Nocturnos

Part 2

Chapter 23,821 wordsPublic domain

Do moço rei defronte, esbelto e cavalleiro Camões recita; a côrte, silenciosa Ante a rubra explosão do cantico guerreiro, Admira essa Epopeia enorme e prodigiosa.

«... Ruge a electrica voz do Adamastôr furiosa; «Nas amuradas canta o alegre marinheiro; «Do Oceano á flôr scintilla a esteira luminosa «Dos pesados galeões do Gama aventureiro.

«Terra! grita o gageiro; e á praia melindana «Desce douda e febril a gente lusitana «Desfraldam-se os pendões ao claro céu do Oriente...»

Da gloria ante o esplendôr o olhar d'El-Rey fulgura; O Camara no emtanto, alma sombria e escura, No rei os olhos crava, e ri felinamente.

III

ANNOS DEPOIS

A Bernardo Pindella

Juncto de um catre vil, grosseiro e feio, Por uma noite de luar saudoso, Camões, pendida a fronte sobre o seio, Scisma embebido num pesar luctuoso...

Eis que na rua um cantico amôroso Subitaneo se ouviu da noite em meio: Já se abrem as adufas com receio... Noite de amôres! que trovar mimoso!

Camões acorda, e á gelosia assôma, E aquelle canto, como um antigo arôma, Resuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante, No azul viu perpassar, claro e distante, De Natercia gentil, o vulto amado...

ESPHYNGE

Traducção de uns versos de Alexandre Dumas escriptos num leque em que estava pintada uma Esphynge

Que me queres, Esphynge? O que procuras? diz-m'o: Se do poeta o segredo intentas penetrar, Desce dos annos meus ao tenebroso abysmo, Verás o Amôr aos Vinte e aos Sessenta o Pesar.

Sim, Pesar, não de haver lançado aos quatro ventos Com prodiga loucura o verbo triumphante, A ambição, o dinheiro, os risos e os tormentos, E as auroras de abril que passam num instante!

Mas Pesar de sentir dentro em meu peito agora, Como accêso vulcão em gêlos sepultado, Do juvenil desejo a flamma que devora, E de não poder mais, amando, ser amado!

A CEIA DE TIBERIO

Ao dr. J. Frederico Laranjo

Opulento é o festim: em todo o vasto imperio Outro não houve egual. Caprêa a dissoluta, O retiro de amôr do perfido Tiberio,

Illuminada ri. Ao longe Roma escuta O confuso rumôr da tenebrosa orgia: Assim geme, assim ronca o mar em funda gruta.

Fascina, attrae, seduz, e os olhos extasia A imperial vivenda: a sala é deslumbrante: Ouro e gêmmas sem fim confundem-se á porfia.

Das lampadas rebrilha o lume coruscante; Nos triclinios esplende a purpura escarlata, A fina tartaruga e o sandalo odorante.

Aos angulos da sala, em primorosa prata, Erotico esculptor grupos fundiu lascivos, Em cujos membros nús Volupia se retrata.

Resaltam da parede os satyros esquivos Sob o pampano alegre: as nymphas, em corêas, Dançam na riba, em flôr, de arroios fugitivos.

Em marmórea piscina enroscam-se as murêas, Dos patricios de Roma o pabulo dilecto, Vezes sem conto, escravo, ali rompeste as veias!

Pendem verdes festões do primoroso tecto, Pyrrheico ali pintára um matagal folhudo, E um lago crystallino, encantador, discreto.

Diana ao sol enxuga as tranças de veludo, Acteon espreita ancioso, e, ó rapida alegria! Aos poucos se transforma em cervo ramalhudo.

Em Miléto foi tincta a azul tapeçaria, Que nas mesas se extende e nos mosaicos dorme; Dos velarios se escôa o arôma que inebria.

A festa é no pendor: num áureo prato informe Eis que entra um javali, formosas gaditanas Dançam em derredor. Ulula a grita enorme.

Jorra o vinho de Kós purpureas espadanas; Dos convivas na fronte enlaça-se a verbena, Preludiam no emtanto as frautas sicilianas.

Adoudada suspira uma canção obscena: Fervem beijos no ar, os seios pulam, crescem E desnudam-se á luz, Tiberio assim o ordena.

As matronas, ao vêr o duro gesto, obedecem, E lá passam gentis, deslisam mansamente Dos marmores á flôr; são nuas, endoudecem!

