Part 8
--Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas! Isto de mais a mais é recommendado. Contêem principios alcalinos, que são salutares. E teem um rico assucar, que é nutritivo. Na Allemanha e na Suissa comem-n'as para curar as doenças gastro-intestinaes. É bom, e faz bem.
--Diga antes que gosta muito de uvas.
--Ou isso: gósto muito.
--Visto que já saboreou o seu primeiro almoço, venha d'ahi dar um passeio.
--Aonde?
--Ora essa!
--Á Murgeira, como sempre, não é verdade?
--Como sempre... é um modo de dizer. Já lá não vou ha tres dias.
--Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.
Tres minutos depois a _charrette_ do tenente Silverio rodava para a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote largo, quebrava o silencio da manhã, guizalhando festivamente.
Iamos bem dispostos, dilatando os pulmões no ar fresco dos pinheiraes, em que já se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da Ericeira. Muito agradavel a manhã.
--Isto é bom e faz bem, dizia-me o tenente. São as minhas uvas.
--Perdão, as suas uvas, meu caro tenente, são outras. Vae colhel-as á Murgeira. Muito brancas não são; mas talvez sejam doces...
O tenente riu-se.
Tinhamos saído da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a Murgeira.
Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.
Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada, puxando a _charrette_. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia a Libania.
Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma desgraça. Havia algum caso na Murgeira.
--Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta terra!
--Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.
--Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.
O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.
Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.
--Quem era? perguntei.
Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um artista para a guitarra.
Fôra em Lisboa que elle ganhára _queixa de peito_, disseram-nos. Viera muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente, entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista os _harmonios_ da saloiada patusca.
Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes de principe, o Zé Ratinho.
--Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou um saloio, que acabava de beber dois decilitros saudosamente.
--Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.
Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-se _smorzando_ lentamente: queriam ouvir o que diriamos.
Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada, botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado sobre o hombro direito.
Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.
Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.
Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas da guitarra uma dhalia branca.
O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos foliões, saltitantes.
Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoçar comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Zé Ratinho.
--Olhe que a lembrança da flor nas cordas da guitarra não deixa de ter certa delicadeza! observei eu.
--Qual historia! chalaçou o tenente. Mas que flor... uma dhalia! É um cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite cá mais linguado, que está melhor do que a Libania.
Decorridos tres dias, á mesma hora, passa o tenente Silverio. Encontra-me a comer outro cacho de uvas.
--Venha d'ahi.
--Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo de lagrimas.
--Ora adeus! Isso já lhes havia de passar.
--Quem sabe?
--Sei eu.
--Como sabe?
--De sciencia certa.
--N'esse caso vamos lá.
Fomos. Apeámos á porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu fiquei na taverna a dar dois dedos de _cavaco_ ao taverneiro.
Ouvi-lhe ainda muitas historias do Zé Ratinho. Uma d'ellas, principalmente, tinha o seu quê de phantastica.
Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos da Murgeira. Ás duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um latagão forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do Zé Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra, quando de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluçado.
--Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Zé Ratinho que estava tocando guitarra pela ultima vez.
--Então o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria sonhando?...
--Essa é boa! Não ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de dormir ao pé de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem acordado que elle estava, e só com dez réis de aguardente que tinha bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemecê se assentou. Poz-se em pé, logo que a guitarra começou a tocar, e não viu ninguem. O Zé Ratinho estava morto e bem morto: não se mexia.
N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.
O taverneiro commentava:
--Cá na Murgeira não é o senhor capaz de tirar da cabeça a ninguem que foi a alma do Zé Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por volta das duas horas, esteve tocando guitarra.
--Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoçar.
Subimos para a _charrette_. Já com as rédeas na mão, o tenente, muito chalaceador, perguntou-me:
--Então os saloios ouviram a alma do Zé Ratinho tocar guitarra, na noite em que elle morreu?!
--Ouviram.
--Pois... quem tocava guitarra era eu.
--Você?!
--Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rédeas ao _impedido_, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles não tivessem ouvido...
--Jura que isso é verdade?
O tenente olhou para mim:
--Juro.
--Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque eu já me sentia disposto a acreditar...
--Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o brazileiro.
D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e abancando:
--Vamos a isto, meus senhores.
XVII
Leotte arrastava discretamente a aza a D. Christina, mas enganára-se quanto á presumpção de, como César, chegar, ver e vencer.
