Part 1
*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Novembro 2013)
NOCTURNOS
D'esta edição tiraram-se mais _trinta exemplares_ que não entraram no mercado; sendo:
12 exemplares em papel Japão n.^{os} 1 a 12
12 exemplares em papel Whatman n.^{os} 13 a 24
6 exemplares em papel China n.^{os} 25 a 30
GONÇALVES CRESPO
NOCTURNOS
LISBOA _18, Rua Oriental do Passeio_ 1882
_Direitos reservados_
LISBOA--Imprensa Nacional
A MINHA MULHER
MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
_A ti, ó boa e rara e fiel amiga, A mais sancta e a melhor das companheiras, A ti, ó flôr mimosa e alma antiga, --Doce Premio que ris ao meu cançaço-- A ti, ó meu Conselho, estas ligeiras Folhas que ponho a medo em teu regaço._
CONFIDENZA
Perguntaste-me um dia a vida que eu levava. Mimosa e eburnea flôr, Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava... Ouviste, meu amôr?
Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço Ficava-me a sorrir Para os quadros que eu via em luminoso traço Nas télas do porvir.
Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida, Os que me lembram mais: Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida, Os olhos teus leaes!
Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco, Uma aurora de abril: Da larga estrada á beira um campanario branco, O céu profundo anil.
De uma casa á janella uma creança loura, Loura como um trigal: Fiando á luz do sol que leve a sobredoura De aureola ideal.
Toda risos e festa a doce creatura Olhava para mim, E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura! Serei feliz emfim!»
De um outro quadro então recordo-me saudoso, E alongo os olhos meus Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso, Que me cahiu dos céus!
Fica ao longe da vil poeira das cidades E do seu vão rumôr, O palacio esquecido; ás horas das trindades, Entremos nelle, flôr!
Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo, E o oloroso pomar; Subamos essa escada, agora, a furto e a medo, Comecemos a olhar.
É vetusto o salão; em flaccida poltrona Repoisa e scisma alguem: Alguem que nos recorda a imagem da Madona, Grave e sizuda mãe.
D'esse alguem no regaço um anjo se reclina Confiado e feliz, Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca pequenina. Falla, não sei que diz.
É casta essa creança e pura entre as mais puras, Que em sonhos vi jámais; Tem o vago esplendôr das biblicas figuras Dos antigos missaes.
É moça e é menina: olhar nenhum ainda De leve a maculou. Dorme no seio della o amôr, a crença infinda Que Deus lhe confiou.
Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas, Ficamos a pensar Nos mysterios do céu, nas cousas ignoradas Que descobre esse olhar.
Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo, Cego de tanta luz, E que tremulo beije o tépido veludo De seus pésinhos nús!
E não córa, bem vês, a candida creança! Antes meiga sorri, E entre risos me diz, compondo a escura trança: «Pensava agora em ti!
«Porque tardaste tanto, ó poeta? eu te esperava «Na minha solidão! «Vem os segredos vêr que para ti guardava «Dentro do coração!»
Concertáe vossa orchestra, harmonicas espheras, No célico esplendor! Maria, essa creança, ó flôr das primaveras, Eras tu, meu amôr!
O VELHINHO
A J. Cesar Machado
Aquelle que ali vae triste e cançado E mais tremente que os juncaes do brejo. Foi outrora o mais bello e o mais amado Entre os moços do antigo logarejo.
Nas fitas d'esse labio desmaiado Quantas mulheres tremulas de pejo Não sorveram os néctares do beijo Dos trigaes sobre o leito perfumado!
Hoje é velhinho, e falla dos francezes Aos rapazes da eschola, e ás raparigas Que não cançam de ouvil-o... As mais das vezes
Sobre a ponte, sósinho, ouve as cantigas Das que lavam no rio, e o olhar extende Ao sol que ao longe na agonia esplende...
ANIMAL BRAVIO
A M^{elle} Eugenia Vizeu
Preferiras um ramo caprichoso De escolha rara e de um concerto fino, Onde visses o cácto purpurino E os nevados jasmins do Tormentoso.
Em vez do ramo exotico e oloroso, Casto recreio d'esse olhar divino, Acceita, Eugenia, este animal felino, Que o meu braço subjuga vigoroso.
