Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 04 (de 12)
Chapter 2
--O filho do desgraçado, que tinha então onze annos e estava com sua mãi, póde dizer-se que ficou litteralmente pobre. Os credores e a fazenda nacional disputaram-se a posse do espolio. O rapaz, quando chegou á idade de tomar conta da honra de Real de Oleiros, convenceu-se que lhe era mister trabalhar para não morrer de fome. Os parentes de sua mãi, posto que abastados, não o protegeram, e tornaram-lhe pesada a esmola do pão e da cama. Um dia, o brioso moço sahiu com sua mãi da casa que lhe amargurava o bocado, e foi habitar um casebre nas visinhanças do escrivão, que o fizera seu amanuense, e lhe dava doze vintens por dia. V. s.^a conhece-o. É aquelle Alvaro de Andrade que tem lavrado as escripturas de compra de propriedades que o snr. Guimarães tem adquirido...
--Pois é esse!... Aquelle homem humilde que me beijou as mãos quando eu lhe dei uma libra de gratificação...
--É esse mesmo.
--E nunca me disse de que familia era...
--Não falla em familia, e parece até esquecido da sua procedencia. Que eu, a fallar verdade, uma vez, passando com elle defronte das ruinas da casa de seu pai, surprendi-o a olhar para as paredes derruidas com as lagrimas nos olhos. Perguntei-lhe por que chorava, e elle respondeu-me que chorava por sua mãi, lembrando-se que d'aquella casa sahira ella coberta de mais amargas lagrimas.
--Coitado!--disse o brazileiro--hei de fazer-lhe o bem que poder.
--E póde muito v. s.^a; mas faça-lh'o de modo que o não humilhe.
--Eu cá sei, snr. abbade. Nós, os chamados brazileiros, sabemos todos os processos de dar esmolas aos nossos patricios de modo que elles se dispensem de nos agradecer, e até lhe deixamos o direito salvo de nos ridiculisar.
A justiça inspirára este homem, que nunca fôra tão eloquente.
* * * * *
Pouco tempo depois, annunciou-se a venda da quinta de Real de Oleiros e suas pertenças, a requerimento dos credores. José Maria Guimarães cobriu todos os lanços. Foi-lhe adjudicada a quinta por alto preço. Os licitantes, que eram os credores, acotovelavam-se jubilosos, e diziam entre si:
--_Espiguêmol-o!_
E, assim que o ramo lhe foi entregue, disseram unanimemente:
--Foi _espigado_!
O brazileiro pagou immediatamente ao instrumento da adjudicação, e disse, relançando a vista aos alegres credores de Pedro de Andrade:
--Meus senhores, o que vale aos credores dos fidalgos, que não pagam, são estes _nossos irmãos de além-mar_, que, lá e cá, melhor fôra chamar-lhes _irmãos da misericordia_...
--É parvo!--disse um poeta de Basto ao ouvido de um bacharel de Felgueiras.
* * * * *
Passados dias, começaram obras de reedificação no local do palacete arruinado. O proprietario, fazendo-se encontradiço com o amanuense do tabellião, disse-lhe:
--Ó snr. Alvaro, vá o snr. hoje, se não tiver que fazer, á quinta de Real, que temos que conversar a respeito de certos arranjos.
--Sim, senhor--disse Alvaro--quando v. s.^a quizer.
--Ás 4 da tarde; e leve tinteiro e papel, que não ha lá d'isso.
Á hora aprazada, entrou o bisneto do capitão-mór na extincta honra dos Pachecos e Andrades. Já lá estava o brazileiro, ás testilhas com os alveneis. Assim que chegou o escrevente do tabellião, subiu com elle por entre um matagal de bravio até ao alto de um outeirinho onde se erguia um pombal já descaliçado, mas ainda assim a porção menos esboroada das pertenças da quinta, graças á fortaleza do tecto abobadado de pedra.
Havia dentro uma banca de granito, onde outrora os senhores de Real se desenfastiavam em merendas, depois das fadigas da caça na tapada defeza. Já lá estavam duas cadeiras.
--Sente-se ahi, snr. Alvaro--disse José Maria Guimarães,--e vá escrevendo.
--Prompto!--respondeu o escrevente, rodando a sibilante tarracha do tinteiro de chifre.
--Ponha ahi os nomes dos pobres da freguezia que não tem casa de seu.
Alvaro Pacheco escreveu trinta e quatro nomes; quedou-se um momento, e perguntou:
--De todos os pobres que não tem casa?