Um retiario nervudo, e um gladiador valente Combatem, são leões; o pallido vencido Mistura o sangue rubro ao vinho rescendente.

Ora Tiberio ri... Mas subito um gemido Longo e triste chorou nos paços de Caprêa... Indagam: talvez fosse o gladiador ferido...

Nesse instante Jesus morria na Judeia!

TRIO DE POETAS

I

JOÃO DE LEMOS

Ao Visconde de Pindella

Na cidade gentil do austero estudo Sobranceira ao Mondego socegado, Em cuja riba o sinceiral folhudo De rouxinoes suspira gorgeiado,

Fôste erguido no concavo do escudo Pelos moços de outrora, e celebrado Trovador, cavalleiro, e namorado... Tempo de glorias! Como passa tudo!

No emtanto ás vezes, na provincia, quando A um dôce, honesto e feminino bando Digo a LUA DE LONDRES, de repente

Da infancia volvo á candida simpleza, E ondulam na minh'alma vagamente Tremulas notas de fugaz tristeza.

II

JOÃO DE DEUS

A Anthero do Quental

Sempre que o leio, sinto-me captivo De um não sei quê, de infinda suavidade, E entram commigo uns longes de saudade, Que me deixam sizudo e pensativo.

Sonho: quizéra, em triste soledade, Viver das gentes apartado e esquivo, E erguer-me a esse planeta primitivo Onde resplenda a eterna mocidade.

Já o seu nome é tão suave e brando, Tão eufonico, meigo e delicado, Que fica nos ouvidos suspirando...

Diz a lenda que vive descuidado, RAMOS tecendo, e FLORES emmoitando, Da Chymera nos seios reclinado.

III

JOÃO PENHA

A Augusto Sarmento

Nervoso mestre, domadôr valente Da Rima e do Sonêto portuguez, Não te eguala a pericia de um chinez Na pintura de um vaso transparente.

Ha no teu verso a musica dolente Da guitarra andaluza, e muita vez Rompe em meio da extranha languidez O silvo estriduloso da serpente.

No VINHO E FEL traçaste o escuro drama Em que soluça e ri, na extensa gamma, Teu desgrenhado amôr, doido e fatal...

Mas se do peito ancioso o dardo arrancas, Teu canto exhala as alegrias francas De uma rubra Kermesse colossal.

CHYMERAS

A meu tio João de Almeida e Albuquerque

O mar já me tentou: aspirações fogosas Fizeram-me idear phantasticas viagens; Eu sonhava trazer de incognitas paragens Noticias immortaes ás gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas, Um palacio escondido em múrmuras folhagens, Onde eu fosse occultar as candidas imagens Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas tudo isso passou: agora só me resta Das chymeras que tive, uma visão modesta, Um sonho encantador, de paz e de ventura.

É simples; uma alcôva, um berço, um innocente, E uma esposa adorada, envolta, a negligente! De um longo penteadôr na immaculada alvura...

ODOR DI FEMINA

A Alberto Pimentel

Era austero e sizudo; não havia Frade mais exemplar nesse convento; No seu cavado rôsto macilento Um poêma de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria Folheava o triste um livro pardacento, Viram-no desmaiar, cahir do assento, Convulso, e tôrvo sobre a lágea fria.

De que morrêra o venerando frade? Em vão busco as origens da verdade, Ninguem m'a disse, explique-a quem pudér.

Consta que um bibliophilo comprára O livro estranho e que, ao abril-o, achára Uns dourados cabellos de mulher...

EM CAMINHO DA GUILHOTINA

Á Senhora Condessa de Sabugoza

A _viuva Capet_ vae ser guilhotinada.

Ora naquelle dia o povo de Pariz Formidavel, brutal, colerico, feliz, Erguera-se ao primeiro alvôr da madrugada.

No caminho traçado ao funebre cortejo O povo redemoinha; Que todos sentem n'alma o tragico desejo De ver como Sansão degolla uma rainha.

Da carreta em redor ondeiam os soldados; De cima dos telhados Da rua, dos portaes, dos muros, dos balcões Chovem sobre a rainha as vis imprecações.

Ella comtudo altiva erecta e desdenhosa Olha tranquillamente Para o revolto mar da plebe tumultuosa.

E emquanto aquelle povo inquieto e repulsivo Anceia por ouvir o grito convulsivo E o derradeiro arranco D'essa mulher, e ri abominavelmente, Um homem só, o algoz, vae triste e reverente.

