mas estas nove damas assumem cada qual sua nomenclatura:
Uma, chama-se _presidenta_;
Outra, _vice-presidenta_;
Quatro, são _vogaes_;
Uma, é _thesoureira_;
E as outras, são _secretarias_.
Mas que tem isto que vêr com o orphão? O congresso das senhoras, assim qualificadas em categorias de banco, de junta de parochia, de empresa aurificia, de companhia das aguas, organisou-se d'este feitio para dar uma pensão de 300 reis diarios--o bastante--ao pequenino no collegio?
Quer-me parecer dispensavel tamanho funccionalismo em operações tão singelas! São nove senhoras abastadas que se fintam, quotisando-se cada uma em 33 reis por dia, ou dez tostões por mez. É, na verdade, barato o salvar-se um menino e fazel-o homem! Seis ou oito annos do pão e estudo d'aquella creatura--que ss. exc.^as hão de enfiar com santa vaidade diante da sepultura de seu pai--não póde custar a cada uma tanto como dous dos seus vestidos medianamente guarnecidos.
Então, qual vem a ser a missão das exc.^mas presidenta, vice, vogaes, thesoureira, secretarias?
Leitor, que estás a impar de ternura, e tens o rosto banhado de lagrimas de consolação, saberás que as referidas nove senhoras--que tu já conheces dos lautos bailes, e das _toilettes_ esplendidas--congregaram-se agora _para promover um beneficio ao orphão no theatro de D. Maria_.
Ahi está o que é. Ainda agora é que estas dadivosas senhoras vão sondar a magnanimidade publica; vão dar uns toques de elegante apparato á caridade, e ao mesmo tempo convidar-vos a pôr hombros áquella ponderosa empresa de agasalhar uma criancinha que se alimenta com um pouco de amor e algumas migalhas sacudidas das cêas opiparas. A caridade de Lisboa! A caridade do espalhafato! Aqui, no Porto, o orphão, a esta hora, estaria agasalhado, sem que a imprensa conhecesse o nome do bemfeitor.
E a imprensa de Lisboa exalça encarecidamente a exuberante bizarria das senhoras que promovem nos corações alheios o sentimento da esmola. Peço licença para tambem me accender em admiração de tamanho arrojo, e perguntar, por esta occasião, aos jornalistas se, no seu cadoz de phrases, ficou alguma com que se louve aquella criada pobresinha que sustentou o menino cinco annos, e o largou do seu seio quando o coração se lhe afogou nas ultimas lagrimas.
PROFUNDA REFORMA NOS COSTUMES DA VIA-FERREA PORTUGUEZA
Quando Portugal emergia das trevas da meia-idade, em 1873, e a via-ferrea de Portugal era roupa de francezes, o scintillante escriptor Ramalho Ortigão enviou aos snrs. _François et Ladame_ (cumpre não aceitar a traducção de Bordalo Pinheiro--_Francisco e a mulher_) uns urbanos queixumes ácerca da bruta ladroeira que os funccionarios da via-ferrea perpretaram em parte das batatas de um sacco enviado desde o Minho ao percuciente critico. Ortigão, cujo agudo espirito argúe abstinencia de alimentação farinacea, conclue a sua epistola, modêlo de graça portugueza--que é a graça de todo o mundo--offerecendo aos directores da via-ferrea todas as futuras e porvindouras batatas, visto que ss. s.^as, cedendo-lhe algumas, soffriam tal qual desfalque.
N'esse tempo, estava eu em Lisboa a vasquejar nos demorados paroxismos da anemia, resultante de dyspepsia, complicada com hepatite, e prodhromos de encephalite, e symptomas de curvatura de espinha, e esgotamento de fluido nervoso, afóra a espinhela cahida.
Escrevi, n'esta concurrencia pathologica, a um amigo meu, residente no Porto, que me comprasse alli doze garrafas do mais antigo e secco vinho que se lhe deparasse em garrafeira particular. Quando conclui a carta, cuidei que expirava, por que tinha consumido em quatro idéas sem estylo o oxygeneo e acido carbonico de que podia dispôr.
D'ahi a dias, o meu amigo enviou-me o titulo de recepção de doze garrafas de vinho, compradas por 12 libras, e enviadas pela «grande velocidade», cuidando elle que os ladrões não as apanhariam na carreira.
Como se as doze garrafas se me figurassem outras tantas botelhas de Leyde a descarregarem electricidade sobre os meus grandes-sympathicos e regiões limitrophes, saltei da cama, e fui receber o meu vinho--a minha salvação--a Santa Apolonia.
Recolhido o caixote á sege, e baixados os stores, debrucei as regiões do meu olfacto sobre as fisgas da tampa do caixão, na esperança de aspirar alguns atomos de tanino.
Cheirou-me a azeite. Entendi que havia perversão na minha membrana pituitaria, uma narizite, unica molestia que me faltava.
Assim que entrei em casa e o caixão se abriu, não sei bem o que vi, nem como perdi a consciencia dos dous _eus_. Sei que, volvidas horas, recobrando o espirito, e querendo recordar as causas de tão comprido lethargo, perguntei aos circumstantes, distillados em lagrimas, se eu tinha lido algum livro de Theophilo.
--Não, infeliz!--respondeu-me voz sincera--não foi tamanha a desgraça que te fulminou; o que tu viste foi seis garrafas do teu vinho, que te custaram seis libras, substituidas por seis garrafas vasias que tiveram azeite.
A minha primeira idéa foi gritar á d'el-rei; lembrando-me, porém, que o rei não governa, quiz chamar o cabo da rua; depois, passou-me pelo espirito recorrer á camara «baixa» e ao patriarcha. E, por fim, chorei copiosamente, e bebi dous tragos de uma das seis; e logo, á semelhança das nações oppressas, que se levantam como um só homem, tambem eu me levantei sósinho; e, clamando um rugido grande, pedi á Providencia das raças latinas que nos désse um administrador dos caminhos de ferro, nascido e baptisado n'esta terra dos Affonsos e dos Joões.
Fui ouvido, e as cousas melhoraram consideravelmente.
N'este anno de 1874, 2.º da Emancipação, tenho recebido reiteradas provas da melindrosa cortezia que assiste ao funccionalismo do transporte da via-ferrea portugueza. Se em 1871 não chorei mediante os prelos, hoje lamento não ser um cytharista bastante lyrico para dignamente arpejar um fado expresso do citado funccionalismo.
Direi da cortezia com que alli são tratadas as minhas cousas. Tendo eu recebido em Lisboa seis garrafões de aguardente das nossas colonias, lacrados e cheios, enviei-os d'alli para o Porto cheios e lacrados. Ao cabo de onze dias de jornada, os garrafões chegaram a minha casa... inteirinhos! Se isto não é probidade, a virtude era aquillo que dizia Catão. Notei, porém, uma insignificante cousa: os garrafões chegaram deslacrados, e levavam pouco menos de metade do liquido; mas inteiros, perfeitos, sem rachadella, nem esquirola de menos.
Um d'estes dias, em dous caixões de vinho da Madeira, que me eram enviados de Lisboa,--e foram retidos para despacho nas Devezas, posto que já em Lisboa houvessem pago direitos--observei ainda mais refinada cortezia; porque, apparecendo algumas garrafas quebradas, teve aquella honrada e limpa gente o cuidado de lhes trasfegar o vinho a fim de que as outras se não molhassem--de modo que chegaram enxutas.
E fez mais: teve outro sim a bondade de tirar algumas garrafas para que as outras chegassem mais desafogadas da pressão das visinhas!
Eu não conheço maneira mais subtil de obrigar a gente a um reconhecimento eterno, e a... acautelar o relogio.
FORMOSA E INFELIZ
A dita e a formosura, Dizem patranhas antigas, Que pelejaram um dia, Sendo d'antes muito amigas.