--Sim, de todos os pobres que não tem casa propria.
--Então, falta o meu nome. Somos trinta e cinco os pobres que não temos casa.
E escreveu: _Alvaro, escrevente de tabellião._
--Muito bem--volveu o brazileiro commovido--sabe o que eu quero?
--V. s.^a o dirá.
--É ceder metade d'esta quinta aos pobres para elles edificarem uma casa com seu quintalejo; já se vê que sou eu que pago as obras das casas; e, visto que o snr. Alvaro é um dos trinta e cinco pobres, escolha a local onde quer a sua casa feita. A escolha do local é sua; ora agora, o feitio da obra isso é cá por minha conta.
--Os pobres aceitam, não escolhem--disse Alvaro.
--Mau!--replicou José Maria Guimarães--Mau! ou bem que somos francos um com o outro, ou não temos nada feito. Eu cá sou assim!
--Então quer v. s.^a...
--Deixemo-nos de _senhorias_. Eu sou filho de um almocreve, e neto e bisneto de burriqueiros; e o snr. Alvaro Pacheco é descendente de capitães-móres a quem meus avós traziam presuntos de Melgaço nas suas recovas de machos. Deixemo-nos de _senhorias_. Vamos á questão. Onde quer a sua casa?
--Aqui--disse Alvaro.
--Aqui no pombal?!
--Aqui, porque fica sendo casa, e ao mesmo tempo memoria de ter estado n'este sitio um homem honrado.
--Ou dous--emendou o brasileiro--Dê cá um abraço, e vamos embora, que faz aqui frio.
E, no decurso do caminho, proseguiu:
--O snr. Alvaro ha de fazer-me o favor de se despedir do serviço do tabellião, se lhe não custar. Preciso de quem me represente n'estas obras, em quanto vou tratar de negocios a Lisboa. Eu cá lhe deixo as plantas das casas dos pobres, e o capital para o custeio das despezas.
* * * * *
O brazileiro voltou, passados seis mezes. Todas as casas estavam já de parede e tecto, quando voltou, excepto a do pobre chamado Alvaro.
--Com que então a casa n.^o 35 ainda não tem sequer os alicerces?---perguntou o bemfeitor.
--É porque o pobre n.^o 35 não precisa tanto como os outros--respondeu o feitor.
--Então vou eu ser agora o fiscal das suas obras--tornou José Maria.
E, ao outro dia, fez convergir os melhores operarios para a bouça do pombal, e mandou arrazar a vivenda de centenares de andorinhas que se esvoaçavam ao primeiro troar dos alviões e marretas.
Alvaro e José Maria assistiam ao derrubamento do pombal, um tanto condoidos do esgazear das espavoridas habitadoras das ruinas.
N'isto, um pedreiro esboroando com a alavanca um pedaço de parede, descobriu uma superficie escura, que se lhe figurou lousa.
--Que diabo de obra é esta de lousa em parede de cantaria?--disse o alvenel.
O brazileiro abeirou-se da parede, apalpou a supposta lousa, e observou ao pedreiro que era pau e não lousa, mandando socavar dos lados, e alimpar a superficie do que quer que fosse.
--Isto é um caixote!--disse o mestre da obra--querem vossês vêr que o diabo as arma?
--Arma o quê?--perguntou José Maria Guimarães.
--V. s.^a nunca ouvia dizer que os fidalgos de Real esconderam um thesouro que nunca se encontrou?
--Já ouvi dizer isso. Atirem a baixo toda a pedra que está dos lados, e não embarrem no caixote. Cuidado lá com isso! Snr. Alvaro, parece-me que vai assistir á resurreição do melhor defunto dos seus avós--bradou o brazileiro.
--Como?!--perguntou Alvaro, que vinha entrando no recinto do pombal.
--Venha vêr. Apalpe. Que é isso?
--Parece-me um caixote--disse o bisneto do capitão-mór.
--Não é parece; é que é. Sabe o que lá está dentro? Sabe a historia dos trezentos e tantos mil cruzados de seu bisavô?
--Ouvi dizer que...
--Que nunca appareceram. Apparecem hoje. Estão alli.
Alvaro de Andrade que tinha encarado o infortunio de trinta annos com intemerato aspecto, descorou em frente da taboa negra que devia ter dentro uma cousa chamada, bem ou mal, a _fortuna_.
A este tempo, o caixote era apeado, suspenso entre quatro robustos braços.