Tive artes de o amansar: eil-o sereno! Acode á minha voz, e ao meu aceno Como um jaguar á voz de um saltimbanco...
Vamos, sonêto! a prumo! ajoelhe, présto! E á doce Eugenia, do sorriso honesto, A fimbria oscule do vestido branco!
AD AGROS
Não tardes, flôr; a aldeia nos espera, Chovem arômas dos folhudos ramos: Suspensa do meu braço, eia! partamos! Olha-nos Deus da crystallina esphera.
Nas manhãs da passada primavera Com que delícia ethérea nos amámos! Iremos vêr os nomes que traçámos No rude tronco em que se enlaça a hera.
Não tardes, meu amôr, sei de um caminho, Que sobe a encosta, e vae direito ao moinho, Em cujas vélas bate o vento em cheio...
Seguir-nos-hão as aves namoradas, Que ao som das tuas infantis risadas Modularão seu tremulo gorgeio...
A NUVEM
De Th. Gauthier
As roupas deslaçando, entra no banho A languida sultana enamorada: Livre do pente, os hombros nús lhe beija A longa e fina trança desatada.
Atraz dos vidros o sultão a espreita; E comsigo murmura: «como é bella! «Ninguem a vê, ninguem! o negro eunucho «Do harem na tôrre solitario vela!»
--Eu a vejo, uma nuvem lhe responde Do sereno e alto azul illuminado: --Vejo-lhe os seios nús, vejo-lhe o dorso, --E o seu corpo de perolas colmado--
Fez-se pallido Ahmehd bem como a lua, E erguendo o seu kandjar de folha rara, Desce, e apunhala a nua favorita... Quanto á nuvem... no azul se dissipára...
O JURAMENTO DO ARABE
A Teixeira de Queiroz
Baçús, mulher de Ali, pastôra de camêlas, Viu de noute, ao fulgor das rútilas estrellas, Wail, chefe minaz de barbara pujança, Matar-lhe um animal. Baçús jurou vingança; Corre, célere vôa, entra na tenda e conta A um hospede de Ali a grave e inulta affronta.
«Baçús, disse tranquillo o hospede gentil, Vingar-te-hei com meu braço, eu matarei Wail.»
Disse e cumpriu.
Foi esta a causa verdadeira Da guerra pertinaz, horrivel, carniceira Que as tribus dividiu. Na lucta fratricida Omar, filho de Amrú, perdêra o alento e a vida.
Amrú que lanças mil aos rudes prélios leva, E que em sangue inimigo, irado, os odios céva, Incansavel procura, e é sempre embalde, o vil Matador de seu filho, o trêdo Muhalhil.
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro, Recem-colhido em campo, o indomito guerreiro Fallou severo assim: «Escravo, attende, e escuta: «Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta, «Em que vive o traidôr Muhalhil, dize a verdade; «Dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!»
E o moço perguntou: «É por Allah que o juras?» --Juro, o chefe tornou-- «Sou o homem que procuras! «Muhalhil é o meu nome, eu fui que espedacei «A lança de teu filho, e aos pés o subjuguei!»
E intrépido fitava o attonito inimigo.
Amrú volveu:--És livre, Allah seja comtigo!
NUM LEQUE
Amar e ser amado, que ventura! Não amar, sendo amado, é um triste horrôr: Mas na vida ha uma noite mais escura, É amar alguem que não nos tenha amôr!
OLHOS DE JUDIA
No transparente olhar das virgens da Allemanha Nada um fluido subtil tam pleno de scismar, Que a gente cuida ouvir uma sonata extranha Num castello do Rheno em noites de luar.
Flôr do Guadalquivir, gloria da ardente Hespanha, Se dardejas, sorrindo, um teu lascivo olhar, O crespo, o encapellado e procelloso mar Dos desejos febris o coração nos banha.
Nos teus olhos porém venusta semi-deia, Como nas mutações de um rapido scenario, Desdobram-se ante mim paizagens da Judeia...
Vejo o louro Jesus vagueando solitario, Vejo-o no Horto a chorar, ouço-lhe a voz na Ceia E escuto-lhe o gemido extremo no Calvario.
H. HEINE
NUMEROS DO INTERMEZZO
A M^{elle} Louìse de Almeida e Albuquerque
I
Rosas e lirios, pombas, sol radiante, Tudo isso outrora, no fugaz passado, Eu adorei constante.