Teve de conhecer que madame Araujo, muito experimentada no terreno que pisava, não quereria comprometter-se no pequeno theatro de acção de um _hotel_, onde o marido só a largava por instantes e onde nós, os oito companheiros de Leotte, eramos outros tantos olheiros, cheios de malicia e curiosidade. De mais a mais, entre esses oito havia um que lhe conhecia a vida. Era eu. E ella estava de certo empenhada em fazer-me convencer a mim proprio, como tinha convencido o brazileiro, de que era a viuva authentica e duplicada do morgado Muxagata e do Falcão do Marco.
Portanto, o Leotte, que não era tambem um novato inexperiente, resolveu _rallentar_ o galanteio, appellando para Lisboa. Por esta razão e, certamente espicaçado pela minha feliz descoberta, voltou-se de novo para a criada, não só por amor das cerejas apetitosas, como pelo desejo de ver se deslindava o misterio, que fôra o primeiro a suspeitar.
E agora é chegado o lance capital d'esta novella, que talvez pareça inverosimil como um antigo romance de Ponson, mas que é tão verdadeira, que ainda hoje póde ser testemunhada por mais de meia duzia de pessoas.
Teve sobeja razão o Leotte para nos communicar cheio de assombro que a sua descoberta, segundo as ultimas revelações da Rosa, excedia a que eu acabava de fazer.
O que iria elle contar? Coisas realmente espantosas.
Dissera-lhe a Rosa que seu pai, D. Alvaro de Alarcão, era natural da Beira Alta.
--Então a menina nasceu lá? perguntára-lhe o Leotte.
--Não, senhor. Eu nasci no Porto.
--Como foi então isso?
--Meu pai, que era morgado...
--Morgado de que?
--De Muxagata.
--De Muxagata?! Está bem certa d'isso!?
--Muito certa. Meu pai fugiu para o Porto com uma fidalga de Lamego.
--E depois?
--Meu pai arruinou-se, e foi morrer ao abandono no seu solar. Minha mãe tomou amores com outro homem, que tambem era morgado, e que caiu doente com uma molestia da espinha, que o poz muito impertinente. Eu tinha apenas dois annos e, como fizesse barulho brincando, foi preciso tirarem-me de casa. Mandaram-me então para Lamego.
--Para casa da familia de sua mãe?
--Isso sim! A familia de minha mãe nunca mais lhe perdoou a sua falta. Mandaram-me para casa de uma pobre mulher, a _tia_ Senhorinha, que era irmã de leite de minha mãe. Fui crescendo entregue aos cuidados da _tia_ Senhorinha, que era viuva, e que vivia de fazer mandados. Era ella quem dava todas as voltas em casa do major Gouvêa, de infantaria 9, que era muito bom homem, casado com uma santa senhora. Como não tinham filhos, foram-se-me affeiçoando, e eu passava lá os dias emquanto a _tia_ Senhorinha andava lidando na cozinha ou dando voltas por fóra.
--E sua mãe não mandava mesada nenhuma á _tia_ Senhorinha?
--A principio mandava meia moeda por mez, mas quasi nunca escrevia. Depois o sr. major Gouvêa, quando a _tia_ Senhorinha morreu de um grande resfriamento que a tolhêra, tomou conta de mim, mandou dizer a minha mãe que guardasse as suas migalhas de dinheiro, e minha mãe nunca mais tornou a escrever, não quiz mais saber de mim.
--E o que foi feito de sua mãe?
--Não sei! O sr. major Gouvêa não queria que se falasse d'ella.
--Mas como foi que a menina veiu parar a Lisboa?
--O sr. major saiu tenente-coronel e foi collocado em Elvas. Eu vivia muito feliz, porque tanto elle como a mulher, a sr.ª D. Clara--Deus a chame lá!--me tratavam como se eu fosse sua filha. Tinham muita pena de mim, davam-me vestidos, chapeus, tudo o que elles podiam dar, e mais do que podiam dar, porque o sr. tenente-coronel apenas vivia do soldo. A sr.ª D. Clara, como era alfacinha, gostava de poder vir para Lisboa; de mais a mais, em Elvas, o sr. tenente-coronel passava mal de saude. Um general, que era amigo d'elle, arranjou-lhe a transferencia para Lisboa. Viemos todos. Mas o sr. tenente-coronel nunca mais tornou a ser o homem que era em Lamego. Soffria do coração. Anno e meio depois de estarmos em Lisboa, acamou, soffrendo cada vez mais. Morreu todo inchado, que fazia dó. N'esse dia posso dizer que morreu o meu verdadeiro pae.--E dos olhos da rapariga rebentavam lagrimas.
--Depois?
