Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 04 (de 12)
Chapter 3
«Um corregedor guardava uma porta da igreja da casa professa dos jesuitas, quando alli se celebrava grande festividade. Sómente o rei havia de entrar por aquella porta. Chegaram aqui o marquez das Minas e o conde da Atalaya; mas o corregedor com razão lhes vedou o passo. Insistiram elles, dizendo ao ministro que as ordens recebidas não podiam entender-se com pessoas de sua esphera. Redarguiu o corregedor que as ordens ninguem exceptuavam, e por tanto, sem que o rei entrasse, não podia elle permittir que entrasse quem quer que fosse. Aquelles senhores podiam entrar por outras portas francas a toda a gente. Não obstante, pertinazmente exigiram do corregedor uma distincção que elle não podia dar-lhes sem transgredir os deveres... Os dous fidalgos, depois de o terem insultado, passaram ás ultimas. O conde da Atalaya deu com o chapéo na cara do corregedor, e o marquez das Minas traspassando-o com a espada, matou-o. Em seguida cavalgaram, e sahiram do reino. O marquez das Minas _foi perdoado e voltou ao reino_[3].»
Crê o leitor que, não obstante o perdão, o marquez das Minas passaria o restante da vida sequestrado das graças do monarcha e da convivencia das pessoas de bem? Não faça juizos temerarios o leitor: o marquez das Minas recebeu o indulto, e ao mesmo tempo o bastão de general.
Já vimos a justiça dos homens: agora vejamos a da Providencia. Servia no exercito portuguez um castelhano chamado D. Juan de la Cueva, que não dava _excellencia_ ao seu general, marquez das Minas, sem que este lhe désse _senhoria_. «Ora, o marquez, assassino do corregedor,--diz o cavalheiro de Oliveira--era soberbo e arrogante. Um dia, ao entardecer, sahia elle da portaria da congregação de S. Philippe Neri, a tempo que desgraçadamente _Juan de la Cueva_ ia entrando. Cortejou elle o marquez, que lhe não deu a pretendida _senhoria_, e por isso _de la Cueva_ lhe não deu _excellencia_. O general, grandemente irritado, levantou o bastão e proferiu palavras ameaçadoras. _De la Cueva_, sem lhe dizer palavra, traspassou-o com a espada. O marquez não tugiu nem mugiu: quando cahiu por terra, já ia morto. O padre, que o acompanhára até á portaria, e era confessor d'elle, apenas teve tempo de lhe apertar a mão. _D. Juan de la Cueva_ pôde escapar-se, e refugiou-se em Hespanha[4].»
Na jurisprudencia divina a justiça mais seguida é a pena de Talião.
[2] Veja _Apontamentos biographicos_ ácerca de D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, etc., por Innocencio Francisco da Silva, Lisboa 1869.
[3] O cavalheiro de Oliveira não designa o tempo de expatriação do marquez das Minas, conde do Prado. Deviam ser dez annos, segundo a sentença manuscripta de que dá noticia o snr. Innocencio Francisco da Silva, a pag. 233 do 7.º tom. do Dicc. Bibliog. Diz assim: «Sentença da Relação de Lisboa, contra os condes do Prado e da Atalaya por matarem publicamente o corregedor do Bairro-Alto no exercicio da sua authoridade. O primeiro, tendo-se evadido, foi justiçado em estatua; o segundo condemnado a degredo por dez annos, e ambos em multas pecuniarias». Creio que ha equivoco, na transcripção da sentença. O queimado em estatua foi o conde de Atalaya, que, no dizer do cavalheiro de Oliveira, morreu furioso em Vienna, depois de ter militado no exercito do imperador de Austria. Quanto ao marquez das Minas, presume-se que lhe foi indultada a sentença, visto que o citado Oliveira diz que obteve perdão e voltou a Lisboa.
[4] _Amusement_, 2.º v. pag. 147 e 148.
LITTERATURA BRAZILEIRA
Longo tempo se queixaram os estudiosos do descuido dos livreiros portuguezes em se fornecerem de livros brazileiros. Nomeavam-se de outiva os escriptores distinctos do imperio, e raro havia quem os tivesse nas suas livrarias. Nas bibliothecas publicas era escusado procural-os. Em compensação, sobravam n'ellas as edições raras de obras seculares que ninguem consulta.
