Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 02 (de 12)

Chapter 2

Chapter 23,957 wordsPublic domain

Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida. Alfaias do tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com reposteiros brazonados. Na parte mais velha do edificio cadeiras repregadas de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a côres, guadalmesins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da India com as iniciaes de um governador de Chaul, oriundo de Mendanhas, retratos de familia a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, aquella Amelia de Landim, ó meu amigo Eugenio de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a _cana verde_, o _Leva agua o regadinho_, e descantava umas _torradas com manteiga_ que não ha ahi mais que se diga.

--Onde estava ella?

Perguntavam entre si as primas e os primos.

E diziam exactamente onde ella estivera e de que infectos paues se levantára com azas de ouro aquella borboleta sahida de tão feio casulo! Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se fosse preciso, as deshonestidades... e visitavam-na.

Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta, lhe sahiram a propôr tres casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e gentilissimos de suas pessoas.

Rejeitou-os.

Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua sege, apeou em Famalicão, sahiu a pé, e parou perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou por um homem que dava pelo nome de Antonio do Couto-de-baixo.

Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta annos, boa figura de camponio, estupidez em barda por todo aquelle carão.

--Antonio--disse ella--conheces-me?

--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou o lavrador agadanhando no occipital.

--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha 15 annos, amei-te. Era então innocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te quiz deixar casar commigo, porque eu era pobre. Sei que soffreste, e quizeste fugir para o Brazil, a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu não te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar commigo? Responde.

--Quero.

--Então segue-me.

--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa queria que eu casasse comtigo.

--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem quer agora.

E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram ao alpendre a recebel-a, e levaram-na para o sobrado entre caricias.

Ahi pernoitou.

O velho nunca pôde desarticular os queixos da apostura do espasmo, desde que D. Amelia principiou a contar por milhares de alqueires de milho o rendimento de sua casa.

Ao outro dia, que era domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com dispensa dos immediatos, casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade.

* * * * *

Mas a que proposito cahiu este conto, que não tem que vêr com AQUELLA CASA TRISTE!...

Ah! foi por amor da requinta da musica de Ruivães, que está agora silvando na Barca da Trofa, á espera de Antonio Duque, o _Africano_.

III

As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa, depois de espavorirem os passarinhos, que, ao descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do rio Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. Os promotores da festa, mandando sobraçar os feixes de foguetes de tres estouros, disseram entre si que o _Africano_, faltando á hora da espera triumphal, bem demonstrava ser filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que não queria amigos... do seu dinheiro.

O _Africano_ havia escripto de Lisboa ao seu feitor, annunciando-lhe o dia em que tencionava chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação de lhe ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua filha.

Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufragio, porque a não sabia. Se o homem lesse gazetas, informaria os seus visinhos do desastre de seu amo, da riqueza engolida pelas guelas da tormenta, da quasi pobreza em que ficára o naufrago, e, em fim, das piedosas lastimas com que os periodicos deploravam a catastrophe de duzentos contos grangeados honestamente. Se isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de musicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos da requinta. Quanto ás vinte e quatro duzias de foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, é bem de vêr que ninguem se abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se se soubesse que o Duque não vinha em circumstancias de chorar de ternura abraçado ao peito magnanimo d'onde rabiavam tantos foguetes.

No dia marcado ao feitor, devia o _Africano_ chegar á Ponte, onde era esperado; porém, apeando na estalagem da Carriça, legua e meia distante, ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro musicas, e muito fogo do ar, á espera de um brazileiro que vinha da Africa.

Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege, porque resolvera sahir de madrugada.

Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto que queria evitar no encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos.

Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução do pai, queixando-se de agonias, suffocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a jornada.

Passou o pai o restante do dia e parte da noite á beira da cama, inventando com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma ou outra lagrima desafogava por momentos. Alegrias!...

Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos ha que são suppliciados por esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias tem esta vida, se comparamos todas á d'aquelle pai que alli estava ao pé da filha que os medicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!

