Noites de Cintra

Part 1

Chapter 13,670 wordsPublic domain

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.

Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--17.º Volume

NOITES DE CINTRA

ALBERTO PIMENTEL

NOITES

DE

CINTRA

(2.ª edição, revista pelo auctor)

1908 PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _Rua Augusta--44 a 54_ LISBOA

COMPOSTO E IMPRESSO NA TYPOGRAPHIA DA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA _Rua Augusta--44 a 54_ LISBOA

I

Eramos dez, e tinhamos combinado, por desfastio, ir a Cintra, na primavera, ouvir os rouxinoes.

Parecerá menos inverosimil este pretexto, quando se disser que todos, então reunidos em Lisboa, haviamos nascido na provincia, onde as volatas dos rouxinoes dulcificaram as nossas primeiras noites de amor, e que o mais velho de nós tinha trinta e sete annos apenas.

Ainda assim, como prova involuntaria de que o melhor da nossa vida era já então o passado, não foi approvado o projecto sem uma correcção prosaica. Sim, iriamos ouvir os rouxinoes a Cintra, visto que elles não costumavam fazer-se ouvir nas ruas de Lisboa, mas temperariamos esse devaneio romantico com as queijadas da Sapa, as laranjas do visconde da Arriaga, e o _Collares_ do conselheiro Francisco Costa.

Como o mais novo de todos era o Gonçallinho Jervis, em cujo espirito bailavam ainda pagens e castellãs n'uma chorea medieval, e em cujo coração ardiam fogos de poetico platonismo, mettemol-o á galhofa convidando-o a procurar na serra de Cintra um cabello da barba que Bernardim Ribeiro haveria arrepellado ao vêr partir a frota com a infanta D. Beatriz.

Para falar verdade, nenhum de nós tinha grande confiança na realisação de tão extravagante projecto, mas sobejou-nos motivo para o applaudir, porque durante mais de dois mezes nos forneceu alegrissimo assumpto sempre que nos juntavamos todos ou pelo menos alguns.

Deviamos partir em abril, segundo o programma primitivamente approvado em assembléa geral. Não fomos, e acreditavamos já que não iriamos, quando uma noite, no _Martinho_, resolvemos partir a 20 de maio.

O Vasconcellos, muito habituado a viajatas, ficou encarregado de alugar o _char-à-bancs_, e elle proprio me disse á puridade que tal não faria senão á ultima hora, porque duvidava que se realisasse uma excursão dependente do accordo de dez pessoas, todas ellas mais ou menos atarefadas.

Como se tratava, porém, de um divertimento, de uma _partie de plaisir_, como lhe chamava o Leotte, aconteceu que, á hora marcada, apenas faltou um, o Callixto, cuja falta, aliás, foi tida como de bom agouro, visto chamar-se elle Callixto.

Tivemos que esperar á porta do Passeio Publico, que era o ponto de reunião, _rendes-vous_ dizia o Leotte, que o Vasconcellos fosse alugar o _char-à-bancs_, sendo entretanto votada uma moção de censura a este nosso amigo pela falta de confiança que a communidade lhe inspirava. Eu, por estar na posse do segredo, abstive-me de votar. Um Catão!

Partimos. Aquillo foi como se todos atirassemos canseiras e trabalhos para traz das costas. Os palacios do Passeio Publico estremeceram nos alicerces, sacudidos por um tufão de alegria. A passarinhada fugiu das arvores precipitadamente, como se ouvisse troar uma peça de campanha. A policia não estava accordada ainda; se fosse um pouco mais tarde, deitava-nos a mão. E affirmava o Vasconcellos que tinha visto as figuras do Tejo e Douro dizerem-nos adeus de dentro do Passeio, muito rapioqueiras.

--Nunca, dizia o Leotte, nunca se fez uma _partie de plaisir_ tão honesta. Nove homens... apenas!

--Querias mais! replicava o Vasconcellos fazendo-se desentendido. Não cabiam cá. Olha o pobre Gonçallinho, o nosso doce pagem, que teve de ir na almofada ao pé do cocheiro. Onde querias tu metter mais gente, ó Gonçallinho?!

--Que é lá? respondia elle do alto da almofada.