Póde nascer ao pé da forca um lirio branco.

A carreta parou. Desce a rainha. Nisto Viram-se uns braços nús Erguerem para o ar, á flôr da multidão, Uma loura creança, alegre como a luz, Suave como o Christo, A quem talvez faltando em casa a enxerga e o pão, A mãe quizera dar aquella distracção.

No primeiro degráu da escura guilhotina A rainha de França Ergueu o olhar e viu essa gentil creança Levar a mão á flôr da bôcca pequenina, E atirar-lhe, a sorrir, um beijo doce e honesto...

E ella que fôra audaz, heroica e resoluta, E ouvira, com desdem, da plebe a injuria bruta, Ante a esmola infantil, graciosa, d'esse gesto, Chorou. «Chorou, emfim! A infame succumbiu!» De entre o povo uma voz selvatica rugiu.

A VIUVA

Á Senhora D. Margarida Street

Fóra de portas vive. É silenciosa A modesta vivenda em que ella habita, Ali correu-lhe a vida bonançosa, Ali golpeou-lhe os seios a desdíta.

Raro de quando em quando uma visita Novas lhe traz da vida tumultuosa, E ella sorrindo a furto, descuidosa, No azul os olhos em silencio fita.

Sósinha e triste a pallida viuva, Por essas noites de invernia e chuva, A um honesto e feminil labor se entrega.

E, alta noite, levanta, em dôr sepulta, O olhar, que fixa, e demorado prega No eterno Ausente que num quadro avulta.

FLÔR DO PANTANO

A Bulhão Pato

É pequenina e séria, E tem o gesto grave Da filha de um burgrave, A candida Valeria.

Não ha flôr mais suave, De essencia mais ethérea, E abriu-lhe a vida a chave Do Vicio e da Miseria!

Na sua loura côma Nunca passou o arôma Dos beijos maternaes.

Ó credula Ignorancia, Esconde áquella infancia O nome vil dos paes!

A RESPOSTA DO INQUISIDÔR

A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque

I

A sala em que medita El-Rey é silenciosa, Apainelada e fria, o largo reposteiro Ondula brandamente á aragem preguiçosa.

II

Á cathedra real um Christo sobranceiro Mésto, livido, nú, ferido e ensanguentado Exhala sobre o seio o alento derradeiro.

III

El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado, O seu obliquo olhar, o seu olhar de féra, Vibra irrequieta luz, parece allucinado.

IV

Nisto á porta assomou a calva fronte austera De um velho, e logo atraz um pagem que murmura: «Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza espera!»

V

Curvára, ao entrar, o monge a tremula estatura: Mãos dispostas em cruz no largo peito ancioso, E humilhada a cerviz na ascetica postura.

VI

E comtudo esse frade humilde e respeitoso, De olhos fitos no chão, tão fragil como um vime, Na presença de um rei, de um Cesar poderoso,

VII

É fanatico e audaz; com mão de bronze opprime O Solio, a Egreja, o Lar, e os corações dos crentes; Flagella a sombra e o amôr, condemna a luz, e o crime!

VIII

Quando elle vae passando, as timoratas gentes Benzem-se com pavôr e param de improviso As canções juvenis nas aleas rescendentes.

IX

Nunca nos labios seus florira o alegre riso, Tem cem annos, jamais beijára uma creança, E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!

X

Na Hespanha, no Perú, em Napoles, na França Paira como o sinistro espirito do Mal, O negro inquisidôr, feroz como a Vingança.

XI

Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal, E a Hespanha pôde ver com assombroso espanto Juncto do rei-panthera o inquisidôr-chacal.

XII

E Philippe dizia ao monge no entretanto: «Sentinella da Lei, piedoso inquisidôr, «Tu que fallas com Deus e és padre, e és bom, e és sancto

XIII

«Arranca-me este pezo, afasta-me este horrôr! «Ah! diz'-me, cardeal, se é um vil, se é um precito «O rei que é justo e mata o filho que é traidôr...»

XIV

E mais não disse o rei, tôrvo, sombrio e afflicto. No emtanto o inquisidôr erguendo imperturbavel O seu hediondo olhar das lageas de granito,

XV

Assim tornou com voz vibrante e formidavel: --Ó principe, e apontava o livido Jesus, --Para acalmar dos céus a colera implacavel

XVI

--O Eterno fez morrer seu filho numa cruz!--

FERVET AMOR

Ao dr. Antonio Candido

Dá para a cêrca a estreita e humilde cella D'essa que os seus abandonou, trocando O calôr da familia ameno e brando Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janella Papeiam aves o seu ninho armando, Veêm-se ao longe os trigos ondulando... Maio sorri na pradaria bella.

