Noites de Cintra

Part 2

Chapter 23,843 wordsPublic domain

Pois que?! pensei. É então para não ter talvez que jantar que uma mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno, perdendo todo o direito á estima da familia e ao respeito da sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:--«O teu amor e uma cabana». Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas não fosse propriamente uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelação do Muxagata, era que não havia lá que comer! E depois se eu não tivesse apparecido ali n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras privações?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e lenço branco, os cavallos do passeio até á Foz, as joias e as rendas de D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel postiço da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter pão na mesa e pó de arroz nas mãos?!

Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se precipitavam no meu espirito, e não sabia se devia rir-me da comedia do mundo, se chorar das desgraças e dos raptos alheios.

Á hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e abicava ao areio do Escamarão. Alfredo Leão fazia as suas despedidas. Eu recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco. Momentos depois o lenho da _espadella_ rangia, os remos chiavam na madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos substituem as forquilhas, e nós desciamos o Douro deslisando sobre a grande serenidade das aguas, que montanhas áridas e alcantiladas marginavam silenciosamente.

Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade turbulenta das paixões humanas.

E quando a noite começou a cair dos cerros alterosos, que rara casa branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.

Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira, que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a rua de S. João, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes do lyceu que, tendo andado á tuna, se dirigiam viciosamente para a batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu alleguei que tinha de ir á rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D. Christina.

Responderam-me que áquella hora já D. Christina estaria, como todas as mulheres, raptadas ou não, dormindo profundamente n'um poço de virtude.

Que embora, respondi. Iria bater á porta para lhe levar o ouro da perdição.

Pois sim, que fosse, mas que não me custava nada passar cinco minutos pela batota do D. Marcos.

Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despêsa de matriculas, livros e hospedagem, perdi quatro mil réis instantaneamente. Fiquei sobreexcitado com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir jogando todo o dinheiro que trazia até abrir brecha na banca. Queria uma vingança formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante entre a febre e a honra, um braço invisivel, fosse o pulso do anjo da guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fóra, não sem que os pés se me pegassem ao soalho.

Nunca me custou tanto ser homem de bem.

Corri á rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vêr luz na escada e nas janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria áquella hora como um poço de virtude! Bati. Um criado de casaca e lenço branco, o Miguel, veio abrir.

Que sim, que a senhora estava a pé, ceando, e que tambem lá estava o sr. Antonio Falcão, do Marco.

Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo Miguel de casaca e lenço branco?!

Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fóme transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio Falcão do Marco era conviva suspeito?!

E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.

A mesa da ceia resplandecia de loiças e cristaes. As joias de D. Christina não resplandeciam menos do que os cristaes e as loiças. E ella propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.

Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. Não ousei, por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D. Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia noite? Ri-me para dentro, não obstante parecer-me que a pergunta, sendo muito melindrosa para o Muxagata, não o deixava de ser tambem o seu tanto ou quanto para mim.

Que era o morgado quem mandava... aquillo.

D. Christina não levou a sua impudencia até ao ponto de perguntar qual morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.

--Como está elle? perguntou.

Eu respondi com alguma atrapalhação, que parecia troça:

--Bom. Muito obrigado.

E, do lado, o Falcão do Marco:

--Esse diabo de homem já se não lembra de nós, nem da filha! Nunca vi uma cabeça assim! Em tendo cartas e _pontos_ não quer saber de mais nada! Pois já tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto á D. Christina, que estaria para aqui sósinha com a pequena, se não fosse eu!

Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente, á borda da mesa, sobre a toalha.

--Ah! é dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.

--São quarenta libras, respondi.

--Pois então faça-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.

--Perdão! repliquei com certa rudeza. A sr.ª D. Christina vae escrever isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.

--Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.

Agradeci, rejeitando. Então D. Christina disse ao Miguel que lhe trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:

_Recebi as quarenta libras._

_Tua do coração_

_Christina._

Mais nada.

Saí, e respirei com soffreguidão a brisa fresca do Douro, que soprava do Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que ladeiam a rua. E eu, de mãos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente, calçada acima, a esta cruel philosophia: «Onde hei de ir arranjar os quatro mil réis que perdi?!»

Soube pela manhã que os outros tinham continuado a jogar, e ganharam.

Ora no decurso de dois annos succederam cousas que seriam espantosas se não fossem humanas.