Mas elle, acreditando na sciencia que tem a certeza de ser lesão mortal a hypertrophia do coração, afigurava-se-lhe que a Providencia o não castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens, para depois amparar em seus braços a filha agonisante. Nunca discutira entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento d'este mundo. São meditações estas que, em Africa, passam rapidas como o sirôco, mas não abrazam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as faces nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação do pai de Deolinda, pensam, se acaso pensam, que a justiça do céo tem alçada em mais amenos climas, e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o tigre. Porém, depois que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e a briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam crêr que ha Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de o conjecturar sentado á mão direita do Padre Eterno, e absorvido na perennal gloria de sua divindade, sem entender nas trivialidades d'este globo, mais pequeno que os milhares de mundos que lhe circumvalam á ourela do throno. Esta philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os mestres em a propagar, e todavia qualquer sandeu bem engraxado a tem espontanea na alma, como tortulho em lodaçal, sem que os philosophos lh'a inculquem. Estudem Ario, Spinosa, Renan, e outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro de si, repito, porque o _si_, o _elle_, são as cedulas bancarias, a burra, que tem um nome de predestinação para aviso e escarmento de sabios que se burrificam, não querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos, inviolabilidades, vem tudo da burra.

Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se arqueia em vagalhão, e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza do homem, que se arrodelára com ella das farpas do mundo. Os brilhantes impenetraveis do arnez cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui está o homem a pensar em Deus, porque está pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos outros e divindade de si proprio. A desgraça, que traz sempre comsigo um anjo vestido no céo com uma luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa por lhe dizer:

«Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza? Olha tu para as estrellas que scintillam serenamente sobre a voragem que t'os devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que ha d'estes milhões de mundos para além!»

Ah! quando esta voz repercute na consciencia de um pai, e ao mesmo tempo a aza da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim, Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas. Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos grandes desgraçados foi alumiada por esse relampago.

Pelo que, assim orava o _Africano_, ás quatro horas da manhã, em pé, defronte do leito da filha adormecida.

* * * * *

Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.

Quando o souberam os visinhos, um correu á igreja a repicar o sino e a sineta, outro rompeu as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, que andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu de galope a casa do mestre, escodeou as mãos do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente á porta do _Africano_, tocando o hymno de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o hymno da snr.^a Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de Saldanha, e o do Santo Padre Pio IX.

O _Africano_ sahiu á janella com sua filha, cortejou o publico, assistiu a duas mazurkas tocadas com variações de requinta, e pediu venia para recolher-se em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no rosto.

O publico murmurou, tregeitando uns momos significativos de menos respeito.

O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos musicos, e receber a visita dos parentes e mais lavradores.

O Duque respondeu:

--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que eu estou pobre.

--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz--Bem me fio eu n'isso! V. s.^a está a mangar!...

--Faça o que lhe digo--volveu severamente o amo.

E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si os lavradores mais grados, o mestre da musica, o boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o regedor de Vermoim, e disse-lhes:

--O ill.^mo snr. Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre.

Os circumstautes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo choque. Um d'elles, porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, deu aos beiços um geito de quem vai orar. Encararam-o todos, e o boticario tirou do peito estas duas palavras:

--Ora bolas!

E sahiu do pateo.

Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas palavras do attico pharmaceutico. Consultei philologos, que mais convisinham d'este sujeito, e apenas colhi que as expressões «ora bolas» montavam tanto como dizer: ora bolas.

Eu, porém, dou mais lata interpretação ao epiphonema, sabendo que todo aquelle gentio _boloirou_ para casa[1].

O _Africano_, passados seis mezes, procurou um brazileiro rico de Ninães, recentemente chegado, e disse-lhe:

--Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a grandes despezas, incommodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lh'a por metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim d'este prazo; mas, n'estes primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.

Pediu o brazileiro explicações de tão estranha clausula.

O Duque respondeu:

--Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu tambem me sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa vêr a morte na face de minha filha. Não hei de sobreviver-lhe, se Deus me não fizer o beneficio de me levar adiante.

Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou a proposta, e assignou as escripturas no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de reis.