E d'esse amôr, que tive immaculado Por lirios e aves e subtis perfumes, Nem já me lembro, seductôra amante, Fonte pura de amôr, que em ti resumes A rosa, o lirio, a pomba e o sol radiante!
II
De um lirio branco no mimoso calix Se eu a fosse depôr A vaga essencia de meu peito, em breve Escutáras no calice de neve Uma canção de amôr.
Canção divina relembrando as ancias, E o languido tremôr Daquelle beijo, em noite mysteriosa, Que me deram teus labios côr de rosa, Meu doce e casto amôr!
III
Á luz viva do claro sol radioso O lóto inclina a fronte esmaecida, E espera a noite pensativo e ancioso.
Rompe a lua, e derrama a luz querida Na corolla mimosa Da pobre flôr que se abre enlanguecida. Pobre flôr amorosa!
Olhando o céu e a lua até parece Que, em desmaios de amôr, Treme, palpita, córa e desfallece
A scismadora e enamorada flôr!
IV
Sobre os olhos formosos Da minha doce amada Rimei canções que os astros decoraram; E embalsamei-lhe a bôcca perfumada Em tercêtos graciosos. Innumeras estancias decantaram Seu rôsto peregrino Que os jaspeados lirios escurece. Que sonêto divino Eu rendilhára com subtis lavôres Sobre o seu coração... se ella o tivesse!
V
Pozeram-te no rôsto o aéreo véu nupcial. Bem sei que te perdi, mas não te quero mal.
Brilham do teu collar as pedras luminosas, Mas no teu coração que noites luctuosas!
Em sonhos eu desci, ó misera mulher, Ás sombras da tua alma, e vi-te o padecer...
Bem sei que te perdi, ó minha doce amada, Mas não te quero mal, és muito desgraçada
VI
Sei-o; a tua vida é sem ventura, É-nos commum esta funérea sorte. Cáe sobre nós a mesma noite escura, E isto não finda sem que chegue a morte.
Se vejo nesse olhar um rir travêsso, E em teu labio a insolencia costumada, E o orgulho inflar teu coração... padeço, E murmuro: «és como eu, tam desgraçada!»
Bem sei que ris, mas o teu labio treme: Nos teus olhos azues o pranto brilha: Tens orgulho, e essa voz suspira e geme... Como nós somos desgraçados, filha!
VII
Se as flôres do balsedo Podessem ver meu peito alanceado, Como allivio ao meu aspero degredo, Mandar-me-hiam, das moitas do balsedo, De seus prantos o balsamo sagrado.
Se os rouxinoes da floresta Soubessem quanta dôr me rasga o seio, Para espancar a minha noite mésta, Mandar-me-hiam, das sombras da floresta, O seu mais terno e encantadôr gorgeio.
Se as estrellas do espaço Soubessem tudo quanto soffro em vida, Para embalar d'esta alma o vil cançaço, Mandar-me-hiam, dos concavos do espaço, Uma doce palavra condoída.
E essa que sabe tudo, O inferno e o horror da minha mocidade, É a dona das tranças de veludo, E das unhas rosadas... sabe tudo E apunhála-me a vida sem piedade!
VIII
Não me sabes dizer, ó minha amada, O motivo, a razão Porque pendem a face desmaiada As rosas para o chão?
Não me sabes dizer porque, no meio Do vasto prado em flôr, Das violetas cáe no roxo seio Um véu de lucto e dôr?
Diz-me porque ouço a voz das cotovias Hoje lugubre assim? E porque exhalam mortes e agonias As urnas do jasmim?
Por que motivo o sol tam claro e puro De crepes se vestiu? Porque um sinistro pezadelo escuro Sobre a terra cahiu?
Bem sei eu porque vejo tudo triste Sem luz e sem calôr... É que tu, pomba branca, me fugiste Meu amôr, meu amôr!
IX
Disseram-te de mim feios horrôres, De imaginarias culpas me crivaram, E sobre as minhas lastimaveis dôres Um negro véu lançaram!
Distenderam os labios sacudindo Com grave e serio gesto a fronte, e ao cabo... (E acreditaste-os tu, meu anjo lindo!) Chamaram-me o Diabo!