--Depois a sr. D. Clara e eu viviamos de uma pequena pensão que ella tinha. Mas a pobre senhora affligiu-se tanto com a morte do marido, que pegou de fazer-se doente. Só durou mais onze mezes. Vieram então uns parentes d'ella, sobrinha e marido, tomar conta de tudo o que havia. E eu achei-me sósinha no mundo, sem ter quem me protegesse. Vi-me só, desamparada, fiz um annuncio no _Diario de Noticias_, arranjei uma casa, fui servir.--E os soluços embargavam-lhe a voz.
--Mas por que não tentou procurar sua mãe?
--Como! Quem sabe lá se minha mãe ainda vive! Se ella quizesse fazer caso de mim, teria deitado inculcas para me encontrar.
--Diga-me porém uma coisa... Como foi que mudou de nome?
--A primeira casa em que eu servi era na praça dos Romulares. A senhora chamava-se Maria; a menina tambem. Começaram a embirrar com o meu nome, que fazia confusão, diziam ellas. Talvez não gostassem que eu tivesse um nome igual ao seu. Um dia a senhora disse-me que era melhor chamarem-me Rosa, e desde então o meu nome tem sido sempre Rosa.
--Mas então a menina não suspeita que existam ao menos parentes de sua mãe?
--Elles não me quereriam vêr, porque ficaram de mal com minha mãe.
--Quem sabe...
--Ó meu senhor! eu nasci para ser desgraçada!
--E, se fosse preciso, a menina poderia provar tudo isso que me tem contado?
--Vive na rua da Padaria a sobrinha da sr.ª D. Clara, em casa de quem eu costumo ficar por esmola, quando estou desarrumada. Ella que diga se isto é verdade ou não.
Como não podia deixar de ser, a revelação d'este dialogo causou-nos profunda surpresa. Chamamos a rapariga, que repetiu todas as declarações anteriores.
--Mas isto é um verdadeiro romance! disse eu.
--Começado por ti e acabado por mim! observou orgulhosamente o Leotte.
--Tens razão.
--O que eu não sei, disse-me o Vasconcellos, é como tu e os teus collegas em lettras teem o condão de encontrar sempre um romance em toda a parte!
--Sempre, não. Poucas vezes até o acaso poderá ter fornecido um tão completo romance. Este a mim mesmo me surprehende.
--Sim. D'este não posso eu duvidar, porque estou assistindo a elle. Mas--continuou o Vasconcellos--tenho corrido todo esse paiz, e nunca encontrei nenhum romance nem coisa que o parecesse.
--Se tu fosses escriptor terias, por hipothese, feito dez romances; d'esses dez, nove seriam inventados, e apenas um verdadeiro. Notando que o mais inverosimil seria talvez o unico verdadeiro.
--A julgar por este, assim é.
O Gonçallinho Jervis estava visivelmente entregue a dois pensamentos: um, que dissimulava; outro, que manifestava com vehemencia.
O primeiro adivinhava-lh'o eu: era um intimo desgosto de não ter sido elle que surprehendesse o romance.
O segundo inspirava-lhe indignadas apostrophes contra a mãe descaroavel que abandonára a sua propria filha á miseria, talvez á deshonra.
--Ah! Gonçallinho, é d'essa triste verdade que nasceu a creação das rodas dos expostos, dos asilos, das misericordias, de todas as piedosas instituições de assistencia publica. Mas parece que tu não vives n'este mundo! Pois não lês nos jornaes, todos os dias, noticias que te ensinam que ha mães que expõem as filhas, que as matam, que as vendem!... E pensas que todas essas torpes mães serão desgraçadas! Só são castigadas as que caem nas mãos da policia. As outras viverão decerto tão felizes como D. Christina.
Mas era preciso abandonarmos philosophias, tomar alguma resolução pratica.
Duas coisas ficaram logo resolvidas:
1.ª Que se escreveria ao Callixto, que tinha ficado em Lisboa, para ir á rua da Padaria procurar a sobrinha de D. Clara Gouvêa, a fim de pessoalmente verificar se as declarações d'ella coincidiam com as da Rosa. Ficariamos em Cintra esperando a resposta.
2.ª Que eu inventaria á noite uma historia qualquer que, visando ao coração das mães descaroaveis, pudesse revelar-nos o arrependimento ou o cinismo de D. Christina.
Escripta a carta ao Callixto, comecei a pensar no modo de conduzir a observação psichologica de que tinha sido incumbido.