O mercado dos livros brazileiros abriu-se, ha poucos mezes, em Portugal. Devemol-o á actividade inteligente do snr. Ernesto Chardron. Foi elle quem primeiro divulgou um catalogo de variada litteratura, em que realçam os nomes de mais voga n'aquelle florentissimo paiz. Ahi se nos deparam, entre os poetas, Gonçalves de Magalhães, o correcto e sublime author da _Confederação dos tamoyos_; o lyrico e arrojado Alvares de Azevedo; o primaz dos escriptores brazileiros, e chorado Gonçalves Dias; o esperançoso devaneiador, fallecido no viço da idade, Casimiro de Abreu; Junqueira Freire que primou nos segredos da melodia e já não é d'este mundo; e o severo e cadencioso poeta de _Colombo_, tão estimado dos nossos. Entre os romancistas o fecundissimo Joaquim Manoel de Macedo, que disputa a supremacia a J. de Alencar, que tanta nomeada grangeou com o seu _Guarany_. Não lustram menos as novellas mimosissimas de Luiz Guimarães, e as arrobadas mesclas de prosa e verso de Machado de Assis. Em litteratura didascalica sobresahem os valiosos escriptos do professor, o snr. conego Fernandes Pinheiro, nomeadamente o _Resumo de historia litteraria_, que muito se avantaja a uns esbocêtos que em Portugal circulam nas escólas, e--o que é mais deploravel--nos estudos secundarios. São notabilissimos todos os livros do snr. J. M. Pereira da Silva, já na sciencia historica, já na politica, e ainda no romance, tão prosperamente estreiado na _Aspazia_. Sobre tudo, porém, os _Varões illustres do Brazil_ e a _Historia da fundação do imperio brasileiro_ são obras que denotam profundo estudo e muito engenho na boa disposição dos elementos e critica dos personagens historicos. Em varia sciencia, em livros elementares, em lexicologia, e ainda sobre motivos de religião é copioso o catalogo da livraria Chardron. Esta variedade argue a fertilidade de intelligencias que ajuntam á riqueza congenial d'aquelle solo os thesouros do espirito. E muito importa e cumpre observar que os brazileiros modernamente nos não cedem no zelo de imitar a linguagem pura dos grandes escriptores portuguezes dos seculos de ouro.
Não esqueçamos, todavia, que o impulsor d'este brilhante movimento litterario no Rio de Janeiro, e por isso em todo o imperio, é o livreiro-editor Garnier, espirito emprehendedor que tanto faz luzir os talentos que divulga, quanto lucra para si a honra de os fazer conhecidos e laureados. Quem calcular o despendio grande de empresas semelhantes n'aquelle paiz, deprehenda o quanto cumpre que seja robusto e afouto o pulso que removeu as immensas difficuldades com que ha trinta annos lutavam os escriptores do Novo-mundo para se fazerem conhecidos. Coube esta gloria e este triumpho ao snr. Garnier.
Falta dizer que os preços dos livros offerecidos no catalogo das casas Chardron, no Porto e em Braga, são modicos, reduzidos, e inferiores ao preço corrente das obras portuguezas de igual tomo.
E, pois que estou agradavelmente recommendando livros de brazileiros, seria injustiça não graduar de passagem ao menos o merito de uma obra que recentemente sahia dos prélos portuenses. É o _Estudo sobre a colonização e emigração para o Brazil_. É seu author o snr. Augusto de Carvalho, que tão grave e prestadiamente abre carreira de escriptor, em annos ainda muito na flôr, e com o espirito já a fructear as mais sensatas considerações sobre as questões controversas inculcadas no titulo da sua obra. Á substancia do livro allia-se o primor da fórma, a propriedade do termo, a chaneza eloquente, e, a espaços, a elevação do estylo que não innubla a clareza da idéa. É o snr. Augusto de Carvalho um brazileiro que nobilita as letras da sua patria, e está grangeando um lugar entre os melhores escriptores, e, desde já, o tem distincto entre os bons pensadores e cultores de idéas proficuas. Congratulo-me com os seus conterraneos.
Á ACTUALIDADE
O meu nome foi banido das columnas d'aquelle jornal. Assim o rosnou o lebreu por entre os arames da mordaça.
Foi realmente banido?
Então, adeus, desgraçado!