O que ha de mais escuro e de mais feio Na minha vida, ignoram-no os sandeus, Tam occulto este amôr vive em meu seio, Ó luz dos olhos meus!
X
Naquella manhã ditosa O sol mandava-nos beijos; Do rouxinol os solfejos Suspiravam na amplidão.
Se me lembro, ai! se me lembro D'esse amplexo demorado, Com que tu, meu lirio amado, Uniste-me ao coração!
Grasnava o côrvo agoirento, As sêccas folhas cahiam, E uns tristes raios desciam Da plumbea curva dos céus.
Se me lembro, ai! se me lembro Da fria e grave mesura Que, naquella tarde escura, Fizeste ao dizer-me--adeus!
XI
Fôste fiel, no caminho Doloroso que eu seguia, Déste-me alentos, carinho, Meu consôlo fôste, e guia.
Déste-me tudo, ó consorte, Roupa branca e até dinheiro! E ao partir para o extrangeiro Compraste-me o passaporte!
Deus t'o pague, meu amôr! E um viver te dê tranquillo! Mas que te não faça aquillo Que tu me fizeste, flôr!
XII
Emquanto eu andava viajando, a minha Noiva gentil, o meu thesouro amado, Julgando que eu tardava e que não vinha, Fez á pressa o vestido de noivado, E um dia, ao pé do altar, entrega anciosa A um fôfo peralvilho a mão de esposa.
Nada no mundo a minha amada eguala; Nem eu sei a que a possa comparar! Que doce é o aroma que o seu labio exhala! Que gesto lindo! e que formoso olhar! Suspende a queixa, coração trahido, Deixaste o céu, do céu fôste banido!
XIII
Quando morreres, filha, ao teu jazigo Descerei taciturno e allucinado, E abraçando esse corpo delicado, No frio marmor dormirei comtigo.
E tu muda, e tu fria, e tu gelada! E eu nos meus braços a apertar-te ainda! E nas sombras daquella noite infinda Clamo, estremeço e morro, alma adorada!
Os mortos, alta noute, pouco e pouco Erguer-se-hão, ao luar, rindo e dançando; E eu ficarei na sombra, ó sonho louco! No teu seio de jaspe repoisando.
E quando a hora chegue em que as trombêtas Do Juizo Final se ouvirem todas, Não surgirás, inveja das violetas, Do escuro leito das eternas bôdas!
XIV
Do Norte sobre um monte, Alto frio e gelado, Um pinheiro isolado Ergue entre o gêlo a merencoria fronte.
Todo tremulo, o misero deseja Ser a esbelta palmeira viridente Que em terra adusta odeia a luz ardente Que sobre ella o implacavel sol dardeja.
XV
Das minhas penas fiz canções aladas De alegre geito e jovial feição. Vi-as partir em doidas revoadas, E vi-as procurar teu coração.
Partem alegres, voltam lacrymosas, Perdido o fresco riso ingenuo e lêdo, Mas do que viram guardam, silenciosas, O mais profundo e lugubre segredo.
XVI
Eu não posso esquecer, perdão, minha senhora, --Estes laços de amôr custam a desatar-- Eu não posso esquecer, ó minha doce aurora, Que subjuguei teu corpo e essa alma singular...
Teu corpo, ai! o teu corpo esbelto, moço e branco, Já foi meu, já foi meu... mas neste instante, flôr, Da tua alma prescindo, e escuta, serei franco, Basta-me a que possuo, ah! basta, meu amôr!
Se um dia succeder, que esse teu seio trema De novo juncto ao meu, hei-de insuflar-te, doudo, Metade da minha alma, e então, gloria suprema! De ambos nós, meu amôr, faremos um só todo...
XVII
É domingo: o burguez deixa os asphaltos, Dando o braço á burgueza; Procura o campo, e, ao vêl-o, exclama aos saltos: «Ó filha, que lindeza!»
E pasma do verdôr febril, romantico, Da múrmura floresta; E a sua longa orelha absorve o cantico Da passarada em festa.
Eu que não saio, escondo a gelosia Com negros cortinados, E recebo a visita, em pleno dia, Dos espectros amados.
E aquelle Amôr que eu vi morrer outrora. No meu quarto apparece! Senta-se ao pé de mim, beija-me e chora, E treme e desfallece!
