Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 03 (de 12)
Chapter 5
Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio, prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou assim.
Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome, transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi, como o infante se agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia bandeada com o usurpador!
Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (_Cinco libros de la historia de Portugal_, liv. III), de Faria e Sousa (_Europa portugueza_, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez intitulado_ Briefve et sommaire description de la vie et mort de D. Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal_, impressa em Paris, no anno 1629.
Uma vez, folheando a _Bibliotheca lusitana_, vi o nome e appellido do leal amigo de D. Antonio.
Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte da gente não trocaria por missangas.
A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: _Pedro de Alpoem Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa morreu degolado._ _Escreveu_: Carta ao duque de Bragança D. João, o primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. _A data é do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581._ _Começa_: «Obriga-me a escrever a v. exc.^a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.» _Acaba_: «Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem promettido conservar.» _É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança por seguir o cardeal._ (Tom. III, pag. 553).
Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado inculcára.
O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se reparasse que ella é datada no _Seio de Abrahão_, deprehenderia logo que, em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581, alguém escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo da carta, as palavras: _Obriga-me a escrever a v. exc.^a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos_, estão confirmando a ficção.
Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima da amizade e do patriotismo.
Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem, esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes, já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro de Alpoem, e de uma senhora de appellido _Caldeira_, filha de Affonso Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era administrador[18]; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com Estevão Barradas.
No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse egregio sangue.
D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres, liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, D. João de Azevedo, Antonio de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel de Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes, resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio.
As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs. Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo, cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com superiores dotes de provada intelligencia.
Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro sim no seu testamento impresso nas _Provas da historia genealogica da casa real_, tom. II, pag. 556.
Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios do rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei.
Perdidas as esperanças, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do carcere e desterro, até que, volvidos annos, conseguiu perdão de Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas, que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mãi do rei que lhe perdoou. Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da corôa nunca mais voltou á casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a usurpação, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas indemnisações dos reis brigantinos; não assim os descendentes de Martim Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue apenas o que a rapacissima vingança de Philippe II lhe deixou. Entre os netos de D. Arnaldo de Bayão e os do bastardo de Ignez Pires não tem havido no decurso de tres seculos humiliações de vassallos nem magnanimidade de reis.
Volvendo á suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragança, auxiliar, senão causa primaz, da escravidão de Portugal, da degradação da nobreza, da miseria do povo, do perdimento das colonias, e dos atrozes flagellos que se contaram pelos dias de sessenta annos.
Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragança aos calcanhares de Philippe II.
[18] N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu avô do mesmo nome em 1514.
ERRATA DO N.º 2
Pag. 42, linha 3.ª:
Aquillo com que mais se accende o engenho.
Emende:
_Aquillo_ «com que mais se accende o engenho».
FIM DO 3.º NUMERO