Part 3
--E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.
--Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.
--Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?
--Que é principe da Ribária.
--E onde ficará geographicamente a Ribária?
--Sim... isso...
--A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.
--Magnifico!
--Maravilhoso!
Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter o _incognito_ do principe. Quatro minutos depois os criados tinham revelado o segredo ás criadas do _hotel_ e, passada uma hora, constava em toda Vizella que no _Hotel do Padre_ estava hospedado um principe estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação, acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que, depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens, suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza, porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem cabeças guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houvera _deficit_.
Corria tudo ás mil maravilhas.
N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha agglomerado nas vizinhanças do _hotel_. Mas no dia seguinte pela manhã suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os, contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não apanharam _vivas_. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os hospedes que tinham inventado a _blague_, ficou capacitada de que Piratinino era realmente um principe.
Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes do _Hotel do Padre_ esforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar toda a gente, estranhava o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas, e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo principe... cada vez mais.
A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo Thyrso, de modo que foi preciso, no _hotel_, prohibir-lhes a entrada no parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes do _hotel_ saboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua invenção.
Um dia o criado do principe pediu informações aos criados do _hotel_ sobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua alteza ia n'aquella tarde para o rio.
--Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:
--Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar a fortuna.
Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como milho. Que ia mas era para o meio do Vizella divertir-se com um barco que trouxera.
--Onde está o barco? perguntaram.
--Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.
Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, sua _toilette_ favorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam--_o principe branco_.
Deu-se rebate no _hotel_, e todos os hospedes, repartidos em diversos grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela Lameira, outros pelo Mourisco.
O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta. Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na Ribária a etiqueta é muito rigorosa.
Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali: um principe estrangeiro pescando á linha dentro de um barco de lona. Só os hospedes do _Hotel do Padre_ se riam, porque os do Cruzeiro do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados o _principe branco_ pescando.
Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes divertem-se, e enfadam-se.
Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.
Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um charco.
Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes do _Hotel do Padre_ riam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.
Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe, que estava de fato branco, precisava mudar de _toilette_. A decencia reclamava-o. E emquanto o criado corria ao _hotel_, a pedir outro fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte, esperava humilhado...
VI
--E eu que sei quem elle é! apostrophou o Maldonado, que era o mais silencioso de todos nós.
Achámos graça á observação, espicaçámos o Maldonado.
Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem lá tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu d'ali para as Caldas de Vizella.
Era... disse-nos o nome, que não vem para o caso.
Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nosso _Decameron_.
Que não; que não sabia historia nenhuma. Que não tinha geito para contar.
E a assemblea insubordinada:
--Que contasse alguma coisa, senão que o levaria o diabo.
--Que de mais a mais o Maldonado não era baldo de gosto litterario: conhecia os poetas gregos, lia muito Theócrito.
--Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Theócrito.
Muito instado, cedeu.
--Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.
--Oh!
--Uma lição de moralidade para quando elle fôr avô.
--Que genero?
--Genero realista. Eu, infelizmente, não tenho a imaginação do nosso Gonçallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.
--Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito amigos, socios na patuscada, sempre de mãos dadas, como dois banqueiros do amor, nos sindicatos do prazer.
Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado na flôr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a correr aventuras, de braço dado, por amor da variedade, beijando, como borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flôres que encontrassem na sua marcha triumphante.
Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a vida e zombando da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os cabellos, respeitando o coração e o mais.
Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.
Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas elles, a sós, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios: e confidentes nas suas rapaziadas inverniças, e fechavam a sete chaves o segredo das suas funcçanatas serodias.
Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem casou. Mas a filha do primeiro não casou com o filho do segundo, por accôrdo dos dois velhos.
--Não quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo, em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer infidelidades como tu.
E riram os dois, dando-se pansadinhas,--_eh!--eh!_--como se estivessem em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da nora, não ousavam falar em Theócrito, a não ser para reproduzir algum verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora diz a Daphne: «O casamento não tem penas nem dôres; mas sómente alegria e danças.»
Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accôrdo quanto ás _danças_ do casamento, porque varias vezes se tinham visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das consequencias de alguma conquista aventurosa.
Intimamente, rezavam pela cartilha de Theócrito, não quando elle preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.
Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito á Providencia o favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradição patusca.
Á medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos frascarios se fecharam em maior discreção, de modo que das suas aventuras serodias não pudesse chegar noticia aos netos.
Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam, sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o pé lhes escapava para a folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para não serem apanhados com a bocca na botija.
Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avós concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que não guardassem toda a mocidade para a velhice.
--Como nós... dizia um.
--Eh! eh! respondia, rindo, o outro.
E ao cabo de alguns momentos de meditação:
--Isto tem que ser por força... exclamava um.
--Isto, o que?
--Dar com a cabeça pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, é o que foi...
--E eu!... ponderava o outro.
Ora a verdade era que elles tinham começado desde o principio, que é a maneira mais logica e chronologica de começar.
Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a mocidade não é mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito dos avós, a vantagem de não precisarem esperar pelo calendario.
Atiravam-se.
A primavera do anno chegára, e os dois velhos, galvanisados por ella, deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.
Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, já estavam um pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.
--Achei! disse uma vez um velho ao outro.
--Aonde?
--Longe, mas bom.
--Aonde?
--Á Penha de França.
--Irra! que é longe! Mas dize lá.
--Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura, belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para refrescar-se.
--Já o sabes?
--Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação para nós ambos.
--Bravo! excellente! Lá iremos...
E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem olhar para as _estrellas cadentes_, que lhes davam encontrões, tão honestamente como se fossem á _Baixa_ comprar bolos moles para as esposas desdentadas.
Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para um _lausperenne_.
Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes no _rez-de-chaussée_.
E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando, andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a rir lá por dentro--_eh! eh!_--até que começaram a marinhar lentamente pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer lhes parecia chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe. Chegaram ao alto da Penha.
--É ali, disse um.
--Ha luz no _rez-de-chaussée_, observou o outro.
E espionaram, que não fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente, aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir. Na Penha de França, ás dez horas da noite, o vicio tem confiança na solidão: não é preciso fechar as portas das janellas.
--Espreitemos e ouçamos.
--Sim... ouçamos e espreitemos.
E após um momento de silenciosa contrariedade:
--Ha homens, e eu conheço as vozes. Depois, puxada a gola ás faces, os chapeus enterrados na cabeça, continuaram escutando.
E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos, desapontados, disseram, com os labios colados á orelha um do outro:
--São os nossos netos!
De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza forças.
Só na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que não eram seguidos, exclamaram de novo:
--E esta! Eram os nossos netos!...
Foi abraçado o chronista, que realmente nos soubera prender a attenção. O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no Maldonado ao collo. Uma ovação!
A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.
--Mas então, apostrophou o Gonçallinho, a gente ha de ir-se embora sem ouvir os rouxinoes?!
Vozes, ao levantar da feira:
--Amanhã!
--Amanhã!
O Gonçallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.
--O que vaes tu escrever, meu lyrico?
--Vou, antes que me esqueça, dar forma ao outro conto que pensei pelo caminho.
--Ah! _A morte do bibliophilo_? Pois vae, e ámanhã o lerás.
Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.
Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a historia do seu condiscipulo Barcellos.
--Quem era esse? perguntei.
Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.
Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.
Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.
O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa. _Verba volant._ Os seus discursos não foram fixados pela stenographia. Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais poderão esquecel-os.
De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma belleza! um primor!
A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo. Redarguiram-lhe que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo, e tratou de annullar-se em Salvaterra.
Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.
Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso: acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador. Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o terceiro tiro falhava, a perdigueira desandava para casa, abandonando o caçador.
O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia torrencial.
--Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde o _Mata-frades_ nasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na escuridade. Aproximo-me, curvo-me...
E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua narrativa.
--Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente, chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São segredos da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet. Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.
O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto collarinho engommado, e proseguiu:
--Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado. Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar, nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão: safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do quarto: primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem era? Era o _meu_ cão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça. «Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de algebista? Achas mais barato do que ir ao _endireita_? Abriste conta corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para que eu o concerte?» E o _meu_ cão crivava o seu vivacissimo olhar em mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono. Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas pensei que talvez um sentimento de delicadeza obrigasse o _meu_ cão a retirar-se: quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes. Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou um _endireita_ acabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle, parece dizer-lhe com os olhos--_Isso vae bem_--e raspa-se. O curativo chegou a seu termo, e o _meu_ cão nunca mais voltou. Levantei o apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma qualquer manifestação de agradecimento.
--E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.