Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 02 (de 12)
Chapter 4
«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.»
«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram em côrtes que ordenasse se creassem os fidalgos no paço como era costume antigamente: signal certo que se educava alli a primeira mocidade do reino. Já dissemos acima que a educação da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto, e fortissimo, o animo ousado, e destemido; além d'aquelle agrado que reinava no galanteio, e serviço das senhoras, não deixavam de instruir o animo com aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciam: sómente na familia do infante D. Henrique foi esta educação mais consideravel, porque sahiram muitos do paço d'aquelle famoso principe excellentemente instruidos nas mathematicas e boas letras, como foi o grande Albuquerque, e D. João de Castro.»
Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram a educação dos fidalgos:
«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar que as terras da corôa; tanto que tiveram commendas, governos, e cargos lucrativos, tanto nas conquistas, como no reino, logo os fidalgos começaram a cercar os reis, e ficarem na côrte; porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes dos cortezãos sabiam ganhar as vontades dos reis, não tendo aquellas occasiões forçosas de obrarem acções illustres para serem premiados por ellas. Isto vêmos succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, quando ordenou que todo o fidalgo que não tivesse cargo na côrte que fosse a viver nas suas terras.
«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia na côrte no tempo da paz, logo que seus filhos eram educados em suas casas, já ricas, e poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, pensões, governos e cargos, necessariamente se havia de seguir uma educação estragada; a meninice entregue na mão das amas, e de mulheres communs; a puericia entre as mãos dos criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. Sebastião poucos sabiam mais que lêr e escrever; porque já a escóla do infante D. Henrique estava acabada; e toda a educação se reduzia a saber os mysterios da fé, porque os seus mestres sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade da adolescencia com o animo depravado: sem humanidade, porque não conheciam igual; sem subordinação, porque eram educados por escravas, e escravos, ficava aquelle animo possuido da soberba, e vangloria, sem conhecimento da vida civil, nem com a minima idéa do bem commum. Assim degenerou aquella educação do paço, na qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais insolente tyrannia de todos aquelles com quem tratavam.»
E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação da nobreza, escreve:
«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes da educação domestica, e das escolas ordinarias, que não fica outro modo para educar a nobreza, e a fidalgia do que aprender em sociedade, ou em collegios: e como não é cousa nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de _corpo de cadetes_, ou escóla militar, ou _collegio dos nobres_, atrevo-me a propôr á minha patria esta sorte de collegios, não sómente pela summa utilidade que tirará d'esta educação a nobreza, mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»
Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e executado dous annos depois, quanto á fundação do _collegio dos nobres_.
Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as sciencias que devem ensinar-se já no collegio, já nas aulas militares. Todas entraram na organisação dos estatutos.
Em um §. intitulado: _Em que idade deveriam entrar os educandos na escóla real militar_, divaga o insigne medico por considerações a respeito das mães. Transcrevo o que me parece digno de ser lido por ellas:
«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente entraram em Portugal, logo começou a mostrar-se o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades estrangeiras; começou a esfriar-se o amor das familias, e por ultimo da patria. El-rei D. João III foi o ultimo rei que foi creado com ama nobre, e já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, tiveram amas, mais que da classe plebêa; indicio certo que as senhoras não creavam já seus filhos, como nos tempos anteriores: introduziu-se este destructivo costume da raça humana, do amor filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto sermão, missões, e praticas espirituaes, nenhuma senhora quer sacrificar a sua formosura. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.
«Tem para si estas mães, que não criam, que conservarão por mais tempo a formosura, e que dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que perderiam a sua boa constituição creando por dezoito mezes ou dous annos. Mas é engano manifesto, e o contrario se sabe pela experiencia, e pela boa physica.
«A mulher que deu á luz um filho, e que não o cria, em pouco tempo vem a conceber de novo: a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, que enfraquece mais o corpo, do que crear aos peitos por anno e meio: e como concebem antes que as partes da geração adquirissem pelo repouso a sua natural consistencia, succede, que estas senhoras abortam mais frequentemente: enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem a vida, ou ficam achacadas; perdendo em poucos annos o idolo da sua belleza, ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por toda a vida com mil desgostos, e pezares.»
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«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar: ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes, supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos: e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade pueril.
«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia, á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis.
«Não me accuse v. ill.^ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus filhos, irmãos, e maridos. V. ill.^ma sabe muito melhor do que eu aquelles monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a v. ill.^ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou _Filles de St.-Cyr_, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza, e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que satisfaçam todo o meu desejo.»
Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade, n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme... patriarchalmente.
