Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 03 (de 12)

Chapter 3

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«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle. Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas elle--acrescenta o mestre do patacho _Nossa Senhora da Candelaria_--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos. Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas; e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim, expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.

«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle, a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse: que Deus o sabia.

«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»

«Confronte agora v. as datas das sentenças dos tres pontifices, e deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e _varias terras_ como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma nas tres épocas assignaladas na sentença.

«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta philosophia e não ao calendario decidir. São os _porquês_ de Deus, dos quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio Vieira:

«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra trazer se a brevidade as permittira.

«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei? Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal inquirição; e a quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, que lhe não fez exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigação. Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere Lucio Floro nos seus _Annaes_, e D. João de Castro, que foi testemunha de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios, que então succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV o testificou e contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que é trabalhoso o referil-as por papel.»

«Responda-lhe, se póde.

«Muito venerador

«_Bibliophilo._»

Não tenho que responder. S. s.^a cuidará que eu sou menos sebastianista que a sua pessoa?

Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais? mande-as buscar ambas, que as merece.

DESGRAÇADO BALZAC!

(Á _ACTUALIDADE_)

Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel, que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.

Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do folhetinista.

Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não diga que sou incivil).

Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo centauro.

Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.

O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva Pinto.

O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da _Actualidade_ a traduzir romances de Balzac.

Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de paredes caiadas!

Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.

Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas no author dos _Contes drolatiques_, ainda que lhe sóbre igual saber da linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.

Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.

E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se prover do n.º 16 da _Actualidade_, e abrir isso onde começa o martyrio de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:

Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam _tempo-brusco_, dá a razão do epitheto n'estes termos:

_Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité complete._

E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:

_Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz demasiado viva como a escuridão completa._

Viram? _chez lui_--de sua casa. Incrivel!

Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua lingua, quiz dizer:

_Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas._

Mas... _a casa do homem_! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em _escuridão completa_ sabemos nós.

Adiante.

Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis, espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta condição, e acrescenta:

_Auprès d'elle tout a blanchi._

O snr. Silva interpreta assim a phrase:

_Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos._

Quer dizer: _áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora, embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos._

Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.

Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de renome, aos olhos d'ella, _tout a blanchi_, «eram como se fossem velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena indifferença, etc.

Adiante.

Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac: _Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la_. O author quer dizer: _Certas mulheres galanteadoras tem artes de dissimularem os mesmos geitos_; mas o snr. Pinto, subtrahindo o _coquettes_ que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente:

_Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano._

Chatissimo!

Balzac diz que Eugène de Rastignac... _avait plus d'une fois regardé la marquise de manière à l'embarrasser_.

Traducção do centauro:

_Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a._

Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos soez diria:

_Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou perturbou._ Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias subentendidas na phrase _embaraçal-a_.

Adiante.

Balzac diz que o personagem _etait commodément assis, et avait les pieds plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière_.

O tal Pinto estraga d'esta arte:

_Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim._

No traste forrado de pelles!

_Chancelière_,--uma palavra diluida em nove!

Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir _capacho_, ou _ceirão de félpo_, ou _guarda-pés_, ou _pelliça_, por analogia com os mantos forrados de pelles; mas... _traste!_ Salvo seja!

E traduzir _chenets_ para brazeiro!

Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no tinteiro as palavras que não percebeu.

Logo em seguida, escreve Balzac:

_Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons d'un garde-cendre_, etc.

Querem vêr o que é uma traducção sovina?

_Oh! conservar os pés junto ao brazeiro..._ E acabou-se.

Áquelles _griphos_ embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava _os pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro_. Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre si o apoio dos pés? Não percebeu nada.

Senhores leitores do Balzac, segundo a _Actualidade_:

O homem que nos vai apresentar o author da _Comedia humana_, vestido de farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... _ás moscas_, até ao numero seguinte.

* * * * *

Agora, duas palavras graves.

O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este _house-dog_ á porta da _Actualidade_. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear phrenetico.

Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra, quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo, sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: _An hungry dog will eat dirty pudding._

OS 2 JOAQUINS

Um é o arranjador dos _Musicos_ e de outras maravalhas.

Outro é Theophilo que tambem é _Joaquim_.

E tambem é _Fernandes_.

Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.

_Joaquim Fernandes_ era a parte chata do sujeito.

Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se _Theophilo Braga_[8].

Aviso á posteridade:

Elle era Joaquim!

A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.

Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados, ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos seus cachorros.

E que cachorros!

* * * * *

Nem os sepulcros respeitam.

Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.

A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.

Chamára-se, n'esta vida, ALMEIDA-GARRETT;--e chama-se hoje a gloria imperecedoura de Portugal.

O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de Cesar, disse...

Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor de _Helena_, romance posthumo e incompleto do author de _Fr. Luiz de Sousa_:

«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia de apagar-lhe a luz dos olhos.

«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que, revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que alumiára a patria.

«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»

Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras de C. G., genro de Garrett e editor de _Helena_:

«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso _revendo-se na luz_ immensa com que alumiava a patria.» E em seguida: «extinguiu-se aquella existencia esplendida _abraçada á cruz_ de Christo...»

E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:

«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»

É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe faminto a sangueira negra de um matadouro.

Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!

Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram, estando Garrett na agonia da morte.

Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.

Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.

--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.

* * * * *

Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.

Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:

«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima, encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José Gomes Monteiro![9]»

E vai agora, o dos _Musicos_, péga de Garrett, adormecido, havia 19 annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e veneração, e enxovalha-o d'esta arte:

«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para brilhar como um _vieux vert_ aos olhos das _petites maítresses_ de ha 30 annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando com a sua vida airada a confirmação de que o _genio immenso_ precisa da _bohème_ para a sua inspiração, etc.[10]».

Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na Allemanha, por não caber (diz elle) _nos focos de immundicie physica, moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam mettido_[11]. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.

Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.

Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:

«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a _Archeologia artistica para darmos_ a nova edição critica do _Catalogo da livraria d'el-rei D. João IV_ que, _como sabemos_ pelo nosso sabio amigo Mr. Ferdinand Denis, é esperada com impaciencia em Paris.»

Viram? _com impaciencia_.

Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o _Catalogo_. O sabio francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete, Mr. Denis pedia novamente o _Catalogo_ ao lusitano Joaquim, pintando-lhe com termos não encarecidos a impaciencia dos seus.

Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.

Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra n'estes termos:

«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter[12].»

Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim? Elle não sabe a significação do verbo _ante-pôr_; mas imagine-se que quer dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos _offerece_ um ideal, por um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do _ideal_ anteposto, uma _idéa_ de servir; mas, se Joaquim dá _ideaes_, peguem n'elles, antes que o homem os exporte, como cá fazem aos bois gordos que os nossos magarefes não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os anteponham.

É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!

Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é _uma antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos_. De Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim _lhe applicou o processo_. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos! _Eheu!_) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de menos porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello da Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja _applicado o processo_.

Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre Herculano nunca teve vocação litteraria[13].» E o _Eurico_? E a _Abobada_? E o _Monge de Cistér_? E o _Bobo_? e a _Historia de Portugal_? e a da _Inquisição_! e a _Harpa do crente_? Cuida o leitor que é mister vocação litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor. Estes livros só os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse vocação litteraria, fazia umas botas.

Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da _Notre Dame_ de Victor Hugo.

_Eurico_ é a variante do typo de _Claudio Frollo_;

O _Monge de Cistér_ é variante da paixão de _Esmeralda e de Phebus_;

O _Bobo_ é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;

A _Historia de Portugal_ é apenas a historia dos concelhos precedida da biographia dos reis.

Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo _só se admitte nos rapazes de escóla_[14].

O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.

Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:

É _Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que Portugal tem produzido n'este seculo_[15].

--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.

Vem Theophilo, e responde:

É o _introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal_[16].

Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.

Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:

_Theophilo a Coelho_: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o introductor da philologia comparada em Portugal.

_Coelho a Theophilo_: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis que Portugal tem produzido n'este seculo.

_Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes_: Quem sou eu?--Resposta: És o musicógrapho, e o inventor dos imperativos _sejai_ e _estejai_.

_O 2.º ao 1.º Joaquim_: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os nomes.

Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó Joaquins! Eu vos arrenego!

[8]No _Diccionario bibliographico_ do snr. I. Francisco da Silva, é conhecido por _Joaquim Theophilo Fernandes Braga_. (Veja Supplemento).

[9] _Esboços de apreciações litterarias._

[10] _O consummado germanista_, por Joaquim do Vasconcellos, pag. 50.

[11] _Obra cit._, pag. 2.

[12] _Obra cit._, pag. 9.

[13] _Bibliographia critica_, pag. 106.

[14] _Obra cit._, pag. 200 e 201.

[15] _Obra cit._, pag. 215.

[16] _Obra cit._, pag. 253.

FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL

É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres da esperança cobrem a podridão.

Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos; e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu amigo da mocidade.

Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu _Jornal da Noite_, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha coração, ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da imprensa, silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e modesto cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que Ferreira Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de obras portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem volumes estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.

Indemnise-se a indigencia d'este homem de bem com a riqueza do alto louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.

Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:

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