--Oh! como pesa!--gemeu um dos pedreiros.
--Podéra não!--disse o brazileiro--trezentos e tantos mil cruzados!
--Os rios correm para o mar, snr. Guimarães--observou o mestre d'obras.
--Que quer dizer, mestre?--perguntou o brazileiro.
--Que se v. s.^a era rico, é agora riquissimo.
--Obrigado pelo conceito que faz de mim, mestre...--volveu José Maria entre risonho e agastado.
--Ó meu senhor, pois eu...
--Suspeita-me de ladrão...
--Valha-me Deus!... o que apparecer em terra de v. s.^a seu é.
--E esta terra é minha? Pois não sabe que este chão é d'este pobre que se chama Alvaro?
--Ó snr. Guimarães!...-exclamou o filho do ultimo senhor da honra de Real de Oleiros, e não pôde articular outra expressão.
--Vamos!--acudiu o brazileiro--para onde é que vai o thesouro de seu avô, snr. Alvaro Pacheco de Andrade, snr. barão, snr. visconde, snr. conde, snr.... Quer mais? Dê as suas ordens.
José Maria casquinava uma risada de elevada intelligencia, em quanto os obreiros, rodeando o caixote, se embasbacavam uns nos outros, e todos no rosto de Alvaro com a mais sincera e respeitosa estupidez.
Novamente instado para que dissesse onde o caixão devia ser levado, Alvaro respondeu:
--A minha mãi, que sabe o que são pobres.
* * * * *
E os primeiros pobres, que relativamente enriqueceram nas aldêas convisinhas, foram os descendentes dos irmãos d'aquelle feitor que muitos alcunharam de fugitivo ladrão do thesouro do capitão-mór, e que se fôra a morrer longe d'alli, e obscuramente, receoso de ser novamente martyrisado pelos filhos de seu amo.
Alvaro Pacheco de Andrade, n'este anno de 1874, tem quarenta e nove annos, e é conhecido pelo fidalgo de Real de Oleiros. Aquella senhora de tez morena, com cinco formosos filhos, que brincam á volta de outra senhora de setenta annos, é a esposa de Alvaro, e filha de José Maria Guimarães. A dos cabellos brancos, que lhe alvejam na fronte como a corôa de açucenas de uma santa, é a viuva d'aquelle galhardo e infausto D. Juan, assassinado em 1843. O sacerdote ancião, que parece ser da familia, é aquelle abbade que nos leu a _Revista Universal Lisbonense_, e a quem eu devo e agradeço os commentarios ao fogoso e pungente artigo, que me parece ser do meu presado mestre e adorado amigo visconde de Castilho.
O JOGADOR
Hoje em dia, aquella denominação, nem é desprezivel nem affrontosa. O progresso indultou o jogador; deliu-lhe da fronte o antigo ferrete.
Se eu jogar com sorte propicia, e mobilar um palacio, cujas alfaias e baixella representem os haveres e as lagrimas de muitas familias, serei o legitimo e respeitado proprietario do meu palacio.
Se eu abrir os meus salões, a mais selecta sociedade virá pisar as alcatifas do meu palacio, e lisonjear a magnificencia do fino gosto que dirigiu as correntes do meu ouro. Ninguem me perguntará se herdei de avós, se ganhei de incautos a minha opulencia. Talvez que os meus convidados segredem entre si a proveniencia das minhas pompas; mas d'esses, duas vezes deshonrados, vingado estou. Deshonrados, porque entraram nas minhas salas, e deshonrados porque denegriram a honesta posse dos vinhos que me beberam.
Continuando a auspiciosa hypothese: se eu fôr o jogador enriquecido, bemquisto das familias, pessoa séria, influente nas eleições bancarias, com folha corrida, insuspeito de falsificador de testamentos ou moeda, de certo me não distingo do homem de bem, laborioso, honrado e provado nas lutas da vida.
Ha, todavia, entre nós uma pequena differença: eu dou bailes, e o meu honrado visinho não os dá.
Mas isso depende da aristocracia da indole: elle póde descender d'algum servo de gleba, que lhe transmittiu genio caínho e o acanhamento de raça; em quanto eu obedeço a impulsos de outro sangue. As damas que se bamboavam nos coxins flaccidos das minhas othomanas com toda a certeza não calcularam quantos _micos_ infelizes dos meus parceiros representavam as copias de Raphael e os originaes de Murillo pendurados sobre as colgaduras das minhas paredes. Antes quero suppôr que ellas, no arrobo da sua admiração, meditaram que na minha cabeça havia o que quer que fosse digno da cabelleira encalamistrada de um Marialva, no reinado de D. João V.