Zumbe o insecto na flôr do rosmaninho: Nas giéstas pousa a abelha ébria de gôso: Zunem bezouros e palpita o ninho.

E a freira scisma e córa, ao vêr, ancioso, Do seu cátre virgineo sobre o linho Um par de borboletas amoroso.

NA ALDEIA

A Christovam Ayres

Duas horas da tarde. Um sol ardente Nos côlmos dardejando, e nos eirados. Sobreleva aos sussurros abafados O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente Treme o loureiro nos humbraes pintados; Zumbem á porta insectos variegados Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia á soleira uma velhinha: o filho No céu mal acordou da aurora o brilho, Sahiu para os cançaços da lavoura.

A nóra lava na ribeira, e os netos Ao longe correm semi-nús, inquietos, No mar ondeante da seára loura.

ESTUDANTINA

Acorda, minha Thereza, Descerra a janella tua! Espalha-se a luz da lua Pela poetica deveza... Entre os sinceiros da margem Murmura o claro Mondego, A noite corre em socêgo... Acorda, minha Thereza!

Não dorme quem tem amôres, E o teu postigo é cerrado! Deixa o leito perfumado, E o travesseiro de flôres, Se queres que eu acredite, Ó minha pallida amiga, Nas palavras da cantiga: «Não dorme quem tem amôres!»

Por isso eu vélo cantando, E esta guitarra suspira, E o meu coração delira Mal vem a lua apontando... É que, á noite, lirio branco, Os astros guardam segredo Dos beijos dados a medo... Por isso eu vélo cantando...

Quero vêr-te, como outrora Nesse postigo inclinada, Conversando enamorada Até ao raiar da aurora... Um lenço posto no liso Dos teus hombros jaspeados, Os cabellos destrançados... Quero vêr-te como outrora.

Não te assustes, Julieta, Que a manhã te encontre ainda Bebendo a canção infinda Que soluça o teu poeta. Cantará de entre os loureiros Uma alegre cotovia, Mal venha rompendo o dia... Não te assustes, Julieta!

Mas dorme a branca Thereza, Cerrada a janella sua; Espalha-se a luz da lua Pela poetica deveza... Entre os sinceiros da margem, Murmura e corre o Mondego, Que tristeza e que socêgo! Ai! dorme, dorme, Thereza!

AS ONDINAS

H. HEINE

Ao Visconde de Castilho II

Na praia tranquilla murmuram sonoras As ondas do mar. E, ao dôce das aguas murmúrio palreiro, Na areia dormita gentil cavalleiro Á luz do luar.

As bellas ondinas emergem das grutas De vivo coral, Accórrem ligeiras, e apontam, sorrindo, O moço que julgam devéras dormindo No argenteo areal.

Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas As mãos de setim. E aquella, com gesto divino, gracioso, Nos ares levanta do joven formoso O aureo telim.

Ess'outra, que lavas, que fogo não vibram Seus olhos de anil! Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada, Nos copos brilhantes se apoia azougada, Travessa e gentil.

A quarta, saltando, retouça, lasciva, Do moço em redor; Suspira mansinho, de manso murmúra: «Podésse eu em vida gosar a ventura Do teu fino amôr!»

A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada Num sonho feliz, E a sexta, com tremula e dôce esquivança, Perfuma-lhe a bôcca, formosa creança! Com beijos subtis...

E o moço, fingindo que dorme tranquillo, Não quer acordar. E deixa que o abracem as bellas Ondinas, E languido gosa caricias divinas Á luz do luar...

NO JOGO DAS CANNAS

A Camillo Castello Branco

Em garbosos corceis da Arabia cavalgando Entram na larga arêna os próceres luzidos; Corusca a pedraria, e esplendem, fluctuando, Dos cocáres a pluma e a sêda dos vestidos.

A quadrilha gentil dos Tavoras ardidos, Com os lacaios da Tôrre um prélio simulando, Terça galhardamente; o apparatoso bando Deixa os olhos da turba em extase embebidos.

Nas janellas do paço é toda a fidalguia: Que jocundo prazer, que risos, que alegria! Espectaculo augusto, e nobre, e singular!