Pagou o _Africano_ as dividas contrahidas em Cabo-Verde, encerrou-se na ante-camara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os seus padecimentos á custa de se remirar no seu infortunio, de cortar bem dentro as fibras ainda rijas do coração, antecipando a imagem da filha morta, repulsando todo o allivio da esperança, furtando-se a todo o desafogo, matando-se com a lentidão de um desvairado que se encavernasse n'um antro, esperando sem terror a entrada da fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas presas.

Ao quinto mez do contracto, os padecimentos de Deolinda tocaram nos extremos symptomas da morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração.

N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era já delirio precursor da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, ou Deus me mata ámanhã, ou, quando ella estiver sepultada, eu me matarei.»

O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu estas vozes, e disse aos botões da sua batina: «Este homem está no inferno.»

Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:

--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um segredo com que não devo morrer. No meu bahú está uma caixinha de folha, que o mar lançou á praia, depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde esta caixinha, cuidando um marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãi muito extremosa para seu filho. O filho era aquelle rapaz que vinha do degredo, e salvou os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, que lhe escrevia, diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angustias da fome. Chama-se ella... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido, feliz d'ella. Se ainda viver, meu pai, mande-lhe como esmola o que ficar do meu espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até morrer... por elle!...

--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.

* * * * *

Ditas aquellas palavras, o _Africano_ encarou na filha com a fixidez torva de um amaurotico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, sabiu da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, e murmurou estas vozes:

--Meu Deus! morro por amor de minha filha, e ella... morre por outro... Bem podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte annos a adorar esta filha, um anno a agonisar ao pé da sua agonia... e a final ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai...

Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo a Deus com dilacerante esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida n'um estremecimento instantaneo.

Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão da morte, e voltou a face para onde suppunha que estava o pai.

Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha. Acudiu a criada, a quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi nos braços da criada á sala contigua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se sobre o peito d'elle, colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, como vestigio da alma que passára queimando as fibras por onde abrira a fuga do seu inferno.

--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.

Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou empedernida. Não houve rogos que a tirassem de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai, viu-o sahir no esquife para ser depositado na capella da casa, ouviu o ultimo dobre da sepultura; e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos, invocou a compaixão da Virgem Santissima, e expirou.

* * * * *

Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro, que a comprou, não a quiz habitar. As janellas nunca mais se abriram. O vestido, que despiram do cadaver de Deolinda, pende ainda da espalda do canapé em que ella morreu.

[1] Não se procure _boloirar_ nos diccionarios, em quanto os diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do Minho e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é _boloirar_.

SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO (I)

_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA_.

Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de lêr a terceira sentença a favor d'el-rei D. Sebastião. Muito obrigado a vossê e aos tres papas.

Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76 annos de idade, tinha uns filhos, que ninguem depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade das sentenças, se não soubesse que santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o prophetisou assim, tal e quejando, com filhos, netos e bisnetos, um dos quaes afianço a vossê que não sou eu.

Palavras de santo Isidoro: _Muitos filhos e filhas terá o Encoberto de legitimo matrimonio, e sempre seus descendentes, uns depois dos outros, reinarão pacificamente_ (não diz o santo onde se passa esta reinação); _e o sceptro sagrado do temporal será administrado e regido por elles; e a final, fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto_.

Não ha nada mais claro. Os descendentes de D. Sebastião, voltando do deserto, serão pagens do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que o vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos d'este paiz, nos oradores do Casino, no Guerra Junqueiro, nos redactores do _Diario da Tarde_, no Eça e no Ortigão, nos satanicos, e nos mais socialistas sobre quem pesam o gladio do Zêzere, os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do conselheiro Viale. Os descendentes do Encoberto vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a virem do deserto, como resa a prophecia, é obvia a interpretação. «Deserto» aqui, entende-se o conteúdo pelo continente. Veja se me percebe. Deserto é o vasio da algibeira. Isto percebe vossê bem. Um homem está no deserto quando não tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto é estar homem só como succede a toda a pessoa que não tem

_Aquillo com que mais se accende o engenho,_

como disse um a quem o predilecto dos tres papas mandou dar 15$000 reis por anno em paga de ter perdido um olho em Africa e ter feito os _Lusiadas_ na India.