Que o mundo tenha tanta piedade de ti, lazaro, quanto eu me arrependo de te haver baldeado do charco da petulancia para outro peor--o do silencio.
Adeusinho! coça a tua lepra com os teus folhetins; mas sume-te, escalracho!
A EXC.^ma MADRASTA D'EL-REI D. LUIZ 1.º CALUMNIADA
Se me arguirem de adulador da senhora condessa, madrasta d'el-rei D. Luiz I, são iniquos. Se esta ditosa dama, em vez de estar no paço das Necessidades, estivesse, a esta hora, em trances de cantora não escripturada, eu sahiria por honra do seu nome de artista contra o calumniador que lhe mareasse os applausos recebidos no theatro do Porto, ha quatorze annos.
Em um numero da _Lanterna_, periodico truculento, li que a esposa do viuvo de D. Maria II havia sido pateada na rampa do theatro de S. João, em 1859.
É calumnia, que vou desfazer com a imprensa contemporanea.
Conceda-se-me a abstinencia de tratamentos regiamente honorificos, em quanto a nobre condessa de Edla me permitte pleitear em prol dos seus creditos de cantora.
A snr.^a Elisa Hensler cantou, pela primeira vez, no theatro do Porto, na noite de 8 de outubro de 1859. O _Nacional_ do dia 10 escreve o seguinte:
«_A companhia italiana estreou-se effectivamente no sabbado, e não se estreou mal. A escolha da opera foi acertada--«O Saltimbanco»; é uma bella partitura... e a prima-dona Hensler é bella, joven, e canta com mimo. A sua voz, se não é possante, é melodiosa e expressiva, tem alcance bastante para o nosso theatro. O publico ficou agradavelmente surprehendido, e deu lisongeiro acolhimento á mimosa cantora... Tanto no duetto como no rondó mostrou a snr.^a Hensler que possue dotes musicaes pouco vulgares. O sentimento com que cantou os andantes do duetto, a bravura e perfeição na execução da difficil parte do rondó, e aquelles trilos tão nitidos e puros, que ella faz em notas tão agudas no rondó, é sufficientemente para corroborar as grandes e vantajosas informações que a precederam; e o publico foi justo com os applausos e chamadas no fim da opera._»
Receio que os detractores da mimosa cantora venham com artigos de suspeição ao _Nacional_, culpando-o de parcial e apaixonado, já no louvor, já na censura, em juizos theatraes. Contra esses artigos redargúo estampando a opinião do _Commercio do Porto_, o jornal mais serio do paiz:
«_Abriu-se no sabbado com a opera o «Saltimbanco» de Paccini... Fizeram a sua estreia n'esta opera a primeira dama Elisa Hensler, etc. A prima dona Hensler foi applaudida e teve uma chamada no fim_.» (Commercio de 10 de outubro). E no folhetim de 15 do mesmo mez, confirma n'estes termos: «_A snr.^a Hensler é uma excellente cantora. A sua voz de soprano-agudo é de sonoro timbre; e, ainda que de pouco volume, extensa, flexivel, melodiosa e fresca. Possue, além d'estes dotes naturaes, outros não menos valiosos como cantora: conhecimento do mechanismo do canto, perfeita entoação e expressão. Revela a seu grande merito como cantatriz nos floreios, nas escalas chromaticas, e especialmente nos trinados. Na passagem da 1.^a á 2.^a cavaletta do seu rondó final faz admirar os tres longos e bellos trinados em_ sol, lá _e_ si _agudos. Na difficil cavaletta de sua cavatina do 1.º acto são muito merecidos os applausos que tem colhido. No_ larghetto e cantabile _do duetto do baritono e soprano do 3.º acto, não obstante a agudissima_ tacitora _em que está escripto, não deixa a snr.^a Hensler nada a desejar. A todas estas excellentes condições como artista e cantora reune uma presença sympathica, qualidade esta de muito valor no theatro._»
Já no _Nacional_ de 13 este parecer viera corroborado com estes gabos: «_E a prima-dona Hensler? Não desmereceu em nada das primeiras impressões que nos imprimiu._
«_É sempre a cantora mimosa e correcta._»
O _Commercio_ de 29 de outubro classifica maviosamente a dôce cantora com esta phrase: ... «_A prima-dona Hensler é o bijou da companhia._»