É profundo o fôsso que me separa do jogador em outras eras. Nasci quando devia nascer. Se eu viesse á luz no seculo XVI, este meu mister de jogador era synonymo de vadiagem (_Ord_, l. V, tit. 82). Nas minhas tertulias, devidas á sorte feliz da tavolagem, lograria apenas reunir jogadores. Se nascesse no seculo XVII ou XVIII, os corregedores dos Philippes, de D. João IV e Pedro II, e dos reis subsequentes, se eu désse bailes, carregavam-me com as leis sumptuarias por sobre a pêcha de vadio. Em tempo de D. João V, D. José ou D. Maria, tanto o Camões do Rocio, como o Marques Bacalhau, como o Pina Manique mandavam-me responder do Limoeiro pela procedencia dos meus lustres, dos meus sophás, dos meus jarrões, dos meus contadores marchetados, dos meus bronzes, dos meus frescos, dos meus pendulos, dos meus pavimentos de xadrez lustroso. E vestiam-me talvez uma das librés dos meus criados.
Foi por isso que o facho da civilisação, passando pelas minhas salas de jogador feliz, radiou reverberos esplendidos da minha baixella, e me mostrou em meio dos meus convidados, com a fronte luzentissima das alegrias do homem de bem.
Póde ser que, em outras eras tenebrosas, a felicidade no jogo fosse malsinada de fraude e roubo.
Hoje não.
O jogo, á luz de 1874, é um contracto bilateral, fundado no consentimento de ambas as partes.
Se é forçoso que uma das partes fosse tola e desgraçada, eu de certo não fui.
Está fechada a hypothese.
INEDITO DO POETA FR. BERNARDO DE BRITO
Escreveu o famoso cisterciense a _Sylvia de Lizardo_, e ninguem o trata de poeta quando o louva ou moteja. Chamam-lhe o _chronista_, o _classico_, o _douto_, o _mentiroso_, o _massador_, o _milagreiro_; poeta é que não; e houve até um frade da ordem d'elle, Fortunato de S. Boaventura, o author do _Punhal dos Corcundas_, que positivamente desbalisou de poeta e de author da _Sylvia de Lizardo_ o vernaculo author da _Chronica de Cistér_.
Pois foi poeta, e dos bons do seu tempo, aquelle Balthazar de Brito de Andrade, que por amor do patriarcha se crismou em _Bernardo_.
Teve elle o ruim sestro de desfazer na prosapia dos outros. Raro fidalgo lhe sahiu incolume do crisol em que por obrigação do officio de historiador, elle acendrava o fino ouro dos Trocozendos, dos Romarigues, dos Egas Bufas e outros condes das raças romana é goda.
Nos descendentes do Espadeiro, que eram a geração dos _Coelhos_, beliscava elle, á conta do assassinio de Ignez de Castro. De si, dizia o frade, que os _Britos_, em Portugal, derivavam dos _Brutos_ de Roma.
Um descendente de Egas Moniz, chamado João Soares de Alarcão, como era poeta, satyrisou a maledicencia de fr. Bernardo de Brito com este soneto:
Aos profundos imperios d'el-rei Pluto Irás, Bernardo, pelo que has escripto, Pois dizes que de _Bruto_ vem teu _Brito_, Ficando tu só n'isso Brito e bruto.
Tu vens d'aquelles que a pé enxuto Passaram, com Moysés, o mar do Egypto, Ou vens do que com sangue do cabrito Tantos guizados fez sem nenhum fructo.
Chamastes ao teu livro _Monarchia_, Sendo _Mona_ que cria monstros varios, E tornastes de ferro a idade de ouro.
Não te mettas em casos temerarios; Pasta nas hervas, bebe da agua fria, Ou na velha escudela o caldo louro.
O monge de Cistér responde pelas mesmas rimas:
Maçarico dos charcos de el-rei Pluto, Que taes marmanjarias has escripto, Que ao douto frei Bernardo ou Bruto ou Brito Picas com bico infame, sujo e bruto;
Jámais será de Ignez o pranto enxuto, Pois a fazes mais quartos que um cabrito, Dizendo que nas mãos deu o esp'rito De Coelho matador, sagaz e astuto.