--Vaes a fazer versos?

--Ainda não. Mas já planeei um conto. Este ar de primavera é deliciosamente suggestivo. Vocês verão que a minha ideia não é de todo má. Chamar-se-ha _A primeira entrevista_.

--Has de contal-a em Cintra, gritei eu.

--Pois sim, respondeu o Gonçallinho, morto, como todos os novatos, por divulgar as suas composições.

--Em Cintra, alvitrou o Vasconcellos, sempre o mais auctoritario de todos, cada um de nós ha de contar á noite uma historia. Vá feito?

--Menos eu, protestou o Athayde, que era empregado na Junta de Credito Publico. Eu só estou habituado a contar... _contos de réis_.

--Isso é modestia. Não péga.

--Has de contar, intimou o Leotte, aquelle caso do principe das Caldas de Vizella, que uma noite te ouvi no Gremio.

--Ah! esse era o principe Piratinino.

--Não é um conto... _de réis_; mas é um conto de principe. Bem, já temos dois contos, disse eu.

--E tu, propoz o Athayde, dirigindo-se a mim, tu, que andas sempre com as mãos na massa, é que has de abrir o torneio.

--Pois seja, com a condição de que onde se lê _massa_ se leia _maçada_.

--Leia-se lá o que tu quizeres. Mas olhem vocês, observou o Vasconcellos, que é preciso matar de algum modo as noites de Cintra, que são tão grandes como as de Lamego. Em Cintra só devia haver dia. As noites são frias e humidas. Vocês o sentirão.

--Queres então ouvir rouxinoes ao meio dia?

--Os rouxinoes são o menos...

--Pois não viemos nós para os ouvir?

--Nós viemos para gosar a liberdade que não temos habitualmente, e a alegria que principia talvez a fugir-nos. Viemos tomar um banho de oxygeneo. Elle é bem mau!

--Que vão vocês a dizer? perguntou da almofada o Gonçallinho.

--Foi o Vasconcellos que fez uma proposta para supprimirmos do nosso programma os rouxinoes.

--Não! nunca! protestou o Gonçallinho. De mais a mais tem vindo a dizer-me o cocheiro que os rouxinoes são aos centos na varzea de Collares.

--Tudo se póde conciliar, sentenciou o Vasconcellos. Ouviremos os rouxinoes e os contos. Mas vamos ao lado pratico do assumpto. Quantos dias se querem vocês demorar?

--Eu, cinco dias, o maximo.

--E eu.

--Vá lá, e é de mais.

--Oh! incomprehensivel alma portugueza! exclamei eu. Já estragamos a nossa alegria. Ainda não chegámos, e já tratamos do regresso! Se aqui fossem nove francezes...

--Ou quatro portuguezes e cinco francezas... reticenciou o Leotte, sempre propenso ao eterno thema feminino. Lembrem-se vocês da historia do nosso amigo conde, quando esteve nos Pyreneos. Ao menos lá não lhe faltavam mulheres!

--É verdade! ó Leotte, tu has de contar a historia do conde. Tem graça! já t'a ouvi uma vez.

--Vamos ao lado pratico, insistiu o Vasconcellos. Almôço, a que horas?

--Ás onze.

--E jantar?

--Jantar ás seis.

--É melhor ás sete.

--Tratem vocês de fazer as noites pequenas. Olhem que são o peor que ha em Cintra.

--Jantaremos então ás sete.

--Isso é melhor. E de dia ou á noite, sentados em Collares, em Seteais ou nas cadeiras do _Victor_ iremos contando o nosso _Decameron_, respirando um bom ar, e um pouco de alegria, pelo menos...

O _Decameron_! exclamou o Leotte. Sabem acaso vocês que os fugitivos da _peste negra_ de Florença eram sete mulheres e tres homens? Isso comprehende-se.

--Ó diabo! cala-te lá com essa chorata pelas mulheres! replicou o Vasconcellos. Póde ser que o acaso te depare em Cintra alguma boa fortuna.

--N'este tempo! objectou, desconsolado, o Leotte. Se fosse no verão!

--O verão tambem tem seus inconvenientes. Ha mais espiões, mais fiscaes da moralidade publica. Leve o diabo tristezas. Toca a divertir, rapazes.