Na noite de 6 de novembro cantou a snr.^a Hensler a parte de _Lucia_. O _Nacional_ diz o seguinte: «_A snr.^a Hensler na aria do 3.º acto remiu-se do fiasco do 2.º, e cantou com tal mimo e doçura que a platéa apesar de gelada rompeu então em reiterados applausos._» (Nacional de 7 de novembro). O _Commercio_, esquivando-se á ingrata e desmerecida palavra _fiasco_, escreve: «_A sr.^a Hensler foi muito applaudida no_ rondó, _e os applausos foram merecidos no_ andante, _que cantou lindamente, executando com admiravel justeza_ a cadencia _em unisono com a flauta... Na cavaletta não foi tão irreprehensivel a execução._» Está de accordo com o _Nacional_ de 8 de novembro: «_A snr.^a Hensler continua a ser applaudida no_ rondó _do 3.º acto, onde a bella cantora revela muito talento. Se a sua voz fosse tão volumosa como é suave, seria uma artista de infinito merecimento._»
A 12 de novembro principiam os jornaes a gemer sobre a gaveta do snr. Laneuville, empresario que se dissolvia, com quanto fosse insoluvel. Sem embargo, a snr.^a Hensler, na confirmação dos dous citados jornaes, excedia-se no mimo do canto. Dir-se-hia que attentava em captar com as harmonias dulcissimas da sua voz o archanjo torvo da miseria que espreitava o empresario por entre as bambolinas de cartão esgarçado.
Alguns amadores, que previam o desastre da empresa nas cadeiras vasias da platéa, fermentaram a occultas dous bandos que, mais ou menos ficticiamente, se apaixonassem pelas duas damas. É o que se deprehende das revelações do _Commercio_ de 5 de novembro que reza assim:... «_No pessoal da companhia não ha nada que desafie enthusiamo e dê vida animada ao theatro, apesar dos esforços que alguns poucos frequentadores do theatro, dos mais desenfadados, empenham para crear partido ás duas damas._
«_Houve já episodios curiosos; porém nem as damas, nem os seus admiradores conseguem fazer móça no indifferentismo do publico, que reconhece superioridade relativa na dama Hensler; mas não vê ainda assim motivo justificado para se enthusiasmar._»
Com a sua usual discrição, omittiu o _Commercio_ os _episodios curiosos_. Bem é de vêr que o amor, ideal da arte das fusas e semifusas, não seria estranho aos sonegados episodios. A radiosa belleza da cantora sem duvida attrahia umas borboletas, que então douravam o seu polen sob as fulgurações do lustre; todavia, como a dignidade da artista se esquivasse ás intrigas de bastidor que, ás vezes, galvanisam os empresarios oxydados, a empresa falliu.
Decorreram uns quinze dias angustiados para a companhia desvalida. Hermann, aquelle prestigiador cavalheiroso que morreu ha dous annos, estava então no Porto. Foi elle o generoso valedor dos artistas e ainda do empresario. A companhia, em fim de dezembro, estava dispersa, não deixando um vestigio de fragilidade no seu rasto de pobreza.
Em 21 de dezembro d'aquelle anno, uma local do _Commercio_ dizia: «_O vapor Lusitania sahido hontem pelas 12 horas da manhã conduziu 118 passageiros, entre os quaes: Elisa F. Hensler_, etc.»
Entrou, pois, na manhã do dia 21 em Lisboa a cantora. Devia levar na alma os lutos da natural vaidade ferida pela indifferença gelida d'uns pisa-verdes que honraram grandemente a mulher, menosprezando a artista. Dos frementes applausos, que a victoriaram quando assomou deslumbrante no palco, ao fastio com que as filas dos seus admiradores rarearam, vai a distancia que medeia entre a mulher honesta e a que permitte que lhe abram saldo de contas em que os applausos representam uma verba.
Eu não sei se Hensler, a cantora, escripturada pela empresa de S. Carlos, ao encarar a princeza do Tejo, que devia vestir de negro n'aquelle dia de dezembro, sentiu pavores da sua futura sorte, em theatro de jerarchia tão elevada para suas forças. Não sei porque frontarias de palacios lhe avoejou a vista absorta nas tristezas de quem ia sósinha, forasteira, sem o genio grande que estua no peito as palpitações do triumpho. Não sei; mas, se encarou lá em cima os palacios dos dous reis--com que olhos a esposa do snr. rei D. Fernando avistará hoje o Tejo, por onde entrára n'aquella manhã pardacenta de nebrina carrancuda de agouros esquerdos! Se ella então preveria um marido rei nas Necessidades, um enteado rei na Ajuda, e toda aquella Lisboa, e todo este reino, e nós todos ás suas plantas, nós todos, os bons subditos do rei que é marido, e do rei que é enteado, e d'ella, que vale mais que todos, por que, offuscando-os com a aureola da arte, estrellada das seducções da belleza, nos revelou que os reis deslumbrados eram apenas homens!
