Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 03 (de 12)

Chapter 2

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Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de Abbadim.

Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.

Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das pessoas que representam aquelles illustres appellidos.

Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é immortal: chama-se LUSIADAS.

[1] Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia.

[2] Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de Tavora, filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que _se casára á sua vontade_, como quem desfaz na estirpe da esposa.

[3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: _a qual casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira._

[4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.

LISBOA

Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A _Description de la Ville de Lisbonne_, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de encontrar em Portugal.

Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois!

Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:

«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam n'este serviço muito baratas; mas a plebe não quer saber d'essas ordens. Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo quando se é, como lá dizem, _embuçado_, isto é, quando se envolve a gente em um farto capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar exquisito, de que usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes, como trajo privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta especie de mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do receio que o disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre quem os insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem[5] vão gastar o restante do dia a passear nas suas carruagens, na praça do Rocio, onde palestream até á noite, sem sahir das carruagens. As cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão na moda das damas distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas intransitaveis, os coches são raros.»

Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e hollandezas, sendo a melhor de todas uma franceza na praça dos Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.

Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se hospedem fóra das casas dos amigos.

Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era peor.

Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40 braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á hora de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo através do capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do _dom_ e o habito de Christo para seu marido.

O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a riso a historia da lisboeta. (Veja _Histoire critique des Pratiques superstitieuses_, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o seu _Amusement periodique_, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna a incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se, primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido queimado como herege.

Diz elle:

«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de Jeronymo Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia agua. Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no ponto indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava entre seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito. Tambem é certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os signaes todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas presentes. Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através da pelle, nunca ouvi dizer...»

Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados por Le Brun, e prosegue:

«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados, que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração. Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino teve esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum tribunal a inquietou[6].»

Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas.

Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:

«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo[7], na Galliza sem embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os portuguezes, _porque tinha barbas_, jurou não apparecer mais sem matar o raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.»

No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego.

[5] Vê-se que as representações eram de dia.

[6] São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria dous assignantes, e um era Jacome Raton.

[7] É erro: foi em _Tuy_.

VOLTAS DO MUNDO

Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.

Teve quatro filhos e duas filhas.

Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo.

As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós.

Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça, o mais velho, avantajou-se nas proezas--nas crueis façanhas que os Coutos e Barros chamaram proezas.

Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de cubiça insaciavel.

No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste. Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo de appellido _Goes_, renunciava esse appellido, que era o de seu progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na India!

Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai, queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e desgostos.

E contava que o abbade de Creixomil, clerigo fidalgo e possante, ousára pôr-lhe as mãos nas barbas.

Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E, sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os navios levassem ancora.

As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.

Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado duas leguas de mar!

Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.

S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, demorava no termo de Barcellos.

Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.

Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e enviou-lhe o seu nome.

O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo estas vozes frementes de odio:

--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!

E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a India.

E lá foi ceifar novos louros.

Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde estavam os ossos de seus paes e avós.

Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.

Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do seu rebanho.

Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a demanda.

Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de Souto.

Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.

A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.

Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar, mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem sabemos o resto.

Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.

Entre HEROISMO antigo e DINHEIRO moderno está um fosso. Quem quizer palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no _ridiculo_ ou... nas mãos da policia.

NOVA SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO

Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio, infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante, o snr. _Bibliophilo_ ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não vejo livro digno de s. s.^a; mas vou munir-me de duas joias litterarias, que submetto á escolha do douto letrado.

Disponha, pois, s. s.^a do FAUST do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos ORIGINAES OPUSCULOS do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira, bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta destinos de nenhum modo chochos.

«_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA._

«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.

«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755. É conhecido outro exemplar no _Museu britannico_. E eu preso-o tanto que não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.

«Intitula-se a minha raridade: _Relaçam do sucesso que teve o patacho chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em Lisboa em 1734._»

«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia do referido opusculo.

«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde, toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem, e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.

«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse, deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.

«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia; viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:

«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se discorrem na mais formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo, toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas, um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lançou em terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade d'aquella ilha.»

«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos da serra, a bradar: _Portugal!_ _Castella!_ Seguindo a toada das exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou assim:

«_Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa_; e logo olhando gravemente, e cortez para nós, disse: _Senhores, de que nação sois?_ Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com taes palavras:

«_Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de tão grande penalidade._ Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer á sua pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos com um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: _Ah bom Deus, quão grande é a vossa infinita Providencia!_ E levantando-se, nos abraçou, e saudou, dizendo: _Meus portuguezes, meus portuguezes_; sem que as lagrimas cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, de que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II, suspirando com alvoroço, disse: _E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, que te lembraste do teu reino!_ E dizendo-lhe nós como fôra acclamado el-rei D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa, ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não continuára, tomando-se horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem tratavamos, lhe pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára áquella ilha incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com taes palavras:

«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa, cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções, e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, e n'ella se pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz executar, sem me confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus; que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes constante soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, cheguei por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e descobri esta concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe o para que.»