Part 7
--Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do dia. Que, se o incommodo não passasse, offerecia a sua criada para nos ensinar a casa do medico.
De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.
Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.
Elle sorriu-se e respondeu:
--Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não passeio, não ando.
Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:
--Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o monstrosinho das _bellezas_!
E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:
--Aqui ha romance, se ha!
O meu amigo sorriu-se e respondeu:
--O que ha por força é tolice.
Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida. Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos ao _hotel_, depois de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços que nos haviam dispensado.
Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua casa, pobre e humilde como era.
A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.
--Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada parece ser.
Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu, francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que fiz, encontrei homem que m'o contasse.
No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente, a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As raparigas de Sines não o achavam nada feio.
Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a filha de um maritimo ali conhecido.
--Não é possivel! exclamavam alguns.
--Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.
Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o corpo não chegava para casar.
Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.
Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava tinha apenas a altura de uma boneca.
O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe a mão da filha.
Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de dizer, estava de accordo no casamento.
E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.
Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia. Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido de Sines n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.
Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dos _taboleiros_, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para elle que o do Hymeneu.
Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.
--Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos bem sacado.
Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que lisonjeava sobremodo o Leotte.
Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.
--Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!
O Vasconcellos respondeu:
--Naturalmente vamos embora ámanhã.
--Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:
--Que tanto importava mais um dia como menos um dia.
Os relogios do Victor deram meia noite.
--E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.
Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?
Ouvindo pronunciar a palavra _Christina_, foi como se eu proprio tivesse pronunciado _eureka!_ como se houvesse encontrado a solução de um problema transcendente.
Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:
--Já sei quem esta mulher é!
--Quem é?
--A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!
--A Christina da historia que nos contaste?!
--Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.
XV
A minha revelação causou tanta surpresa e interesse aos meus companheiros de _villegiature_, como a mim proprio.
Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a quem fôra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasião em que ella estava ceando com o Falcão do Marco!
Que singular coincidencia a de ter eu começado por contar, nos nossos improvisados serões de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao nosso encontro, no _hotel_ do Victor, essa famosa Christina, que eu nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!
Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?
O que seria feito d'aquella creancinha de dois annos, que fôra o fructo do seu primeiro amor criminoso?
Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse capacitar-me d'isso.
Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e as mãos dealbadas de pó de arroz.
O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel, encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.
Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos os procurasse.
O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.
O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar pittorescamente a nossa excursão a Cintra.
As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar plenamente convencido de que madame Araujo era a Christina da rua das Fontainhas.
Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.
--A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava immenso de batotear. _Saltava_ nos valetes, e _fazia cêrco_ ás quinas. Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a fascinava no tempo do Muxagata. Observemos se _faz saltos_ nos valetes e _cêrcos_ ás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.
Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para realisar a experiencia decisiva.
Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar no jogo.
Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos serões, cheios de novidade para ella.
Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma intenção reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não tinha falado. Contasse elle alguma _partida_ do seu amigo Luiz de Lemos, com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.
--A historia da _claque_, por exemplo.
--Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.
--Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.
--Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame Araujo.
O Taveira resolveu-se a contar a historia da _claque_ do seu amigo Luiz de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.
--Luiz de Lemos chegou a Braga ás cinco horas da tarde, sem ser esperado dos primos do Campo Novo.
Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de verão, alegres e quentes, e a resolução d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma noite, ao sair do theatro Baquet.
Tinha chegado de Boaças dias antes, apenas com o seu fato de verão e alguma roupa branca na mala. Não contava passar do Porto. Mas, de subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado da _Aguia d'ouro_ que o chamasse ao romper da manhã.
--V. ex.ª retira-se já para Boaças? perguntou o criado, admirado de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse tão pouco tempo.
--Não. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar na Foz alguns dias. Mas por ora é cedo. Vou a Braga.
Ao romper da manhã, Luiz de Lemos foi á rua Formosa, á alquilaria do _Raymundo_, alugar um _coupé_ que o levasse a Braga.
Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a diligencia era a _valla dos vivos_. Uma philosophia como qualquer outra.
A manhã estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada. Almoçou na Carriça, tornou a almoçar em Villa Nova de Famalicão, e almoçaria terceira vez em Braga, se não preferisse jantar.
Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de Boaças, disseram-lhe que iam para a mesa.
--Vocês ainda jantam? perguntou o morgado.
--Bem vês tu que Braga é uma terra conservadora. Por cá ainda se pensa no jantar e no sr. D. Miguel.
--Pois, meus amigos, eu só almóço, mas posso almoçar tantas vezes quantas fôr preciso. É pois pela terceira vez que vou hoje almoçar.
