Nocturnos

Part 3

Chapter 32,046 wordsPublic domain

E havia nessa voz tamanha heroicidade E uma energia tal, que uns longes de piedade Scintillaram no olhar do tôrvo guerrilheiro.

«Muito bem, morrerás: mas dize-me primeiro, «O que desejas tu? Queres beber, fumar?...

--Padre, se vou morrer, quero-me confessar... «Ouvir-te-hei!» disse o Cura, e, ao acaso, num granito Assentou-se.

O captivo, olhos no chão, contrito Os joelhos dobrou... Nesse fugaz instante Elle viu, elle viu, num sonho lacrymante, A sua infancia, o lar, o tecto de seus paes, Os choupos do seu rio, os placidos casáes: Viu a noiva gentil, a egreja, os arvoredos E os parentes e irmãos, socios de seus brinquedos.

Ah! quem póde esquecer o seu paiz natal! Ah! quem póde esquecer a benção maternal!

Em distancia a guerrilha os dous observa... Então Emquanto o padre escuta attento o prisioneiro, Subito uma descarga estoira na amplidão. Tremem a serra e o val, treme o desfiladeiro.

«Ás armas! o inimigo!» a sentinella brada. De golpe ergue-se o Cura, e á jóldra amotinada Vôa, dá ordens, clama, emquanto as balas chovem. Nisto viu que inda estava ajoelhado o joven! Pára. «Que fazes tu?» indaga em tom severo --Padre, diz a creança, a absolvição espero--

E em meio da febril convulsão da batalha, Emquanto rompe e rasga os ares a metralha, Viu-se o Cura depois de abençoar, ligeiro, A fronte juvenil do heroico prisioneiro, Pegar de uma clavina, e dando um passo ao lado, Varar tranquillamente o craneo do soldado.

A VENDA DOS BOIS

Ao dr. J. de Vasconcellos Gusmão

I

O velho entrára triste: ao pé, juncto do lar, Estava a companheira, absôrta, a meditar.

--Mulher, a fé perdi, fallei a toda a gente, E ninguem me valeu!--E ella com voz tremente: «Dize-me, e o brazileiro?» --Esse foi o primeiro.

--Batí, fui ter com elle á casa do jantar. Expliquei-lhe ao que vinha... entrou a gracejar: «Com que então você quer _livrar_ o seu rapaz?... «Visinho, tão mal faz! «Deixe-me ir cada qual á sorte e ao seu destino! «Seu filho é um mocetão valente e muito digno «De servir o paiz...»

--E descascava um fructo... --Desatei a chorar... «--Homem não seja bruto! A farda não é morte...» --E disse mais e mais --Cousas de quem não sabe a dôr de uns tristes paes!

E emquanto o velho punha a vista lacrymosa Nos brazidos, a voz da mãe afflicta e anciosa Perguntou: «e o prior?» --Negou, negou tambem!-- A angustiada mãe Retorcia o avental com mão febril, ardente.

No silencio da noite então distinctamente, Um profundo mugido, Triste como um gemido, Longo e longo chorou no lugubre aposento...

Entreolharam-se os dois... Nisto acóde á mulher um estranho pensamento... «Temos ainda os bois! Vendamol-os!» E ria... O entristecido olhar Do velho lavrador de lagrymas nublou-se. E entrou a suspirar: --Vender os infelizes! --Uns pobres animaes, a quem só mingoa a fala --Para serem Christãos! Parece que me estala --No peito o coração... Vender os infelizes!... --Pois seja assim, mulher! Farei o que tu dizes...

II

Vinha rompendo a aurora Risonha, virginal, feliz como um noivado, Das aves á compita o tremulo trinado Entre as balsas gorgeava. Era em descanço a nóra.

No emtanto o lavrador, tremente e vacillante Como um ladrão nocturno, ou como um namorado, Abriu, de par em par, as portas do curral. Subito nesse instante Volveram para a entrada os bois o olhar leal, Bondoso, humano e franco.

Que festiva alegria O frequente menear das caudas traduzia Resvalando em seu forte e musculoso flanco!

O velho antigamente Tinha sempre, ao chegar, uma palavra amiga, Um dicto, uma cantiga, A que sempre um mugido alegre respondia. Mas naquella manhã, silenciosamente, Fatal como o dever O velho foi buscar, a um canto, uma correia, E lançou-a a tremer Dos anafados bois ás pontas recurvadas.

E sahiram os tres. Nos concavos da aldeia Choviam as canções das aves namoradas.

III

No cáes ha o moirejar das fabricas ruidoso; Feroz e discordante Juncta-se á voz humana o arfar estrepitante Dos valentes pulmões das machinas inglezas.