Boa noite.
[7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas _Memorias_ ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que lhe confiaram.
O PRINCIPE PERFEITO
O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima _Historia de Portugal_, tomo III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:
«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas ferocissimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o snr. Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João II:
«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores da corôa chamaram _principe perfeito_, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios abjectos cuidavam escondel-o á execração dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar razões d'estado, que contrapesem a ferocidade do filho d'Affonso V. A historia, á volta d'elle, o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres de homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a punhal, aquelles a peçonha. _Oitenta_, confessou elle o numero, quando a morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciencia, supplicando ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
«Os lances capitaes de tão má alma contou-os a historia á tragedia. O theatro portuguez já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos á rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a razão que teve a villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino do duque de Vizeu o antonomastico epitheto de _principe perfeito_.»
«O illustre escriptor é demasiadamente severo com o grande rei a quem Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o dos crimes que pesam sobre a sua memoria. Mas qual dos grandes homens, que figuram na historia, se apresenta immaculado no tribunal da posteridade? No assassinio do duque de Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção aos costumes da época, D. João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas vezes a morte diante dos olhos e que sempre a affrontou sem empallidecer, pôde, quando se lhe offereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversarios, e voltar contra elles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Vizeu foi ferido pela catastrophe que trazia pendente sobre a cabeça do seu adversario; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da victoria, e não soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana. Perdoar! Parece que no mundo só Christo soube cumprir essa maxima sublime, que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilisação, abrandando os costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do seculo XV, ainda a vida das creaturas da nossa especie estava longe de ter o caracter inviolavel que hoje possue. Por tanto D. João II, aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma certa grandeza selvagem, que não desculpa mas attenua o crime.»
Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.
O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde que não póde ser attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o adversario em quanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam pelas costas a victima desarmada.
Nas _Memorias_ ineditas de Diogo de Paiva e Andrade, author do _Casamento perfeito_, faz-se menção do conflicto, e encarece-se a bravura do coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante significativa da coragem do fidalgo e da cobardia do rei.
Diz assim:
«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque de Vizeu, a quem abraçou por detraz. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se dous irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dous annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dous, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que, agastando-se el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com elles o terceiro.»
Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o animo do nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem não era capaz de matar outro sem lh'o agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela mais dous bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo Mendes do Rio.
AVE RARA
O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho, fallecido em Lisboa aos 26 de outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era filho illegitimo de fidalgo, e tinha em Villa Real parentes maternos que o educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lh'as. O bom que os frades tinham não o aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua farpada, da escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e mais sujo talento que deram as plagas de Santa Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha até á cidade de Pindamonhamgaba.
Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos pelas vespas das suas trovas. Lobo não perdia lanço de os satyrisar.
Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado da terra ordenou que S. Jorge fosse em andor e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento não é bem liquida. Ha muitos mysterios que nunca se hão de dilucidar, mormente em cousas de cavalgaduras.
N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu e divulgou o seguinte soneto:
_Patria de valentões, paiz guerreiro,_ _Só tu, Villa Real! comtigo fallo!_ _Vão Panças e Roldões jogar o talo,_ _Ou vão na tua escóla andar primeiro._
_Quem ha que os teus aguente no terreiro,_ _Se até S. Jorge foram desmontal-o!_ _Pois, indo nas mais terras a cavallo,_ _N'esta é capucho o santo cavalleiro!_
_Nos triumphos de Baccho a villa armada_ _Uns com brancos arnezes, outros tintos,_ _As meretrizes levam de assaltada._
_Fez-lhe o entrudo os broqueis, compoz-lhe os cintos,_ _E soltou um pendão co'esta fachada:_ _«Todos são pobretões; mas mui distinctos.»_
Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que eram muitos, a julgar pelos brazões musgosos em que as andorinhas dormem de verão e as corujas assobiam de inverno--assanharam-se contra o poeta, fazendo-se representar no desforço pelos seus moxillas.
Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio Lobo, onde conhecia um tal Anacleto, que mais tarde foi juiz de fóra em Angeja.
A mãi do poeta era remediada de bens da fortuna, e quanto tinha quanto deu ao estouvanado filho, que nunca procurou modo de vida, nem bajulou os grandes, á imitação dos vates do seu tempo.