XVIII
O conto que eu architectei, para contar á noite, foi baseado, devo confessal-o francamente, n'uma noticia que havia lido em Buffon, e que para aqui vou transcrever textualmente.
Diz o sabio naturalista na sua obra monumental:
«_Pendant tout le temps de l'incubation, la paone évite soigneusement le mâle, et tâche surtout de lui dérober sa marche lorsqu'elle retourne à ses ½ufs; car dans cette espèce, comme dans celle du coq et de bien d'autres, le mâle, plus ardent et moins fidèle au v½u de la Nature, est plus occupé de son plaisir particulier que de la multiplication de son espèce; et s'il peut surprendre la couveuse sur ses ½ufs, il les casse en s'approchant d'elle, et peut-être y met-il de l'intention, et cherche-t-il à se délivrer d'un obstacle qui l'empêche de jouir: quelques-uns ont cru qu'il ne les cassoit que par son empressement à les couver lui-même, ce seroit un motif bien diffèrent._»
Achado o assumpto, graças ás minhas recordações de Buffon, era facil oppôr a pavôa á mulher pelo que tocava aos encargos affectuosos da maternidade.
D. Christina ia accentuando, á medida que a convivencia se estreitava, uma alegria expansiva, de que aliás se mostrava um pouco avara para comigo, desconfiada talvez de que eu não soubesse ser discreto até ao fim.
Por vontade sua, ter-se-ia começado logo a jogar. Mas nós, simulando não querer interromper o tradição das nossas noites de Cintra, oppuzemo-nos.
Contei, portanto, o meu conto.
--Era n'uma quinta da Beira Alta, uma d'essas quintas nobres do seculo passado, cheias de estatuetas e de fontes mithologicas, de largas ruas desenhadas por linhas de buxo alto eriçado; uma d'essas quintas em que havia, por força, um pombal, um lago e a matta.
Ao fundo alvejava o palacio, de amplas dimensões, com janellas de sacada, cujos ferros, muito espaçados, eram torcidos como o caduceu de Mercurio.
Aos lados da porta do edificio avultavam duas grandes cascatas, estrelladas de pequenas conchas, umas brancas, outras roseas; e de cada gomil, que os Neptunos sobraçavam, descia a agua n'uma crespa meada de cristal, caindo nos tanques, onde peixes doirados nadavam.
Havia na quinta um copioso aviario, uma collecção preciosa de faisões, pavões, perús, patos, gallinhas raras do Oriente.
Eu tinha ido visitar o dono da casa, que havia sido meu condiscipulo, e que fôra feito visconde, quando, por ter casado rico, comprou aquella ultima quinta de um morgado beirão.
Tive a honra de conhecer as pessoas mais gradas da localidade, que se reuniram a jantar em casa do meu condiscipulo no primeiro domingo que lá passei.
O visconde conservava ainda o mesmo espirito que eu havia conhecido doze annos antes. Muito sarcastico, um critico implacavel de todos os ridiculos sociaes, contou-me hilariantemente a historia do seu viscondado, que elle era o primeiro a não tomar a sério.
--O governo, disse-me rindo, fez-me visconde; no Minho chamaram-me _bisconde_. Eu adoptei esta ultima versão, por me parecer mais gloriosa, pois que duplica a minha nobreza. Prefiro o _bis_.
Depois informou-me minuciosamente ácêrca de todas as pessoas, de ambos os sexos, que eu ia conhecer. Descreveu-me as _toilettes_, que eu havia de ver, os casacos e colletes dos morgados, os vestidos e penteados das senhoras. Biographou com incisiva satira uns e outras. Contou-me o motivo por que certo fidalgo vinha a ser ao mesmo tempo tio de si mesmo, uma embrulhada genealogica, que eu já não sei agora deslindar. Historiou-me o caso de duas morgadas beatas, que tinham perdido o direito de ir á sepultura vestidas de branco, posto não fôssem obrigadas por convenção social a andar sempre vestidas de preto. Uma d'ellas viria ao jantar, e eu teria occasião de observar a sua severidade de Lucrecia perante todos os Tarquinios d'este mundo, sem embargo de ter passado pela roda dos expostos um filho seu, cujo destino ella propria ignorava.
Eu estava prevenido pelo bom-humor do visconde para todas as apresentações que me seriam feitas.
Chegou o dia do jantar, e tive então ensejo de reconhecer quanto as suas informações, apesar de mordazes, eram exactas. Vi, sentada á mesa do visconde, a melhor nobreza de sete leguas em redor. Quasi todos os convivas eram descendentes de reis godos, e, por conseguinte, aparentados. Estranhei porém, e disse-o ao visconde, que não houvesse ali nenhum primo de Viriato.
