Noites de Cintra

Part 5

Chapter 53,918 wordsPublic domain

E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo, desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador feliz que tinha sonhado.

O caso é authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres cavalheiros tão acreditados nos seus respectivos bairros como são os srs. Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres pessoas distinctas e um só logro verdadeiro.

--Bravo!

--Bravo!

--Um dos tres eras tu...

--Pois já se deixa vêr que era.

Gargalhadas, ápartes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.

--Pois então, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.

Silencio geral.

IX

Imaginem vocês que é o proprio conde que está falando.

Eu lhe conto, disse-me o conde.

E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente malicioso:

--Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me avisassem de que todo o Pariz--o Pariz doente e o Pariz são--havia desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiro _expresso_, e, ao cabo de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.

Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos Pyrineus no estio.

Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a bossa de poeta bucolico.

Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...

Os _omnibus dos hoteis_ solicitavam-me, na razão de 2 francos e 50 centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros das _caléches_ disputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi os _omnibus_, por nada menos de tres razões:

1.ª Eu detesto a solidão, e os _omnibus_, como o seu nome indica, garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais fala no mundo: os francezes.

2.ª Eu relacionara-me no _expresso_ com tres francezes e quatro francezas, a duas das quaes, alternadamente, e ás vezes simultaneamente, principiei a fazer um pequenino pé de alferes, como nós cá dizemos.

3.ª Esta razão é futil: era mais barato.

As minhas duas francezas saltaram para dentro de um _omnibus_, e eu parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.

Duas horas deliciosas!

As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr. Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irmã casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua amiga, cunhada... do cunhado.

Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do rheumatismo, que é uma doença de todos os burguezes. Se não fosse isso, como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!

Só elle, pois, tomava tudo aquillo a sério, falando-me da composição das aguas, das differentes _sources_ de Cauterets, em que predominava o elemento alcalino.

As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de Cauterets, citavam-me _la Promenade des Oeufs_, vasta explanada onde todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade dos divertimentos--bailes infantis, jogos, tiro ao alvo--e os _chalets_ dos vendedores põem em todo o recinto uma nota de animação movimentada, gárrula, que a enorme concorrencia da _station_ completa; da montanha de _Cambasque_, ao fundo da _Promenade des Oeufs_, á qual se sóbe em zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; do _Marmelon Vert_, a dois kilometros de Cauterets, o _rendez-vous_ do _sport_; do _Parque_, sombreado de bellas arvores seculares; da _Grange de la Reine Hortense_, d'onde se avistam os valles de Argelès e Lourdes; e da _Glacière_, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...

Planeavam _parties de plaisir_, _repas champêtres_, que nós desdoiramos com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graça delicada da lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.

Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas, ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e muito hesitantes, ás minhas perguntas.

Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um companheiro de viagem tagarella.

Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza do _Lac Bleu_, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava no seu espirito a poesia dos lagos...

Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.

Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como saber quando a sua doença o abandonaria.

As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de alferes, entre uma e outra.

Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo tempo namorado de duas mulheres.

Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.

Uma das francezas, M.elle Suzanne, lembrou-me a conveniencia de encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco mais em Cauterets do que a saude.

M.elle Denise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou menos da garganta.

Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo a _source_ ao acaso. Arranjei, como o dr. Serrand pôde verificar por meio do laryngoscopo, uma congestão thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas de Cauterets são excellentes, não tanto para dar saude, como para tiral-a.

Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar o amor--o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mãos dadas em torno de nós.

Uma fascinação... em francez.

Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres, um millionario do amor... ideal.

Não chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me solicitavam. Palavra de honra: não chegava. Uma vez encontrei-me no Pic de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma loira, irmã gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava só no mundo com ella. Lembrou-me então uma certa aventura de Henrique IV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de Henrique IV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaçou-me de se despenhar do Pico, arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.

Já de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento informe da minha cobardia ou da minha inepcia.

Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia não conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a mesma graça amavel, sorria-me ainda com a mesma confiança que eu parecia haver-lhe inspirado antes.

Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar á mamã, que contaria tudo ao papá. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.

Nada d'isto aconteceu. Rosine não contou a ninguem, decerto, a scena de Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistópheles e um cofre de joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraía-me.

E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite não houvesse apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.

Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder, sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!

O conde descruzou as pernas, accendeu de novo o charuto, e, batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:

--Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous. Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.

Ao nascer do sol--uma manhã deliciosa dos Pyrineus--quando cheguei á porta do _hotel_, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus. Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.

--E a outra? perguntei eu.

--A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente malicioso. A outra era minha sogra.

Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano, os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que nos foi muito agradavel ouvir mais uma vez a historia do seu casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.

O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado, emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando para fóra.

Démos por isso.

--O que estás tu ahi fazendo?

--Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos ouvir os rouxinoes!

--Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente ir deitar-se!...

X

Era certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que exalta allucinadamente a imaginação.

Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que, a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.

O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade, o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas, uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos a saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos mais em ouvir.

Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa e outros poetas da prosa ou do verso.

Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.

Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.

«Não tardou muito--diz a novella--que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir.

«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.

«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas folhas cahiram tambem com ella.»

Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é pouco mais ou menos como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.

Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer extenuada.

«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo, que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»

Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se refere _ás que por mais musicas são conhecidas_, e o rouxinol é, no mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.

Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'um _duetto_ de encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida comtanto que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.

Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes, principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos--Deus me perdoe!--compuz um poema cuja heroina

Acabára, cantando, o captiveiro Tal como é fama ter acontecido Ao rouxinol de Bernardim Ribeiro!

Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas com molho de villão.

Um bom petisco!

O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os antigos deram ao rouxinol.

Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido na _Arte da caça da altenaria_, composta por Diogo Fernandes Ferreira.

«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa solemne. Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena: pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros, rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade. Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras de tristeza pela morte fingida da cunhada, a qual, estando em poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida, foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada. Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena em rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»

Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe fizera a lingua, cortada pelo cunhado.

Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nos _Lusiadas_:

Ao longo da agua o niveo cysne canta, Responde-lhe do ramo philomela.

Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne de _frak_ (certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr) lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.

Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.

«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua, e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar o filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»

Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.

Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me barbaro.

XII

No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte, que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada dos dois novos hospedes--o brazileiro e a mulher.

Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher, curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.

--Já não é nova--disse-nos elle--mas considero-a ainda acirrante. Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.

--Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.

Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a mulher entraram.

O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era, effectivamente, o que se costuma chamar--umas bellas ruinas. Não dessas ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.

Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.

A _toilette_ era distincta, gentil, sem ser severa nem petulante. Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis nos dedos.

O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade fidalga.

No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.

E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.

Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado, conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.

Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.

Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte, onde, no verão, abundavam os brazileiros em _villegiatura_? Nas Caldas das Taipas ou de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?

Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia lembrar-me onde nem quando.