Não vem da lusitana monarchia Martinho _mono_, pai de cascos varios, Sua mãi de _Aguilar_, aguia, não de ouro.
Não te mettas em casos temerarios: Que louro não honra tua musa fria, Mas de uma pouca de... o caldo louro.
As injurias do primeiro terceto entendem com os progenitores de João Soares de Alarcão. Martinho, se era _mono_, sobrava-lhe direito a ser da _monarchia_ lusitana; mas tambem o outro se demasiára, vituperando de _mona_ a _Monarchia_ do frade. Tratavam-se de macacões um ao outro. _Pai de cascos varios_, invectiva o poeta de Alcobaça. Pela variedade da cascaria, entende-se que capitulava de cavalgadura o adversario: saldo bem ajustado com o outro que lhe chamára _bruto_.
Entra no soneto a mãi do poeta, que devia ser da familia de _Aguilares_: e era com effeito, sem ser de raça desprimorosa. Chamava-se D. Cecilia de Mendonça Aguilar e Lugo, filha de Philippe de Aguilar, mestre-sala de D. Sebastião, de D. Henrique, de D. Philippe, e tão amigo de Castella que chegou á mordomia-mór do rei intruso. Estes Aguilares e Aguiares foram sempre muito dos hespanhoes, e logo contarei um caso do mais notavel.
_Martinho_, _mono_, diz frei Bernardo. Que o pai do poeta era Martinho Soares de Alarcão e Mello, 6.º senhor da casa de Torres-Vedras, não ha duvida; que fosse _mono_, não o inculcam os genealogistas. Seu filho, o poeta, foi alcaide-mór de Torres-Vedras, casou, teve nove filhos, e entre esses, o jesuita Francisco Soares de Alarcão, letrado eminente e guerreiro, que morreu queimado em uma explosão de polvora, quando guarnecia Juromenha, em tempo de D. João IV, capitaneando os noviços da companhia, cujo reitor era.
Outro filho do _poeta dos cascos varios_, quando D. João IV o mandava governar Ceuta, passou-se para Philippe IV; e foi condemnado á morte[1].
Teve a mãi de João Soares um primo chamado Damião de Aguiar Ribeiro, que era corregedor em Lisboa, reinando o cardeal. Como sabem, andavam então divididas as opiniões entre D. Antonio e Philippe II, ácerca da successão do throno. Damião de Aguiar era dos mais façanhosos propugnadores por Castella. Succedeu então que um homem do serviço de D. Antonio acutilasse na Padaria um vereador que fallava soltamente no senado contra o filho de Violante Gomes. Foi preso e summariamente condemnado á forca. Á hora em que o réo era levado, soube Damião de Aguiar na rua Nova que, na Ribeira, se ajuntava povo intencionado a tirar-lhe o padecente. Mandou o corregedor parar o prestito; fez lançar uma corda de uma janella, e alli mesmo ordenou que se enforcasse o homem, para evitar semsaborias. Tão grato lhe ficou por isto o rei de Castella que o nomeou desembargador do paço, e depois chanceller-mór do reino, commendador de S. Matheus de Soure e de S. Cosme de Gondomar, commendas que rendiam 3:500 cruzados.
Foi, por tanto, riquissimo, e tão bom homem que fundou o convento das Capuchinhas da Merciana. Instituiu morgadio, comprehendendo uma extensa quinta que ia desde as portas de Santo Antão pela travessa da Annunciada até á chamada calçada de _Damião de Aguiar_.
Casou duas vezes; procreou-se, e fez-se representar entre nós pelos snrs. condes de Povolide, de Valladares, etc.
Rebello da Silva não reza bem d'este Damião na _Historia de Portugal_. Eu não rezo bem d'elle nem por elle; confesso, todavia, que era homem expedito nisto de enforcar a gente na janella de qualquer cidadão, mediante seis varas de corda.
[1] D. João Soares morreu em 1618, com 38 annos de idade. Escreveu e imprimiu em lingua castelhana: _Archimusa de varias rimas y efetos_, e _La iffanta coronada por el-rei D. Pedro, D. Ignez de Castro_, etc. Este poema não devia ser mui lisonjeiro ás tradições de Pero Coelho, avoengo do poeta.
LISBOA
Elucidemos a historia do viajante.
O mordomo-mór que fugia era D. João de Mascarenhas, 4.º marquez de Gouvêa, e 7.º conde de Santa Cruz. Tinha 25 annos, e era casado com uma hespanhola, chamada D. Thereza de Moscoso e Aragão, filha do 7.º conde de Altamira.