XVIII
Rompia a manhã, rompia Alegre como um trinado, E eu ia triste e calado, No meio d'essa alegria, Por entre as flôres do prado... Rompia a manhã, rompia...
Vendo-me, as flôres do prado Mais as rosas do silvedo Cochicharam em segredo... E erguendo os olhos, a medo, Num tom de voz repassado Da mais branda languidez: «Como elle vae irritado, «Os olhos fitos no chão! «Perdôa por esta vez, «Não ralhes com ella, não?»
XIX
Na tua face ardente e avelludada Encandeia-se a luz do quente Estio, Mas no teu coração, ó minha amada, Habita o Inverno enregelado e frio.
Mas quem assim te vê bella e formosa, Verá mais tarde o Inverno tôrvo e feio Nessa tua gentil face mimosa, E o rubro Estio no teu branco seio!
XX
No momento do _adeus_ succede que os amantes Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes. Força, é força partir; a mão prende-se á mão, E uma infinda tristesa inunda o coração.
Para nós, meu amôr, nessa hora de agonia Não houve o padecer que as almas excrucia: Foi grave o nosso _adeus_ e frio, e só agora É que a Dôr nos subjuga, e a Angustia nos devora.
XXI
Sonhei: de novo suspirava o vento Das tilias sob a cupula odorante; E como outrora ouvia o juramento Do teu amôr constante.
Que protestos de amôr nesse momento! Mas na febre dos beijos que me deste, Como para gravar teu juramento Em meus dedos mordeste!
Dona do riso alegre, ó meu tormento! Dona de olhos azues, ó minha amada! Já me bastava o doce juramento, Foi de mais a dentada!
XXII
Chorei: sonhava e era comtigo, estavas Morta num cemiterio, fria, fria... E, ao despertar, senti que o pranto, em lavas, De meus cançados olhos escorria.
Chorei: sonhava e era comtigo, rosa; Havias-me, sem dó, abandonado: E, ao despertar da noite tormentosa, Tinha o rôsto de lagrimas banhado.
Chorei: sonhava, e era comtigo, ó linda! Dizias-me, a sorrir, «como eu te adoro!» Desperto, e logo numa angustia infinda, Eis-me a chorar de novo e ainda choro!
XXIII
Batido do torvelinho O bosque palpita ao açoite Do vento outomnal; é noite. Monto a cavallo e metto-me a caminho.
E este inquieto pensamento, E esta phantasia errante Levaram-me nesse instante Ao teu virgineo e candido aposento.
Os cães ladram; nas sonoras Escadas assoma gente, E eu no marmore luzente Faço tinir as rútilas esporas.
No teu quarto da baunilha Vôam cálidos arômas; Tu dormes, soltas as cômas, E eu nos teus braços cáio, minha filha!
Soluça o vento magoado: Diz um carvalho altaneiro: «Cavalleiro, cavalleiro, «Suspende o teu sonhar allucinado!»
XXIV
Eu enterro as canções de amôr e o fel amargo Do meu triste sonhar: Quero um caixão profundo, immenso, vasto e largo; Depressa, ide-o buscar!
Um caixão formidando, um féretro-portento, Que sobreexceda e vença O pêzo sobrehumano e o enorme comprimento Da ponte de Mayença.
Trazei-m'o sem demora; eu hei-de enchêl-o em breve; Vereis a promptidão. De Heidelberg o tonel será pequeno e leve Ao pé d'esse caixão.
Doze gigantes quero, o aspecto feio e rudo, E de um vigôr sem conta, Que me façam lembrar Christovam, o membrudo, Que em Colonia se aponta.
Gigantes, balouçae o féretro luctuoso! Vamos! agora, ao mar! Cova maior existe? Abysmo assim grandioso Difficil é de achar.
Sabeis porque eu desejo um féretro assim largo, De vastas dimensões? É que enterro, infeliz, o amôr, o fel amargo Das minhas illusões.
O MINUÊTE
Ao dr. Thomaz de Carvalho
Espaçoso é o salão: jarras a cada canto; Admira-se o lavôr do tecto de páu sancto.
Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias: Um enorme sophá: largas tapeçarias.
O purpureo tapete aos olhos nos revela Entre as garras de um tigre anciosa uma gazella.