--Pois tu não te lembras de que Viriato era pastor?! observou sentenciosamente o meu condiscipulo.
O jantar foi pantagruelico. Legiões de aves passaram por deante de mim. Era de abarrotar. O visconde disse-me depois que ninguem lá saía de casa para jantar de outro modo. Não valia a pena.
Findo o banquete, viemos todos sentar-nos junto das cascatas. Conversou-se principalmente de assumptos do campo. O visconde ria galhofeiramente da minha ignorancia agricola. A nobre Lucrecia, que elle me havia biographado, observou-me angelicamenle que no campo as conversações eram mais innocentes do que na sociedade destragada das cidades. Eu, que não tinha pretenções a Tarquinio, concordei.
Fiz reparo em que muitas aves, principalmente pavões, depois que os criados as chamaram ao pateo da cozinha para lhes dar de comer, pairavam, a grandes distancias, sobre os ramos das arvores.
O visconde notou o meu reparo, e esclareceu-me:
--São as pavôas que procuram desorientar os pavões.
Imaginei que elle houvesse entrado n'um assumpto escabroso de zoologia amorosa. Sorri-me. O visconde, piedosamente, observou:
--Não te rias. Estou falando serio.
--Era isso justamente o que eu receava...
--É que me não entendeste. As pavôas estão agora chocando os ovos, que com um grande sentimento de amor maternal escondem dos pavões, que lh'os costumam devorar. Por isso, receosas de que os machos as sigam, procuram desoriental-os, para que não descubram o sitio em que ellas deixaram por instantes os ovos, aliás muito bem escondidos.
--É exacto, disse do lado um morgado beirão.
--Elle não sabe uma palavra, ponderou com verdade o visconde, d'esta historia natural, que nós cá praticamos.
Segui attentamente com os olhos o que o visconde denominava a _manobra das pavôas_. Voando de ramo em ramo, e a longos intervallos de tempo, iam desapparecendo, sumindo-se arteiramente na espessura do arvoredo.
Alguns pavões levantavam o vôo após ellas, e então as pavôas voltavam, aproximavam-se do sitio em que estavamos, demoravam-se, disfarçando o melhor que podiam a sua intenção.
--Mas isto é admiravel! exclamei eu, isto é sublime de amor maternal!
--Temos ode! gracejou o visconde. Isto é o que é. Isto são as pavôas que não querem que os pavões lhes comam os ovos. Nada mais e nada menos. Não tens visto isto por lá na sociedade das grandes cidades? Pois olha que não devem faltar pavões...
--Mas faltam as pavôas.
--Isso acontece em toda a parte, replicou o visconde, piscando-me um olho e movendo o queixo na direcção da nobre Lucrecia pudibunda.
Comprehendi o seu gesto.
N'esse momento, a fidalga descendente do rei Vamba seguia com tranquilla curiosidade a _manobra das pavôas_, como nós todos. Não parecia envergonhada de confrontar-se moralmente com ellas. De certo lhe não passava pelo espirito a lembrança de que annos antes tinha enviado á roda de Vizeu um filho, cujo destino ignorava.
--Pudesse ella aprender com as pavôas! disse eu depois ao visconde.
--Ella, respondeu-me elle, tambem as tem em casa, mas não se dá ao trabalho de aprender coisa nenhuma.
--Pois eu aprendi.
--Que aprendeste tu?
--Aprendi a conhecer o cathecismo moral das pavôas, livro que muitas mulheres desconhecem.
--És um ingenuo! exclamou o visconde, desfechando-me na cara uma ruidosa gargalhada escarninha.
Aqui teem a minha historia.
D. Christina ouviu-a imperturbavel, serena, como se o seu coração fosse de marmore.
Em contraposição, a bondade do brazileiro revelou-se mais uma vez.
--Parece impossivel, disse elle, como ha pais que despresam os filhos, quando até as avesinhas ensinam a amal-os! No Brazil vi um passarinho chamado João de Barros, muito estimado lá porque annuncia de que lado ha de soprar o vento todo o anno, que faz com barro o ninho do feitio de um forno. Se alguma ave de rapina lhe quer ir comer os filhos, e tenta enfiar a cabeça pela porta do ninho, tanto elle como a femea dão-lhe bicadas até que fuja ou morra.
N'outra occasião, nós teriamos rido certamente do passarinho que tem no Brazil o nome de um historiador portuguez.