Já vê vossê que, por este lado, as sentenças dos tres bispos de Roma são invulneraveis. D. Sebastião, com toda a certeza, de quinze em quinze annos, ia até Roma mostrar ao papa que tinha uma perna maior que a outra, um tufo de pello no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho, e um dente de menos na queixada de baixo. Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não tinha dente nenhum.

Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema historico. Mande-me o premio pelo portador. E quando achar outra cousa, com esse faro de Herder que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos, e faça invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre agora a resposta de André de Rezende a Ayres Barbosa.

* * * * *

Entreguei o premio, antes que venha outra carta mais insensata. N'este paiz quem, como Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está perdido.

DOUS PRECONCEITOS

O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, as condecorações, os fóros de fidalguia e os tratamentos eram judiciosamente dados e com muita parcimonia a quem os merecia.

* * * * *

O segundo, é dizer-se absolutamente que a mudança do regimen politico de 1834 empobreceu de repente os fidalgos, esbulhando-os dos seus rendimentos provindos de privilegios, encargos, commendas, etc.

* * * * *

Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o depoimento de um notavel fidalgo, que estudou cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas cavernas da Junqueira. Era D. João José Ansberto de Noronha, conde de S. Lourenço, que morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo anno de sua vida, escreveu a sua ultima obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas dos curiosos de manuscriptos, e intitulou-a _Apontamentos politicos_.

Seja o conde de S. Lourenço quem impugne a arguição injusta que se faz ao governo representativo, doestando-o de perdulario de titulos e nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia em 1803, e que as ultimas linhas d'este trecho do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas de liberdade, e menos ainda aos que haviam de ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.

Eis a passagem que tem por epigraphe--_Dos ennobrecidos_:

«Os serviços ordinarios, e por assim dizer materiaes, pagam-se com dinheiro, que se tarifa como qualquer salario, á proporção do trabalho. Os serviços relevantes, isto é, os que são feitos com perigo de vida, com força de engenho, ou com espirito de patriotismo, e de que resultam grandes vantagens ou de facto, ou de exemplo, pagam-se com signaes honorificos, com distincções, e com titulos, porque se julga, que não tendo preço, se não podem remunerar senão com honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais preciosa do thesouro do soberano é a faculdade de distinguir e honrar, porque alcança com ella o que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha facilidade em conceder honras, se se alcançam sem sacrificios, nem habilidade, n'esse caso todos as querem, muitos as conseguem, e ninguem fica contente; uns porque querem mais, outros porque ainda não tiveram, e outros que as tem por seus justos cabaes, porque se acham confundidos na inundação dos nobres de _acaso_. As consequencias são, que as distincções deixam de o ser, porque se fazem geraes; que empobrece o thesouro politico do soberano, porque a moeda mais preciosa perde o seu valor, e que se perde o espirito da gloria, porque os individuos vem a achar por fim mais vantagens em buscar conveniencia, do que signaes, que pela sua multiplicidade, e modo por que se alcançaram vieram a ser de estimação incerta.

«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não só á força de concessões avulsas, mas até de tarifas. Na divisão das tres ordens militares deram-se tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser uma ordem tão respeitavel, já ninguem a quer. Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo real entrasse com porções avultadas, sem embargo de ficar ganhando juros. Concedeu-se o mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda para vender. Os officiaes de secretaria, cujo numero tem crescido tanto, tem o habito de Christo no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro no decimo. Os officiaes do erario tem o habito de Christo, etc., etc., etc.

«Esta quantidade de tarifas em muito poucos annos reduz os tres milhões de habitantes a tres milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, que póde haver, é não ser nobre; e o modo de a conseguir é não servindo o estado de modo nenhum. Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia já vai mostrando que o não é.

«As leis do tratamento já não tem vigor, e a arrogação de senhorias, e excellencias é geral.

«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de 1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.

«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do mundo, ou a mais paralytica, _e em todo o caso a que mais velozmente corre para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da monarchia_.»