D. Christina passou definitivamente do Muxagata, quando o sentiu irremediavelmente arruinado, para o Falcão do Marco, que por sua vez se arruinou tambem.

A lei de 1863 extinguiu os vinculos em Portugal, mas os ultimos exemplares da raça privilegiada dos morgados ainda hoje florecem, entre as Christinas indigenas, nas praias de Portugal, em proesas tradicionaes de batota, de femeaço e de gineta.

No inverno os mais d'elles desapparecem no fundo dos seus solares cultivando as batatas, que no verão seguinte hão de resuscital-os. O morgado nacional, depois que a phylloxera lhe comeu as vinhas, ficou reduzido ás batotas.

Mas o Muxagata foi a phylloxera de si mesmo: comeu logo de uma vez as vinhas e as batatas. Como todo o bom morgado, conservou, ainda na pobreza, o seu enthusiasmo pela equitação. E não tendo já cavallos para montar, cavalgava, ao longo dos vastos corredores no ruinoso solar de Muxagata, n'um cabo de vassoura. Um bello dia morreu, e não foi por desastre do seu ultimo cavallo... de pau.

_Finis, laus Deo_, perorei.

O Leotte, que tinha voltado á sala e ouvido o final da historia, perguntou:

--Da D. Christina nunca mais soubeste!

Expludiu uma gargalhada geral.

--Olá! exclamei. Que novas nos trazes da tua exploração?

--Por ora... nada. Mas opportunamente farei o meu relatorio.

--Pois o mesmo não posso eu prometter a respeito da D. Christina. Nunca mais soube d'ella.

--E da filha o que foi feito? perguntou sentimentalmente o Gonçallinho.

--Tambem não sei. Se viver deve ter agora os seus dezenove annos.

--Como era o nome todo do Muxagata?

--Nunca lh'o soube. Por morgado de Muxagata era que toda a gente o tratava.

IV

--Então, se não vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero contar o meu conto, disse o Gonçallinho Jervis.

--Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.

--Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o Athayde.

--_A Primeira entrevista._ Tenho porém a prevenir o respeitavel publico, para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do Muxagata, não aconteceu nunca. É uma phantasia que só poderia ter-se dado no paiz azul dos sonhos...

--Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.

--Mau! protestou o Gonçallinho. _Se ralhas, não conto._

--Tem a palavra o poeta, que poderá sonhar á vontade sem que ninguem o interrompa.

Fez-se silencio. E o Gonçallinho, romanescamente, depois de ter mettido os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:

--Custou muito--disse, elle--a planear a primeira entrevista. Era preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras, saltar por cima de tantos embaraços! Mas, finalmente, o programma, laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das pessoas que se lhe poderiam oppôr. Ainda assim, Fanny não ficou inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da elaboração do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem realmente a intenção de observal-a por desconfiança, de lêr-lhe nos olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.

É verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada com _Elle_ á sombra das arvores, ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio, vendo doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas, cujo vôo independente tantas vezes ambicionára...

Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a amargurava! A doença de uma pessoa de familia, a carruagem que podia faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel! Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os audazes e de que, como premio á sua audacia, ouviria finalmente cantar os passaros a sua canção de estio nas grandes arvores sombrias.

Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada, a doença de uma antiga companheira de collegio, que está a ares no campo, e á qual se quer dizer o ultimo adeus.

Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe excellente, o segredo não viria a descobrir-se.

Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma da outra.

Com o coração de oratorio, como um condemnado que treme de todas as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que esse desejado dia chegasse.

Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio.

Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.

Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.

A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem sequer fez reparo n'esse pequenino _groom_ de cabello louro, faces rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude reverente e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.

Fôra elle, o pequenino _groom_ louro e rosado, que lhe acommodára a orla do vestido dentro do _coupé_ e que, fechando-o cuidadosamente, esperára, sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.

O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma creança. Ella não via, não ouvia, disse ao _groom_, sem fazer reparo n'elle, uma palavra. O _groom_ saltou para a almofada com a ligeireza que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo, rasgado, batido.

As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:

--Mil felicidades, excellencia...

E córava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado com a sua velha ama uma unica palavra sequer.

Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de alegria musical parecia inundar o coração feliz de Fanny, enchendo-o de canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.

Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parára, não á porta da quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera ao _groom_ ao sair de casa, mas á porta de um velho castello desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua canção de estio.

Era o logar da entrevista.