O sexto Affonso applaude: emtanto, maliciosa, Maria de Nemours, sorrindo, a incestuosa! No cunhado, subtil, poisa o lascivo olhar...

NUNCA EU TE LÊSSE, BALLADA!

Suspende a dura sentença Que de teus labios ouvi. E ergue do chão os quebrados Teus negros olhos magoados, Quando me acerco de ti.

Ergueste-os, encantadôra! Mas antes do teu perdão, Attende-me, e ouve, senhora, Com todo o teu coração.

Escuta: «A um rei namorado «Sincera e fiel amante, «Ao morrer, tinha deixado, «De antigo affecto em penhor, «Cinzelada taça de ouro «Do mais subido valor.

«O rei preferia a tudo «Aquella doce lembrança «Que lhe trazia os arômas «De umas fluctuantes cômas, «E de uns labios de veludo, «Que elle beijára em creança.

«Toda a vez que elle bebia «Por esse vaso sagrado, «Uma extatica alegria «Como flôr ideal sorria «No seu turvo olhar cançado.

«Um dia sentiu-se o pobre «Mais triste, velho e abatido, «Abraçou-se commovido «Á taça, o tremulo amante:

«E as lagrimas, uma a uma, «Deslisaram nesse instante «Nos rudes flócos de espuma «Da longa barba fluctuante.

«Naquella hora de agonia, «Chamou seus filhos e herdeiro, «Deu-lhes tudo o que possuia, «Ouro, palacios, riquezas, «O seu castello roqueiro, «E as suas largas devezas.

«Dividiu tudo, contente; «A taça guardou sómente.

«Sentindo fugir-lhe a vida, «Manda o triste convidar «Seus pares, filhos e herdeiro «Para um festim derradeiro «No castello sobranceiro «Ás verdes aguas do mar...

«Em meio da festa, o velho «Ergueu a taça e, sorrindo, «Embebido o olhar no infindo, «Um frouxo canto soltou...

«E mal o canto findára, «No leito da onda amara «A taça de ouro lançou...»

Eram profundos ciumes Os d'esse rei namorado, Que não fosse alguem beber Por esse vaso sagrado, E viesse a conhecer Os cariciosos perfumes Que o tinham embriagado...

Hontem, á tarde, beijando-a De teu labio a viva rosa, Lembrou-me a historia singela D'essa ballada amorosa; E dentro em mim de repente Tam extranha dôr senti, Que num impeto demente De teu labio humido e ardente Com tôrvo aspecto fugi!

Lembrou-me, cabeça louca! Que se eu acaso morresse, Talvez um outro sorvesse Os beijos da tua bôcca...

E no azul indefinido, Ó minha piedosa anémona! Cuidei ouvir o gemido Da moribunda Desdemona...

Ai, desavisado amôr! Perdôa, sombra adorada! Nunca eu te avistasse, flôr! Nunca eu te lêsse, ballada!

A NEGRA

Ao dr. A. A. da Fonseca Pinto

Teus olhos, ó robusta creatura, Ó filha tropical! Relembram os pavôres de uma escura Floresta virginal.

És negra sim, mas que formosos dentes, Que perolas sem par Eu vejo e admiro em rubidos crescentes Se te escuto fallar!

Teu corpo é forte, elastico, nervoso. Que doce a ondulação Do teu andar, que lembra o andar gracioso Das onças do sertão!

As languidas sinhás, gentis, mimosas, Desprezam tua côr, Mas invejam-te as formas gloriosas E o olhar provocadôr.

Mas andas triste, inquieta e distrahida; Foges dos cafesaes, E no escuro das mattas, escondida, Soltas magoados ais...

Nas esteiras, á noite, o corpo estiras E, com ancias sem fim, Levas aos seios nús, beijas e aspiras Um candido jasmim...

Amas a lua que embranquece os mattos, Ó negra jurity! A flôr da laranjeira, e os niveos cáctos E tens horrôr de ti!...

Amas tudo o que lembre o _branco_, o rosto Que viste por teu mal, Um dia que sahias, ao sol pôsto, De um verde taquaral...

MATER DOLOROSA

A Rangel de Lima

Quando se fez ao largo a nave escura Na praia essa mulher ficou chorando, No doloroso aspecto figurando A lacrymosa estatua da amargura.

Dos céus a curva era tranquilla e pura: Das gementes alcyones o bando Via-se ao longe, em circulos, voando Dos mares sobre a cérula planura.