OS SALÕES
CAPITULO II
PLEBISCITUM
Homem plebeu. _Homo plebeius._ Nos antigos romanos havia tres ordens. A ordem senatoria, equestre e plebea. A ordem plebea val o mesmo que a gente do povo.
_Plebiscitum._ Termo da antiga jurisprudencia romana. Deriva-se do latim: _plebs_, plebe, e _sciscere_, que val o mesmo que _assentar_, _ordenar_, _determinar_. E assim _plebiscito_ era o decreto, ou lei posta pelo povo, sem o suffragio dos senadores, mas só ao pedir do tribuno, magistrado do povo. _Plebiscitum._
D. RAPHAEL BLUTEAU.
La conscience peut être géante, cela fait Socrate et Jésus: elle peut être naine, cela fait Atrée et Judas.
La conscience petite est vite reptile...
Les catastrophes ont une sombre façon d'arranger les choses.
VICTOR HUGO.
A luz não se exprime. Não tem definição. Como a não tem o calor, o magnetismo, a electricidade, e a vida.
A luz é o agente ou a acção, que nos adverte a distancia da presença dos corpos luminosos pelo intermedio da vista.
Vejamos.
A luz propaga-se em linha recta nos meios homogeneos. Obrigada a parar, no seu caminho, pelo encontro d'um corpo opaco--produz os phenomenos da sombra e da penumbra.
No mundo moral são a sombra e a penumbra as reacções da sciencia, da arte, da civilisação e do progresso.
Analysemos as penumbras.
Entremos nas sombras.
Desçamos ás trevas.
Fóra da vida physica são as trevas a ignorancia, e esta produz o silencio. Ora, o silencio é a paz dos sepulchros. Por que não deveria eu consultar a plebe?
Ha por ahi, nas ultimas camadas sociaes, perdidas, nas solidões da miseria, almas tão nobres, aspirações tão vastas, crenças tão vivas...
Por que não iria eu consultar os generosos sentimentos populares?
E fui.
Entrei n'um tugurio qualquer.--Que lhe importa o leitor qual foi? Havia uma mesa de pinho, duas cadeiras, e um catre. Era toda a mobilia. Mas, no meio d'esta hedionda miseria, existia um homem, feito á imagem de Deus; _et creavit Deus hominem ad imaginem suam._
Era um veterano da liberdade. Desembarcára no Mindello. Tinha, na cabeceira do leito, pregada no travesseiro a insignia da Torre e Espada, ganha em Souto Redondo, em lutas titanicas, e em nome da liberdade.
Não desenho o soldado, ainda hoje operario. Basta-nos ouvil-o.
Li-lhe o manuscripto.
Ficou pensativo, e triste. Encostou os cotovelos sobre a mesa, afagou o craneo, como se lhe tumultuassem tantas idéas lá dentro, que não podiam irromper d'aquella abobada de fogo, e depois, em voz baixa, como se receasse ser ouvido, começou assim:
--Publique tudo isso.
A abstenção politica é mais do que a morte: é a indifferença pelos males sociaes, é a historia d'este torpe individualismo, que nos corrompe, é a gangrena moral d'esta sociedade em dissolução, é a anasarca symptomatica da lesão organica que despedaça a nossa existencia, é o maior de todos os crimes, por que é uma tranquillidade ficticia, comprada á custa dos legados que nós iamos enthesourando para as gerações futuras.
A democracia agonisa, no seculo dezenove, quando desabrochava, e se abria em flôr, na arvore, que nós todos plantamos, regada com o sangue precioso de tantos martyres, em nome dos que deviam colher e adorar no futuro, o fructo dos nossos trabalhos.
