Part 6
Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver. Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação. Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.
Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido a Cintra: ouvir os rouxinoes.
O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade collectiva.
--Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os rouxinoes são aos cardumes!
O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, os _cardumes de rouxinoes_, que tinham saído da bocca do brazileiro.
Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:
--Então v. ex.ª é portuguez?
--Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.
--Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os rouxinoes.
--Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais notavel é que muitos passaros falam.
--Falam? perguntou o Leotte.
--Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.
--Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a dizer--tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!
--Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...
--Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz, porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto, tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.
--Então não diz sempre a mesma coisa?
--Não, sr. De noite diz--curiangú; e de madrugada--João, corta pau.
--É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites tão entretidos no _hotel_, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os rouxinoes.
--Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.
--Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante. Entretidos a contar historias.
--Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.
Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.
Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta excentricidade.
--Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento. Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que viesse tomar os ares de Cintra.
--Pois se v. exas. nos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.
--Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se. V. exas. demoram-se?
--Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na qualidade de chefe da caravana.
--Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.
O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.
--Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?
--Sim, filha, como tu quizeres.
O Leotte, despedindo-se:
--Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da noite, na sala de visitas.
--Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar, seguida pelo marido.
Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.
É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.
Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos pittorescas. O Leotte--já era de esperar--exagerava a belleza da brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo. Era _abelha-mestra_, concluia elle.
Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou menos maliciosos.
Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.
Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.
--É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero, não é a pessoa.
--Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.
--Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o menor indicio de conhecer-te.
--Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?
--Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas que sejam, estão inhibidas de reconhecer um homem que era das relações da sua familia?
--O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis. Decididamente, tu não sabes nada do mundo!
Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos, anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada. Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia: «Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»
--Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha, que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle effectivamente é de Amares.
--Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!
--Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.
--N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.
--Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.
O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase--cardumes de rouxinoes. Outro, não sei qual, recordou-se do _tico, tico_. O caso do passaro--já nenhum de nós lhe atinava com o nome--que cosstuma dizer «João, corta pau», despertou grande galhofa.
--Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos os passaros dizem alguma coisa.
Gargalhada geral.
--É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito á _Havanesa_, já uma vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre: «Fogo pagou.»
--Pegou, é que ha de ser.
--Elle disse «Fogo pagou».
--E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que davam o signal de incendio!
Novas gargalhadas.
O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle que o lembrasse! Desandamos para o _Victor_, porque havia chegado o momento de começar o nosso sarau litterario--com a assistencia do brazileiro e de sua esposa.
Devia ter-se sentido em todo o _hotel_, quasi solitario, o ruido da nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume. D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.
Madame Araujo tinha feito _toilette_ para o sarau, uma _toilette_ que envergonhava, pelo esplendor elegante, a nossa humilde academia de _touristes_. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um pouco o bom gosto da _toilette_.
De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei onde!»
A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau, que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.
O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».
XIII
Mettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a nossa já ia estando um pouco fatigada.
O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos convencel-o a contar uma das suas anecdotas.
--Imaginem v. exas., disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas immensas publicações, principalmente jornaes, de que o fazem assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.
É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.
Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias do _ménage_, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de jornaes que recebem.
Ordinariamente elle responde:
--Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes mandar vender no fim do mez.
E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.
Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.
Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas, _sueltos_ mordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco, o feijão amarello e a manteiga da terra.
Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem tambem o seu guano--coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois que o pensamento envelheceu.
A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no balcão dos tendeiros.
D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim. _Ceci tuera cela._ A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a mortalha do tropo.
Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia vender á tenda vizinha grandes porções de jornaes antigos.
Succedeu porém que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o moço de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.
--Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir ás _sortes_. Não estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de Compostella.
Affiançava-o. Quanto a pratica de serviço, não tinha--repetia o padeiro--; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender, desembaraçar-se-ia depressa.
Foi admittido o recommendado do padeiro.
Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. Não percebendo nada, parecia porém vivamente animado do desejo de perceber tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas, sem embargo, todos estes predicados não chegavam a compensar a estupidez desastrosa com que tudo fazia.
Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os, e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou á criada:
--Dize ao Domingos que vá vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que elle tem a fazer, para que não saia tolice.
--Sim, minha senhora; sim, minha senhora.
Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse á barra o namoro da criada e começasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe simplesmente:
--Domingos, vae vender esses jornaes.
E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:
--Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu já vou.
Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda não tinha chegado!
--Que é do Domingos?
--O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.
--Ha quanto tempo?
--Ha mais de uma hora!
--Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...
--Expliquei, sim, minha senhora...
--Então fugiria com o dinheiro?!
--Sim... talvez fugisse.
--Mas o padeiro affiançou-o!
--Isso não tira.
--Não tira! Mas o padeiro é que tem de entregar o valor dos jornaes...
N'isto bate-se á porta da escada.
--Ahi vem elle... diz a Rosa.
Mas, tendo espreitado á porta, recúa espavorida.