Nas ondas se atufára o sol radioso, E a lua succedêra, astro mavioso, De alvôr banhando os alcantis das fragas...

E aquella pobre mãe, não dando conta Que o sol morrêra, e que o luar desponta, A vista embebe na amplidão das vagas...

AS PRIMEIRAS LAGRIMAS DE EL-REY

A M. Pinheiro Chagas

I

O principe morrêra, e logo os cortezãos, Em prantos derredor do mortuario leito, Erguem a voz em grita aos ceus levando as mãos.

II

El-Rey, João segundo, a fronte sobre o peito, Contempla dos brandões á luz ensanguentada O filho, e a dôr lhe avinca o grave e duro aspeito.

III

E eis que, a um gesto do rei, a turba consternada A pouco e pouco sáe, reina o silencio, apenas Cortado pelo uivar longinquo da nortada.

IV

Sobre o filho curvado, immerso em cruas penas, Aquelle rei sinistro, energico e tigrino, Tinha na frouxa voz modulações serenas.

V

E o filho inerte e mudo! então num desatino Deixou-se El-Rey caír, ao acaso, num escabêllo E quedou-se a pensar no seu atroz destino.

VI

Um enorme, um confuso e bronzeo pesadêlo Caíu-lhe sobre o enfêrmo espirito enluctado, E o suor inundou-lhe as barbas e o cabello.

VII

Talvez que o triste visse, em sonho allucinado, Do duque de Vizeu o espectro vingativo Apontando-lhe, a rir, o Infante inanimado.

VIII

E escutasse a feroz imprecação que altivo No cadafalso, outróra, o duque de Bragança Ás faces lhe cuspiu com gesto convulsivo.

IX

Subito ergue-se o rei, e para o leito avança, E uma lagrima então, embalde reprimida, Das barbas lhe cahiu no rosto da creança...

X

A vez primeira foi que El-Rey chorou em vida.

O CURA SANCTA CRUZ

CONTO DE A. DAUDET

Ao dr. Sousa Martins

O implacavel carlista, o Cura Sancta Cruz, Que em nome do seu rei, e em nome de Jesus, Da Navarra febril leva do sul ao norte O odio, a perseguição, o incendio, o estrago, a morte.

Nessa clara manhã risonha do Natal, Tendo sobre o uniforme a veste clerical, Na montanha, ao ar livre, á luz do sol, diz missa Á guerrilha que o escuta extatica e submissa.

Como um rebanho vil, a um lado, os prisioneiros Ouvem-no, a tiritar, cheios de um medo atroz: Olham-se mutuamente os tôrvos companheiros, E murmuram: «meu Deus, o que será de nós?»

Porque emfim toda a vez que o sanguinario Cura Se volta, e o _oremus_ diz, segundo o ritual, Da sacra vestimenta avultam na brancura De pistolas um jogo e a fórma de um punhal.

Quando afinal chegou o instante, a occasião Em que a missa termina, o Cura, erguendo um braço, Grave traçou no ar e na mudez do espaço O clemente signal da paz e do perdão.

A missa terminára.

O Cura nesse dia Como sentisse n'alma uns raios de alegria, De bondade e de amor, foi-se direito ao bando Dos captivos, e assim fallou circumvagando A vista em derredor: «_Hermanos, viva Dios!_

«Corre ahi que sou máu, fanatico e feroz... «Pois em breve ides ver como se engana, quem «Diz que eu sou o anti-Christo e que abomino o bem. «Como é dia de festa e é dia de Natal, «Dou-vos a liberdade, e não vos quero mal!

«Mas haveis de primeiro, e isto, prompto e sem custo «De joelhos beijar o pavilhão augusto «De El-Rey nosso senhor...» E mandou desfraldar O carlista pendão, branco como o luar...

Todos logo á porfia atiram-se por terra E um grito: Viva El-Rey! echoou de serra em serra.

No emtanto um prisioneiro, um moço imberbe ainda, Firme ficou de pé, e olhava com infinda Expressão de desdem a extranha vilania... Braços postos em cruz, e intrepido sorria.

«E tu?» surprezo disse e transtornado o Cura. --Padre, volveu-lhe o esbelto joven, com brandura, --Mata-me! aqui me tens! rio-me d'esse panno! --Ao teu rei não me curvo... Eu sou republicano...--

O Cura um acêno fez; formou-se um pelotão: «Vamos! inda uma vez, viva D. Carlos!»

--Não!--