Em novellos, ancioso, Golpham as chaminés o denso e o escuro fumo Que ascende e toma o rumo Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.

Como um cetáceo ingente, encarvoado e feio Um enorme Vapôr De outros avulta em meio. Em seu largo convez a marinhagem canta E na faina febril as ancoras levanta.

Naquella espessa náu, um velho, um lavradôr Entre a faina do cáes, fita o dolente olhar... É que ali dentro vão os bois, o seu amôr... E áquella magoa intensa E inenarravel dôr Responde a descuidosa e gelida indifferença Dos Homens, e dos Céus, e do profundo Mar...

AO RABEQUISTA EUGENIO DEGREMONT

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1876 no theatro de S. João do Porto

Vêde-o! É tão creança! ó mães, olhae-o! Como é vivo o fulgor e ardente o raio Que vibra nesse olhar! Faz gosto vel-o assim tão pequenino Enlevado nos sons do violino A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vae sonhando, Vão-se ante nossos olhos desdobrando Quadros a mil e mil. A rabeca suspira? Assim amenas São na longinqua roça as cantilenas Das moças do Brazil.

Vibra rispidos sons? E logo ouvimos Curvar o vento da floresta os cimos Com ruidoso fragôr... E uivam pintadas onças e as araras Roçam, fugindo, as tremulas taquaras, E crocita o condôr.

Enterrados nas humidas pastagens Mugem raivosos bufalos selvagens, E por entre os sarçaes Pula a panthera; os jacarés astutos Choram, fingindo lacrymosos lutos Nos fulvos areaes.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas, São os negros soltando as lastimosas Canções do seu paiz; Sem familia, sem patria, sem amôres, Ninguem mitiga o fel daquellas dôres, Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anceio, Sae da rabeca um languido gorgeio Que enleva o coração. E a saudade repinta-nos ao vivo Dos sabiás o cantico lascivo Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto, Com meu olhar de prantos não enxuto, Ó creança gentil, Que em vez de perseguir as borboletas Vens batalhar no meio dos atletas E honrar o teu Brazil!

Não presumas, porém, prodigio das creanças! Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração; É mister trabalhar, sem isso nada alcanças; A gloria chamarás, ser-te-ha o appello em vão.

Pois que! tu cuidarás, creança, porventura Que sem luctar, soffrer, sem horridos tormentos O artista poderia erguer aos quatro ventos A Epopêa, o Drama, a Estatua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois ó meu precoce artista, Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal! Para o profundo azul estende a larga vista. Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!

AS VELHAS NEGRAS

A M.^{me} Aline de Gusmão

As velhas negras, coitadas, Ao longe estam assentadas Do batuque folgasão. Pulam creoulas faceiras Em derredor das fogueiras E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa Esparge a lua formosa A clara luz tropical. Tremeluzem pyrilampos No verde-escuro dos campos E nos concavos do val.

Que noite de paz! que noite! Não se ouve o estalar do açoite, Nem as pragas do feitor! E as pobres negras, coitadas, Pendem as frontes cançadas Num lethargico torpôr!

E scismam: outrora, e d'antes Havia tambem descantes, E o tempo era tam feliz! Ai! que profunda saudade Da vida, da mocidade Nas mattas do seu paiz!

E ante o seu olhar vazio De esperanças, frio, frio Como um véu de viuvez, Resurge e chora o passado --Pobre ninho abandonado Que a neve alagou, desfez...--

E pensam nos seus amôres Ephemeros como as flôres Que o sol queima no sertão... Os filhos, quando crescidos, Foram levados, vendidos, E ninguem sabe onde estão.

Conheceram muito dono: Embalaram tanto somno De tanta sinhá gentil! Foram mucambas amadas, E agora inuteis, curvadas, Numa velhice imbecil!

No emtanto o luar de prata Envolve a collina e a matta E os cafesáes em redor! E os negros, mostrando os dentes, Saltam lepidos, contentes, No batuque estrugidor.

No espaçoso e amplo terreiro A filha do Fazendeiro, A sinhá sentimental, Ouve um primo recem-vindo, Que lhe narra o poema infindo Das noites de Portugal.

E ella avista, entre sorrisos, De uns longinquos paraisos A tentadôra visão... No emtanto as velhas, coitadas, Scismam ao longe assentadas Do batuque folgasão...

O RELOGIO

No album de Eduardo Burnay

Eburneo é o mostradôr: as horas são de prata, Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata: Nella o esmalte produz um quadro delicioso.

Rapara: eis um salão: casquilho malicioso Das festas cortesãs o mimo a flôr, a nata, Juncto a um cravo sonoro a alegre voz desata. Uma fidalga o escuta ebria de amôr e gôso.