--Ó minha senhora! é um policia!
--Um policia! O que quer elle?
--Eu sei lá! Deus queira que não sejam alguns trabalhos...
--Estás tola! Vae abrir.
Batem segunda vez.
A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.
--Ó minha senhora!
--O que é?!
--O Domingos vem preso com um policia!
--Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, já te disse.
A Rosa abriu a porta.
O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.
--Que sim, senhor, e que tinha sido affiançado pelo moço de padeiro.
Então o policia contou o seguinte:
--Estando de serviço na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que na rua de S. José andava um rapaz impingindo por 10 réis jornaes antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a intervenção da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O policia teve que intervir; foi á procura do rapaz. Não tardou a encontral-o, justamente na occasião em que elle estava vendendo um _Diario Popular_ do mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:
--Tens fiador?
--Fiador! fiador, não tenho, sr. policia.
--Estás então preso.
--Pois então estou preso, sim, senhor.
--Quem te deu esses jornaes para vender?
--Quem me deu estes jornar para vender?!...
--Anda lá, não te faças tanso, que não ganhas nada com isso.
--Não me faço tanso, não, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender foi a sr.ª Rosa...
N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia, dizendo:
--Foi a senhora que mandou. Pois não foi, minha senhora?
O policia:
--Foi a senhora?
A criada:
--Foi, sim, sr. policia.
Mas a dona da casa, apparecendo então no patamar da escada, disse com dignidade:
--Faça favor de continuar a dizer como isso foi.
O policia continuou:
--Quem é a sr.ª Rosa? perguntei-lhe eu.
--É a criada da patroa.
--E quem é a patroa?
--É a mulher do patrão.
--Mas como se chama? Irra!
--Chama-se... Isso é que eu não sei muito bem.
--Bom. Vamos lá a casa dos teus patrões. Quanto dinheiro apuraste tu com a venda dos jornaes?
--Quanto dinheiro apurei?
--Sim, quanto tens na palma da mão?
--Aqui, na palma da mão, tenho este.
--São setenta réis. Dá cá.
--Isso agora é que eu não dou, não, senhor, porque este dinheiro é para entregar á sr.ª Rosa.
--Dá cá o dinheiro, e anda lá _p'ra diente_.
Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono da casa, que voltava da repartição.
Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo significava.
Então sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a criada riu. Só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.
Comtudo, o policia, em razão de ter abandonado o serviço, precisava justificar o seu procedimento.
--Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o á esquadra para contar como as coisas se passaram.
--Não ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos lá.
O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como não estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:
--Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar ámanhã, das 10 para as 11 horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.
No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva divisão, que era aliás seu conhecido.
O commissario ainda não estava; o chefe da esquadra tornou a rir, só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.
O commissario falou pelo telephone:
--Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que não contassem com elle.
O chefe da esquadra:
--Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para falar com o sr. commissario.
--Ora essa! Que maçada!
E á saída da esquadra, tanto o patrão como o Domingos não riam--nem um, nem outro.
Madame Araujo achou infinita graça á historia dos jornaes, e o brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graça de conta propria.
O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra obtivera na presença d'essa mulher, cuja _toilette_ denunciava um certo habito de existencia mundana, que elle queria explorar.
Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua viagem a Thomar.
--Tambem já vi Thomar, observou o brazileiro; é bonito, mas não chega aos calcanhares do Minho!
--Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio de julho, ha tres annos.
--Ha seis é que eu lá estive, ponderou o brazileiro.
--Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.
--Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.
XIV
A _festa dos taboleiros_ tinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie da _Varzea grande_, habitualmente só frequentada por alguns soldados de infantaria 11.
Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas mais bonitas da cidade, entrajadas ao garrido, conduzem á igreja de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e toirada. Era por tal signal cavalleiro um _amador_, Alfredo Marreca.
Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através da Estremadura. Pretexto, a _festa dos taboleiros_ em Thomar. Eu, que não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias. Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos em _char-à-bancs_ que nos conduziram a Thomar. Estação e estrada abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obter _hotel_, e essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos alojamento no _Hotel Cotrim_, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos os diabos.
Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões de um lado para o outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que tinha bom gosto, concordaram as senhoras.
A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo do _Padrão_, teriam morrido de calma.
Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.
Encontrei-o sentado ao apparelho--que não era ainda o Morse--trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico. A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance. Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia, chamou para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que alguem estava espreitando pela porta entreaberta.
Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio, bebeu um gole, e afastou o copo.
--Não teimem, disse alguem do lado.
Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o incommodo tinha passado.
Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, onde _sua mulher_ lhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.
Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou para dentro:
--Clementina! ó Clementina!
N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta e broche de oiro. Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois anneis de Cabello empastados sobre a fronte.
Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:
--Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?
E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada vez mais.
Pelo meu espirito passou este raciocinio:
Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente? Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...
As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa nota melancolica predominava.