--Olhem lá! gritou o Gonçallinho.

--Que é?

--Parece-me que já architectei outro conto.

--O que é então?

--_A morte do bibliophilo._

--Vejam vocês, disse o Vasconcellos, o que são os poetas portuguezes. Vae aqui um rapaz, na flôr dos annos, cheio de imaginação, em caminho de Cintra, a pensar na morte da bezerra ou do bibliophilo, que o leve!

Rimos todos. E o proprio Gonçallinho, que ouviu o reparo, desatou a rir na almofada.

Quando apeamos á porta do _Victor_, estavamos mais ou menos acabrunhados pela fome.

--Por S. Thiago, e aos bifes! berrou o Vasconcellos.

E o Victor, muito mesureiro, muito amavel:

--Elles hão de estar menos maus.

II

O almôço foi uma devastação, uma hecatombe.

Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que só se tornava a almoçar... no outro dia.

Quando saímos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde se começaria? Os fumos capitosos do almôço accenderam brios quixotescos no espirito da maioria dos nove. A burro e á Pena! era o grito do Vasconcellos, reforçado por mais cinco ou seis vozes.

--Mas isso é a semsaboria de toda a gente! disse o Gonçallinho.

--Ó meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e á Pena! insistiu.

Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro cêrco, largaram a correr para ir buscar os burros.

Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:

--Já perguntei no _Victor_, e não ha lá hospeda nenhuma. Mas ha criadas, ao menos.

E d'ahi a pouco dizia-me o Gonçallinho, tambem em tom de confidencia, muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo da encosta:

--Como isto é bello!

A burricada á Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante, cheia de episodios comicos. Quando o burro não caía, caía o cavalleiro; e as mais das vezes caíam ambos.

N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos nós sentados junto ao _Chalet de Madame_, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:

--Agora, sim senhor. Agora é occasião propicia de darmos principio ao nosso _Decameron_. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.

Era eu. Pois não houve meio de resistir.

--Ora então, senhores e...

--Senhoras não ha infelizmente! exclamou o Leotte.

--Peço attenção, que eu principio.

E principiei.

--O morgado de Muxagata, ou simplesmente o _Muxagata_, como elle era conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego, na aldea d'aquelle nome.

Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.

Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e boleeiro.

Ha sempre um para amostra.

Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por investir com a onda.

O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos hombros.

Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.

Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua Bella.

Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos, e palha.

Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.

Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.ª

Mas s. ex.ª não chegou.

No dia seguinte fez-se novo jantar para s. ex.ª

E s. ex.ª não chegou ainda n'esse dia.

O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da rua Direita e travessas affluentes.

Chega o Muxagata! Não chega o Muxagata! Á noite, os criados, vendo que o patrão já não chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado para elle.

Passou assim uma semana.

Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido á porta do Muxagata. Foi muita gente ás janellas. Não era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo á porta da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata já estava no Porto, e havia comprado aquelle bello exemplar _pur sang_ ao Côrte Real de Traz da Sé por tresentas libras.

Finalmente, á noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e outros amigos. Vinham a pé, todos de esporas e chicote. E antes de subir, foram á cocheira examinar os cavallos.

Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera. Foram jantar. O Ricardo Brown, o Côrte-Real e outros _sportmen_ caíram logo lá. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era o _monte_. Muxagata, depois das libações do jantar, gostava de fazer o seu berlote.

Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, ás 7 horas, já o Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.

Varias pessoas foram vêr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro á espera dos dois melhores espectaculos que os _mirones_ apanhavam: o banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o banho da Cacilda, filha do banheiro Leão, que nadava para o mar largo.

Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um sótão da rua de S. João Novo, que travei relações com o Muxagata.

Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flôr dos _sportmen_ da Foz, me tratasse mano a mano.

Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no seu garbo de cavalleiro pelos hospedes do _Hotel da Boa Vista_, dizia-me adeus com o chicote, e eu parava muito ancho, dando-me ares de entendedor, até o vêr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar ás upas.

Havia sempre senhoras no balcão de pedra, que tinha um toldo listrado de branco e escarlate.

Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de Lamego. Falava-se que os irmãos d'ella o queriam matar. Mas não morreu ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella raptada. A historia do rapto augmentára-lhe a nomeada de fidalgo extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente á Foz por Lordello do Ouro; voltavam por Miragaia.

Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas, sentindo o tropel dos cavallos, vinham á porta. O escandalo d'aquella mancebia publica indignava-os; não obstante, cumprimentavam risonhamente o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.

Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e lenço branco serviam o chá. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como um homem entre os homens.

_Saltava_ nos valetes, e _fazia cerco_ ás quinas.

Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se uma boa portuguesa de Lamego.

Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.

Usava o cabello apartado ao lado, com duas _bellezas_. Chamava-se _bellezas_ aos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa tentadora, que desappareceu da circulação.

--É verdade! obtemperou o Leotte.

Prohibiram-lhe que interrompesse.

O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como um _deboche_ de _toillette_. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e nas mãos, especialmente nas mãos.

Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram n'aquelle tempo outro _deboche_ de _toilette_. As mulheres não cheiravam a nada ou cheiravam mal.

Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez annos ás outras portuguezas em _mise-en-scène_ de _coquettismo_. D. Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos presuntos de Lamego póde nascer tão _coquette_ a dois passos da serra da Gralheira, quanto uma creatura nascida entre os jardins de Harlem póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.

De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa, desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D. Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a conveniencia das aptidões theatraes da artista.

Rodaram mais dois annos.

A casa da rua das Fontainhas continuava a ser o _rendez-vous_ dos estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.

Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito. Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em grande quantidade, mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam atrazados.

Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos. Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas. Não saía a pé nem a cavallo.

Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.

Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr. Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.

A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario. O regedor Antonio Pedro, emquanto os cabos de policia dormiam á sombra das arvores, _micava_ no rei.

Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.

--Que sim; que estava ali para cima a jogar.

--Mas que veiu elle cá fazer?

--Anda aos fóros. Quer dinheiro.

N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:

--Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena já começa a pôr o seu barrete de nevoa. É a _toilette_ de noite. Vamos indo para baixo. Depois de jantar se acabará o conto.

--Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonçallinho.

--Isso é lá como quizerem. Que não esqueça o fio da historia. O Muxagata estava na feira e queria dinheiro--como eu.

--Como nós todos! gritaram uns poucos.

--A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.

III

--Ó filho! pelo amor de Deus! deixa os rouxinoes para ámanhã, dizia o Vasconcellos, depois de jantar, ao Gonçallinho Jervis.

--Aqui da janella não se ouve nenhum! Já estive á escuta.

--Pudera! Imaginavas então que uma tão poetica ave principiava a amar logo depois das ave-marias, como um caixeiro que fecha a loja e vae metter-se n'uma escada a gargarejar para defronte! Tem juizo, Gonçallinho. Para irmos a Collares ouvir os rouxinoes, precisavamos ter prevenido os trens. Deixa isso para ámanhã, e vamos á historia do Muxagata.

Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi á cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para ver as criadas do _Victor_.

--Vamos lá ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.

--Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma casa humilde do Escamarão, que não as ha lá melhores.

Como o jogo nivella todas as condições, os nobres e os ricaços abancavam em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento, e a outros o do ouro. As mãos de todos elles eram grandes e queimadas do sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mãos finas e brancas de D. Christina, polvilhadas de pó de arroz. Que falta que ellas faziam ali, as mãos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se estendiam semeando dinheiro, ora se retraíam recolhendo-o!

E pelo meu espirito passou a idéa de que o Muxagata nem por sombras se lembrava, n'aquelle momento, das mãos patriciamente batoteiras da sua bem amada de Lamego.

Fui injusto.

Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca, que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras. Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoções do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes as feições perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na face o lampejo aureo de setenta libras.

Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior attenção. Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia á noite. Disse-lhe que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das matriculas.

--O que?! exclamou elle. Você vae para o Porto?!

Os seus olhos accusavam uma certa satisfação, que esta noticia lhe causára.

Respondi affirmativamente.

--Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras á D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro. Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras serão entregues logo que você chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia: Eu suspeito até que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois annos) não terão tido que comer.

Esta revelação causou-me triste surprêsa: caiu como um raio fulminador sobre as roseas illusões que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.