E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se o _groom_, sempre com a ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no chão, teve uma vaga suspeita de que esse _groom_, que ella só agora vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de desempenhar tão alta missão de confiança.

E, emquanto ella descera, o _groom_, n'uma attitude sempre reverente e humilde, com a mão na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.

Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma solidão encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o ceu pousar na terra.

Edmundo lá estava no seu posto, fazendo sentinella á sua propria felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que distendeu os seus longos braços verdes para envolver tambem na mesma sombra o corpo de Fanny.

A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplação das flores campestres e da larga cóma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando para cima, e de vez em quando um melro velhaco--era decerto um melro--zombava da ignara situação moral d'aquella mulher desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.

Uma ironia de melro!

Á sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo, enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua primeira taça de amor e, quando erguiam a taça aos labios, estalava-lhes na bocca um beijo demorado.

As horas passaram rapidamente, a velha criada já não tinha mais hervas que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam aborrecidos de troçal-a.

Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.

Finalmente, Fanny pôz o pé no estribo da carruagem e o _groom_, rosado e louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabeça erguida, a portinhola do _coupé_ e, quando a fechou, antes de subir para a almofada, pousou o dedo pollegar da mão direita sobre a ponta do nariz e espalmou a mão no ar, agitando os dedos.

Era o Amor, disfarçado em _groom_, que celebrava a sua victoria como um gaiato de collegio.

--_C'est gentil!_ exclamou o Leotte.

--Bravo! mavioso Gonçallinho! conclamaram sete vozes.

E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funcções austeras de dirigente, advertiu a assembléa de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.

--Onde estará o _groom_ da tua ballada, ó Gonçallinho? perguntou o Leotte.

--Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.

--Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.

--É que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a lamparina do quarto.

E, rindo, cada um de nós foi para a cama--ás onze e dez, noite velha no paraiso de Cintra, a 20 de maio.

V

No dia seguinte, quando saímos do _hotel_ depois de almoço, era quasi uma hora da tarde.

Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o tempo... como não ter nada que fazer.

Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar. Concedida;--sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse d'esta auctorisação legal.

--O Leotte traz grande empresa entre mãos.

--Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.

--Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do burro rebeldemente ronceiro.

A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava no ar uma serenidade saturada de bucolismo e de limpidez campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.

Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com estrondo.

Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia de repulsão.

Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou desgosto.

--O tolo do Leotte perdeu isto!

--O que térá elle feito?!

Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.

--Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.

--Então?

--Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos criados, ouviram?

--Está dito.

Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o nosso amigo Leotte tinha descoberto no _hotel_ uma criada originalissima.

--Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.

--Como assim?!

--Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham hospedar-se no Victor.

--Mas quem é então esse D. Alvaro?

--Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me que os seus avós tinham sido _gentis guerreiros_.

--E ella respeita as cinzas de seus avós?

--Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!

--Então é Maria, e chama-se Rosa?

--Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas ella, de relance, percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra, e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.

--Eis o que tu apuraste em todo o dia!

--E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas cujos avós fossem _gentis guerreiros_!...

--Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a Collares!

--Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu nas Caldas de Vizella.

--É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto o _Decameron_.

O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:

--Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes do _Hotel do Padre_, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque do _hotel_, conversando, lendo, jogando, _flirtando_. Nenhum d'elles ousára ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.

De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.--Lá chegou o comboio!--Pois deixal-o chegar!--Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos depois, paravam á porta do _hotel_ duas _americanas_, poeirentas e escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco, acompanhado por uma senhora da sua idade--vinte e quatro a vinte e cinco annos--, atravessou olympicamente o parque do _hotel_ sem cumprimentar ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados, com pequenas malas na mão.

Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes do _Hotel do Padre_, visto não haver acontecimentos de maior polpa.

--Quem será isto? perguntava-se.

--É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.

--Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.

--Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e que era um dos hospedes mais estimados no _hotel_.

Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram conversando, lendo, jogando, _flirtando_.

Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de casaca, postados por detrás da cadeira do _principe_ e da _princeza_, conservavam-se immoveis como estatuas.

Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos, olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens, de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.

Findo o jantar, o _principe_ e a _princeza_ levantaram-se; os seus dois criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram ninguem.

Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo do _hotel_ para saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia simplesmente isto: _Commendador Piratinino e sua esposa._

--Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!

Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade desenfadada.

Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.