Rasga-se ampla a janella: ao longe o olhar descobre O correcto jardim e o parque extenso e nobre. As nuvens no alto céu fluctuam como espumas,

Da paizagem no fundo, em lago transparente, Onde se espelha o azul e o laranjal frondente, Um cysne á luz do sol estende as niveas plumas.

A MORTE DE D. QUICHOTE

Ao Conde de Sabugosa

Rôto o escudo, sem lança, a cóta escalavrada, Sósinho, abandonado e á tôa como um cego, Do crepusculo á luz dolente e immaculada Entra na sua aldeia o altivo heroe Manchego.

O tenue fumo sáe do côlmo das herdades, Riem ao pé da fonte as frescas raparigas, E á clara vibração sonora das trindades Junctam-se brandamente as vozes e as cantigas.

E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte, Que andára pelo mundo a combater os máus, Defendendo a Mulher, desafiando a Morte, Do paterno casal sentou-se nos degráus.

Nos joelhos fincando o cotovêlo agudo E no punho cerrado a fronte reclinando, Quedou-se largo espaço, illacrymavel, mudo, Para o inutil passado os olhos alongando...

E ali, na dôce paz da sua alegre aldeia, Sentiu que o avassallava uma tristeza infinda, Quando esta voz se ouviu: «morreu-te a Dulcinêa, Missionario do Bem, tua missão é finda!»

E elle a ouvir e a scismar! A trefega sobrinha Beija-o, falla-lhe, ri, abraça-o, mas o Heróe Dest'arte lhe volveu «A morte se avisinha, Levae-me para o leito!» E ouvil-o pena e dóe.

Do leito á cabeceira o Bacharel e o Cura Tentam resuscitar-lhe os sonhos e as chymeras; Pintam-lhe o negro Mal triumphante, ó amargura! O fraco aos pés do forte, o bom lançado ás féras...

Contam-lhe o frio horror dos carceres sem luz. Que nas tôrres feudaes pompeava o velho Crime. Que os crescentes do Islam tinham vencido a Cruz, Que a Injustiça era a Lei... Então feroz, sublime.

Inquieto, semi-nú, sinistro, o cavalleiro Bradou como um trovão: «Enverguem-me a loriga! «Sellem-me o Rocinante, ó Sancho, ó escudeiro, «Traze-me a lança, présto! e a minha espada amiga!»

Tinha em brazas o olhar, e truculento o aspeito, E vibrava em redôr a imaginaria lança... Logo depois cahiu do respaldar do leito, Morto: tendo no labio um riso de creança!

INDICE

A minha mulher 1 Confidenza 3 O velhinho 8 Animal bravio 10 Ad agros 12 A nuvem 14 O juramento do arabe 16 Num leque 19 Olhos de Judia 20 Numeros do Intermezzo: I 24 II 25 III 26 IV 28 V 29 VI 30 VII 32 VIII 34 IX 36 X 38 XI 40 XII 42 XIII 44 XIV 46 XV 47 XVI 48 XVII 50 XVIII 52 XIX 54 XX 55 XXI 56 XXII 58 XXIII 60 XXIV 62 O minuête 65 O coveiro 70 Adeus! 72 Camoneana: A egreja das Chagas 76 A leitura dos Lusiadas 78 Annos depois 80 Esphynge 83 A ceia de Tiberio 85 Trio de poetas: João de Lemos 90 João de Deus 92 João Penha 94 Chymeras 97 Odor di femina 99 Em caminho da guilhotina 101 A viuva 104 Flôr do pantano 106 A resposta do inquisidôr 108 Fervet amor 112 Na aldeia 114 Estudantina 116 As Ondinas 119 No jogo das cannas 122 Nunca eu te lêsse, ballada 124 A negra 129 Mater dolorosa 132 As primeiras lagrimas de El-Rey 134 O Cura Sancta Cruz 137 A venda dos bois 142 Ao rabequista Eugenio Degremont 147 As velhas negras 151 O relogio 155 A morte de D. Quichote 157

TERMINOU-SE A IMPRESSÃO

NOS PRELOS DA

IMPRENSA NACIONAL DE LISBOA

a 6 de março de 1882

[Figura]

_18, Rua Oriental do Passeio_ LISBOA

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+----------+-----------------------+---------------------------+ | | Original | Correcção | +----------+-----------------------+---------------------------+ |#pág. 30 | V | VI | |#pág. 50 | XVI | XVII | +----------+-----------------------+---------------------------+

Identificámos a duplicação de títulos em numeração romana. Rectificámos mantendo a ordenação crescente, nomeadamente nos casos referidos acima.