O velho operario, o antigo soldado do cêrco do Porto meditou por alguns instantes, e continuou:
--A historia vai esculpida em chronicas de reis, e memorias d'aulicos. A historia ha de escrevel-a um dia o povo, rasgando todas essas paginas mentirosas e lisonjeiras das décadas fabulosas, sahidas das mãos dos eunuchos d'estes harens do occidente.
Esta paralysia social em que a geração presente cahiu, esta hesitação absurda e repugnante nos annaes da nossa vida actual tem uma explicação irrespondivel: o mundo espera uma crença viva para se alentar na sua marcha--para respirar, e viver. D'onde virá a fé?
Habitantes d'uma peninsula á mercê de tantas invasões, raças tão diversas teem pisado este solo, que difficil, senão impossivel, será buscar-lhes a genealogia. Iberos, celtas, tyrios, phenicios, carthaginezes, numidas, berbéres, romanos, godos, alanos, suevos, mussulmanos, e varias hordas de gascões, e borgonhezes, afóra aragonezes, asturianos, e gallegos sulcaram este solo sagrado.
Onde estão os lusitanos?--Onde corre esse sangue mosarabe com que a historia enche a vastidão das nossas campinas, e povôa a crista das nossas montanhas?--Nas trevas das invasões perdem-se os vestigios, e em presença dos aventureiros, que acompanhavam Henrique de Borgonha, apparece uma raça energica, robusta, e corajosa, que põe em derrota a meia lua dos sectarios do Islam, e obriga a dynastia affonsina a conceder-lhe cartas de foraes, que são os pergaminhos e armarias d'esta nobilissima raça hispanica.
E o velho soldado do cêrco do Porto curvou a cabeça, e meditou.
Depois disse:
--Quem são, então, os duques e condes que acompanhavam o aventureiro, e bastardo real? Quem são os mercenarios, que se aformoseavam com as alcunhas ephemeras, e irrisorias dos cargos nobiliarchicos da côrte byzantina, quando estes titulos valiam, outr'ora, pela significação do mando, do poderio e da jurisdicção?
Á face da nobre raça hispanica--raça que somos nós--eram elles o enxurro, e a vadiagem das côrtes em que nasceram.
Nós eramos o povo, éramos a raça, éramos a tradição.
Quem tomou Lisboa aos mouros? Quem levou os arabes e berbéres de vencida até ás costas do occidente? Quem povoou a patria, quando as quinas se desfraldaram em Ourique? Quem coroou D. João I, esmagando as traições de Castella? Quem promoveu a restauração de 1640, e lutou pela independencia da patria?
Foi o povo.
Deixemos Aljubarrota ao condestavel.
Deixemos a restauração aos quarenta conjurados do palacio do conde de Almada. Que poderiam elles sem nós? O zelo, a coragem, o esforço, e o amor da patria só nos cabem a nós.--Vencemos sempre, porque eramos o povo.
Batemos com os contos das nossas lanças ás portas de Ceuta, de Tanger, e d'Arzilla, e os bastiões africanos cediam aos nossos esforços. Aportamos em Calecut, Cochim, Gôa, Malaca e Ormuz--e o Oriente dobrou-se á nossa vontade. Que importa, que os cabos de guerra tenham os louros das victorias, e das conquistas? A gloria é nossa. Fomos o instrumento civilisador, o soldado que morre pela patria, o portuguez, que cahe alanceado junto do seu pendão.
Para o condestavel, para Vasco da Gama, para Affonso d'Albuquerque, para D. João de Castro, para D. Francisco d'Almeida ha a chronica, ha o livro, ha as tenças, ha a narração dos feitos esforçados e valerosos, ha as recompensas da munificencia regia, e os brazões, que são a commemoração d'esses feitos, esculpidos nos portaes dos seus nobres solares.
Para o homem do povo, que pelejou ao lado dos mais corajosos, que batalhou onde havia mais perigo, que abandonou mãi, mulher e filhos,--para esse, ha a valla de finados, triste, e obscura--e a chronica emmudece, porque não é para peões, e villanagem, que foi creada a historia dos reis, e a Torre do Tombo, onde se guardam, e archivam seus feitos e memorias.
Para o povo ha o silencio.
Quando d'elle falla a historia, alcunha-o de sedicioso, barbaro e turbulento.
Para o povo ha o esquecimento.
A humanidade é uma idéa abstracta, que vive para a historia, nos vaidosos triumphos dos Alexandres, dos Cesares e dos Pompeus.