Retratos em redor: olhemos o primeiro: No Tóro as mãos de Affonso o armaram cavalleiro.
Era Arcebispo aquelle: esta foi açafata... Que frescura sensual nos labios de escarlata!
Olhos revendo o azul que sobre a Italia assoma: Em finos caracóes, a loura e ondada côma:
Collo robusto e nú: cabeça triumphante: Consta que certo rei... passemos adeante!
Este, que vês, morreu num africano areal Por vingança cruel do aspero Pombal.
D'esse olhar na expressão infinda e inenarravel Desabrocha uma dôr profunda e inconsolavel.
Defronte, uma donzella, o rosto meigo e afflicto, Num extasis adora o pallido proscripto.
O teu sonho nupcial, franzina morgadinha, Tam cedo se desfez, ó misera e mesquinha!
No burel escondeste o viço e a formusura, E desmaiaste, flôr, no chão de uma clausura!...
Repara nos desdens do fôfo conselheiro, Que sorridente aspira a flôr de um jasmineiro!
Em canones doutor: no Paço foi bemquisto: Orna-lhe o peito a cruz de um habito de Christo.
Esse outro combatendo ás portas de Bayona, Como um bravo, alcançou a rútila dragôna.
Vibra flammas do olhar; cabeça erecta e audaz; Illumina-lhe o rôsto a gloria de um gilvaz.
Assistímos, ao vêl-o, ás pugnas carniceiras, E ouvimos o clangôr das musicas guerreiras...
No antiquissimo espelho, á sombra das cortinas, Reflecte-se o primôr de argenteas serpentinas.
Sob o espelho se aninha um cravo marchetado, Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
Ao lado um cofre encerra, em amoravel ninho, Antiga partitura em velho pergaminho.
Uma noite extendi a musica na estante, E o cravo suspirou... naquelle mesmo instante
Da eburnea pallidez doentia do teclado Manso e manso evolou-se o arôma do passado.
E vi descer do quadro a languida açafata Que, ao discreto pallôr das lampadas de prata,
A fimbria alevantando azul do seu vestido O rôsto acerejado, o gesto commovido,
A sorrir, deslisou graciosa no tapête, Dançando airosamente o airoso minuête...
O COVEIRO
A Alberto Braga
Elle entrou cabisbaixo e silencioso Na immunda tasca, e foi sentar-se a um canto; Deram-lhe vinho, recusou, o espanto Cresceu no olhar do taberneiro oleoso.
Elle era o mais antigo e o mais ruidoso Dos freguezes da casa: ao obsceno canto Ninguem prestava mais lascivo encanto Ao som magoado de um violão choroso.
Mas o velho sentára-se distante Da alegre turba, a vista lacrymante Mergulhada nas chammas do brazido...
Disse um da roda: «espanta-me o coveiro!» --Morreu-lhe ha pouco a filha...--distrahido Volveu da bisca um contumaz parceiro.
ADEUS!
Uma vez, numa camara elegante, De um contador no marmore de rosa, Entre os mil nadas feminis que exhalam Uns aromas subtis que nos embalam, Vi uma concha pallida e graciosa.
Sentira eu nella um som confuso e triste, Como o dos sinos em remota aldeia; Pobre concha! morria de saudade Daquella vaga e triste immensidade Do mar que chora na deserta areia.
Olha, querida, como nessa concha, Anda chorando em mim continuamente Essa timida voz que tu soltaste, Essa palavra ADEUS que murmuraste Aos meus ouvidos languida e tremente!
CAMONEANA
I
NA EGREJA DAS CHAGAS
Ao dr. A. A. de Carvalho Monteiro
Proxima vinha a nobre Catharina Da porta principal da egreja, quando Seu olhar encontrou suave e brando O olhar de um moço de presença fina.
E, ao fulgôr d'esse olhar ardente, inclina A dama o rôsto, timida, córando... Arfa-lhe o niveo seio, palpitando, Em doida e extranha commoção divina.
Camões, que outro não era o moço, ardido, Num gesto de galan desvanecido, «Quem vos pudéra merecer!» murmura.
E a dama, ao ouvil-o, languida sorria, Pois que em todos os tempos a ouzadia Ao amôr nunca trouxe desventura.
II
A LEITURA DOS LUSIADAS
A Vicente Pindella