A senhora que fugiu com elle era D. Maria da Penha de França, tambem casada com seu primo-irmão D. Lourenço de Almada, muito moço.
Tinham casado em 1722. Em junho de 1723 D. Maria da Penha de França deu á luz uma menina, que se chamou Violante. E, na noite de 11 de novembro de 1724, a esposa, abandonando marido e filha, fugiu com o marquez.
Este desastre não foi precedido de ardentes galanteios e grandes resistencias do pudor vencido pela paixão.
D. Maria foi de visita ao paço, onde havia sido dama, como sua mãi D. Violante Henriques o fôra da rainha D. Maria Sophia de Saboya. Viu o marquez que era galan, audaz, e sem ser milagre, fulminou-o com o relampago da formosura. Fugiram e pararam em Tuy. Não foi em Vigo como diz o viajante. Julgavam-se salvos em terra estrangeira; mas o bispo, por ordem vinda de Madrid, prendeu D. Maria n'um mosteiro; e o marquez fugiu por Hespanha dentro, e mais tarde para Inglaterra.
Tanto que em Lisboa se divulgou a prisão da mulher de D. Lourenço de Almada, certo poeta escreveu um soneto gravido de maus versos e boa moral, que diz isto:
D'esse claustro a sagrada penitencia Pia te esconda, oh bella criminosa, E converta-se em sombra a luz formosa Que ardeu nos sacrificios da indecencia.
Tolera da prisão toda a violencia, Perdida já a nobreza generosa; Fique ainda entre a culpa indecorosa Benemerita ao menos a paciencia.
Principia a morrer n'essa clausura Encobrindo um descredito infinito No antecipado horror da morte escura.
Mas ah! se em ti, por ultimo conflicto, Como vai sendo de vida sepultura, Chegasse a ser cadaver o delicto!
Hei de escrever um livro que ha de chamar-se o DESTERRADO. Estes desastres hão de ser esmiuçados compridamente. O _Desterrado_ do meu romance não é o marquez de Gouvêa: é outra casta de personagem. Bem sei que esfrio o interesse do futuro livro, bosquejando-o aqui em poucas linhas. Não importa. A curiosidade do leitor é mais attendivel que as conveniencias mercantis d'uma novella.
Como sabem, D. Maria da Penha deixou nos braços do abandonado marido uma filhinha de onze mezes, que se chamou Violante. Esta menina, ahi pelos dezesete annos, amou seu primo D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, alcaide-mór de Villa do Conde, capitão de cavallos, e uns gentilissimos vinte e nove annos. Na casa dos Almadas, onde D. Luiz fôra creado--porque sua mãi casára em segundas nupcias com D. Luiz José de Almada--havia um D. Antão, que se apaixonára por Violante, que era sua sobrinha. A menina esquivara-se ás caricias do tio, e deixou-se arrebatar nos braços do primo D. Luiz, quando uma ordem regia o desterrou para Moncorvo, a rogos de D. Antão de Almada. Os dous fugitivos (que desterro tão semelhante, o de mãi e filha!) esconderam-se e casaram em Zamora; mas ahi mesmo os enviados do cioso tio a foram colher de sobresalto e a trouxeram a Portugal.
Esteve a menina reclusa alguns annos em Marvilla, com o proposito de professar, pois que a lei lhe annullára o casamento com o primo; não obstante, porém, a saudade do desterrado primo, ao fim de onze annos, aceitou seu tio para esposo, do mesmo passo que D. Luiz era banido e desnaturalisado para sempre. Aqui fica muito pela rama o entrecho do livro para o qual se estão aprestando as peças essenciaes da vida tempestuosa de D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, fallecido aos 75 annos, e terceiro avô do actual snr. visconde de Sanches de Baena[2].
De D. Violante e de seu tio D. Antão de Almada (sem embargo das amarguras da violentada esposa) nasceu D. Lourenço de Almada, que foi o 1.º conde do seu appellido em 1793.
* * * * *
Outra indicação do viajante que estimula a curiosidade:
«A casa da rainha e dos principes são analogas á do rei. O posto de camareiro-mór da rainha vagou por morte do marquez das Minas, assassinado em 1721. Este senhor era genro do marechal de Villeroy; e seu filho, o conde do Prado, está presentemente na côrte de França.»
Já d'este caso dei n'outro livro a noticia que transcrevo do citado periodico de Francisco Xavier de Oliveira: