Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 02 (de 12)

Chapter 5

Chapter 52,024 wordsPublic domain

«Vm.^ce logo mandará hir seguro á sua presença Vicente Leonardi, Author da Maquina Aereostatica, e na presença de um dos escrivães dos Lugares, que vm.^ce está servindo, lhe perguntará, com que authoridade fixou os editaes, contra o que se havia determinado no termo que elle assignou perante vm.^ce por ordem d'esta intendencia; e não apresentando ordem por escripto, _emenada_ (sic) das Secretarias de Estado, ou do seu Real Gabinete, ou Gentil Homem da Camara ou _Garda_ (sic) Roupa do Dito senhor; vm.^ce o mandará prender, mandando-lhe abrir assento á minha ordem; e dar-me[8] parte do resultado d'esta diligencia acompanhando o Auto da declaração que o mesmo Vicente Leonardi fizer. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 10 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Dz.^or Luiz Dias Pereira._»

Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao corregedor, e interrogado, disse que, tendo assignado termo de não funccionar sem que o balão fosse examinado, cuidára dar a maxima prova de boa fé e sciencia estreme de sortilegio, exhibindo ao exame de toda a gente a sua machina.

O corregedor achou-lhe razão. Não obstante, mandou-o esperar, em custodia, novas ordens da intendencia, em quanto elle officiava e a resposta vinha.

Eis a resposta do Manique:

«Vm.^ce executará sem exhitação, ou duvida alguma, a diligencia que lhe encarreguei em aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro Leonardi, author da maquina aereostatica; pois me consta com toda a certeza não ter o mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza Real o Principe Nosso Senhor para o referido fim: e vm.^ce me dará conta por escripto da execução da sobredita diligencia, na conformidade que lhe tinha ordenado. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Dz.^or Luiz Dias Pereira._»

Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao Limoeiro; e, n'esse mesmo dia, o intendente elogiava o corregedor n'estes termos:

«Li a conta que vm.^ce me deu em que me participava a prisão do estrangeiro Leonardi, o que vm.^ce tem executado com todo o acerto; agora porém vm.^ce mandará arrancar todos os editaes, que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Dz.^or Luiz Dias Pereira._»

Não sei que tempo esteve o italiano em ferros; mas tenho plausiveis razões para presumir que o principe regente o mandou soltar, pois que, volvidos dous mezes, foi sua alteza que lhe deu licença para subir no balão.

Aos ouvidos do intendente chegaram rumores sinistros. Segredava-se que algumas pessoas, influenciadas pelos frades de mais selvagem ignorancia e acrisolada religião, tencionavam despedaçar a machina e o aeronauta, suspeito de feiticeria. E, visto que sua alteza licenciára a subida do balão, cumpria a elle intendente obstar que os fanaticos insultassem o estrangeiro. No entanto, o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria que syntaxe, não queria indispôr-se com o povo intimidando-o com o poder armado, nem indispôr-se com o principe abandonando o aeronauta á ferocidade das turbas. Neste proposito, officiou assim ao corregedor na véspera da ascensão:

«Vou a prevenir a vm.^ce que não deve levar official algum de capote ámanhã de tarde para hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda mesmo os quadrilheiros, e aquelle que não tiver cazaca o dispense vm.^ce e lhe dê positiva ordem para não apparecer na mesma Praça do Commercio: o mesmo tambem ordenará vm.^ce aos Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma confuzão e obviar, que alguns malvados se queiram mascarar affectando serem officiaes, para levarem as armas a seu salvo.

«Recomendo a vm.^ce a prudencia, procurando não comprometter a authoridade, e respeito da justiça, e só, no caso indispensavel que ameace consequencias é que deve vm.^ce ter o procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater qualquer insulto que se queira praticar: o modo nestas occasiões, e a polidez conduzem muito para se concluir o dia sem que seja preciso praticar procedimento algum, e sem que tambem se suscitem conflictos de jurisdicção. Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a vm.^ce se pratique como sem hesitação espero; e outro sim que não separe de si os seus officiaes para que não vão fazer acção alguma que não seja por vm.^ce regulada. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 23 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira._»

Na pagina em branco d'este officio, escreveu o corregedor: _Subiu no dia 24 d'agosto na real praça do Commercio depois das quatro horas e meia da tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia da noite cahir ás Vendas Novas, voando depois a Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual foi depois cahir a Veiros._

Vicente Lunardi escreveu depois a sua _Viagem aerea_, impressa no mesmo mez e anno em Lisboa. Da sua escripta não transpira queixume dos portuguezes. Apenas estas expressões denotam uma alma nobremente magoada: _Os applausos, com que me tem honrado a nação portugueza, me fazem esquecer «as minhas passadas desgraças» e me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento, uma exacta narração de toda a minha viagem aerea_, etc. (Veja o _Panorama_, tom. VIII, pag. 21 e seg.)

Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos _anonymos_, publicados n'essa occasião. Quem quer que fosse, o author não teve a coragem de assignar os seus aleijados versos. Além d'isto, uma epistola do padre José Agostinho de Macedo a Stochler; e, sobre tudo o _elogio_ que lhe consagrou Bocage, em versos esplendidos, que podem aferir-se por esta estancia:

_Portentoso mortal, que á summa altura_ _Vaes no ethereo baixel subindo ousado;_ _Que illusão, que prestigio, que loucura_ _Te arrisca a fim tremendo e desastrado?_ _Teu espirito insano, ah! que procura_ _Pela estrada do Olympo alcantilado?_ _Não temes, despenhando-te dos ares,_ _Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?_

Lunardi descrevendo os trabalhos que passou até embarcar em Aldeia Gallega, conclue assim a narrativa da sua viagem:

«Embarquei finalmente ás quatro horas da manhã, e com uma feliz viagem; cheguei ás 7 horas da mesma manhã ao caes do Terreiro do Paço, onde achei um grande numero de pessoas que me esperavam, e no meio de vivas de alegria me conduziram á minha habitação.

«Estes signaes de verdadeiro contentamento, e o concurso continuo de pessoas ainda das ordens mais respeitaveis, provam assás os sentimentos, que produziu a minha viagem aerea, que tanto é mais famosa, quanto mereceu os applausos de uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha agora em honrar-me, tem adquirido incontrastaveis direitos ao meu reconhecimento, e eterna gratidão.

«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos seus successos: e posto que ella não contenha em si nada de extraordinario para os corações indifferentes, deve com tudo interessar as almas sensiveis, e compadecidas, que saberão estimar em seu justo valor as minhas fadigas, e os meus soffrimentos. Para estas pois é que eu escrevo, na certeza de que, se não lhes merecer os seus louvores, conseguirei ao menos a sua compaixão, e o seu affecto, que é toda a minha ambição e o unico objecto d'esta pequena descripção.--_Vicente Lunardi._»

Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e rapazes lhe fizeram no Terreiro do Paço, cuidou o aeronauta que lhe seria permittido renovar a ascensão, e auferir d'ahi recursos com que voltar a Inglaterra onde tinha o seu emprego na embaixada napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage e Macedo, lhe sorria a esperança, quando na madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias depois da primeira subida, o acordaram para lhe noticiarem que o seu barracão na praça do Commercio se derruia esphacelado pelos machados de quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.

Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão de vergonha patria, o officio do intendente Manique ao corregedor que executou brutalmente a demolição da barraca em que Lunardi gastára os seus poucos recursos:

«Vm.^ce logo mandará chamar o mestre carpinteiro Joaquim Pereira, que o foi da Praça construida para a machina aereostatica de ordem do capitão Vicente Leonardi, para dar logo principio a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe admittindo subterfugio algum a este fim, e devendo amanhan sesta feira dar principio á demolição para o que lhe mandará embargar os carpinteiros de obra branca e de machado, que lhe forem necessarios: igualmente mandará vm.^ce notificar o dito capitão Vicente Leonardi para este mesmo fim. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 28 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira[9]._»

Os frades e a estupidez tinham vencido.

Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre italiano para o livrarem de Portugal e das presas do Manique. O que sei é que os poucos, que o applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos.

E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros nos não enfileiram na vanguarda da civilisação!...

[8] Que grammatica a d'este afamado intendente geral!

[9] Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria do insigne bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, que me fez a honra de os aceitar.

RANCHO DA CARQUEJA

São justas as reflexões do estudioso antiquario o snr. Joaquim Martins de Carvalho, redactor do _Conimbricense_.

Agora direi os argumentos, bem que menos valiosos, em que eu assentava o meu erro.

Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou pasquim, injuriando os magistrados. Houve devassa e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, que viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, deixando, como prova do seu mal empregado engenho, um notavel poema que diz respeito á invasão franceza.

Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada satyra do Ferro, precedida da seguinte nota: _Este libello é dedicado á memoria do Estopa e Carqueja, dous heroes que tudo levavam a pau e espada em Vizeu, ahi pelos annos de mil setecentos e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome os estudantes de Coimbra chamados o Rancho do Carqueja._

Isto não obstante, a correcção do snr. Martins de Carvalho deve antepor-se, visto que a sentença condemnatoria diz: «_Rancho que denominaram DA Carqueja, originando este nome de haverem queimado com ella uma porta, etc._»

BOM HUMOR

(AO NOTICIARISTA DA _ACTUALIDADE_)

Chamar a D. João III _principe perfeito_ podia ser lapso, sem ser ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito.

Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as _Noites de insomnia_ são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará _piedoso_, como estava no original, emendado para _principe perfeito_, como está no livro. Se quer saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto monta para mim a _perfeição_ de D. João II, o algoz, como a _piedade_ de D. João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o _Pai da patria_; outros o _Filho da igreja_; outros, authorisados por Paulo III, o _Zelador da fé_. Eu chamei-lhe o _principe perfeito_, e cancellei na prova o titulo de _piedoso_, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale, por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S. João de Deus.

Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a _perfeição_ e a _piedade_ do D. João II e D. João III? Poderemos, com juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o noticiarista licença que eu chame _perfeito_ ao principe, e _sabio_ a sua senhoria? A patarata é a mesma.

N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos reis como aos subditos, quero e peço que haja liberdade plena. Por exemplo: o redactor da noticia da _Actualidade_, conhecido entre os seus parceiros por um epitheto qualquer, está sujeito a que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por em quanto, circumscrevo os limites da minha phantasia a chamar-lhe tolo.

DECLARAÇÃO

Apesar de superfluo o meu testemunho, depois da asseveração do snr. Camillo Castello Branco, declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto no original: D. JOÃO III, _o piedoso_, e na prova que lhe enviei, e que conservo em meu poder, ter o author emendado: D. JOÃO III, o _principe perfeito_.

Não obstante attentar na emenda feita, mandei, como devia, que o typographo a observasse.

_A. J. da Silva Teixeira._

FIM DO 2.º NUMERO