O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar versos de Antonio Lobo, disse aos seus criados que lh'o levassem ao palacio... para se divertir. Um lacaio de s. exc.^a procurou o poeta e deu conta do recado. Lobo mandou-o esperar, improvisou um soneto, e remetteu-o ao duque. É o mais galhardo feito de poeta do seculo XVIII. Dizia assim:
_Se eu fôra, excelso duque, homem perito,_ _Capinha, ferrador, cabelleireiro,_ _De cães decurião ou cozinheiro,_ _Em sopas mestre, em massas erudito:_
_Se em letra antiga visse o que anda escripto_ _Do vosso grande avô, João Primeiro,_ _Que o gothico mostrasse ao mau caseiro;_ _Que o tombo velho nunca está prescripto._
_N'este caso, senhor, a vossa graça_ _Mais quizera alcançar, que ter mil burras,_ _Do metal louro que se ri da traça._
_Mas como a sorte me tem dado surras,_ _Não vou servir-vos só por não ter praça_ _No livro mestre dos santões caturras._
Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos e frades. A mezada que a mãi lhe enviava permittia-lhe dispensar-se das sympathias de clero e nobreza. Foi muito soado e mordido um soneto que elle dardejou contra um frade leigo, dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia o poema:
_Borracha de estamenha, ôdre sarrento,_ _Mil parabens te dou ao novo estado;_ _Pois de estupido leigo a um jubilado_ _Lente de rolhas vaes em largo vento._
_Se ha longos annos mettes fogo lento_ _N'essa pança que é mãi de vinho aguado,_ _Frei Bourdeaux será hoje o teu prelado,_ _A adega d'esta casa o teu convento._
_Bebe, esponja claustral, té que a fumaça_ _Das vasilhas de França encha as pichorras_ _De umas bebadas tripas de outra raça;_
_E, antes que os limos dos toneis escorras,_ _Fuja o do Carmo, fuja o Leão da Graça,_ _Que hoje o que reina é o Leão dos Borras._
Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta o odio do povo representado nas pessoas dos capellistas, acirrados por estes versos:
_Um rapaz a gritar como um cabrito_ _Com saudades da mãi sobre o vallado,_ _Que entre duas canastras vem deitado,_ _Em burro de almocreve, ancioso e afflicto;_
_Com rosario ao pescoço mui bonito,_ _Descalço, de barrete e de cajado,_ _C'um sacco á cinta, onde traz (coitado!)_ _A sua côdda, o seu bacalhau frito._
_Posto a pé este misero mamote_ _Ora cahe, ora treme, ora encordôa,_ _Um lhe prega um sopapo, outro um calote._
_Pois esta figurinha ou má ou boa_ _Faz qualquer capellista franchinote_ _Quando vem do sertão para Lisboa._
N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio Lobo de Carvalho até aos cincoenta annos. Se nos merecesse credito o que João Bernardo da Rocha escreveu no _Portuguez_, tom. X, pag. 356, o atrevido vate haveria sido aleivosamente assassinado por ordem de um tio do marquez de Olhão, a quem o maldizente frechára com um soneto que abria assim:
_Ferrabras, Satanaz, Fernão Zarolho,_ _Cruel harpia das que o inferno encerra..._
Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto que não decida qual haja sido a morte do poeta, com justificados motivos desabona a affirmativa de João Bernardo da Rocha.
Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas; e receio ir dar com elle no hospital, expirando envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça.
VERGONHAS NACIONAES
É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural de Luca, e empregado na embaixada napolitana em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde de 24 de agosto de 1794, uma viagem aerea.
Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes da ascensão, esteve preso á ordem do intendente geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, pelo motivo de vir com tal novidade a Lisboa, onde a inquisição, por causa identica, desejára queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.
Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio são autographos, authenticados pela assignatura do famigerado intendente.
Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de 1794. N'esse mesmo anno, em janeiro, tinha elle em Madrid subido no seu balão, que desceu na provincia da Mancha, onde os camponezes o receberam tão benignamente que o levaram em triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.
Cuidou elle que a familia real portugueza o recebesse com igual agrado ao da côrte hespanhola.
Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer na corregedoria do bairro, e obrigado a assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina fosse examinada por peritos. Este exame levava em vista satisfazer as suspeitas do publico, receoso de artes diabolicas.
Assignou Lunardi o termo, e entendeu que dava plena satisfação ás authoridades e ao publico, expondo o balão com todos os seus aprestos. E, para isso, construiu uma barraca na praça do Commercio, e grudou nas esquinas das ruas mais concorridas um cartaz em que minudenciosamente explicava o balão exposto, e os mais instrumentos necessarios ás viagens aereas. (Veja o _Panorama_, tom. VIII, pag. 15).
Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente geral da policia, officiou ao desembargador Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, no theor seguinte, e textual orthographia: