Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 01 (de 12)
Chapter 2
João Rodrigues de Sá, ainda moço n'aquelle tempo, tinha uma bella irmã, abbadessa do mosteiro benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues. Martim Chichorro queria muito á gentil prelada, e não resguardava da censura os seus amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na vespera da batalha perguntaram-lhe os fidalgos namorados da ala de Mem Rodrigues que promessa era a d'elle.
--Prometto, se escapar da batalha--respondeu o amoroso selvagem--ir ter uma novena com a abbadessa de Rio Tinto.
Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve logo um bisbilhoteiro que denunciou ao das Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia d'el-rei D. Affonso III.
--Pois eu--disse João Rodrigues serenamente--prometto ir atraz d'elle, e bater-lhe.
Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu no empenho de pôr a lança no rei. Gonçalo Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim de Sousa, tão extensamente cumpriu a sua--as novenas succederam-se em tanta copia--que a peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor dous filhos que se chamaram Martim e Pedro. O que os genealogicos esconderam á posteridade, edificada com as virtudes das abbadessas e dos Chichorros, foi o genero de sova que o das Galés deu no pai dos seus sobrinhos.
Talvez se desforrasse, consoante o gosto do tempo, em o fazer tio dos seus numerosos bastardos. As preladas formosas eram as conciliadoras em contendas d'esta natureza. D. João I morigerava os mosteiros, mandando vestir o habito de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois de a condecorar com a dupla virtude da maternidade. Os nossos reis, quando se enfastiavam das mulheres, davam-as de presente a Deus.
EGAS MONIZ
Representa-se no Porto um drama chamado _Egas Moniz_. Não louvo nem censuro a composição, nem discuto se melhores interpretes a realçariam no palco. Tambem não levanto a já debatida questão da veracidade do facto. O snr. Alexandre Herculano crê que o aio de Affonso Henriques praticou o feito heroico. É o bastante.
Quando o drama se annunciou, a primeira vez, nos cartazes, um homem de sessenta annos, vestido de preto, sobrecasaca no fio, o velludo da gola rapado, as calças recortadas e lamacentas á volta das botas azuladas de velhice, parou á esquina da rua Formosa, a lêr o cartaz grudado no cunhal da igreja das Almas.
Eu reconheci-o a distancia, avisinhei-me, e parei, por detraz d'elle, em frente do cartaz, meditando.
E meditava isto:
Egas Moniz gerou Lourenço Viegas, o espadeiro;
Lourenço Viegas gerou Egas Lourenço;
Egas Lourenço gerou Sueiro Viegas Coelho;
Sueiro gerou João Soares Coelho, valido de D. Affonso III;
João Soares Coelho gerou Pedro Annes Coelho;
Que gerou Estevão Coelho;
Que gerou Pedro Coelho, o matador de D. Ignez de Castro;
Pedro Coelho gerou Gonçalo Pires Coelho;
E assim se foram gerando uns dos outros com uma constancia digna da nossa admiração, até que uma senhora da casa dos Coelhos, senhores de Vieira e Felgueiras, casou na casa dos senhores da Teixeira e Sergude, e d'este consorcio gerou-se:
Gonçalo Pinto Coelho, que gerou:
Martim Teixeira Coelho, que gerou:
Bernardo José Teixeira Coelho, que gerou:
Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Mello Pinto de Mesquita, senhor da Teixeira, de Sergude e do Bom Jardim, pai d'aquelle homem pobremente vestido que lia o cartaz do drama _Egas Moniz_, na esquina da rua Formosa.
Aproximei-me d'elle, puz-lhe a mão no hombro, e disse-lhe:
--Está o meu amigo regosijando-se de lêr em letras enormes o tio de seu decimo oitavo avô Egas Moniz...
--Não, senhor--respondeu elle sorrindo--estava a scismar n'uma cousa que me não regosija absolutamente nada...
--Bem sei--acudi eu com a minha notoria esperteza--estava v. exc.^a meditando que já não ha portuguezes que, á semelhança do seu avô, fossem de corda ao pescoço dar satisfação da palavra mal cumprida.
--Não, senhor; pensava em outra cousa...
--Bem sei... pensava no apagado luzimento d'esta heroica estirpe dos Viegas, dos Coelhos, dos...
--Não, senhor; pensava em ir vêr ao theatro Baquet representar a façanha d'este meu illustre avô; mas vejo aqui escripto que um lugar da galeria custa duzentos reis; e eu, decimo oitavo neto de Egas Moniz, se tivesse dous tostões, iria empregal-os no jantar de meus filhos, que estão em jejum.
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Snr. Antonio Moutinho de Sousa, dê no seu theatro um beneficio a favor de alguns netos do aio de D. Affonso I, e convide-os a levantar o obolo que os admiradores de seu avô d'elles depositarem na bandeja dos pobres.
Os descendentes do fidalgo, que ensinou o primeiro rei portuguez a ser honrado, não deviam ter fome e frio, quando as plateias desbordam de gente jubilosa de bom patriotismo e de melhor jantar.
DOUS POETAS INEDITOS DO PORTO
Na segunda metade do seculo XVII floreceram no Porto dous doutores, acariciados das musas, e por isso mesmo rivaes e inimigos: eram João de Assucarello (ou Sucarello) Claramonte, e Christovão Alão de Moraes, desembargador da Relação e mais tarde corregedor do civel do Porto. Do primeiro temos algumas poesias deshonestas, e diminutas noticias, e essas em referencias dos poetas seus contemporaneos, nomeadamente o padre Jeronymo Bahia. Do segundo encontra o leitor ampla noticia no _Panorama_ de 1854, n.^os 123 e 127. Distinguiu-se como poeta e genealogico. Não sei onde param oito volumes em folha escriptos de sua mão, intitulados _Genealogia das familias de Portugal_. Sei que o duque de Lafões, no seculo passado, os não quiz comprar porque lhe não respeitavam a pureza do sangue dos avós; e a bibliotheca publica de Lisboa tambem os não adquiriu, ha poucos annos, «por incuria ou capricho do ex-bibliotecario Canaes», diz o snr. Innocencio Francisco da Silva.
O doutor João de Assucarello satyrisava o Porto, representado nas pessoas de mais importancia, algumas das quaes nos são hoje desconhecidas, e difficilmente lhes rastrearemos as familias que as representam.
Eis-aqui o maledicente soneto do medico, émulo de Christovão Alão:
_As valentias de Gaspar de Anhaya,[1] O mero e mixto imperio do Sarinho, A calva de João Nunes frita em vinho, As filhas do Picão de Miragaya;_
_Mercancia de esterco, ambar da Maya, Comprado ou já por lenha ou por toucinho, Geral remedio de Entre-Douro e Minho, Achado antes nas casas que na praia;_
_Beata calva, immensa gravidade Dos infanções mantidos com farelo, Da manta rota a celebre Irmandade:_
_Este é o Porto--acabo de dizel-o. Ó muito nobre e sempre leal cidade, Quem te pozera a couves e bacello!_
Não se percebem alguns epigrammas do soneto; mas aquelle verso que rescende ao _ambar da Maya_ não seria ainda hoje um anacronismo.
Respondeu Christovão Alão, pelas mesmas rimas, do seguinte feitio:
_Bem caro te custou Gaspar de Anhaya, E te póde custar inda o Sarinho; Poeta bacchanal, farto de vinho, Que és deshonra do Porto e Miragaya._
_Villão inda mais sujo que da Maya, Creado só com brôa e com toucinho, Quem te mette a fallar em Douro e Minho, Sendo filho das ervas e da praia?_
_Como has tu de entender da gravidade Dos infanções, brichote de farelo, Se não logras dos nobres a Irmandade?_
_Este és, ó bebado!--acabo de dizel-o: Que só para beber toda a cidade, A desejaste poeta de bacello!_
Este soneto é bom.
Desculpa-se ao poeta fidalgo a arrogancia com que desdenha o plebeismo do Assucarello, appellido que nenhum linhagista condecora; dado que este medico já então tivesse o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Ora os Alões são mais antigos em Portugal que os seus monarchas. D. Mendo Alão era senhor de Bragança, antes da vinda do conde D. Henrique a Hespanha. Alguns genealogicos lhes dão como antepassados os reis _álanos_. Na igreja de S. Bartholomeu de Lisboa existiu o morgado de Santo Eutropio instituido por D. João Alão, bispo do Algarve. Esta familia está representada no Porto por descendentes que não desdouram tão nobre appellido.
[1] Não ha no Porto alguem que use este appellido; mas a familia que o teve ainda aqui vivia honradamente no meiado do seculo passado, e se obscureceu no Alemtejo e Minho por onde se ramificára. Prende com esta familia do Porto Antonio Fogaça, aqui nascido. D. Sebastião o mandou como seu residente para Inglaterra, onde permaneceu largos annos, em serviço dos Philippes, enviando de lá importantes noticias em tempo de Henrique VIII. Seguiu a facção da rainha Catharina, e gastou o mais grosso dos seus grandes cabedaes n'esse brioso empenho. Succedendo no throno a rainha Isabel, foi Antonio Fogaça preso e duas vezes trateado na Torre de Londres, vindo a morrer das torturas, quando recobrou a liberdade. Por sua morte, foi-lhe confiscado o restante dos bens. Antonio Fogaça teve de sua mulher Isabel Ribeira de Vabo uma filha que se chamou D. Maria, e casou com Braz Rodrigues Anhaya. D'estes nasceu outra D. Maria do Vabo Pimentel, que casou com o capitão Manoel Soromenho Dias, de quem foi filho Luiz do Vabo Pimentel, governador da praça de Albufeira. Em 1750 ainda existia em elevada categoria um filho d'aquelle ultimo. Era capitao-mór de Alvor, e chamava-se Antonio Pimentel do Vabo. Nas provincias de Traz-os-Montes e Minho, nomeadamente no Paço de Carude e Torre de D. Chama, existiram Vabos e Soromenhos. De todas estas familias descende o snr. Augusto Soromenho, erudito professor do curso superior de letras, e que, ha quinze annos, com legitimo fundamento, usou em documentos publicos dos seus appellidos _Vabo e Anhaya_.
D. JOÃO III, O PRINCIPE PERFEITO
Não me recordo se os chronistas d'este rei nos contam que os resplendores da graça divina lhe aureolaram o rosto, quando a alma se desatou d'aquella infame caverna, e foi receber o galardão dos milhares de hebreus queimados em obsequio á religião da fé, esperança e caridade. O snr. A. Herculano capitula este rei de _fanatico, ruim de condição e inepto_; mas isto não faz implicancia á salvação do monarcha, antes a confirma; porque o grande historiador, sabendo como se fazem optimos livros, de certo ignora os processos da formação da glottica e dos santos. Afóra isto, sabe tudo, excepto que D. João III, quando expirou, causava medo aos que lhe viram a horrendissima cara.
As pessoas medianamente cultas não ignoram que houve um frade de grandes virtudes e letras chamado frei Thomé de Jesus, da ordem de Santo Agostinho. D. Sebastião o levou comsigo á batalha de Alcacerquibir. Não sabemos se o frade pelejou; mas temos de certeza que ficou ferido, captivo, e encarcerado nas masmorras de Maquinez. Transferido para Marrocos, por diligencia do embaixador de Portugal, rejeitou o resgate, que seus irmãos, fidalgos de primeira plana, lhe offereceram, preferindo a escravidão alli onde eram muitissimos os captivos carecidos de confortações e exemplos de paciencia. E, ao cabo de quatro annos de servidão, morreu em Marrocos, aos 17 d'abril de 1582, na idade de cincoenta e tres annos, legando-nos um livro lá escripto e muito apreciado com o titulo _Trabalhos de Jesus_.
D'este escriptor mystico possuimos uma carta inedita, motivada pelo trespasse de D. João III, e escripta desde Lisboa a certa communidade religiosa. O esclarecido bibliographo F. Innocencio da Silva sente que esta carta, principiada a imprimir no _Murmurio_, periodico bracharense, ficasse incompleta. Nós, que tambem possuimos d'ella um traslado da mão de D. fr. Manoel do Cenaculo, arcebispo de Évora, vamos dal-a integral e textualmente, na certeza que revivemos um documento historico, lavrado por testemunha presencial, e, além d'isso, por um dos mais abalizados escriptores do seculo aureo da lingua portugueza.
Reza assim:
«Amantissimos Padres. O Spirito Sancto cosolador, e emparo dos atribulados console suas almas, que creio estarão já com a dor, que nós temos da morte de nosso Pai, Rei, e Senhor, taõ supita, e taõ inopinata, como foi, e lhes dê o emparo espiritual de sua graça, e temporal de cabeça tal, qual foi a que perdemos. Amen.
«Ainda que creio, que já teraõ a certeza da morte del Rei Nosso Senhor, porem por mo mandar nosso Padre, e eu o ter já assim determinado de fazer, e porque muitas cousas se dizem lá, e cá, que naõ foraõ assim, pera saberem a certeza do que passa lhes quero contar por ordem tudo: ainda que folgára eu muito de ter antes perdidas as virtudes, e forças naturaes do corpo, que te-las pera aver de escrever o que agora ouvirão.
Quarta feira _infra octavas Penthecostes_, sahio El Rei Nosso Senhor, que santa gloria aja, a ouvir missa á Misericordia, quasi indo em pessoa a chamar a Misericordia, que d'ahi a pouco tempo o avia de levar á sepultura, e assim foi esta derradeira sahida só, pera seu costume, e hia ainda muito bem disposto. Ouvida a missa se tornou muito de pressa ao Paço com muita, infinda gente, mal disposto de huma perna, mas pouca cousa, e tudo isto vio hum Padre desta casa. Chegando ao Paço se encerrou em huma camara só sem ninguem, onde esteve muito grande espaço, depois do qual chamou, e pedio agoa rosada, com a qual lavou o rosto, e mãos, e tornou a estar só outro pedaço, donde sahio a jantar muito melenconisado, e jantou mal, e á tarde teve huma febrezinha muito pequena.
«Quinta feira se alevantou, e andou hum pouco achacoso, diziaõ que era de naõ dormir com cuidado do Principe[2] que tivera huma febre, e arrevesava, e naõ dormia. Mas Deos sabe o que era. Com tudo não tinha doença que o fizesse estar em cama.
«Á sexta feira se alevantou tarde, e ouvio missa em casa, e jantou muito bem assombrado, e assim esteve toda a sésta, que ao parecer estava bem, até as quatro horas, as quaes dadas nos chamárão á procissão _praecipue_ pelo Principe, que Deos guarde, a qual sahia da Sé á Misericordia. Sahindo nós da Sé chegou hum recado que fossemos a Jesu de Saõ Domingos com a procissaõ por el Rei, que estava muito mal, e assim se fez, e ouve pregaçaõ. De maneira que perto das cinco horas se começou el Rei de agastar, e chamou Confessor, que estava na Mesa da Consciencia, e confessou-se das cinco até as oito. E logo do Saõ Giaõ lhe leváraõ o Senhor, e chegando nós ao Rossio, nos deraõ novas, que lhe naõ achavaõ pulso. Acabando de comungar começou a concertar seu testamento, o qual naõ acabou de fazer com as mezinhas, e com os agastamentos; mas segundo me dixe o Confessor da Rainha o substancial delle fez, e assinou. Ás dez horas se achou mais leve, e despejou[3] para repousar, e ás onze chamou, e vendo que carregava o accidente pedio a Unçaõ, a qual lhe trouxeraõ logo, e quando já chegou naõ fallava, mas recebeo-a vivo, a qual recebida, sendo já meia noite, em quanto podiaõ dizer huma terça rezada, _expiravit_ levemente, e sem movimentos, nem trabalho mais, que o mortal, que he o mór de todos. De maneira que em sete horas, a saber des das cinco ás doze acabou. A isto naõ estive eu presente, mas soube-o do Confessor da Rainha, e de Luiz Gonçalves, que ahi se achavão presentes, e delles soube que quando el Rei pedio a Unçaõ, que se recolheo o Cardeal, e os outros Senhores, e só a Rainha se foi pera el Rei, e com elle esteve até espirar sem botar lagrima, e acenando a todos que ninguem chorasse alto por não inquietar a el Rei, ella o consolava, e animava a passar alegremente aquelle passo com muitas palavras christãs e devotas: ella lhe teve com grande coraçaõ a candeia em a maõ, e lhe fechou os olhos, e acabando elle de espirar se foi cobrir de dó, e se poz em hum oratorio com quatro vellas no altar, e frontal, e dorsel de veludo carmesi, com o braço de Saõ Sebastiaõ, onde o Padre Montoya a visitou, e consolou, ou para melhor dizer ella consolou ao Padre, que ainda que com muitas lagrimas, com tudo mui inteira na rasaõ, e na modestia exterior, sem nenhum estremo, mostrou estar muito conforme com a vontade do Senhor Deos, e receber tudo de sua maõ, e que rogava muito aos Padres, que a encomendassem a Nosso Senhor.