Sentaram-se á mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.
--Além de jantar, o que fazem vocês por cá?
--Divertimo-nos.
--Mas como?
--Hoje, por exemplo, temos um baile.
--Um baile! Um baile em Braga é uma coisa tão absurda como uma semana santa em Marrocos. Mas onde é o baile?
--Em casa do Raio.
--Olá! Pois esse baile do Raio é um verdadeiro _raio_ para mim.
--Por que?
--Porque não trouxe casaca.
--Ó diabo! não trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.
--Caso grave! ponderou o outro.
--Trago apenas fato de verão. Eu podia lá imaginar um baile em Braga! Que _raio_ de lembrança!
--Mas ha de arranjar-se uma casaca.
--Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.
--Se vocês arranjassem isso, teriam cortado o nó gordio.
--Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.
--Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por doze vintens.
Os Ozorios riram-se.
--Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmãos.
--Vou em cabello.
--Constipas-te.
--Irei de cadeirinha, de carroção ou em maca.
--Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.
--Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.
--Está resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho uma _claque_ e um chapeu alto. Tu levas a _claque_ e eu o chapeu alto.
--Para encheres de pasteis é melhor do que a _claque_. Tu não te perdes, maganão!
Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.
Ás 9 horas davam os tres primos entrada nos salões do commendador Raio, que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.
Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a sua lenda de morgado rico de Boaças.
Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda não tinha fumado.
Encontrou um dos primos.
--Ó tu! onde é que se fuma?
--Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.
--Bem. Vou fumar. Olha lá, sê prudente: não digas a ninguem que a minha casaca... é tua.
O primo riu-se.
Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde muitos cavalheiros de Braga estavam fumando, incluindo o escrivão de fazenda.
Accendeu o seu charuto, pousou a _claque_ sobre a mesa, conversou com os conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou na _claque_ e dispunha-se a passar ao salão de baile.
Quando elle já tinha sobraçado a _claque_, o escrivão de fazenda, que estava de pé, reparando na outra _claque_ que tinha ficado sobre a mesa, dirigiu-se ao morgado de Boaças:
--V. ex.ª enganou-se...
--Enganei-me! Como?
--Essa _claque_ não é de v. ex.ª.
O morgado olhou fito no escrivão de fazenda, voltou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta.
O escrivão de fazenda seguiu-o, e já no corredor, abordou-o:
--Essa _claque_ não é de v. ex.ª.
--Não é, não sr., mas que tem o cavalheiro com isso?
--Peço perdão a v. ex.ª, mas ha aqui um pequeno engano...
--Não ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que a _claque_ não é minha?
--Parece-me...
--Pois tambem a casaca não é. Ora aqui tem.
E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.
Encontrando o primo Frederico no salão, o morgado de Boaças desfechou-lhe com vivacidade:
--Tu és um patife!
--Porque?
--Porque não és capaz de guardar um segredo.
--Que segredo?
--O da _claque_.
--Mas que dizes tu?!
--E o da casaca tambem...
--Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei a _claque_ e a casaca?
--A quem? Ao escrivão de fazenda! E és tolo. Porque, se não désses com a lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuição sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.
N'isto viram aproximar-se o escrivão de fazenda, que se encaminhava a elles.
--Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha de collectar.
O escrivão de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.
--Peço desculpa a v. ex.ª, disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.
O morgado teve uma sacudidella nervosa:
--É forte embirração! Eu ja disse ao cavalheiro que não houve engano nenhum. Nem a casaca nem a _claque_ são minhas.
--Minhas é que são... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.
--Perdão! insistiu o escrivão de fazenda. A casaca será de v. ex.ª, mas a _claque_ é minha.
--Tem graça! Fui eu que a emprestei a meu primo.
--Torno a pedir perdão. O primo de v. ex.ª, ainda agora, lá dentro, trocou a sua _claque_ com a minha, que tambem estava sobre a mesa.
Foi só então que o engano se desfez, mas, como désse muito que rir aos tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou sabendo em Braga que o morgado de Boaças tinha ido n'aquella noite ao baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e uma _claque_ que não era sua.
O brazileiro commentou que não havia nada mais facil de acontecer do que uma troca de chapeus. Esta observação não era, aliás, precisa para o caracterisar intellectualmente. Salomão, no seu logar, teria dito a mesma coisa.
D. Christina achou graça ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.
E o brazileiro observou por sua vez:
--Eu do que gosto mais é de historias de almas do outro mundo. As velhas da minha terra crearam-me com essas historias.
--Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do outro mundo.