«Agora o que vi com meus olhos lhes contarei, e o que tratei com minhas mãos: querendo ungir el Rei mandáraõ chamar Padres de todallas Ordens, os quaes todos chegáraõ tendo elle já espirado, e assim o nosso Padre, cujo companheiro fui eu, correndo quanto podiamos fomos quasi todo o caminho, porque não cuidavamos que se fosse taõ asinha. Achámos pelas ruas e Ribeira tudo cheio de pranto, e de gritos, e de muita gente, que com trabalho entrámos. Entrados _vidimus coronam capitis cecidisse, et obiisse_:[4] ninguem se ouvia com gritos, e soluços, huns em pé, outros de giolhos, outros por esse chaõ: huns chorávaõ, outros gemiaõ, outros amarellos estavaõ pasmados com ver morte taõ supita e com desemparo taõ de repente, e de improviso, estavaõ todos attonitos, e sentidos: ninguem se ouvia, e escassamente podiaõ os Religiosos rezar com lagrimas, até que ás duas, ou tres depois da meia noite entrou o Cardeal ainda de vermelho a despejar a camara, rogando, e chamando a todos senhores, sem lagrima nenhuma, e com el Rei ficáraõ os Religiosos, e alguns Fidalgos, e assim estivemos até as cinco rezando muitos Officios de defunctos, e muitas orações. Ás cinco depois de visto o testamento em conclavi, o Arcebispo despejou a camara sem deixar mais que de cada Ordem hum ou dous Religiosos para o amortalharem, e o Pinheiro com o Confessor del Rei a hum canto rezando: e assim cobertas as cortinas do leito dous Padres de Saõ Francisco, e hum do Carmo, e Frei Jeronimo d'Azambuja de Saõ Domingos, e eu o amortalhámos, ministrando-nos hum Clerigo Fidalgo, de maneira que estas tristes maõs o laváraõ, e alimpárão, e amortalhárão: Bendito seja Deos. Seu corpo ainda que ficou bem assombrado acabando de espirar, com tudo pelo muito que esteve por amortalhar _quando o descobrimos estava mais feio, e mais preto do rosto, e mãos, o mais sujo, e o mais nojento, e em fim o mais mortal e terreno, que eu vi outro, e eu tive aquelle pelo mór espectaculo_, e pera todo Religioso ver, pera doctrina, e edificaçaõ, que podia ser: _Non potuimus continere lachrimas_[5] com pranto, e lagrimas rezando o Officio de Defunctos lhe posemos huma toalha na cabeça e rosto mal lavada, e despida huma camiza suja de sangue que botava pela boca, e cousa verde depois de morto, lhe vestimos outra lavada, e lhe posemos o Bentinho de Christo, e o emburilhamos em hum lençol, e cozemos com barbante, sem outra cousa, nem vestido, nem mais habito, e o posemos em hum catele sem alcatifa, nem nada, onde esteve ate trazerem o ataude. Nisto acabou o estado, o fausto, as riquezas, as pompas, as cortezias, os serviços, as adorações reaes, nem em tudo isto se aqueixou dos que isto lhe faziaõ, aquelle que com só a vista fazia tremer o mundo. Dahi a pouco lhe poseraõ hum estrado grande em o meio da camara coberto de veludo preto, rodeado de alcatifas, e sobre elle hum ataude forrado de veludo preto por fóra com huma cruz de damasco branco, e de linho de dentro, aonde o Bispo de Leiria, e o do Funchal, e o Arcebispo, e o Priol de Palmella, e o Bispo D. Pedro e eu com dous Frades o metemos, onde lhe beijáraõ a maõ por sima do lençol estes que ahi estavaõ, lançando-se todos sobre elle com muitas lagrimas, começando novo pranto, e pregado o ataude lhe botáraõ por sima hum panno de veludo preto muito grande com cruz de damasco branco, e aos pés poseraõ huma mesa coberta com hum panno de damasco preto, na qual estava huma cruz da capella, e dous castiçaes com suas vellas, e caldeira de agua benta, e ao rededor quatro tochas em suas tocheiras de prata. E he muito pera notar, que assim como el Rei, que santa gloria aja, foi em vida muito amigo dos Frades, assim des que espirou até o levarem, elles o acompanháraõ, porque até o amortalharem, como já dixe: estiveraõ com elle Frades de todallas Ordens, Frades o amortalháraõ, e meteraõ no ataude, e concertáraõ, e metido cada Ordem vinha sobre si com cruz alevantada, e estava com elle duas horas dizendo hum Officio de Defunctos entoado. Convem a saber os de Saõ Domingos das sete até as nove; os do Carmo das nove até as onze; os de Saõ Francisco das onze ás doze e meia; depois os da Trindade até quasi as duas; depois nós até as tres, e idos todos ficáraõ huns poucos de cada Ordem com a capella até as quatro sempre rezando. Ás quatro entrou o Cardeal, já de roxo, e de giolhos, sem lagrimas, beijou o estrado, e repartio as toalhas do ataude, convem a saber da maõ direita á cabeceira o Senhor Dom Duarte, logo Dom Constantino, logo outro que naõ conheci, logo o Conde da Castanheira: da banda esquerda _ad caput_ o Duque d'Aveiro, logo tres que naõ conheci, os quaes escassamente podiaõ levar o ataude, e aberta a porta da camara por onde o haviaõ de tirar, que estava na varanda, se alevantou hum pranto taõ grande que era cousa de pasmo. Eu nunca vi tanta gente junta, nem tanto grito e choro, nem faces ensanguentadas e arranhadas, nem barbas depennadas, como entaõ vi, tanto que nem havia forças pera andar, nem pera bulir o corpo lugar, até que o Cardeal rogou, que andassem, e recolhendo-se começarão a andar, e passadas duas portas não podéraõ mais, e chamaraõ Religiosos que os ajudassem, dos quaes fui eu hum, de maneira que eu o amortalhei e meti no ataude, e levei até o meterem nas andas; a aquelle que a mim, e a toda a Ordem deo sustentaçaõ, e vida, e com tanto trabalho de meu corpo, que ando agora muito mal tratado por pesar muito, e porque descendo pela escada me ficou sobre mim só todo da banda dos pés, sem me poderem valer com a muita gente, onde cuidei de ficar; mas certo que entaõ naõ senti este trabalho, nem me lembrava repouso, nem sono, nem comer, no que tinha muitos infindos companheiros. Assim nas andas forradas por dentro de veludo preto, com hum panno por sima muito grande do mesmo, com cruz branca, o levou a Misericordia, e a Capella, e o Cabido, sem mais cruz que a da Capella, todos com tochas a cavallo, em duas azemolas, que bem tinhaõ que fazer em o levar, que tanto pezava, e levaraõ-no a Belem, e enterraraõ-no á cabeceira de seu Pai com hum Responso, que pera mais nem lagrimas, nem gritos, nem gente davaõ lugar, que segundo se conjeiturava se ajuntáraõ ao levar, assim na cidade, como fora, até Belem entre homens, mulheres, e meninos por todos bem quarenta, ou cincoenta mil almas, o que crê facilmente quem presente se achou, e o via por seu olho, e naõ foraõ com elle Ordens por rasaõ da Festa da Trindade, nem sabemos ainda quando iraõ, porem todollos Moesteiros se naõ occupaõ agora senaõ em dizer Officios por elle, e em fim os Padres de Saõ Jeronimo o botáraõ á terra, onde jaz descansando, e tornando-se naquillo, que he, aquelle que na vida era Pai, Rei, Senhor, Emparo, e Soccorro, a quem naõ faltava nada pera ser o mais illustre Principe da Christandade: praza a Nosso Senhor que lhe dê na outra vida a gloria, que todos lhe desejamos, e que elle com suas boas obras creio, que merece. Amen.
«Hoje se quebráraõ nesta cidade os Escudos, que he o terceiro dia, e ámanhã terça feira juraraõ o Principe, e cremos que passada a Festa se faraõ os Saimentos Reaes. Do estado do Reino, e quem fica por Governador _nulli narranti credatis_, porque ainda tudo está secreto, nem se saberá _ut creditur_ taõ cedo. Isto que lhes escrevi he o certo do que passa, tudo o ai tenhaõ por incerto. Resta que o encomendem muito a Nosso Senhor, e a Rainha, e ao Principe, o qual fica bem disposto, e eu o vi sabbado em pé, e bom, e nosso Padre lhe dixe missa depois del Rei amortalhado, e lhe dixe hum Evangelho.
«Esta carta tenhaõ cada hum por sua, e encomendem-me a nosso Senhor todos, porque eu naõ tenho tempo, nem disposição pera escrever particularmente a todos, ainda que sim vontade grande. As ceremonias da cidade já naõ se fazem nos dias ordenados, mas a outro tempo. De Lisboa a 14 de Junho de 1557. Irmaõ de todos, e filho em Christo. _Frei Thomé de Jesus._»