O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:
--Agora não. Isto de historias tambem cansa. Vamos nós inventar outro divertimento?...
--Qual? perguntaram duas ou tres vozes.
--O que eu receio, disse elle, é desagradar á sr.ª D. Christina... Mas lá vai! V. ex.ª aborrecer-se-ia se nós armassemos uma mesa de jogo?
--Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina péla-se por isso, e eu não desgósto tambem.
Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de agua. Batoteava de grande e á... portugueza. _Saltava_ em todos os valetes e _cercava_ todas as quinas.
E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam com sorte.
Não havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.
Ó alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traçaste em roda de uma mesa de jogo.
XVI
Todas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do Muxagata com o brazileiro Araujo.
Felizmente para nós, o bloqueio não durou muito. Foi a propria praça que se rendeu voluntariamente.
Emquanto D. Christina fazia a sua _toilette_ para o jantar, o brazileiro contava-me no terraço do _hotel_, com toda a sua ingenuidade bondosa, a historia do seu casamento--revelação a que eu o conduzi mais ou menos habilmente.
Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e visitar os parentes que viviam em Amares.
Aproveitára a occasião, e fizera algumas excursões tanto no norte do paiz como na Extremadura.
Foi por essa occasião que encontrára D. Christina no Bom Jesus do Monte. Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue a um profundo abatimento moral...
--Então a esposa de v. ex.ª já tinha casado duas vezes? perguntei eu.
--Já. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela má cabeça d'elle déra cabo de tudo.
--E a segunda?
--A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem não tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos antigos morgados.
--Sei muito bem.
--Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.
--E filhos... não teve?
--Não, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da senhora, soube que não tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento. Ella, comquanto não fosse já nova, era bonita, como ainda se vê. Estava boa para mim, que não era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente. Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella lá tratou de mandar tirar os papeis.
--Quaes papeis? Os banhos?
--Para correr os banhos eram precisas as certidões dos dois casamentos e do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e lá os arranjou. Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra. Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de Janeiro. A Christina, coitadinha! não me quiz deixar ir só; foi tambem. Estivemos lá dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver para Lisboa, por causa do clima.
N'isto chamaram para o jantar.
E eu, francamente, não achei na historia do brazileiro revelação alguma que me surprehendesse--nem mesmo a dos _papeis_ que D. Christina arranjára no Porto. Nada ha tão facil a uma mulher que vae casar com um brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certidões de casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do brazileiro. Apenas a minha imaginação tinha mettido mais alguns _maridos_ no coração de D. Christina. Mas achei natural que ella não fosse mais verdadeira, no que contára ao marido, do que as duas certidões que o contentaram a elle.
Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porém, muito tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado. Com elles se defenderia, sendo preciso, da inconveniencia de qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse como não. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do Falcão do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraços.
Á mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava de _toilette_ duas e tres vezes, mandou dizer á criada Rosa que lhe trouxesse um lenço.
Veio a criada trazer n'uma bandeja o lenço de finas rendas que tinha esquecido a D. Christina.
E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que artificialmente coloria a bocca da brazileira, já um pouco fatigada... de beijar canonicamente tres maridos.
Á noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que amava o berlote, queriam começar logo pela jogatina.
O brazileiro, que já tinha tomado pé, sustentou que havia tempo para tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de almas do outro mundo.
--Pois que se contasse a historia, mas uma só, concordaram.
--De mais a mais a minha historia, disse eu, é de amores, para contentar a sr.ª D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o sr. Araujo. O peor é que talvez pareça um pouco maliciosa...
Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina não estranhariam a malicia de qualquer narrativa.
--Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fôr preciso, deite um véosinho por cima da historia, e conte sempre. Nós já não somos nenhumas creanças innocentes.
--Pois n'esse caso, ahi vae a historia:
Eu estava á janella, de manhã cedo--seis horas talvez--a comer um bello cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago, com um certo prazer de gastronomo, que só me fazem sentir as uvas brancas e doces. Ás vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na frescura cristalina da manhã. A estrada de Mafra, que passava sob as janellas, estirava-se tão solitaria, que as andorinhas saltitavam no macadame, bicando o pó. O caseiro tinha saído com o filho n'uma carroça; a mulher do caseiro accendêra o lume para o almoço, como indicava o fumo que rompia da chaminé.
N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada. É o tenente Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus botões. Já lhe conhecia o trotar da egua, que puxava a _charrette_.
Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos, que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.
Era elle, o tenente.
Fez parar a _charrette_ debaixo da minha janella.
--Olá! gritou. Está, na fórma do costume, comendo as suas uvas.